Textos
Selecionados:
A
Caligrafia de Deus
Quarenta e oito horas depois, havia dois cadáveres atravessados
por balas de fuzil. Uma casa de tábuas cinzentas e retorcidas
pela chuva e pelo sol. Na loucura da Zona Franca, o povo era tão
afável na sua ironia que chamava aquilo de casa. Tinha
muito capim-serra, urtiga, um pé de mamoeiro e uma velha
mangueira quase sem folhas. A casa, coberta de palha, devia ter
goteira como o diabo. Um rego de água fedida atravessava
os calombos da rua e fazia um mapa escuro no barro seco. As viaturas
da Polícia e os carros dos jornais tinham estacionado quatro
quadras atrás, isto é, a uns trinta metros de um
labirinto de becos, terrenos baldios e lençóis secando
em taquaras. Daquela rua, que o povo chamava de rua São
João, entre as vinte ruas São João que há
em Manaus, era possível ver a gloriosa cúpula do
Teatro Amazonas e dois ou três espigões da moderna
capital dos barés. Tinham sido quarenta e oito horas de
trabalho para todo mundo. Menos para os moradores do bairro do
Japiim. Na loucura da Zona Franca o povo era tão afável
na sua ironia que chamava aquilo de bairro. Em dez anos, aquelas
colinas suaves cortadas por um igarapé viram desaparecer
os buritizais e a mata quase cerrada, as chácaras e os
banhos, para dar lugar a um conjunto habitacional do BNH e às
adesões provocadas pela iniciativa particular dos ribeirinhos
que chegavam com a anual subida das águas. O conjunto habitacional
nunca ficaria pronto, e era um inferno de calor e poeira ao meio-dia,
uma geladeira tropical de umidade e bruma durante a noite. Nada
mais restava da antiga mata e o deserto estendia-se pelo lado
das casas dos ribeirinhos. Nos meses de chuva, formava-se um atoleiro
que era um verdadeiro nirvana para os porcos; nos meses sem chuva,
uma paisagem marciana com todo o charme de um barro avermelhado
que empoava as crianças e as galinhas. Só a loucura
da Zona Franca para fazer o pessoal do Japiim chamar aquelas quarenta
e oito horas de muito divertidas, e isto estava visível
na cara de irritação do Comissário Frota,
expressão de quem tinha o saco estourado e já estava
cutucando o povo curioso com a coronha do revólver, finalmente
dando porradas com a arma e tentando dispersar centenas de mulheres
e crianças que tagarelavam sem a mínima disposição
de compreender o significado de uma operação policial
e, muito menos, a aflição do bravo Comissário
Frota. Uns oitenta praças da PM seguiam o Comissário
com a mesma disposição de espírito. Vão
trabalhar, bando de vagabundos, vamos circular, vamos circular,
gritavam com voz rouca, adicionando alguns palavrões carinhosos,
enquanto mentalmente davam graças a Deus pelo término
da operação.
O primeiro cadáver
Devia
ter uns vinte anos, estava vestida só com uma calcinha
rendada cor de limão. O corpo estava em decúbito
dorsal, como sairia nas matérias dos jornais. Uma mulher
baixa, bem cheinha nas ancas, a cabeça com três furos
de bala e o cabelo escuro marcado por placas de sangue coagulado.
O corpo tinha caído embaixo de uma rede do Ceará,
os braços encostados ao tronco, atravessado no quarto.
Na parede, pendurados numa fileira de pregos, um vestido, um sutiã
cor de limão, um retrato de Dom Bosco, outro vestido de
tecido japonês que imitava brocado. A janela estava aberta
e um soldado da PM tentava derrubar do mamoeiro, com uma vara
muito flexível, um mamão todo picado por sanhaçus.
Izabel Pimentel, que já estava morta há cinco horas,
tinha morrido sem saber por que tinha sido batizada com o nome
de Izabel Pimentel. Morrera com uma única certeza, a de
que Deus escrevia certo por linhas tortas. Todos em Iauareté-Cachoeira
acabavam com o sobrenome de Pimentel. Izabel nascera em Iauareté-Cachoeira
e não tinha escapado disso. Seu pai se chamava Pedro Pimentel
e sua mãe, ao casar com ele, já trazia o nome de
Maria Pimentel. Em Iauareté-Cachoeira isso até que
podia provocar alguma confusão, pois não se podia
levantar um mexerico de que a filha do Pimentel não era
mais moça ou que o Pimentel colocava areia na pele de ucuquirana,
sem que com isso toda a pequena cidade e inclusive a pessoa de
onde tivesse partido o mexerico se comprometesse. Por isso não
havia mexericos em Iauareté-Cachoeira, aliás, não
havia nada de especial, nem mesmo uma cidade aquilo podia ser
chamado, a não ser pela loucura dos habitantes de Iauareté-Cachoeira
que enchiam a boca e diziam que eram da cidade de Iauareté-Cachoeira.
O pai de Izabel era um índio baniwa que passava o dia bebendo
uma mistura de álcool com água e coçando
os edemas que os bichos-de-pé provocavam em seus dedos
sujos de terra. Mas nem isso podia ser considerado uma marca registrada
do pai de Izabel, invariavelmente todos os homens de Iauareté-Cachoeira,
assim como se chamavam Pimentel, passavam o dia bebendo álcool
misturado com água e coçando os pés inchados
de bichos. Uma outra diversão do velho Pedro era espancar
a mãe de Izabel duas vezes por ano. Uma no Natal e outra
no dia de Nossa Senhora Auxiliadora. A mãe de Izabel, uma
índia tukano, tinha alguns dedos inutilizados devido a
essa prática anual do marido. O velho Pedro ficava animado
durante as comemorações do Natal e de Nossa Senhora
Auxiliadora, pois eram as únicas datas em que ele podia
beber cachaça paraense ou um conhaque de alcatrão
nefando que vinha da Colômbia. Alguns anos atrás,
ele tinha até conseguido uma garrafa de pisco peruano que
ficara na memória.
