Biografia / Bibliografia

Márcio Souza

Márcio Gonçalves Bentes de Souza é natural de Manaus, onde nasceu no dia 4 de março de 1946. A par de sua atividade literária, foi cineasta, tendo filmado A Selva, romance do português Ferreira de Castro, além de documentários como: “O Começo antes do começo”, “O Porto de Manaus” e “A Adolescente desaparecida”. Também foi diretor do Teatro Experimental do SESC (TESC), em Manaus, grupo que encenou várias peças de sua autoria. Escreveu os seguintes romances: Galvez, Imperador do Acre (1976), Operação silêncio (1979), Mad Maria (1980), A Resistível ascensão do Boto-Tucuxi (1982), A Ordem do dia (1983), A Condolência (1984), O Brasileiro voador (1986), O Fim do Terceiro Mundo (1990), Lealdade (1997), Desordem (2001). Lançou apenas um livro de contos: A Caligrafia de Deus (1994).

 

 

 

Textos Selecionados:

A Caligrafia de Deus

Quarenta e oito horas depois, havia dois cadáveres atravessados por balas de fuzil. Uma casa de tábuas cinzentas e retorcidas pela chuva e pelo sol. Na loucura da Zona Franca, o povo era tão afável na sua ironia que chamava aquilo de casa. Tinha muito capim-serra, urtiga, um pé de mamoeiro e uma velha mangueira quase sem folhas. A casa, coberta de palha, devia ter goteira como o diabo. Um rego de água fedida atravessava os calombos da rua e fazia um mapa escuro no barro seco. As viaturas da Polícia e os carros dos jornais tinham estacionado quatro quadras atrás, isto é, a uns trinta metros de um labirinto de becos, terrenos baldios e lençóis secando em taquaras. Daquela rua, que o povo chamava de rua São João, entre as vinte ruas São João que há em Manaus, era possível ver a gloriosa cúpula do Teatro Amazonas e dois ou três espigões da moderna capital dos barés. Tinham sido quarenta e oito horas de trabalho para todo mundo. Menos para os moradores do bairro do Japiim. Na loucura da Zona Franca o povo era tão afável na sua ironia que chamava aquilo de bairro. Em dez anos, aquelas colinas suaves cortadas por um igarapé viram desaparecer os buritizais e a mata quase cerrada, as chácaras e os banhos, para dar lugar a um conjunto habitacional do BNH e às adesões provocadas pela iniciativa particular dos ribeirinhos que chegavam com a anual subida das águas. O conjunto habitacional nunca ficaria pronto, e era um inferno de calor e poeira ao meio-dia, uma geladeira tropical de umidade e bruma durante a noite. Nada mais restava da antiga mata e o deserto estendia-se pelo lado das casas dos ribeirinhos. Nos meses de chuva, formava-se um atoleiro que era um verdadeiro nirvana para os porcos; nos meses sem chuva, uma paisagem marciana com todo o charme de um barro avermelhado que empoava as crianças e as galinhas. Só a loucura da Zona Franca para fazer o pessoal do Japiim chamar aquelas quarenta e oito horas de muito divertidas, e isto estava visível na cara de irritação do Comissário Frota, expressão de quem tinha o saco estourado e já estava cutucando o povo curioso com a coronha do revólver, finalmente dando porradas com a arma e tentando dispersar centenas de mulheres e crianças que tagarelavam sem a mínima disposição de compreender o significado de uma operação policial e, muito menos, a aflição do bravo Comissário Frota. Uns oitenta praças da PM seguiam o Comissário com a mesma disposição de espírito. Vão trabalhar, bando de vagabundos, vamos circular, vamos circular, gritavam com voz rouca, adicionando alguns palavrões carinhosos, enquanto mentalmente davam graças a Deus pelo término da operação.


