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É
No sonho do meu avô
tem uma cobra-grande
Meu
avô, que tinha cara de índio, o cabelo escrupulosamente
penteado para trás, um nariz grande deixado como herança
para todos os seus descendentes e uma coragem mensurável
e atilada, navegou por todos os rios da enorme bacia amazônica,
conhecendo lagos ainda não catalogados pelos satélites
estrangeiros, paranás de repiquete de fina lâmina
d’água que somente se deixava singrar por barcos
de bom comando e sobrevivendo a aventuras homéricas de
naufrágios verossímeis e encontros mitológicos.
Escapou incólume de dois afundamentos e de um encontro
pavoroso com a cobra-grande, sendo esta última aventura
a que o marcou para sempre: embranqueceu seus cabelos de terror
e deixou seus olhos lacrimejantes até o dia quando fez
sua última viagem.
No dia em que foi a pique pela primeira vez, a bordo de um gaiola
que ia de Silves para Manaus, ainda não era de longe nem
sombra do comandante legendário dos beiradões perdidos,
nem tinha os olhos de navegante fluvial, mas já conservava
o cabelo em plena forma para desafiar qualquer espelho.
Seu primeiro naufrágio se deu em um dia de sol perverso
e um céu sem nuvens, naquele princípio de tarde
quando deixou as águas tranqüilas do Paraná
de Itapiranga e navegava por outras mais furiosas do Rio Amazonas;
logo no primeiro balanço seu pressentimento não
foi dos mais serenos, pois seu estômago começou a
embrulhar e uma azia agourenta queimou com ácido o peito
despojado de glórias de sua juventude interiorana. Navegou
somente poucas horas e um banzeiro indescritível emborcou
a lancha várias vezes e misturou lamento com toda a qualidade
de carga, e logo se formou a confusão de gritos e choros
e a Ilha Panumã viu a embarcação que trazia
meu avô ser engolida com voracidade pelas águas barrentas
do grande rio.
Estava próximo da beira, como navega qualquer comandante
prudente, mas as correntezas enlouquecidas e os redemoinhos desvairados
arrastaram meu avô para o meio do rio e ele já nadava
sem rumo e sem esperança quando foi salvo por um cardume
de botos-tucuxis, que o arrastou até as praias efêmeras
da ilha onde descansou algumas semanas se alimentando de peixe
cru e raízes fortificantes, e quando se sentiu ressuscitado
novamente atravessou a nado a correnteza tenebrosa e em dois dias
chegou à outra margem onde fez amizades e conseguiu embarcar
outra vez, morrendo de medo de sua sorte, mas em seu interior
brilhava uma certeza de que quando a morte lhe viesse visitar
este momento seria fascinante.
Este mau bocado o desestimulou por alguns anos de outros rios,
porém, contrariando seus presságios, e pela necessidade
de se locomover através da única alternativa de
transporte da região, embarcou outra vez num motor de grande
calado, se despediu dos seus irmãos e amigos e somente
voltou a este porto muitos anos depois, com família constituída,
um barco próprio de bandeira argonáutica e o epíteto
decisivo e glorioso de comandante Garcia.
Havia navegado por todos os rios do vale, comido todos os tipos
de peixes e as mais misteriosas farinhas, aprendido a distinguir
o doce sabor de cada nascente, tinha passado por tantos encontros
de águas que nenhum mais o surpreendia e vivido tantas
aventuras que nenhuma mais o emocionava. Mas em seu destino estava
escrito mais um naufrágio e um encontro espetacular, e
o naufrágio ele viveu logo, enquanto ainda tinha forças
para tal empreitada. Foi na costa da Terra-Nova, e com um agravante:
estava em plena época da cheia, o que sempre dificulta
as coisas; seu barco simplesmente desapareceu de seu comando,
e ele se viu sozinho, sem convés e sem timão, sem
o seu chapéu de comandante, sem suas dragonas de enfeite
e com o cabelo embaraçado pela água barrenta do
rio que o surpreendeu em pleno sono.
Era uma noite de poucas estrelas. Meu avô, ensopado até
os ossos, não entrou em desespero como seria normal, mas
se tornou tranqüilo, o que não se esperava de seu
temperamento de precavido, deixou apenas o corpo flutuando, esperando
pelo segundo milagre da salvação dos botos, mas
estes deviam estar com outras ocupações, pois não
apareceu nenhum, então só lhe restou a solução
de se agarrar a uma moita de canarana, resíduo de alguma
terra caída, e se deitou em seu pasto, e adormeceu sereno
para retornar ao mesmo sonho do momento da interrupção
da viagem. Acordou com o sol inteiro brilhando em seu rosto e
não viu terra por nenhum lado, mas percebeu que o manto
de vegetação flutuante e à deriva era tão
compacto que lhe permitia ficar de pé, uma verdadeira ilha
vegetal, e percebeu também ela girar em um enorme redemoinho,
desses formados no meio do rio e aprisionando tudo em seu ralo
de enchente.