É claro que os dedos inutilizados da mãe de Izabel
não serviam para identificá-la: todas as mulheres
casadas apanhavam dos maridos nas mesmas datas e tinham igualmente
os dedos inutilizados que mostravam para as filhas, como uma advertência,
todas as vezes que elas vinham falar de casamento. Izabel Pimentel
morreu com todos os seus dedos funcionando perfeitamente e até
estavam bem cuidados, as unhas pintadas com um esmalte da moda,
um anel de fantasia no dedo miudinho da mão esquerda. Izabel
Pimentel tinha conseguido escapar de um marido natural de Iauareté-Cachoeira
e que certamente teria o sobrenome Pimentel.
Um policial do Patrimônio viu o anel e puxou do dedo de
Izabel com um movimento brusco. Examinou o anel contra a luz e
colocou num saquinho plástico onde estavam outras bijuterias.
Izabel tinha morrido proprietária de um par de brincos
redondos e imitando marfim, fabricado em Taiwan, uma pulseira
de ouro 18 quilates, um relógio Seiko com mostrador luminoso,
uma medalhinha de latão com a figura de São Domingos
Sávio, uma corrente de prata suspeita, além do anel
de fantasia arrebatado pelo policial. Izabel Pimentel morrera
muito mais rica que todas as moças de Iauareté-Cachoeira
juntas. O que era uma forma de provar que Deus escrevia realmente
certo por linhas tortas.
A primeira vez que Izabel ouviu alguém dizer algo sobre
a caligrafia de Deus, foi numa conversa com sua mãe, enquanto
lavavam roupa num trapiche. Izabel completara dezessete anos,
estava estudando na Escola Salesiana da Missão de São
Miguel e passava as férias com a família. Izabel
queria dinheiro para comprar revistas em São Gabriel da
Cachoeira e sua mãe lhe disse que deixasse de ser lesa
e que eles não tinham dinheiro para gastar em leseira.
De fato, eles não tinham dinheiro para gastar em coisa
alguma, e só não morriam de fome porque ela nunca
tinha deixado de criar galinhas e fazia um ativo comércio
de ovos frescos com os vizinhos, sem que o marido soubesse. Izabel
queria comprar aquelas revistas coloridas que chegavam do Rio
de Janeiro e traziam histórias de amor fotografadas em
belas casas e com belas criaturas. Na escola, as meninas faziam
vaquinha para adquirir aquelas revistas e quando conseguiam manuseavam-nas
até esfarelarem. As histórias eram um tanto complicadas
e acabavam sempre bem, com a heroína conseguindo um casamento.
Izabel não sabia se aqueles cavalheiros em roupas caras,
depois, começavam a beber álcool misturado com água
e se batiam nas mocinhas louras duas vezes por ano. Em todo caso,
isso não era muito importante, as meninas gostavam de ficar
admirando as fotografias dos beijos espetaculares e cismavam muitas
horas sobre esse esquisito costume dos pares românticos
das grandes cidades, que externavam sua paixão encostando
lábios contra lábios. O beijo não era uma
instituição comum no Rio Negro e por isso mesmo
as meninas ficavam muito assanhadas, loucas para uma experiência
prática.
Até aquela manhã, quando lavava roupa com a mãe,
Izabel nunca tinha beijado ninguém e pedia apenas uma mixaria
de dinheiro para comprar a revista. A mãe resmungava que
aquilo era leseira, que não era fácil conseguir
dinheiro e por isso não podia desperdiçar. Izabel
começou a dizer que se o pai não andasse bebendo
álcool com água, ela bem que poderia comprar a revista.
A mãe passou a bater com força a roupa que estava
lavando e disse que as coisas estavam bem como estavam. Se o velho
Pedro não bebesse tanto e fosse um homem trabalhador, ele
certamente estaria ganhando dinheiro e teriam posses para comprar
o que quisessem, até as revistas que Izabel tanto desejava.
Mas ela sabia que não seria assim; o velho Pedro com dinheiro
no bolso poderia comprar a cachaça ou o conhaque de alcatrão
que quisesse e ela, então, sofreria espancamentos todos
os dias. Por isso, era melhor que não tivessem dinheiro
para nada, que duas surras anuais já eram suficientes.
Deus escrevia certo por linhas tortas, disse a mãe de Izabel
e isso a deixou muito intrigada. Realmente era uma caligrafia
tortuosa que começava na preguiça do pai, passava
pela turbulência cíclica dele, oferecia dias de penúria
para todos e impedia que ela comprasse uma revista e contemplasse
os beijos dos amantes das grandes cidades. Uma caligrafia divina
cuja sinuosidade lhe escapava, como o fato de se chamar Izabel
Pimentel, mas que, por isso mesmo, era marcante, cristalina e
tão forte que ela nunca mais esqueceria. Que Deus cometesse
aquela garatuja de vida que levavam em Iauareté-Cachoeira,
pelo simples fato de impedir que o pai batesse na mãe todos
os dias, era uma loucura muito grande e Izabel Pimentel descobriu
que todos estavam loucos em sua casa, na cidade, talvez em todo
o Amazonas. Descobriu inclusive que ela devia ser uma letra malfeita
no destino divino.