O primeiro cadáver

Devia ter uns vinte anos, estava vestida só com uma calcinha rendada cor de limão. O corpo estava em decúbito dorsal, como sairia nas matérias dos jornais. Uma mulher baixa, bem cheinha nas ancas, a cabeça com três furos de bala e o cabelo escuro marcado por placas de sangue coagulado. O corpo tinha caído embaixo de uma rede do Ceará, os braços encostados ao tronco, atravessado no quarto. Na parede, pendurados numa fileira de pregos, um vestido, um sutiã cor de limão, um retrato de Dom Bosco, outro vestido de tecido japonês que imitava brocado. A janela estava aberta e um soldado da PM tentava derrubar do mamoeiro, com uma vara muito flexível, um mamão todo picado por sanhaçus.
Izabel Pimentel, que já estava morta há cinco horas, tinha morrido sem saber por que tinha sido batizada com o nome de Izabel Pimentel. Morrera com uma única certeza, a de que Deus escrevia certo por linhas tortas. Todos em Iauareté-Cachoeira acabavam com o sobrenome de Pimentel. Izabel nascera em Iauareté-Cachoeira e não tinha escapado disso. Seu pai se chamava Pedro Pimentel e sua mãe, ao casar com ele, já trazia o nome de Maria Pimentel. Em Iauareté-Cachoeira isso até que podia provocar alguma confusão, pois não se podia levantar um mexerico de que a filha do Pimentel não era mais moça ou que o Pimentel colocava areia na pele de ucuquirana, sem que com isso toda a pequena cidade e inclusive a pessoa de onde tivesse partido o mexerico se comprometesse. Por isso não havia mexericos em Iauareté-Cachoeira, aliás, não havia nada de especial, nem mesmo uma cidade aquilo podia ser chamado, a não ser pela loucura dos habitantes de Iauareté-Cachoeira que enchiam a boca e diziam que eram da cidade de Iauareté-Cachoeira. O pai de Izabel era um índio baniwa que passava o dia bebendo uma mistura de álcool com água e coçando os edemas que os bichos-de-pé provocavam em seus dedos sujos de terra. Mas nem isso podia ser considerado uma marca registrada do pai de Izabel, invariavelmente todos os homens de Iauareté-Cachoeira, assim como se chamavam Pimentel, passavam o dia bebendo álcool misturado com água e coçando os pés inchados de bichos. Uma outra diversão do velho Pedro era espancar a mãe de Izabel duas vezes por ano. Uma no Natal e outra no dia de Nossa Senhora Auxiliadora. A mãe de Izabel, uma índia tukano, tinha alguns dedos inutilizados devido a essa prática anual do marido. O velho Pedro ficava animado durante as comemorações do Natal e de Nossa Senhora Auxiliadora, pois eram as únicas datas em que ele podia beber cachaça paraense ou um conhaque de alcatrão nefando que vinha da Colômbia. Alguns anos atrás, ele tinha até conseguido uma garrafa de pisco peruano que ficara na memória.
É claro que os dedos inutilizados da mãe de Izabel não serviam para identificá-la: todas as mulheres casadas apanhavam dos maridos nas mesmas datas e tinham igualmente os dedos inutilizados que mostravam para as filhas, como uma advertência, todas as vezes que elas vinham falar de casamento. Izabel Pimentel morreu com todos os seus dedos funcionando perfeitamente e até estavam bem cuidados, as unhas pintadas com um esmalte da moda, um anel de fantasia no dedo miudinho da mão esquerda. Izabel Pimentel tinha conseguido escapar de um marido natural de Iauareté-Cachoeira e que certamente teria o sobrenome Pimentel.
Um policial do Patrimônio viu o anel e puxou do dedo de Izabel com um movimento brusco. Examinou o anel contra a luz e colocou num saquinho plástico onde estavam outras bijuterias. Izabel tinha morrido proprietária de um par de brincos redondos e imitando marfim, fabricado em Taiwan, uma pulseira de ouro 18 quilates, um relógio Seiko com mostrador luminoso, uma medalhinha de latão com a figura de São Domingos Sávio, uma corrente de prata suspeita, além do anel de fantasia arrebatado pelo policial. Izabel Pimentel morrera muito mais rica que todas as moças de Iauareté-Cachoeira juntas. O que era uma forma de provar que Deus escrevia realmente certo por linhas tortas.
A primeira vez que Izabel ouviu alguém dizer algo sobre a caligrafia de Deus, foi numa conversa com sua mãe, enquanto lavavam roupa num trapiche. Izabel completara dezessete anos, estava estudando na Escola Salesiana da Missão de São Miguel e passava as férias com a família. Izabel queria dinheiro para comprar revistas em São Gabriel da Cachoeira e sua mãe lhe disse que deixasse de ser lesa e que eles não tinham dinheiro para gastar em leseira. De fato, eles não tinham dinheiro para gastar em coisa alguma, e só não morriam de fome porque ela nunca tinha deixado de criar galinhas e fazia um ativo comércio de ovos frescos com os vizinhos, sem que o marido soubesse. Izabel queria comprar aquelas revistas coloridas que chegavam do Rio de Janeiro e traziam histórias de amor fotografadas em belas casas e com belas criaturas. Na escola, as meninas faziam vaquinha para adquirir aquelas revistas e quando conseguiam manuseavam-nas até esfarelarem. As histórias eram um tanto complicadas e acabavam sempre bem, com a heroína conseguindo um casamento. Izabel não sabia se aqueles cavalheiros em roupas caras, depois, começavam a beber álcool misturado com água e se batiam nas mocinhas louras duas vezes por ano. Em todo caso, isso não era muito importante, as meninas gostavam de ficar admirando as fotografias dos beijos espetaculares e cismavam muitas horas sobre esse esquisito costume dos pares românticos das grandes cidades, que externavam sua paixão encostando lábios contra lábios. O beijo não era uma instituição comum no Rio Negro e por isso mesmo as meninas ficavam muito assanhadas, loucas para uma experiência prática.
