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Às
Dez horas de uma noite triste
NÃO TE DEMORES MEU BEM!...
Minhas mãos ainda estão trêmulas
das carícias que te deram...
Ainda se estendem quentes, delirantes,
ainda se crispam dos anseios que tiveram
ao maltratar-te a pele...
Chamam-te ainda nervosas, implorantes
mas, já não estás comigo,
lembro triste,
faz apenas meia hora que partiste...
NÃO TE DEMORES, MEU BEM!...
Meus lábios permanecem entreabertos,
como se ainda esmagados contra os teus,
bebessem teu sangue nos desertos.
Ainda estão úmidos e sentem o jogo intenso
que tua boca transportada de desejo,
derramou na avidez de um infindo beijo...
Mas já não estás comigo,
lembro triste,
faz apenas meia hora que partiste...
NÃO TE DEMORES MEU BEM!...
Meu corpo ainda está como o deixaste,
morno... todo marcado da volúpia
com que o amaste...
No entanto, ainda deseja como um louco
languidamente entregar-se, e pouco a pouco,
matar a sede deste amor que não mataste!
Mas, já não estás comigo,
lembro triste,
faz apenas meia hora que partiste!...
(De Todos os crepúsculos)
A
Procissão do tempo
A procissão do tempo passa, triste,
silenciosa, calma, inacabável.
Das horas o cortejo interminável,
se arrasta para o que não existe.
Por que o caminhar já não desiste
o Amanhã eterno, inatingível?
Que glórias, que prazer inteligível,
que força, os seus clarões impele e assiste?
E a procissão minha caminha sem cessar...
Dias exaustos, Horas tão cansadas,
pelos Minutos e Segundos amparadas
seguem o trajeto sem poder parar.
A que este infortúnio comparar?
O fim que alcança no princípio está,
se começa, jamais acabará!
Será eterno, ou longo caminhar?
E,
já cansados desta sucessão,
soluçam os Dias e esbravejam tanto,
que a Natureza se desfaz em pranto
e acompanha a peregrinação.
Mas não suporta tanta provação:
Ela é perfeita! E a trajetória imensa,
embotaria a sua beleza intensa.
Desiste. Fica. E os dias lá se vão...
E
passam meses e anos rastejantes
que o tempo louco a persistir obriga,
e já demente, sem querer, castiga
a humanidade com seus pés errantes.
Calça-lhe os sonhos, corta-lhe os instantes,
tudo devasta em seu grande furor,
arrasta ânsias, leva-lhe o amor.
no desfilar das procissões clamantes...
A humanidade toda já só pranto
tenta deter a marcha incontrolável,
ousa enganar o tempo inabalável,
que lhe empalida as faces e extingue o encanto.
Mas, na tremenda luta ela esmorece tanto
que morre. E os dias continuam indo,
os amanhãs eternos vão surgindo
cobrindo, o Ontem, com seu negro manto.
Nada
mais fica... Tudo se esgotando...
Dias iguais vão se sucedendo,
o que tem vida está sempre morrendo,
e o que está morto, em pó se transformando.
O mundo inteiro o tempo vai levando!...
Aonde irá? Para onde se dirige?
É a pergunta que hoje nos aflige
enquanto imperturbável o Tempo vai passando!...
(Ibidem)