O rio Uaupés descia na sua correnteza em suaves banzeiros
e o sol estava insano e queimava. A água insinuava-se tépida
e Izabel viu umas meninas de sua idade descerem para a beira do
rio, fazendo algazarra e levantando a barra malfeita dos vestidos.
Eram moças sem nenhuma elegância, cabelos escorridos
pelos rostos redondos, os seios quase em cone perfeito, iguais
aos dela, despreocupadas e sentindo a água molhando as
coxas. Izabel, nessa época, não sabia o quanto era
deselegante e não tinha ainda reparado no corte grosseiro
dos vestidos que usava. Depois é que foi descobrir o quanto
eram loucas as suas colegas, que nem ao menos se preocupavam em
escolher os vestidos, ou sabiam o que era um batom ou um xampu
para os cabelos. A mãe estava sempre com uma grande blusa
branca, encardida, os seios decrépitos em completa liberdade,
e uma saia azul-marinho que descia indefinidamente até
o meio das pernas cheias de cicatrizes. E o louco de seu pai passava
o dia com um calção escuro balançando nas
coxas magras e que nada escondia quando sentava ou ficava de cócoras.
Era um bando de loucos, pensaria Izabel, muito tempo depois, aqueles
homens acocorados em torno de uma cuia de álcool misturado
com água, e que não mais falavam, nem mais se olhavam
e que depois iam para suas redes porcas, ressonar pela noite adentro,
uma fogueira largando fumaça para espantar os carapanãs.
Por isso, na escola da Missão, Madre Lúcia, os olhos
verdes como casca de tucumã, estaria sempre a dar-lhe cascudos
com uma sineta e a chamá-la de menina louca. Izabel Pimentel
subia nas goiabeiras e comungava com o estômago cheio todas
as manhãs, o que era uma prova de loucura. Madre Lúcia
se impacientava com ela, que nunca aprendia a soletrar, nem decorava
as palavras em italiano do hino de Nossa Senhora Auxiliadora.
Na sala de aula, Madre Lúcia chamava Izabel para o quadro-negro
e se aborrecia quando notava que ela estava lambendo os dedos
sujos de giz. Mas se Izabel era louca, Madre Lúcia devia
ser muito mais, por enfrentar o calor do Uaupés com aquele
hábito branco sempre muito limpo e engomado, por nunca
tomar banho no rio nos fins de tarde, como fazia o Padre Andreotti,
e por nunca ter beijado ninguém, mesmo tendo aqueles olhos
verdes como casca de tucumã. Uma mulher nova como Madre
Lúcia se consumindo em perseguir a loucura de Izabel, batendo-lhe
com a sineta na cabeça só por ter ela perguntado
se era bom beijar e se eram só os lábios que se
tocavam num beijo.
E
foram três anos na Missão, com aquelas revistas esfareladas
que já não permitiam a contemplação
do mistério do beijo e onde ela não podia ler as
palavras de amor dos amantes, tudo como a escritura de Deus que
marcava a sua vida.
Izabel Pimentel estava para tirar o curso primário quando
duas coisas aconteceram. A primeira deixou Izabel indiferente,
já que ela não tinha mais nada a ver com aquele
defunto encarquilhado, rodeado de angélicas e quatro velas,
deitado numa rede sempre suja e que recebia com um esgar vítreo
nos olhos a oração e a fumaça do cigarro
que o velho pajé baniwa expelia ao mesmo tempo. O velho
Pedro estava morto, depois de uma série inútil de
operações que lhe foram amputando, pedaço
por pedaço, a perna direita. Um edema de bicho-de-pé
inflamou e logo o Padre Andreotti, que tinha sido médico
do exército italiano na Segunda Guerra Mundial, viu que
se tratava de gangrena. Levou o velho Pedro Pimentel para o hospital
de São Gabriel da Cachoeira e cortou, com a perícia
de um médico combatente, aquela protuberância tumescente
e pútrida; dava tapinhas animadores no ombro do paciente
e recebia de volta uma voz envolvida num hálito de álcool
com água que lhe dizia que de nada adiantaria o tratamento,
que ele logo estaria morto e expulsando alguém da maloca
dos mortos, doando assim ao rio Uaupés mais uma piraíba.
O velho Pedro, apesar de católico, ainda acreditava que
depois da morte ele seria obrigado a disputar um lugar na sempre
apinhada maloca dos mortos, e que disso resultaria a expulsão
de alguém que seria lançado ao rio Uaupés
e transformado em piraíba. O velho Pedro não queria
ir nem para o céu, nem para o inferno, nem mesmo para o
purgatório, queria ir disputar uma vaga na maloca dos mortos,
onde poderia continuar a beber quantas cuias de álcool
com água quisesse. Uma semana foi suficiente para o velho
Pedro conseguir o que queria, Izabel Pimentel foi levada até
o Hospital de São Gabriel da Cachoeira e rezou, a contragosto,
um rosário inteiro perante o defunto, acompanhada por Madre
Lúcia. Sua mãe estava lá também, tagarelando
com outras mulheres, fazendo contatos para ampliar sua venda de
ovos frescos. A morte do velho Pedro, que tinha trinta e sete
anos, em nada modificaria a vida de Izabel Pimentel, muito menos
a vida de Maria Pimentel. A mãe de Izabel, que tinha também
trinta e sete anos, não queria mais saber de casamento,
pois acreditava que já tinha sido espancada o suficiente
para ser considerada uma boa mulher tukano.
Izabel Pimentel também não estava pensando em se
casar; seu maior interesse, naquele momento, era decidir sobre
uma proposta recebida na escola, vinda da parte de Madre Lúcia.