Até aquela manhã, quando lavava roupa com a mãe, Izabel nunca tinha beijado ninguém e pedia apenas uma mixaria de dinheiro para comprar a revista. A mãe resmungava que aquilo era leseira, que não era fácil conseguir dinheiro e por isso não podia desperdiçar. Izabel começou a dizer que se o pai não andasse bebendo álcool com água, ela bem que poderia comprar a revista. A mãe passou a bater com força a roupa que estava lavando e disse que as coisas estavam bem como estavam. Se o velho Pedro não bebesse tanto e fosse um homem trabalhador, ele certamente estaria ganhando dinheiro e teriam posses para comprar o que quisessem, até as revistas que Izabel tanto desejava. Mas ela sabia que não seria assim; o velho Pedro com dinheiro no bolso poderia comprar a cachaça ou o conhaque de alcatrão que quisesse e ela, então, sofreria espancamentos todos os dias. Por isso, era melhor que não tivessem dinheiro para nada, que duas surras anuais já eram suficientes. Deus escrevia certo por linhas tortas, disse a mãe de Izabel e isso a deixou muito intrigada. Realmente era uma caligrafia tortuosa que começava na preguiça do pai, passava pela turbulência cíclica dele, oferecia dias de penúria para todos e impedia que ela comprasse uma revista e contemplasse os beijos dos amantes das grandes cidades. Uma caligrafia divina cuja sinuosidade lhe escapava, como o fato de se chamar Izabel Pimentel, mas que, por isso mesmo, era marcante, cristalina e tão forte que ela nunca mais esqueceria. Que Deus cometesse aquela garatuja de vida que levavam em Iauareté-Cachoeira, pelo simples fato de impedir que o pai batesse na mãe todos os dias, era uma loucura muito grande e Izabel Pimentel descobriu que todos estavam loucos em sua casa, na cidade, talvez em todo o Amazonas. Descobriu inclusive que ela devia ser uma letra malfeita no destino divino.
O rio Uaupés descia na sua correnteza em suaves banzeiros e o sol estava insano e queimava. A água insinuava-se tépida e Izabel viu umas meninas de sua idade descerem para a beira do rio, fazendo algazarra e levantando a barra malfeita dos vestidos. Eram moças sem nenhuma elegância, cabelos escorridos pelos rostos redondos, os seios quase em cone perfeito, iguais aos dela, despreocupadas e sentindo a água molhando as coxas. Izabel, nessa época, não sabia o quanto era deselegante e não tinha ainda reparado no corte grosseiro dos vestidos que usava. Depois é que foi descobrir o quanto eram loucas as suas colegas, que nem ao menos se preocupavam em escolher os vestidos, ou sabiam o que era um batom ou um xampu para os cabelos. A mãe estava sempre com uma grande blusa branca, encardida, os seios decrépitos em completa liberdade, e uma saia azul-marinho que descia indefinidamente até o meio das pernas cheias de cicatrizes. E o louco de seu pai passava o dia com um calção escuro balançando nas coxas magras e que nada escondia quando sentava ou ficava de cócoras. Era um bando de loucos, pensaria Izabel, muito tempo depois, aqueles homens acocorados em torno de uma cuia de álcool misturado com água, e que não mais falavam, nem mais se olhavam e que depois iam para suas redes porcas, ressonar pela noite adentro, uma fogueira largando fumaça para espantar os carapanãs. Por isso, na escola da Missão, Madre Lúcia, os olhos verdes como casca de tucumã, estaria sempre a dar-lhe cascudos com uma sineta e a chamá-la de menina louca. Izabel Pimentel subia nas goiabeiras e comungava com o estômago cheio todas as manhãs, o que era uma prova de loucura. Madre Lúcia se impacientava com ela, que nunca aprendia a soletrar, nem decorava as palavras em italiano do hino de Nossa Senhora Auxiliadora. Na sala de aula, Madre Lúcia chamava Izabel para o quadro-negro e se aborrecia quando notava que ela estava lambendo os dedos sujos de giz. Mas se Izabel era louca, Madre Lúcia devia ser muito mais, por enfrentar o calor do Uaupés com aquele hábito branco sempre muito limpo e engomado, por nunca tomar banho no rio nos fins de tarde, como fazia o Padre Andreotti, e por nunca ter beijado ninguém, mesmo tendo aqueles olhos verdes como casca de tucumã. Uma mulher nova como Madre Lúcia se consumindo em perseguir a loucura de Izabel, batendo-lhe com a sineta na cabeça só por ter ela perguntado se era bom beijar e se eram só os lábios que se tocavam num beijo.