Muitos dias já haviam passado sem meu avô ter a oportunidade
de escapar do carrossel alucinado, e o enjôo estava tornando
sua cabeça um vazio de idéias quando um tronco monumental
foi expelido da garganta do redemoinho que se recusava engolir
uma árvore indigesta, e meu avô, no seu momento de
maior audácia, se atirou na água e se agarrou a
este tronco como quem se agarra à última esperança,
e foi dando rumo a este, com sua experiência de comandante,
auxiliado por um ramo improvisado de remo, que ele conseguiu escapar
são e salvo do martírio de vagar em voltas onde
seu destino de bravura estava começando a ceder à
caprichosa paciência da boca gigantesca do rio.
Mas meu avô não estava com a estrela de sua sorte
em boa fase, porque ainda teve de navegar durante mais de dois
meses em busca de terra onde pudesse firmar o pé, e durante
este período travou uma luta feroz contra a adversidade,
tendo de destroçar muita cabeça de piraíba
para se manter vivo, e sempre quando avistava terra se sentia
logrado pela miragem de se ver afastado da terra firme, pois todas
as margens viravam ilusão ante a poderosa correnteza que
as arrastavam para outras costas, e com a enchente assolando a
bacia tudo virava terra caída; porém, com a volta
da vazante indolente as praias se tornaram sólidas novamente
e meu avô desembarcou de seu tronco sem bandeira, apesar
de seu estado de náufrago, em pleno porto de Manaus, com
pompa e banda de música. Estava sendo reconhecida a legendária
saga de navegante de todos os seus descendentes.
Outra vez meu avô navegava pelo grande lago Canaçari,
este lago que representa muito bem o sentido de grandeza amazônica,
numa madrugada deslumbrante, com o luar reverberando o infinito
e as águas singradas com impavidez, tendo sua tripulação
reduzida a seu comandante, meu avô, e seu fiel imediato,
maquinista, limpador de convés e conselheiro de coisas
incríveis: Caxilé, homem formado nos mistérios
dos rios, acostumado a ver coisas capazes de pôr dúvida
em assombração e contador de histórias de
interior dessas de assustar o sono. Os dois já navegavam
há algumas horas, tomando café e sentindo a brisa
fluvial ante o avanço da embarcação quando
uma luz mais intensa e cortante despertou os dois desse estado
absorto de contemplação noturna, e foram ficando
encandeados e eufóricos pela beleza fúlgida de tanto
brilho, tantos reflexos cintilantes e tantas tonalidades variadas,
e pasmados de emoção mudaram o rumo de sua nave
numa fototaxia temerária e repleta de curiosidade para
desvendar o mistério do enorme objeto luminoso, e só
se deram conta de que estavam sendo atraídos pela cobra-grande,
assim como as espécies de menor porte atraem os passarinhos,
quando puderam enfim olhar os enormes olhos da monstra, e esta
visão os arremessou com crueza para a realidade terrível
que nenhum dos dois queria viver.
A cobra, que permanecera estática como uma cobra preparando
o bote, começou a dar voltas em torno da minúscula
embarcação, como se lhe pertencesse, como se fosse
um brinquedo passível de ser destroçado a qualquer
mudança de seu humor de víbora, fazendo banzeiros
atordoantes e deixando meu avô sem pernas para mais nada.
Por fim, quando se refez do primeiro impacto do assombro, quando
novamente seu cérebro se descarregou de tanto pavor que
o impedia de pensar, quando começou a imaginar atitudes
para se safar de tal desgraça, sua primeira reação
foi procurar um terço perdido entre outros trastes e rezar
inteiro, numa rapidez de vida ou morte, sem costume e sem sabê-lo.
Mas a cobra estava para brincadeiras, pois continuou dando voltas
e mergulhando e boiando e dando tempo para meu avô escutar
os conselhos sábios de Caxilé, para que queimasse
palha benta para escapar dos azares de uma morte perversa, e atirasse
n’água o jabuti que trazia para nós, os netos,
porque este bicho não era tido como bom mascote para navegantes
em perigo, e jogasse fora a água do pote porque água
presa servia para aprisionar os terrores onde estes se encontravam,
e por fim teve de amarrar uma imagem de São Francisco de
Assis, nomeado na ausência de outro e na maior urgência
o protetor dos navegantes, para que ele desse o jeito de salvá-los
sob pena de passar o resto de sua vida eterna amarrado da cabeça
aos pés no fundo do lago oceânico.
