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A
Torta de maçã
Seria
apenas uma questão de tempo. O fato é que Lena não
pudera negar a verdade. Agora, ela saberia esperar que o tempo
cicatrizasse a ferida e que o sentimento que sempre os unira falasse
mais forte. Agora, ele estava muito machucado e ela também.
Sempre tivera medo que um dia esse momento pudesse acontecer.
Realmente, fora grave o erro que cometera há alguns anos?
Muitas vezes teve vontade de falar sobre o passado, porém,
sempre faltou-lhe coragem. Entre contar e não contar, escolheu
o caminho mais fácil: escondeu a verdade.
Lembrava como se fosse hoje. Quando o conheceu achou-o muito frágil.
Contudo, era o que sempre sonhara. E veio quando não mais
acreditava que isso pudesse acontecer. Construiu, assim, uma nova
mulher, vivendo a máxima: “por trás de um
grande homem sempre existe uma grande mulher”.
– Onde ele andaria nesse momento?
Seus sentidos, extremamente aguçados pela dor, perceberam
que ele se encontrava perto. Correu para o quarto e ali estava
uma pessoa desconhecida, embora o exterior se mostrasse perfeitamente
identificado. O corpo era dele, mas o seu espírito não
mais se encontrava perceptível, pelo menos para ela. O
silêncio, entre os dois, havia se instalado para sempre.
Lena compreendeu, de repente, que o tempo jamais consertaria o
que havia quebrado entre os dois. E, surgindo em meio à
angústia e à certeza da perda irreparável,
a intuição da grande fragilidade masculina: durante
todos esses anos ela havia sido para ele apenas uma base, uma
espécie de âncora sem sentimentos, uma escada ou
plataforma para os grandes vôos dele. Ele jamais tentara
descobrir o que havia por trás de tanta dedicação,
carinho, amizade e compreensão. Dormindo juntos na mesma
cama, ele jamais havia percebido as noites de insônia, a
vontade de crescer e a falta de reciprocidade quanto aos seus
sentimentos. Ele se tomara uma pessoa incapaz de saber que ela
havia resgatado o “seu erro” através de toda
uma vida dedicada aos sonhos e ideais dele – que não
eram tão elevados assim como pensava. Quem era ele afinal?
Um homem, como tantos outros, perseguindo o sucesso social. Aquela
atitude dele para com ela não era mais que isso: satisfação
à sociedade. Ele não poderia conviver com alguém
que havia lhe escondido a verdade. E teria sido autêntico
e perfeito durante toda a sua vida? Lena jamais lhe cobrara qualquer
atitude.
Não havia mais jeito. Ela teria que assumir sua própria
vida. Sabia que seria difícil, que a esperavam grandes
sofrimentos, às vezes quase intransponíveis, e que
não poderia mais, sob hipótese alguma, contar com
a colaboração dele, principalmente a moral. Mas,
sobretudo, sabia que estava preparada para enfrentar a solidão,
pois sempre a sentira quando estava por ele acompanhada. A partir
de agora, ela não compactuaria mais com a farsa do grande
homem inteligente e imbatível a ditar normas e regras para
a vida dela:
“– Lena, amanhã eu quero sair com aquela camisa
azul – hoje eu não venho para o jantar – ontem
eu não gostei como se comportou com Fulano – não
quero que você vista mais aquele vestido – você
gasta muito dinheiro com besteiras – não adianta
explicar que você não vai entender – não
quero que você converse mais com Fulana...”
Lena agora começava a sentir alívio pela verdade
descoberta. Nunca mais o cansaço escondido, o medo, a impressão
de incompetência. Quando ele a procurasse novamente –
Lena tinha plena certeza que se tornara importante como base de
sustentação para as suas fraquezas –, seria
muito tarde. A revolta se instalara insidiosamente porque era
muito injusta a situação dela (mulher) frente à
dele (homem): quando começaram a vida em comum, não
houve necessidade de conhecer o passado dele. Ela não teve
esse direito até porque jamais valorizara tal fato. Aos
poucos, entretanto, foi descobrindo que muitas pessoas passaram
pela vida dele, algumas até muito importantes. Esse fato,
longe de o diminuir, era usado como trunfo. Ela, porém,
não tivera o direito – o momento presente comprovava
– de possuir uma vida própria, um passado somente
dela.