E foram três anos na Missão, com aquelas revistas esfareladas que já não permitiam a contemplação do mistério do beijo e onde ela não podia ler as palavras de amor dos amantes, tudo como a escritura de Deus que marcava a sua vida.
Izabel Pimentel estava para tirar o curso primário quando duas coisas aconteceram. A primeira deixou Izabel indiferente, já que ela não tinha mais nada a ver com aquele defunto encarquilhado, rodeado de angélicas e quatro velas, deitado numa rede sempre suja e que recebia com um esgar vítreo nos olhos a oração e a fumaça do cigarro que o velho pajé baniwa expelia ao mesmo tempo. O velho Pedro estava morto, depois de uma série inútil de operações que lhe foram amputando, pedaço por pedaço, a perna direita. Um edema de bicho-de-pé inflamou e logo o Padre Andreotti, que tinha sido médico do exército italiano na Segunda Guerra Mundial, viu que se tratava de gangrena. Levou o velho Pedro Pimentel para o hospital de São Gabriel da Cachoeira e cortou, com a perícia de um médico combatente, aquela protuberância tumescente e pútrida; dava tapinhas animadores no ombro do paciente e recebia de volta uma voz envolvida num hálito de álcool com água que lhe dizia que de nada adiantaria o tratamento, que ele logo estaria morto e expulsando alguém da maloca dos mortos, doando assim ao rio Uaupés mais uma piraíba. O velho Pedro, apesar de católico, ainda acreditava que depois da morte ele seria obrigado a disputar um lugar na sempre apinhada maloca dos mortos, e que disso resultaria a expulsão de alguém que seria lançado ao rio Uaupés e transformado em piraíba. O velho Pedro não queria ir nem para o céu, nem para o inferno, nem mesmo para o purgatório, queria ir disputar uma vaga na maloca dos mortos, onde poderia continuar a beber quantas cuias de álcool com água quisesse. Uma semana foi suficiente para o velho Pedro conseguir o que queria, Izabel Pimentel foi levada até o Hospital de São Gabriel da Cachoeira e rezou, a contragosto, um rosário inteiro perante o defunto, acompanhada por Madre Lúcia. Sua mãe estava lá também, tagarelando com outras mulheres, fazendo contatos para ampliar sua venda de ovos frescos. A morte do velho Pedro, que tinha trinta e sete anos, em nada modificaria a vida de Izabel Pimentel, muito menos a vida de Maria Pimentel. A mãe de Izabel, que tinha também trinta e sete anos, não queria mais saber de casamento, pois acreditava que já tinha sido espancada o suficiente para ser considerada uma boa mulher tukano.
Izabel Pimentel também não estava pensando em se casar; seu maior interesse, naquele momento, era decidir sobre uma proposta recebida na escola, vinda da parte de Madre Lúcia. A proposta era uma loucura e isso a tornava ainda mais atraente. Madre Lúcia, que cuidava dos serviços de odontologia na Missão de São Miguel, havia dito para ela que seus dentes amarelados, em bom estado, mas desalinhados e pontudos, poderiam ser eliminados e no lugar colocado um par de próteses, com dentes brancos, brilhantes, perfeitos e esmaltados. Madre Lúcia havia dito que com isso ela podia ficar uma perfeita moça da cidade, com um sorriso parecido com os das moças das revistas de fotonovelas. Izabel Pimentel queria saber qual a sensação de um beijo com aqueles dentes maravilhosos e que ela poderia tirar e pôr a hora que bem entendesse. Ela poderia beijar com dentes, beijar sem dentes, e por isso estava achando aquilo uma loucura. Uma noite, Izabel decidiu ficar acordada ouvindo a saparia e folheando, na penumbra do luar que se filtrava para o dormitório das meninas, uma revista de fotonovelas. E todos os dentes lhe atraíam a atenção. Chegou à conclusão que só por loucura alguém podia chamar de dentes aquelas presas que ela tinha na boca. Na outra manhã, para alegria de Madre Lúcia, ela deu início ao processo de transformar sua boca de bugre em boca de gente. Cada dente extraído, daí para frente, era como se deixar levar mais uma vez pela exótica maneira de Deus riscar no mundo a sua sina. Mas o processo não era barato, não seria feito de graça. Madre Lúcia agora dava as tarefas mais duras na roça para Izabel Pimentel fazer. Todas as louças e panelas tinham de estar sempre imaculadas pela mão de Izabel Pimentel. O piso de cimento da Igreja lavado, a poeira dos livros dispersada e as roupas engomadas pela mão de Izabel, para que ela tivesse lindos dentes na caverna flácida em que sua boca se transformava. Izabel era uma menina dura quando perseguia algum desejo e agora, enquanto se ocupava dos muitos afazeres da Missão, divertia-se em cuspir no chão aquelas marcas de sangue que lhe deixavam um gosto salgado descendo pela garganta. Um dia, Izabel ouviu o Padre Andreotti discutir de maneira violenta com Madre Lúcia e chamar a freira de louca, de demente, de insana, por andar extraindo dentes sãos de suas alunas. Padre Andreotti chamava Madre Lúcia de todas aquelas palavras, com a voz machucando, e Izabel não conseguia compreender onde estava o mal em ser louca e em querer dar um sorriso de moça da cidade para uma menina de Iauareté-Cachoeira que tinha o sobrenome Pimentel. Isso não fazia nenhuma diferença para o Padre Andreotti, e Izabel, preparada, ficou de boca fechada e olhar de peixe morto quando Padre Andreotti a chamou, certa tarde, e a colocou sentada em seu colo, acariciou-lhe os cabelos e pediu-lhe que não fosse mais ao consultório de Madre Lúcia. Izabel ficou só sentindo o cheiro da batina e observando os dentes brancos do Padre Andreotti, sem se mexer ou ter qualquer outra reação, fingindo submissão. Izabel sabia que o Padre Andreotti também era um louco, não só pelo que lhe dizia naquele momento, como também pelas suas atitudes na Missão, carregando um gravador de pilha para todo lado e gravando os velhos cantos e as velhas histórias que os mesmos missionários haviam condenado como coisas do diabo e que não prestavam. Ela só lamentava que ele não fosse louco o suficiente para que ela lhe pedisse para dar-lhe um beijo. Padre Andreotti, como padre, não beijava como os mocinhos das fotonovelas, o que era uma loucura em se tratando de um homem tão bonito e que tinha vindo da Itália. Por isso, Izabel saiu do colo do Padre Andreotti como um xerimbabo ajeitando as penas amarrotadas pelos carinhos e prosseguiu o tratamento com Madre Lúcia.
Finalmente, no primeiro Natal em que a mãe de Izabel Pimentel passaria sem espancamentos, Madre Lúcia cometeu a suprema loucura de obrigar um C-47 inteiro da FAB a transportar de Manaus para Iauareté-Cachoeira um par de próteses dentárias para ela. As próteses chegaram embrulhadas em papel de chumbo e acondicionadas numa caixa de despertadores digitais, muito colorida, que Izabel Pimentel iria guardar por muito tempo, porque trazia uma bela ilustração colorida de uma moça japonesa deitada num campo de relva e que parecia estar despertando ao som de um relógio digital e mostrando belos dentes brancos. Na Missa do Galo, a boca de Izabel mostrou todo o seu potencial de encantamento, quando ela entrou na Igreja e os olhares das meninas convergiram invejosamente para seu sorriso. O Padre Andreotti, inconformado, pensaria em Izabel como um retrato falado malfeito, pois os dentes saltavam quase impudicamente do sorriso pré-colombiano da moça. Ele sabia que era uma loucura achar que duas próteses dentárias poderiam ser indecentes, mas a opinião, sem que ninguém ao menos comentasse, generalizou-se pela Missão, sobretudo no meio dos rapazes. Se as meninas de certo modo sonhavam com os dentes novos de Izabel Pimentel, os rapazes passavam a demonstrar uma evidente repulsa. E claro que nenhum moço de Iauareté-Cachoeira que honrasse o sobrenome Pimentel iria beijar dentes tão brancos e muito menos casar com uma boca que podia ficar vazia como a de uma velha a qualquer momento. Beijar aqueles dentes, pensavam os rapazes, seria como beijar Madre Lúcia, o que lhes parecia muito bom se a sensação de pecado não fosse tão terrível. Imediatamente Izabel Pimentel foi alijada do convívio de todas as famílias Pimentel, o que era uma inominável loucura. Por isso, Izabel Pimentel aceitou sem discutir o convite de Madre Lúcia para vir trabalhar no Colégio Salesiano de Manaus, onde um par de próteses não fazia nenhuma diferença. Quinze dias depois Izabel Pimentel embarcaria no C-47 da FAB, carregando um embrulho de roupas e um velho número de Capricho. Padre Andreotti foi especialmente a bordo do aparelho recomendar Izabel Pimentel ao comandante e, antes de desembarcar, já com os motores da aeronave em funcionamento, acariciaria os cabelos dela e diria com uma expressão contrariada que ela tomasse cuidado, que não se deixasse maltratar, que ela lembrasse que era uma moça e uma cidadã que tinha direitos, mesmo sendo filha do desaparecido Pedro Pimentel, um índio baniwa.