A proposta era uma loucura e isso a tornava ainda mais atraente.
Madre Lúcia, que cuidava dos serviços de odontologia
na Missão de São Miguel, havia dito para ela que
seus dentes amarelados, em bom estado, mas desalinhados e pontudos,
poderiam ser eliminados e no lugar colocado um par de próteses,
com dentes brancos, brilhantes, perfeitos e esmaltados. Madre
Lúcia havia dito que com isso ela podia ficar uma perfeita
moça da cidade, com um sorriso parecido com os das moças
das revistas de fotonovelas. Izabel Pimentel queria saber qual
a sensação de um beijo com aqueles dentes maravilhosos
e que ela poderia tirar e pôr a hora que bem entendesse.
Ela poderia beijar com dentes, beijar sem dentes, e por isso estava
achando aquilo uma loucura. Uma noite, Izabel decidiu ficar acordada
ouvindo a saparia e folheando, na penumbra do luar que se filtrava
para o dormitório das meninas, uma revista de fotonovelas.
E todos os dentes lhe atraíam a atenção.
Chegou à conclusão que só por loucura alguém
podia chamar de dentes aquelas presas que ela tinha na boca. Na
outra manhã, para alegria de Madre Lúcia, ela deu
início ao processo de transformar sua boca de bugre em
boca de gente. Cada dente extraído, daí para frente,
era como se deixar levar mais uma vez pela exótica maneira
de Deus riscar no mundo a sua sina. Mas o processo não
era barato, não seria feito de graça. Madre Lúcia
agora dava as tarefas mais duras na roça para Izabel Pimentel
fazer. Todas as louças e panelas tinham de estar sempre
imaculadas pela mão de Izabel Pimentel. O piso de cimento
da Igreja lavado, a poeira dos livros dispersada e as roupas engomadas
pela mão de Izabel, para que ela tivesse lindos dentes
na caverna flácida em que sua boca se transformava. Izabel
era uma menina dura quando perseguia algum desejo e agora, enquanto
se ocupava dos muitos afazeres da Missão, divertia-se em
cuspir no chão aquelas marcas de sangue que lhe deixavam
um gosto salgado descendo pela garganta. Um dia, Izabel ouviu
o Padre Andreotti discutir de maneira violenta com Madre Lúcia
e chamar a freira de louca, de demente, de insana, por andar extraindo
dentes sãos de suas alunas. Padre Andreotti chamava Madre
Lúcia de todas aquelas palavras, com a voz machucando,
e Izabel não conseguia compreender onde estava o mal em
ser louca e em querer dar um sorriso de moça da cidade
para uma menina de Iauareté-Cachoeira que tinha o sobrenome
Pimentel. Isso não fazia nenhuma diferença para
o Padre Andreotti, e Izabel, preparada, ficou de boca fechada
e olhar de peixe morto quando Padre Andreotti a chamou, certa
tarde, e a colocou sentada em seu colo, acariciou-lhe os cabelos
e pediu-lhe que não fosse mais ao consultório de
Madre Lúcia. Izabel ficou só sentindo o cheiro da
batina e observando os dentes brancos do Padre Andreotti, sem
se mexer ou ter qualquer outra reação, fingindo
submissão. Izabel sabia que o Padre Andreotti também
era um louco, não só pelo que lhe dizia naquele
momento, como também pelas suas atitudes na Missão,
carregando um gravador de pilha para todo lado e gravando os velhos
cantos e as velhas histórias que os mesmos missionários
haviam condenado como coisas do diabo e que não prestavam.
Ela só lamentava que ele não fosse louco o suficiente
para que ela lhe pedisse para dar-lhe um beijo. Padre Andreotti,
como padre, não beijava como os mocinhos das fotonovelas,
o que era uma loucura em se tratando de um homem tão bonito
e que tinha vindo da Itália. Por isso, Izabel saiu do colo
do Padre Andreotti como um xerimbabo ajeitando as penas amarrotadas
pelos carinhos e prosseguiu o tratamento com Madre Lúcia.
Finalmente, no primeiro Natal em que a mãe de Izabel Pimentel
passaria sem espancamentos, Madre Lúcia cometeu a suprema
loucura de obrigar um C-47 inteiro da FAB a transportar de Manaus
para Iauareté-Cachoeira um par de próteses dentárias
para ela. As próteses chegaram embrulhadas em papel de
chumbo e acondicionadas numa caixa de despertadores digitais,
muito colorida, que Izabel Pimentel iria guardar por muito tempo,
porque trazia uma bela ilustração colorida de uma
moça japonesa deitada num campo de relva e que parecia
estar despertando ao som de um relógio digital e mostrando
belos dentes brancos. Na Missa do Galo, a boca de Izabel mostrou
todo o seu potencial de encantamento, quando ela entrou na Igreja
e os olhares das meninas convergiram invejosamente para seu sorriso.
