Biografia / Bibliografia

Maria Luiza Damasceno

Maria Luiza Damasceno de Araújo nasceu em Manaus, no dia 25 de agosto de 1948. Formou-se em Arqueologia nas Faculdades Integradas Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Fez pós-graduação em Antropologia no Museu Nacional da UFRJ. Publicou em Manaus, em 1992, o livro de contos O Eterno vigia dos meus, sua obra de estréia.

 

 

Textos Selecionados:

A Torta de maçã

Seria apenas uma questão de tempo. O fato é que Lena não pudera negar a verdade. Agora, ela saberia esperar que o tempo cicatrizasse a ferida e que o sentimento que sempre os unira falasse mais forte. Agora, ele estava muito machucado e ela também. Sempre tivera medo que um dia esse momento pudesse acontecer.
Realmente, fora grave o erro que cometera há alguns anos? Muitas vezes teve vontade de falar sobre o passado, porém, sempre faltou-lhe coragem. Entre contar e não contar, escolheu o caminho mais fácil: escondeu a verdade.
Lembrava como se fosse hoje. Quando o conheceu achou-o muito frágil. Contudo, era o que sempre sonhara. E veio quando não mais acreditava que isso pudesse acontecer. Construiu, assim, uma nova mulher, vivendo a máxima: “por trás de um grande homem sempre existe uma grande mulher”.
– Onde ele andaria nesse momento?
Seus sentidos, extremamente aguçados pela dor, perceberam que ele se encontrava perto. Correu para o quarto e ali estava uma pessoa desconhecida, embora o exterior se mostrasse perfeitamente identificado. O corpo era dele, mas o seu espírito não mais se encontrava perceptível, pelo menos para ela. O silêncio, entre os dois, havia se instalado para sempre.
Lena compreendeu, de repente, que o tempo jamais consertaria o que havia quebrado entre os dois. E, surgindo em meio à angústia e à certeza da perda irreparável, a intuição da grande fragilidade masculina: durante todos esses anos ela havia sido para ele apenas uma base, uma espécie de âncora sem sentimentos, uma escada ou plataforma para os grandes vôos dele. Ele jamais tentara descobrir o que havia por trás de tanta dedicação, carinho, amizade e compreensão. Dormindo juntos na mesma cama, ele jamais havia percebido as noites de insônia, a vontade de crescer e a falta de reciprocidade quanto aos seus sentimentos. Ele se tomara uma pessoa incapaz de saber que ela havia resgatado o “seu erro” através de toda uma vida dedicada aos sonhos e ideais dele – que não eram tão elevados assim como pensava. Quem era ele afinal? Um homem, como tantos outros, perseguindo o sucesso social. Aquela atitude dele para com ela não era mais que isso: satisfação à sociedade. Ele não poderia conviver com alguém que havia lhe escondido a verdade. E teria sido autêntico e perfeito durante toda a sua vida? Lena jamais lhe cobrara qualquer atitude.
Não havia mais jeito. Ela teria que assumir sua própria vida. Sabia que seria difícil, que a esperavam grandes sofrimentos, às vezes quase intransponíveis, e que não poderia mais, sob hipótese alguma, contar com a colaboração dele, principalmente a moral. Mas, sobretudo, sabia que estava preparada para enfrentar a solidão, pois sempre a sentira quando estava por ele acompanhada. A partir de agora, ela não compactuaria mais com a farsa do grande homem inteligente e imbatível a ditar normas e regras para a vida dela:
“– Lena, amanhã eu quero sair com aquela camisa azul – hoje eu não venho para o jantar – ontem eu não gostei como se comportou com Fulano – não quero que você vista mais aquele vestido – você gasta muito dinheiro com besteiras – não adianta explicar que você não vai entender – não quero que você converse mais com Fulana...”
Lena agora começava a sentir alívio pela verdade descoberta. Nunca mais o cansaço escondido, o medo, a impressão de incompetência. Quando ele a procurasse novamente – Lena tinha plena certeza que se tornara importante como base de sustentação para as suas fraquezas –, seria muito tarde. A revolta se instalara insidiosamente porque era muito injusta a situação dela (mulher) frente à dele (homem): quando começaram a vida em comum, não houve necessidade de conhecer o passado dele. Ela não teve esse direito até porque jamais valorizara tal fato. Aos poucos, entretanto, foi descobrindo que muitas pessoas passaram pela vida dele, algumas até muito importantes. Esse fato, longe de o diminuir, era usado como trunfo. Ela, porém, não tivera o direito – o momento presente comprovava – de possuir uma vida própria, um passado somente dela.
Lena descobrira, finalmente, que o mundo evoluíra tecnologicamente, que o progresso se instalara em muitos setores da vida, mas que os valores antigos continuavam prevalecendo sob uma capa muito tênue de modernidade. Havia dois pesos e duas medidas: para os homens, a liberação total; para as mulheres, a contenção, os trabalhos domésticos, a submissão e os serviços subalternos. Descobrira, também, que somente as mulheres independentes emocionalmente – com raríssimas exceções – haviam conseguido seguir uma carreira profissional. Todas as que haviam casado cedo dedicavam-se a tal ponto aos maridos que, mesmo trabalhando fora de casa, não conseguiam ascender plenamente ao profissionalismo. Estudar tornava-se um sonho remoto ou quase impossível. Enfim, a vida da mulher casada tornava-se uma eterna perda: da identidade, da juventude, do senso de humor, das emoções... E o mais importante não seria que a emoção pudesse sobreviver? Mas como buscar emoções nos árduos compromissos de lavar e passar roupas; de cozinhar e lavar louças;de arrumar eternamente a casa; de aturar o tédio cada vez mais crescente?
Lena ouviu, perfeitamente, quando a porta da frente bateu, fechando-se sobre a sua vida de sentimentos unilaterais. Não poderia haver retorno – esse momento passara. Lembrou-se, de repente – ela que não gostava de doces – que havia torta de maçã na geladeira.