O outro cadáver

Alfredo Silva, vinte e cinco anos, corpo bem proporcionado para a pouca estatura, medroso e astuto, corajoso quando estava sozinho e infeliz por lhe terem arranjado o apelido de Catarro, estava morto e chegou a essa situação depois de compreender que tinham todos enlouquecido em Manaus. Catarro havia sido o último a ser localizado pelo cerco da Polícia, quando enchia a cara de cerveja num bilharito do Japiim. Ele tinha se levantado para dar uma mijada e estava andando, descendo o zíper da braguilha, na direção do terreno baldio que ficava aos fundos do bilharito, quando viu duas viaturas cinzas da PM estacionarem na esquina e de uma delas descer o Comissário Frota, o sacana que já o tinha pendurado tantas vezes no pau-de-arara e que gostava de colocar gelo em seu saco, mesmo quando ele já tinha dado o serviço. O Comissário Frota era um louco, pensava Catarro, um homem franzino mas muito aborrecido, impetuoso e cruel quando cercado de outros tiras e procedia a algum interrogatório, complacente quando aparecia algum advogado ou quando era obrigado a se envolver em problemas com filhos de família. Mas nos encontros do Comissário Frota e Catarro, o desgraçado do tira sempre tinha sido inflexível ao absoluto. O Comissário Frota chegara à conclusão, tirada do fundo de sua experiência policial, que poderia solucionar todos os problemas de latrocínio em Manaus pela prisão e muita porrada no lombo de Catarro. E essa certeza já estava ficando incômoda para Catarro, porque não havia crime ou assalto que acontecesse na cidade que ele não fosse imediatamente capturado, seviciado e, sem mais outras explicações, libertado, porque o Comissário Frota era incapaz de resolver o menor problema de roubo de galinhas. Até o apelido de Catarro, que tanto o irritava, tinha sido consagrado pelo Comissário Frota nas diversas entrevistas que ele dava diariamente à imprensa. E na loucura da Zona Franca, a única editoria de jornal que realmente funcionava era a editoria de polícia. Catarro tinha se transformado numa celebridade – embora não merecesse a fama – ao exercer o direito de roubar, como batedor de carteiras no Estádio Vivaldo Lima, o porta-cédulas de um Núncio Apostólico todo paramentado, durante uma cerimônia do Congresso Eucarístico de Manaus. Flagrado por um nervoso diácono, teve a sua intenção frustrada e acabou preso. Disse aos jornalistas que fizera aquilo pensando que o Núncio fosse o Papa, homem poderoso e que sabia ser muito rico, pois era proprietário de todas as igrejas e faturava com tudo quanto era batizado, casamento e novena. Tinha sido a maior loucura de Catarro, já que o Papa não costumava andar pelo Estádio Vivaldo Lima, muito menos com um porta-cédula de plástico recheado por vinte notas de um cruzeiro. Catarro foi perdoado pelo Núncio, um homem muito bom, que foi pessoalmente na delegacia confirmar o roubo e perdoá-lo, dizendo que um moço sadio como Catarro não devia andar furtando porta-cédulas de um Núncio Apostólico pensando que fosse o Papa. O Núncio deixou Catarro na cadeia por vinte e quatro horas e ofereceu o dinheiro de presente, para que ele começasse uma nova vida quando saísse. Catarro ficou ofendido com aquilo e jurou nunca mais roubar outro Núncio Apostólico pensando que fosse o Papa. Afinal, ele não era nenhum mendigo para sair da cadeia feito um louco com um bolo de vinte cruzeiros em notas de um. O certo é que Catarro virou celebridade e saiu até numa coluna da revista Veja com um texto humorístico, embora ele jamais tenha tomado conhecimento do fato.
Catarro viu o Comissário Frota descer da viatura e gritar para que ele ficasse de mãos para cima e não fizesse nenhum movimento. Catarro não era louco para obedecer a uma ordem dessas e baixou as mãos para fechar o zíper que estava aberto e sentiu que, apesar da urgência, ia ter que dar a sua mijada depois, em algum lugar mais seguro. Os homens que estavam bebendo cerveja com ele no bilharito se jogaram no chão e Catarro ouviu tiros espoucarem em sua direção, exatamente quando ele desembestava rumo a uma cacimba, onde duas velhas estavam lavando roupas e começaram a gritar apavoradas. Catarro saiu se atolando numa vala e notou que a sua calça Levi’s, cor de vinho, estava toda emporcalhada. Catarro não gostava de andar emporcalhado e ficou ainda com mais raiva do Comissário Frota.
Duas horas depois, Catarro estaria morto sem ter conseguido ao menos aliviar a bexiga em paz. Por isso, seu corpo foi encontrado sentado quase de lado contra um canto da cozinha, no meio de uma poça de sangue e urina. Antes de varar os quintais e chegar na casa onde vivia com sua amante, que a imprensa chamava de Índia Potira, Diacuí ou Izabel Pirada, e mais dois sócios, o Bacurau, que era um hábil rato d’água na rampa dos Remédios, e Buraco ou Miss Zona, uma bicha que fazia assaltos a motoristas de táxi, Catarro receberia uma primeira bala de fuzil, que lhe arrebentaria parcialmente a coxa esquerda. Ele não sabia que Bacurau e Miss Zona já estavam presos e que a Índia Potira tivera o corpo furado de balas e estava atravessada, morta, no meio do quarto, vestindo apenas a calcinha cor de limão que ele tinha dado e que ficava tão bem nela.
