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O
Canto
Acordou ferida
como o pássaro que rasgou as próprias asas
e olhava o céu, chorando o grito.
O grito que só era ouvido
pela estranheza do ar, da água.
Do ar, da água, que nunca falavam
ao pássaro,
ao pássaro das asas feridas
que acordava
em dor.
Acordou ferida
como o pássaro que sangrava as duas asas
e que veria a dor e a morte, menos sofridas
se ouvisse um grito, um mesmo som.
E ao pássaro ferido, a quem restava
preencher o espaço com seu próprio grito,
na esperança de sentir o mundo
igual à sua dor,
ficou um som,
o canto.
O mais belo canto
de recriação.
(Cantaria verde)
As
Barrancas
Na barra de tua saia,
as barrancas
bordadas na barra
de barro e madeira,
de gentes em bando.
A mulher que se quisera bela
vestira-se de branco,
de cimento e pedra,
de adorno em brinco,
mas mulher descalça.
Na barra de tua saia
rendada,
do barro que pisava,
dos bilros de estacas,
dos berros das gentes
– as barrancas.
A mulher que se quisera bela
ornara-se de rendas,
de salões cristal,
de painéis de lendas,
mas de pés descalços.
Na
margem de tua saia,
madeiras moldadas,
marginais de lama,
barradas imagens,
entre o rio e fama
– as barrancas.
A mulher que se quisera bela
fizera-se ilha,
em verde e em rio,
em raízes-pilhas,No friso de tua saia
– Mana-os
guizos e risos,
bardos-bordados,
berros-barrados,
Maninha
as barrancas.
(Ibidem)