(O Eterno vigia dos meus)

O Eterno vigia dos meus
Para as minhas irmãs Ivana, Dalvinha e Lela

De onde me encontro, sentado, vejo o terreno da frente de casa. Um jambeiro e, adiante, o muro branco, o grande e alto muro branco, no qual tento projetar toda a minha vida como numa imensa tela de cinema. É noite agora. E a noite significa o silêncio e a solidão quase insuportáveis. Maria já deve estar dormindo. Os outros também. Não ouço mais nenhum ruído. A casa viaja no sonho coletivo dos que dormem. E eu sou o eterno vigia dos meus.
A porta dos meus sonhos acabou de ser trancada, literalmente. Através dessa porta, da casa ao lado, existem duas pessoas que nem sequer desconfiam dos sentimentos despertos por elas, que também não sabem que as elegi como minhas companheiras. Aprendi a amá-las profundamente porque são ativas durante a noite e, por que não dizer, são lindíssimas criaturas. Embora difiram fisicamente uma da outra, ambas possuem o olhar triste, profundo e inteligente de quem já conhece o lado amargo da vida? Separação de pessoas queridas? Morte em família? Decepções, medos... impossível detectar, embora seus olhares pareçam me falar de tudo isso. Gosto mais ainda das duas porque são muito discretas. Devido à posição de nossas casas, torna-se impossível que deixem de me ver, aqui, sentado. Quando saem à porta, estou exatamente cara a cara com uma delas. Entretanto, se nossos olhares se cruzam jamais se poderá saber. Existe a noite entre nós, a mesma noite que nos une. Às vezes, como hoje, ainda tenho esperanças que, de repente, a porta possa se abrir e uma das estrelas (chamo-as assim porque brilham para mim à noite) possa necessitar realizar qualquer trabalho. Ah! ainda não falei que essa área da casa ao lado é a área de serviço. Anteriormente, jamais havia prestado atenção ao trabalho realizado pelas mulheres, de maneira geral. Digo, trabalhos domésticos. É impressionante a grande variedade que existe. Ora lavam-se roupas, ora varre-se a casa, ora cozinham-se alimentos, passa-se pano, lavam-se louças, enfim... atividades que nunca terminam. Penso que deve ser insuportável a rotina eterna desse tipo de trabalho. Por que será que, principalmente, são as mulheres que se submetem a esse tipo de serviço? Claro que é um tipo inferior porque nenhuma glória traz a quem o realiza. Mas, e se as mulheres não o realizassem? Como a sociedade poderia sobreviver? Nossa! Já estou indo longe demais. A verdade é que agora, aqui, sentado, bendigo todos os trabalhos domésticos do mundo, todas as áreas de serviço do mundo, todas as mulheres... (espera aí... a porta está sendo destrancada... isso! uma das estrelas aparece, acende um cigarro, lança um olhar para mim? Tudo indica que veio apenas me ver.) Mas tudo foi muito rápido. Coisa de um minuto apenas, porém, ela nem imagina o quanto essa atitude significou para o meu desespero. Pronto! A linha do meu pensamento anterior foi completamente rompida. Volto para a minha miserável condição. Olho o muro branco. O intransponível muro branco. E nesse momento, aqui, sentado, nada me aparece em cores. Fecho os olhos e o que vejo? O muro, o eterno muro branco, paisagem noturna de toda a minha vida.

(Ibidem)

 
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