Catarro também não tinha tomado conhecimento de que a PM e a Polícia, com quase cem homens, desenvolviam a gigantesca Operação Grande Zona, mantendo o bairro do Japiim completamente cercado e vasculhado. Os meganhas e os tiras estavam há quarenta e oito horas enlouquecendo de curiosidade os moradores do bairro, que não deixavam ninguém trabalhar em paz, atravessando no meio das manobras, no meio das escaramuças, como se a Operação Grande Zona fosse uma festa folclórica ou lá o que diabo fosse. A Operação Grande Zona era o mais recente trunfo do Comissário Frota. Tinha convencido o Secretário de Segurança a autorizar um batalhão da PM a cercar o bairro do Japiim, pois tinha tido um sonho onde ele via, lá no meio dos barracos de madeira e palha, os facínoras que tinham cometido o assalto ao carro pagador da Indústria de Rádios Isagawa do Amazonas e assassinado à queima-roupa o humilde chofer do carro, um rapaz de Três Corações, da mesma terra de Pelé, e que tinha, num acesso de loucura, vindo para Manaus ajudar com seu trabalho o progresso da Zona Franca. Tinha sido um crime bárbaro e o vigésimo assalto com vítima fatal em menos de uma semana, o que deixava a população sobressaltada e a polícia em apuros. E claro que nem Catarro, nem a Índia Potira, nem Bacurau e Miss Zona estavam implicados no assalto ao carro pagador da Isagawa. Disso ninguém tinha a menor dúvida, nem mesmo o Comissário Frota. Mas numa cidade onde, proporcionalmente, se cometiam mais assaltos que em Nova Iorque e só pela loucura da Zona Franca seus habitantes ainda teimavam em chamá-la de cidade pacata, uma boa demonstração de força e muitos homens em ação ajudariam a tranqüilizar a população e até poderiam lhe trazer alguma boa promoção por parte do governo. A Operação Grande Zona era, portanto, um acontecimento simbólico. O Comissário Frota elevava o trabalho policial quase à metafísica com variações de dramaturgia trágica. O Comissário Frota tinha sido um louco em não ter pensado em algo assim antes, sobretudo quando alguns ladrões tinham cometido a suprema ousadia de arrombar a própria casa do Secretário de Segurança, de onde levaram jóias, dinheiro, uma televisão colorida e um aparelho de som de 120 watts de saída.
Antes de ter o nome incolor de Alfredo Silva trocado pelo sonoro apelido de Catarro, até que ele era um bom rapaz, que usava um par de botas negras, uma calça Levi’s cor de vinho, camisa colorida de Hong Kong e óculos escuros. Em todo o bairro do Japiim, onde sempre viveu desde que chegou a Manaus, era o único rapaz que usava botas e óculos escuros. Que soubesse, era realmente o único e para ele isso era ao mesmo tempo o máximo de integração aos costumes da capital e uma expressão de virilidade. Achava que para seu patrão, um major reformado do exército que gerenciava uma Empresa de Segurança ao Patrimônio e oferecia guardas para bancos e mansões, as botas e os óculos escuros estavam perfeitamente aprovados pelo ar vaidoso e petulante que ele adquiria. Embora o major sempre tivesse a cara amarrotada de ressaca, era como descobrir, no fundo daquela expressão de dor de cabeça crônica, a aptidão que ele tinha para usar botas e óculos escuros. Mesmo assim, foi um dia posto na rua, com botas e óculos escuros, porque dormira no serviço e tinha deixado que arrombassem o Opala Caravan do chinês proprietário da loja importadora, onde estava dando guarda todas as noites. Ele ficou muito aborrecido pela injustiça, não tanto pelos caraminguás que ganhava de salário para não pregar os olhos a noite toda, com o ouvido colado num radinho de pilha ouvindo um programa de músicas do tipo arranca-lágrimas-de-puta e muita baboseira do locutor, mas por ter perdido o direito de portar o revólver Taurus calibre 38 que costumava girar nos dedos para os amigos que bebiam cerveja na mesa do bilharito. Sentiu também que sem a farda azul-claro, com divisas nos ombros, o quepe de napa mole, perdia o status de homem da lei que tanto fascinava as meninas da sessão da meia-noite no Cine Guarany, com os filmes de caratê e chineses franzinos que faziam o diabo. Fardado, também podia fazer o diabo com as meninas, e foi no meio de um filme de caratê que ele conheceu uma mulherzinha de cabelos corridos e com um par de dentaduras magníficas.