Lena descobrira, finalmente, que o mundo evoluíra tecnologicamente,
que o progresso se instalara em muitos setores da vida, mas que
os valores antigos continuavam prevalecendo sob uma capa muito
tênue de modernidade. Havia dois pesos e duas medidas: para
os homens, a liberação total; para as mulheres,
a contenção, os trabalhos domésticos, a submissão
e os serviços subalternos. Descobrira, também, que
somente as mulheres independentes emocionalmente – com raríssimas
exceções – haviam conseguido seguir uma carreira
profissional. Todas as que haviam casado cedo dedicavam-se a tal
ponto aos maridos que, mesmo trabalhando fora de casa, não
conseguiam ascender plenamente ao profissionalismo. Estudar tornava-se
um sonho remoto ou quase impossível. Enfim, a vida da mulher
casada tornava-se uma eterna perda: da identidade, da juventude,
do senso de humor, das emoções... E o mais importante
não seria que a emoção pudesse sobreviver?
Mas como buscar emoções nos árduos compromissos
de lavar e passar roupas; de cozinhar e lavar louças;de
arrumar eternamente a casa; de aturar o tédio cada vez
mais crescente?
Lena ouviu, perfeitamente, quando a porta da frente bateu, fechando-se
sobre a sua vida de sentimentos unilaterais. Não poderia
haver retorno – esse momento passara. Lembrou-se, de repente
– ela que não gostava de doces – que havia
torta de maçã na geladeira.
(O
Eterno vigia dos meus)
O
Eterno vigia dos meus
Para as minhas irmãs Ivana, Dalvinha e Lela
De
onde me encontro, sentado, vejo o terreno da frente de casa. Um
jambeiro e, adiante, o muro branco, o grande e alto muro branco,
no qual tento projetar toda a minha vida como numa imensa tela
de cinema. É noite agora. E a noite significa o silêncio
e a solidão quase insuportáveis. Maria já
deve estar dormindo. Os outros também. Não ouço
mais nenhum ruído. A casa viaja no sonho coletivo dos que
dormem. E eu sou o eterno vigia dos meus.
A porta dos meus sonhos acabou de ser trancada, literalmente.
Através dessa porta, da casa ao lado, existem duas pessoas
que nem sequer desconfiam dos sentimentos despertos por elas,
que também não sabem que as elegi como minhas companheiras.
Aprendi a amá-las profundamente porque são ativas
durante a noite e, por que não dizer, são lindíssimas
criaturas. Embora difiram fisicamente uma da outra, ambas possuem
o olhar triste, profundo e inteligente de quem já conhece
o lado amargo da vida? Separação de pessoas queridas?
Morte em família? Decepções, medos... impossível
detectar, embora seus olhares pareçam me falar de tudo
isso. Gosto mais ainda das duas porque são muito discretas.
Devido à posição de nossas casas, torna-se
impossível que deixem de me ver, aqui, sentado. Quando
saem à porta, estou exatamente cara a cara com uma delas.
Entretanto, se nossos olhares se cruzam jamais se poderá
saber. Existe a noite entre nós, a mesma noite que nos
une. Às vezes, como hoje, ainda tenho esperanças
que, de repente, a porta possa se abrir e uma das estrelas (chamo-as
assim porque brilham para mim à noite) possa necessitar
realizar qualquer trabalho. Ah! ainda não falei que essa
área da casa ao lado é a área de serviço.
Anteriormente, jamais havia prestado atenção ao
trabalho realizado pelas mulheres, de maneira geral. Digo, trabalhos
domésticos. É impressionante a grande variedade
que existe. Ora lavam-se roupas, ora varre-se a casa, ora cozinham-se
alimentos, passa-se pano, lavam-se louças, enfim... atividades
que nunca terminam. Penso que deve ser insuportável a rotina
eterna desse tipo de trabalho. Por que será que, principalmente,
são as mulheres que se submetem a esse tipo de serviço?
Claro que é um tipo inferior porque nenhuma glória
traz a quem o realiza. Mas, e se as mulheres não o realizassem?
Como a sociedade poderia sobreviver? Nossa! Já estou indo
longe demais. A verdade é que agora, aqui, sentado, bendigo
todos os trabalhos domésticos do mundo, todas as áreas
de serviço do mundo, todas as mulheres... (espera aí...
a porta está sendo destrancada... isso! uma das estrelas
aparece, acende um cigarro, lança um olhar para mim? Tudo
indica que veio apenas me ver.) Mas tudo foi muito rápido.
Coisa de um minuto apenas, porém, ela nem imagina o quanto
essa atitude significou para o meu desespero. Pronto! A linha
do meu pensamento anterior foi completamente rompida. Volto para
a minha miserável condição. Olho o muro branco.
O intransponível muro branco. E nesse momento, aqui, sentado,
nada me aparece em cores. Fecho os olhos e o que vejo? O muro,
o eterno muro branco, paisagem noturna de toda a minha vida.
(Ibidem)