O Padre Andreotti, inconformado, pensaria em Izabel como um retrato
falado malfeito, pois os dentes saltavam quase impudicamente do
sorriso pré-colombiano da moça. Ele sabia que era
uma loucura achar que duas próteses dentárias poderiam
ser indecentes, mas a opinião, sem que ninguém ao
menos comentasse, generalizou-se pela Missão, sobretudo
no meio dos rapazes. Se as meninas de certo modo sonhavam com
os dentes novos de Izabel Pimentel, os rapazes passavam a demonstrar
uma evidente repulsa. E claro que nenhum moço de Iauareté-Cachoeira
que honrasse o sobrenome Pimentel iria beijar dentes tão
brancos e muito menos casar com uma boca que podia ficar vazia
como a de uma velha a qualquer momento. Beijar aqueles dentes,
pensavam os rapazes, seria como beijar Madre Lúcia, o que
lhes parecia muito bom se a sensação de pecado não
fosse tão terrível. Imediatamente Izabel Pimentel
foi alijada do convívio de todas as famílias Pimentel,
o que era uma inominável loucura. Por isso, Izabel Pimentel
aceitou sem discutir o convite de Madre Lúcia para vir
trabalhar no Colégio Salesiano de Manaus, onde um par de
próteses não fazia nenhuma diferença. Quinze
dias depois Izabel Pimentel embarcaria no C-47 da FAB, carregando
um embrulho de roupas e um velho número de Capricho. Padre
Andreotti foi especialmente a bordo do aparelho recomendar Izabel
Pimentel ao comandante e, antes de desembarcar, já com
os motores da aeronave em funcionamento, acariciaria os cabelos
dela e diria com uma expressão contrariada que ela tomasse
cuidado, que não se deixasse maltratar, que ela lembrasse
que era uma moça e uma cidadã que tinha direitos,
mesmo sendo filha do desaparecido Pedro Pimentel, um índio
baniwa.
O
outro cadáver
Alfredo Silva, vinte e cinco anos, corpo bem proporcionado para
a pouca estatura, medroso e astuto, corajoso quando estava sozinho
e infeliz por lhe terem arranjado o apelido de Catarro, estava
morto e chegou a essa situação depois de compreender
que tinham todos enlouquecido em Manaus. Catarro havia sido o
último a ser localizado pelo cerco da Polícia, quando
enchia a cara de cerveja num bilharito do Japiim. Ele tinha se
levantado para dar uma mijada e estava andando, descendo o zíper
da braguilha, na direção do terreno baldio que ficava
aos fundos do bilharito, quando viu duas viaturas cinzas da PM
estacionarem na esquina e de uma delas descer o Comissário
Frota, o sacana que já o tinha pendurado tantas vezes no
pau-de-arara e que gostava de colocar gelo em seu saco, mesmo
quando ele já tinha dado o serviço. O Comissário
Frota era um louco, pensava Catarro, um homem franzino mas muito
aborrecido, impetuoso e cruel quando cercado de outros tiras e
procedia a algum interrogatório, complacente quando aparecia
algum advogado ou quando era obrigado a se envolver em problemas
com filhos de família. Mas nos encontros do Comissário
Frota e Catarro, o desgraçado do tira sempre tinha sido
inflexível ao absoluto. O Comissário Frota chegara
à conclusão, tirada do fundo de sua experiência
policial, que poderia solucionar todos os problemas de latrocínio
em Manaus pela prisão e muita porrada no lombo de Catarro.
E essa certeza já estava ficando incômoda para Catarro,
porque não havia crime ou assalto que acontecesse na cidade
que ele não fosse imediatamente capturado, seviciado e,
sem mais outras explicações, libertado, porque o
Comissário Frota era incapaz de resolver o menor problema
de roubo de galinhas. Até o apelido de Catarro, que tanto
o irritava, tinha sido consagrado pelo Comissário Frota
nas diversas entrevistas que ele dava diariamente à imprensa.
E na loucura da Zona Franca, a única editoria de jornal
que realmente funcionava era a editoria de polícia. Catarro
tinha se transformado numa celebridade – embora não
merecesse a fama – ao exercer o direito de roubar, como
batedor de carteiras no Estádio Vivaldo Lima, o porta-cédulas
de um Núncio Apostólico todo paramentado, durante
uma cerimônia do Congresso Eucarístico de Manaus.
Flagrado por um nervoso diácono, teve a sua intenção
frustrada e acabou preso. Disse aos jornalistas que fizera aquilo
pensando que o Núncio fosse o Papa, homem poderoso e que
sabia ser muito rico, pois era proprietário de todas as
igrejas e faturava com tudo quanto era batizado, casamento e novena.
Tinha sido a maior loucura de Catarro, já que o Papa não
costumava andar pelo Estádio Vivaldo Lima, muito menos
com um porta-cédula de plástico recheado por vinte
notas de um cruzeiro. Catarro foi perdoado pelo Núncio,
um homem muito bom, que foi pessoalmente na delegacia confirmar
o roubo e perdoá-lo, dizendo que um moço sadio como
Catarro não devia andar furtando porta-cédulas de
um Núncio Apostólico pensando que fosse o Papa.
O Núncio deixou Catarro na cadeia por vinte e quatro horas
e ofereceu o dinheiro de presente, para que ele começasse
uma nova vida quando saísse. Catarro ficou ofendido com
aquilo e jurou nunca mais roubar outro Núncio Apostólico
pensando que fosse o Papa. Afinal, ele não era nenhum mendigo
para sair da cadeia feito um louco com um bolo de vinte cruzeiros
em notas de um. O certo é que Catarro virou celebridade
e saiu até numa coluna da revista Veja com um texto humorístico,
embora ele jamais tenha tomado conhecimento do fato.
Catarro viu o Comissário Frota descer da viatura e gritar
para que ele ficasse de mãos para cima e não fizesse
nenhum movimento. Catarro não era louco para obedecer a
uma ordem dessas e baixou as mãos para fechar o zíper
que estava aberto e sentiu que, apesar da urgência, ia ter
que dar a sua mijada depois, em algum lugar mais seguro. Os homens
que estavam bebendo cerveja com ele no bilharito se jogaram no
chão e Catarro ouviu tiros espoucarem em sua direção,
exatamente quando ele desembestava rumo a uma cacimba, onde duas
velhas estavam lavando roupas e começaram a gritar apavoradas.