Era uma dona completamente louca e sempre andava repetindo que Deus escrevia certo por linhas tortas, mesmo quando se metia numa encrenca na boate O Selvagem, o mais animado e turbulento dos prostíbulos e santuário máximo da vida noturna da Zona Franca das Cem Mil Putas. Ela parecia louca mesmo e acabou fazendo dele o seu xodó. Era meio desmiolada e gostava de beijos, se bem que nunca tivesse sido beijada na vida. Ninguém queria beijar uma marafona, ainda mais uma marafona que usava dentaduras. A primeira vez que ele se irritou a sério, foi justamente pelos pedidos de beijos que ela fazia e que ele recusava dizendo que não era nenhum louco para andar beijando vagabundas desdentadas. A coisa tinha sido muito séria, ele tinha descido verdadeiramente a lenha nela, e só não tinha desancado a mulher de uma vez porque os vizinhos da estância vieram em socorro e desapartaram. Na verdade, essa história de encher a cara dela de porrada tinha virado uma mania, e ela parecia gostar muito. No puteiro O Selvagem todo mundo a conhecia pelo apelido de Índia Potira e diziam que era realmente uma índia. Seus amigos de cerveja no bilharito começavam a sacanear, dizendo que ele tinha virado funcionário da Funai, mas ele não deu muita importância, pois não tinha a menor idéia do que fosse ser funcionário da Funai.
A Índia Potira tinha fugido do Colégio Salesiano e conseguira um emprego de operária num dos turnos da fábrica de fitas cassete Sayonara Eletrônica. Um emprego que lhe arrasava totalmente a disposição. Era uma loucura para a Índia Potira, com sua dentadura, passar oito horas num cubículo iluminado a neon, com dois ventiladores que soltavam ar quente, entre divisões de grades de arame, soldando intermináveis transistores em circuitos impressos, ou adicionando pinos de plástico em envoltórios para fita cassete. No fim do turno, todas as funcionárias passavam pelo setor de segurança, onde eram vistoriadas pelos guardas para ver se não estavam roubando nada. A Índia Potira não gostava nada de ter as mãos nojentas de um guarda qualquer apalpando o seu traseiro todos os dias, só para saber se ela não teria enfiado algum transistor no rabo. Acabou comprando um vestido de brocado japonês, bem curtinho, e freqüentando a boate O Selvagem, seguindo o convite de um chofer de táxi, seu primeiro cliente e que lhe deixou uma boa grana. A Índia Potira achou que seria uma loucura se voltasse a trabalhar na fábrica Sayonara Eletrônica, onde ganhava uma mixaria por mês e uma dedada por dia, quando numa só noite e em cada dedada ela podia faturar dez vezes o maldito salário que aqueles filhos da puta pagavam. Foi quando encontrou o Catarro, que já conquistara celebridade por ter roubado a carteira do Núncio Apostólico e estava trabalhando na fiscalização dos pivetes que ficavam na rua Guilherme Moreira oferecendo fitas de vídeo de sacanagem, canetas Cross falsificadas e pomadinha para passar no cacete, aos turistas que perambulavam pelas lojas de importados.
Catarro estava prosperando no negócio da Zona Franca, lucrando muito com a venda de canetas, de pomada afrodisíaca que era Vick Vaporub e muito mais nos vídeos, que não passavam de um pedaço de madeira coberto por uma embalagem de papelão onde estavam coladas fotos de revistas pornográficas. Catarro comprava a pomadinha a dez merrecas nos navios e revendia a oitenta. Um vídeo pornográfico de mentira custava até trezentos cruzeiros e não era raro um turista cair na arapuca e esconder apreensivo a embalagem comprometedora na bolsa Sansonite que acabara de comprar. A Índia Potira achava Catarro um cara muito vivo e não entendia por que ele cultivava a loucura de não querer beijá-la. Catarro não tinha tido a mesma sorte dela quando veio para Manaus. Era até um cara legal, que havia lhe dado uma calcinha cor de limão e deixava que ela ficasse em casa bem à vontade, mesmo quando Bacurau e Miss Zona estavam lá e olhavam para a sua calcinha cor de limão e para os peitinhos em forma de cone.
Catarro veio para Manaus porque não tinha mais saco de passar as noites acordado, com um terçado numa das mãos e um candeeiro de querosene na outra, vigiando a maromba das galinhas para que nenhuma sucuriju, malditas cobras que nadavam com incrível agilidade não viessem durante a noite, em silêncio, provocar baixas na criação de seu pai. Todos os anos era isso, na palafita de seu pai bem na margem do furo do Cambixe, a algumas horas de motor de recreio de Manaus. Todos os anos o rio começava a encher e invadia tudo e eles eram obrigados a ir suspendendo o piso da casa e pondo os bichos em marombas para que não morressem afogados, nem as piranhas, poraquês e sucurijus viessem matá-los. Seu pai achava tudo muito natural e não perdia nunca a paciência, achava mesmo uma loucura que aqueles assistentes sociais viessem todos os anos com a mão na cabeça, querendo dar injeção, querendo dar dinheiro que ele não recusava e tentando convencê-lo de que deveria colocar a sua casa em terra firme, onde seria um absurdo morar. Catarro tinha dado duro na rampa do Mercado carregando banana e depois, no Ceasa, empilhando caixas de laranjas, até comprar um par de botas negras, óculos escuros e uma calça Levi’s cor de vinho. Mas nada se comparava com a delícia de se sentar numa mesa de bilharito do bairro do Japiim, beber cerveja e ouvir uma música de zona. E se Deus realmente escrevia alguma coisa, como vivia repetindo a Índia Potira, era na mesa daquele bilharito que Ele fazia as suas mais inspiradas linhas, ainda que tortas.