Catarro saiu se atolando numa vala e notou que a sua calça
Levi’s, cor de vinho, estava toda emporcalhada. Catarro
não gostava de andar emporcalhado e ficou ainda com mais
raiva do Comissário Frota.
Duas horas depois, Catarro estaria morto sem ter conseguido ao
menos aliviar a bexiga em paz. Por isso, seu corpo foi encontrado
sentado quase de lado contra um canto da cozinha, no meio de uma
poça de sangue e urina. Antes de varar os quintais e chegar
na casa onde vivia com sua amante, que a imprensa chamava de Índia
Potira, Diacuí ou Izabel Pirada, e mais dois sócios,
o Bacurau, que era um hábil rato d’água na
rampa dos Remédios, e Buraco ou Miss Zona, uma bicha que
fazia assaltos a motoristas de táxi, Catarro receberia
uma primeira bala de fuzil, que lhe arrebentaria parcialmente
a coxa esquerda. Ele não sabia que Bacurau e Miss Zona
já estavam presos e que a Índia Potira tivera o
corpo furado de balas e estava atravessada, morta, no meio do
quarto, vestindo apenas a calcinha cor de limão que ele
tinha dado e que ficava tão bem nela.
Catarro também não tinha tomado conhecimento de
que a PM e a Polícia, com quase cem homens, desenvolviam
a gigantesca Operação Grande Zona, mantendo o bairro
do Japiim completamente cercado e vasculhado. Os meganhas e os
tiras estavam há quarenta e oito horas enlouquecendo de
curiosidade os moradores do bairro, que não deixavam ninguém
trabalhar em paz, atravessando no meio das manobras, no meio das
escaramuças, como se a Operação Grande Zona
fosse uma festa folclórica ou lá o que diabo fosse.
A Operação Grande Zona era o mais recente trunfo
do Comissário Frota. Tinha convencido o Secretário
de Segurança a autorizar um batalhão da PM a cercar
o bairro do Japiim, pois tinha tido um sonho onde ele via, lá
no meio dos barracos de madeira e palha, os facínoras que
tinham cometido o assalto ao carro pagador da Indústria
de Rádios Isagawa do Amazonas e assassinado à queima-roupa
o humilde chofer do carro, um rapaz de Três Corações,
da mesma terra de Pelé, e que tinha, num acesso de loucura,
vindo para Manaus ajudar com seu trabalho o progresso da Zona
Franca. Tinha sido um crime bárbaro e o vigésimo
assalto com vítima fatal em menos de uma semana, o que
deixava a população sobressaltada e a polícia
em apuros. E claro que nem Catarro, nem a Índia Potira,
nem Bacurau e Miss Zona estavam implicados no assalto ao carro
pagador da Isagawa. Disso ninguém tinha a menor dúvida,
nem mesmo o Comissário Frota. Mas numa cidade onde, proporcionalmente,
se cometiam mais assaltos que em Nova Iorque e só pela
loucura da Zona Franca seus habitantes ainda teimavam em chamá-la
de cidade pacata, uma boa demonstração de força
e muitos homens em ação ajudariam a tranqüilizar
a população e até poderiam lhe trazer alguma
boa promoção por parte do governo. A Operação
Grande Zona era, portanto, um acontecimento simbólico.
O Comissário Frota elevava o trabalho policial quase à
metafísica com variações de dramaturgia trágica.
O Comissário Frota tinha sido um louco em não ter
pensado em algo assim antes, sobretudo quando alguns ladrões
tinham cometido a suprema ousadia de arrombar a própria
casa do Secretário de Segurança, de onde levaram
jóias, dinheiro, uma televisão colorida e um aparelho
de som de 120 watts de saída.
Antes de ter o nome incolor de Alfredo Silva trocado pelo sonoro
apelido de Catarro, até que ele era um bom rapaz, que usava
um par de botas negras, uma calça Levi’s cor de vinho,
camisa colorida de Hong Kong e óculos escuros. Em todo
o bairro do Japiim, onde sempre viveu desde que chegou a Manaus,
era o único rapaz que usava botas e óculos escuros.
Que soubesse, era realmente o único e para ele isso era
ao mesmo tempo o máximo de integração aos
costumes da capital e uma expressão de virilidade. Achava
que para seu patrão, um major reformado do exército
que gerenciava uma Empresa de Segurança ao Patrimônio
e oferecia guardas para bancos e mansões, as botas e os
óculos escuros estavam perfeitamente aprovados pelo ar
vaidoso e petulante que ele adquiria. Embora o major sempre tivesse
a cara amarrotada de ressaca, era como descobrir, no fundo daquela
expressão de dor de cabeça crônica, a aptidão
que ele tinha para usar botas e óculos escuros. Mesmo assim,
foi um dia posto na rua, com botas e óculos escuros, porque
dormira no serviço e tinha deixado que arrombassem o Opala
Caravan do chinês proprietário da loja importadora,
onde estava dando guarda todas as noites. Ele ficou muito aborrecido
pela injustiça, não tanto pelos caraminguás
que ganhava de salário para não pregar os olhos
a noite toda, com o ouvido colado num radinho de pilha ouvindo
um programa de músicas do tipo arranca-lágrimas-de-puta
e muita baboseira do locutor, mas por ter perdido o direito de
portar o revólver Taurus calibre 38 que costumava girar
nos dedos para os amigos que bebiam cerveja na mesa do bilharito.
Sentiu também que sem a farda azul-claro, com divisas nos
ombros, o quepe de napa mole, perdia o status de homem da lei
que tanto fascinava as meninas da sessão da meia-noite
no Cine Guarany, com os filmes de caratê e chineses franzinos
que faziam o diabo. Fardado, também podia fazer o diabo
com as meninas, e foi no meio de um filme de caratê que
ele conheceu uma mulherzinha de cabelos corridos e com um par
de dentaduras magníficas.
Era uma dona completamente louca e sempre andava repetindo que
Deus escrevia certo por linhas tortas, mesmo quando se metia numa
encrenca na boate O Selvagem, o mais animado e turbulento dos
prostíbulos e santuário máximo da vida noturna
da Zona Franca das Cem Mil Putas. Ela parecia louca mesmo e acabou
fazendo dele o seu xodó. Era meio desmiolada e gostava
de beijos, se bem que nunca tivesse sido beijada na vida. Ninguém
queria beijar uma marafona, ainda mais uma marafona que usava
dentaduras. A primeira vez que ele se irritou a sério,
foi justamente pelos pedidos de beijos que ela fazia e que ele
recusava dizendo que não era nenhum louco para andar beijando
vagabundas desdentadas. A coisa tinha sido muito séria,
ele tinha descido verdadeiramente a lenha nela, e só não
tinha desancado a mulher de uma vez porque os vizinhos da estância
vieram em socorro e desapartaram. Na verdade, essa história
de encher a cara dela de porrada tinha virado uma mania, e ela
parecia gostar muito. No puteiro O Selvagem todo mundo a conhecia
pelo apelido de Índia Potira e diziam que era realmente
uma índia. Seus amigos de cerveja no bilharito começavam
a sacanear, dizendo que ele tinha virado funcionário da
Funai, mas ele não deu muita importância, pois não
tinha a menor idéia do que fosse ser funcionário
da Funai.
A Índia Potira tinha fugido do Colégio Salesiano
e conseguira um emprego de operária num dos turnos da fábrica
de fitas cassete Sayonara Eletrônica. Um emprego que lhe
arrasava totalmente a disposição. Era uma loucura
para a Índia Potira, com sua dentadura, passar oito horas
num cubículo iluminado a neon, com dois ventiladores que
soltavam ar quente, entre divisões de grades de arame,
soldando intermináveis transistores em circuitos impressos,
ou adicionando pinos de plástico em envoltórios
para fita cassete. No fim do turno, todas as funcionárias
passavam pelo setor de segurança, onde eram vistoriadas
pelos guardas para ver se não estavam roubando nada. A
Índia Potira não gostava nada de ter as mãos
nojentas de um guarda qualquer apalpando o seu traseiro todos
os dias, só para saber se ela não teria enfiado
algum transistor no rabo. Acabou comprando um vestido de brocado
japonês, bem curtinho, e freqüentando a boate O Selvagem,
seguindo o convite de um chofer de táxi, seu primeiro cliente
e que lhe deixou uma boa grana. A Índia Potira achou que
seria uma loucura se voltasse a trabalhar na fábrica Sayonara
Eletrônica, onde ganhava uma mixaria por mês e uma
dedada por dia, quando numa só noite e em cada dedada ela
podia faturar dez vezes o maldito salário que aqueles filhos
da puta pagavam. Foi quando encontrou o Catarro, que já
conquistara celebridade por ter roubado a carteira do Núncio
Apostólico e estava trabalhando na fiscalização
dos pivetes que ficavam na rua Guilherme Moreira oferecendo fitas
de vídeo de sacanagem, canetas Cross falsificadas e pomadinha
para passar no cacete, aos turistas que perambulavam pelas lojas
de importados.
Catarro estava prosperando no negócio da Zona Franca, lucrando
muito com a venda de canetas, de pomada afrodisíaca que
era Vick Vaporub e muito mais nos vídeos, que não
passavam de um pedaço de madeira coberto por uma embalagem
de papelão onde estavam coladas fotos de revistas pornográficas.
Catarro comprava a pomadinha a dez merrecas nos navios e revendia
a oitenta. Um vídeo pornográfico de mentira custava
até trezentos cruzeiros e não era raro um turista
cair na arapuca e esconder apreensivo a embalagem comprometedora
na bolsa Sansonite que acabara de comprar. A Índia Potira
achava Catarro um cara muito vivo e não entendia por que
ele cultivava a loucura de não querer beijá-la.
Catarro não tinha tido a mesma sorte dela quando veio para
Manaus. Era até um cara legal, que havia lhe dado uma calcinha
cor de limão e deixava que ela ficasse em casa bem à
vontade, mesmo quando Bacurau e Miss Zona estavam lá e
olhavam para a sua calcinha cor de limão e para os peitinhos
em forma de cone.
Catarro veio para Manaus porque não tinha mais saco de
passar as noites acordado, com um terçado numa das mãos
e um candeeiro de querosene na outra, vigiando a maromba das galinhas
para que nenhuma sucuriju, malditas cobras que nadavam com incrível
agilidade não viessem durante a noite, em silêncio,
provocar baixas na criação de seu pai. Todos os
anos era isso, na palafita de seu pai bem na margem do furo do
Cambixe, a algumas horas de motor de recreio de Manaus. Todos
os anos o rio começava a encher e invadia tudo e eles eram
obrigados a ir suspendendo o piso da casa e pondo os bichos em
marombas para que não morressem afogados, nem as piranhas,
poraquês e sucurijus viessem matá-los. Seu pai achava
tudo muito natural e não perdia nunca a paciência,
achava mesmo uma loucura que aqueles assistentes sociais viessem
todos os anos com a mão na cabeça, querendo dar
injeção, querendo dar dinheiro que ele não
recusava e tentando convencê-lo de que deveria colocar a
sua casa em terra firme, onde seria um absurdo morar. Catarro
tinha dado duro na rampa do Mercado carregando banana e depois,
no Ceasa, empilhando caixas de laranjas, até comprar um
par de botas negras, óculos escuros e uma calça
Levi’s cor de vinho. Mas nada se comparava com a delícia
de se sentar numa mesa de bilharito do bairro do Japiim, beber
cerveja e ouvir uma música de zona. E se Deus realmente
escrevia alguma coisa, como vivia repetindo a Índia Potira,
era na mesa daquele bilharito que Ele fazia as suas mais inspiradas
linhas, ainda que tortas.