O Comissário Frota estava com o paletó aberto e a gravata italiana convenientemente frouxa e arriada sobre a camisa desabotoada que deixava um tufo de pêlos à vista, tudo para mostrar aos repórteres o quanto ele estava exausto depois de quarenta e oito horas de vitoriosa operação. Os repórteres não davam a mínima importância para o tufo de cabelos do peito dele, nem para seu cansaço, o que era uma ingratidão da parte deles, pensava o Comissário. Mas ele tinha certeza de que os repórteres saberiam cumprir a parte que lhes tocava e que os jornais contariam, com os seus estilos parecidos, o sucesso da Polícia. Um repórter amigo se aproximou e tocou em seu ombro, mas logo retirou a mão ao sentir com um certo nojo mal disfarçado que a camisa do policial estava encharcada de suor. O repórter tinha um bloco de notas em branco na mão e ficou comentando que era uma loucura a maneira de Catarro morrer, numa poça de urina e sangue. E lembrou que a Índia Potira tinha um par de seios em forma de cone, e que também era outra loucura ela estar ali só de calcinha cor de limão, furada de balas. O Comissário Frota estava certo de que operações como aquela poderiam bem ser repetidas uma vez por ano, para dar um pouco de movimento à rotina da Polícia. O repórter parecia um índio desenhado a crayon, a boca sarcástica e os olhos amarelos sem nenhuma esperança de inteligência. Era o repórter policial mais brilhante de Manaus e escrevia verdadeiros editoriais na página de polícia, lamentando a falta de meios com que os policiais trabalhavam e a benevolência com que a Justiça parecia aquinhoar os meliantes, liberando ladrões e assassinos por meio de abomináveis habeas corpus. Quem lia aqueles artigos ficava pensando que o autor era um cara que gostava de brigar e que por isso mesmo era um rematado idiota. O Comissário Frota se esforçava para ganhar uma expressão horrível de cansaço, mas ficava cada vez melhor e mais saudável, o suor secando com a brisa que sacudia o mamoeiro onde um praça da PM estava tentando derrubar um mamão maduro todo picado pelos sanhaçus. O repórter queria saber se os bandidos não teriam alguma ligação com o narcotráfico e ouviu o Comissário Frota resmungar, contrariado, que eram dois cretinos que nunca seriam aceitos nem mesmo como mulas pelo mais idiota dos colombianos.
O Comissário Frota passou o lenço pelo pescoço, que já estava totalmente enxuto, sentiu naquele momento que era o homem mais virtuoso que existia. Sentia uma virtude tão grande que era uma abominação alguém se sentir assim. Era como uma vontade de querer arrotar e não poder, por isso foi saindo enquanto os flashes dos fotógrafos piscavam lá no quarto. O Comissário Frota pensou o quanto era louco o fato da Índia Potira possuir um par de seios em forma de cone e usar dentaduras, para não falar da calcinha cor de limão toda rendada.
Catarro nem sentiu a bala do fuzil arrancar a carne de sua coxa esquerda, pensou que fosse algum capim-serra que tivesse arranhado a sua calça cor de vinho e nem olhou para não ver a bainha larga emporcalhada de lama. Ele queria chegar até em casa e pegar a Índia Potira, sem saber bem por que fazia isso. Tentou subir num único salto a pequena escada dos fundos e sentiu pontadas nas costas que aumentaram a vontade de mijar. Sentiu sede e entrou na cozinha procurando o pote e pensou que era uma loucura a Índia Potira andar dizendo que Deus escrevia certo por linhas tortas. Ela dizia umas coisas engraçadas, típicas de uma louca, como naquela vez em que ele saiu todo esborrachado da Central de Polícia e ela cuidou dele, colocando arnica nas pancadas e dizendo que ele não devia deixar que os tiras o maltratassem, que ele era um cara que tinha direitos, um cidadão, mesmo sendo filho de um ribeirinho que via a sua casa alagada todos os anos. Ele não tinha conseguido sacar absolutamente nada do que a Índia Potira queria dizer com aquilo e achou que ela falara por falar.
Catarro sentou-se no canto da cozinha, o corpo pendeu para o lado e ele pensou que estava muito cansado. Sentiu que não mais conseguia prender a urina e deixou que ela escorresse pela calça com volúpia, sentiu a perna ardendo, as costas ardendo e estava suando muito. Deixou que um pensamento entrasse em sua cabeça: pensou que a Índia Potira era uma dona muito louca, e que se Deus escrevia tudo aquilo, não era só o caso de escrever por linhas tortas, é que Ele tinha certamente uma péssima caligrafia.

(A Caligrafia de Deus)

 
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