O Comissário Frota estava com o paletó aberto e
a gravata italiana convenientemente frouxa e arriada sobre a camisa
desabotoada que deixava um tufo de pêlos à vista,
tudo para mostrar aos repórteres o quanto ele estava exausto
depois de quarenta e oito horas de vitoriosa operação.
Os repórteres não davam a mínima importância
para o tufo de cabelos do peito dele, nem para seu cansaço,
o que era uma ingratidão da parte deles, pensava o Comissário.
Mas ele tinha certeza de que os repórteres saberiam cumprir
a parte que lhes tocava e que os jornais contariam, com os seus
estilos parecidos, o sucesso da Polícia. Um repórter
amigo se aproximou e tocou em seu ombro, mas logo retirou a mão
ao sentir com um certo nojo mal disfarçado que a camisa
do policial estava encharcada de suor. O repórter tinha
um bloco de notas em branco na mão e ficou comentando que
era uma loucura a maneira de Catarro morrer, numa poça
de urina e sangue. E lembrou que a Índia Potira tinha um
par de seios em forma de cone, e que também era outra loucura
ela estar ali só de calcinha cor de limão, furada
de balas. O Comissário Frota estava certo de que operações
como aquela poderiam bem ser repetidas uma vez por ano, para dar
um pouco de movimento à rotina da Polícia. O repórter
parecia um índio desenhado a crayon, a boca sarcástica
e os olhos amarelos sem nenhuma esperança de inteligência.
Era o repórter policial mais brilhante de Manaus e escrevia
verdadeiros editoriais na página de polícia, lamentando
a falta de meios com que os policiais trabalhavam e a benevolência
com que a Justiça parecia aquinhoar os meliantes, liberando
ladrões e assassinos por meio de abomináveis habeas
corpus. Quem lia aqueles artigos ficava pensando que o autor era
um cara que gostava de brigar e que por isso mesmo era um rematado
idiota. O Comissário Frota se esforçava para ganhar
uma expressão horrível de cansaço, mas ficava
cada vez melhor e mais saudável, o suor secando com a brisa
que sacudia o mamoeiro onde um praça da PM estava tentando
derrubar um mamão maduro todo picado pelos sanhaçus.
O repórter queria saber se os bandidos não teriam
alguma ligação com o narcotráfico e ouviu
o Comissário Frota resmungar, contrariado, que eram dois
cretinos que nunca seriam aceitos nem mesmo como mulas pelo mais
idiota dos colombianos.
O Comissário Frota passou o lenço pelo pescoço,
que já estava totalmente enxuto, sentiu naquele momento
que era o homem mais virtuoso que existia. Sentia uma virtude
tão grande que era uma abominação alguém
se sentir assim. Era como uma vontade de querer arrotar e não
poder, por isso foi saindo enquanto os flashes dos fotógrafos
piscavam lá no quarto. O Comissário Frota pensou
o quanto era louco o fato da Índia Potira possuir um par
de seios em forma de cone e usar dentaduras, para não falar
da calcinha cor de limão toda rendada.
Catarro nem sentiu a bala do fuzil arrancar a carne de sua coxa
esquerda, pensou que fosse algum capim-serra que tivesse arranhado
a sua calça cor de vinho e nem olhou para não ver
a bainha larga emporcalhada de lama. Ele queria chegar até
em casa e pegar a Índia Potira, sem saber bem por que fazia
isso. Tentou subir num único salto a pequena escada dos
fundos e sentiu pontadas nas costas que aumentaram a vontade de
mijar. Sentiu sede e entrou na cozinha procurando o pote e pensou
que era uma loucura a Índia Potira andar dizendo que Deus
escrevia certo por linhas tortas. Ela dizia umas coisas engraçadas,
típicas de uma louca, como naquela vez em que ele saiu
todo esborrachado da Central de Polícia e ela cuidou dele,
colocando arnica nas pancadas e dizendo que ele não devia
deixar que os tiras o maltratassem, que ele era um cara que tinha
direitos, um cidadão, mesmo sendo filho de um ribeirinho
que via a sua casa alagada todos os anos. Ele não tinha
conseguido sacar absolutamente nada do que a Índia Potira
queria dizer com aquilo e achou que ela falara por falar.
Catarro sentou-se no canto da cozinha, o corpo pendeu para o lado
e ele pensou que estava muito cansado. Sentiu que não mais
conseguia prender a urina e deixou que ela escorresse pela calça
com volúpia, sentiu a perna ardendo, as costas ardendo
e estava suando muito. Deixou que um pensamento entrasse em sua
cabeça: pensou que a Índia Potira era uma dona muito
louca, e que se Deus escrevia tudo aquilo, não era só
o caso de escrever por linhas tortas, é que Ele tinha certamente
uma péssima caligrafia.
(A
Caligrafia de Deus)