A cobra passou ainda umas boas horas em seu divertimento macabro,
brincando de monstro com meu avô e Caxilé, que neste
momento já haviam esgotado todas as orações
escondidas nos baús de suas recordações infantis
e queimado também a imaginação de tanto criar
outras novas, mais desesperadas e humilhantes. Mas ela se mostrava
irredutível, lançando sempre os olhos de demônio
parecidos com o próprio inferno no reflexo da lua, sendo
esses olhos o motivo maior da insônia que perseguiu meu
avô durante muitas outras noites.
Entretanto, apesar de todo o medo, de tantos relatos aterrorizantes
dos muitos que cruzaram seus destinos com os caminhos da cobra-grande,
apesar de todo o pavor de cagar as calças e de tantos pesadelos
nas noites seguintes, nunca se soube de nenhum desgraçado
o suficiente para se tornar presa das garras sepulcrais e demoníacas
da monstra, nem de outro corajoso que tenha feito dois encontros
com ela. E como não seria meu avô o primeiro a sê-lo,
mais uma vez escapou são e salvo de outra comprovação
de seu destino de herói. Porque depois de se enjoar de
apavorar a tripulação do barco aprisionado pela
curiosidade, a cobra-grande suspirou um enorme chiado e desapareceu
nas águas do lago clareado pelo sol nascente.
Mau avô e seu ajudante, assombrados e indefesos como dois
recém-nascidos, retornaram para Silves com o olhar perplexo
dos ressuscitados. Desembarcaram como zumbis, com uma demência
não muito correta para aquela hora da manhã, pois
o estado de bêbados matinais que apresentavam não
correspondia com o decoro de um grande comandante como ensinava
a lenda de meu avô. Ele se dirigiu a sua casa cambaleante
e irreal, entrou assombrado, varando da sala ao quarto de dormir
no final do corredor, e sentado na cama, em frente ao espelho,
viu sua fisionomia mudar radicalmente: seu cabelo embranqueceu
no mesmo instante em que seus olhos se afogaram em lágrimas
para sempre, e dormiu uma semana inteira, sobressaltado e convulsivo,
queimando como uma fogueira de uma febre ilógica.
No outro lado da cidade estava Caxilé padecendo dos mesmos
sintomas, mas agarrado a uma insônia que perdurou toda sua
vida, a partir de então vivida embaixo da cama, arredio
e solitário, com um medo desumano de dormir para não
sonhar com a cobra-grande. Sumiu da vista da cidade e somente
era visto pela janela, religiosamente, duas vezes por ano, quando
deixava o exílio da loucura para cumprir a promessa feita
no momento da tortura da visão sinistra, de assistir todo
ano, como um pedestal de fé, à passagem das procissões
do Divino e de Nossa Senhora da Conceição.
Quando meu avô acordou do seu sono de tristezas, reuniu
sua mulher com os filhos e os netos e nos contou a história
vivida por ele, com todos os detalhes de horrores, e muitos de
nós ainda o escutamos meio céticos pelo fato de
acreditarmos bem pouco nas histórias de navegantes, mas
nossas dúvidas foram se dissipando durante as noites quando
vivíamos com o espanto noturno de meu avô, acordando
no meio da madrugada, implorando em orações desesperadas
para se apagar a pira incandescente do olhar da cobra que estava
ofuscando a paz do seu sono.
Os anos seguintes foram para meu avô uma agonia sem sossego,
pois até que pudesse voltar a dormir por inteiro teve de
fazer muita infusão com quase toda a flora mágica
da floresta, queimar muita trança de alho para restabelecer
a paz do espírito assustado, beber muito chá de
capeba para acalmar os nervos expostos pelo terror vivido, se
banhar num caldo de mururacá, cipó-alho e cravinho
para lavar os maus sonhos para sempre de sua cabeça, e
muitos outros remédios e simpatias que lhe ensinavam os
mais aprofundados nos conhecimentos das doenças espirituais,
e por fim, meu avô teve de queimar os próprios pentelhos
para ter uma trégua com seus pesadelos maléficos.
Muitos anos depois ficou restabelecido de uma vez por todas de
todos os presságios e medos recônditos. Voltou a
viajar novamente e ensinava para os netos a difícil arte
de navegar, para podermos seguir nossos destinos de rio, sem os
percalços das corredeiras incertas e das correntezas contrárias,
que tanto haviam atrasado seu caminho de glória, infundindo
em nós uma coragem gigantesca que nunca teve para si próprio
e uma abnegação para seguir viagem que transbordava
de seu calado de comandante velho. Nunca mais quis relatar a ninguém
suas aventuras insólitas ou seu encontro mitológico
com a cobra-grande, pois para todos dizia ter apagado da memória
como uma fogueira se apaga após queimar toda a lenha.
Mas numa tarde de sol igual ao de seu primeiro naufrágio,
quando mal havia despertado de um cochilo tranqüilo feito
para descansar do almoço, olhou pela janela e se viu cara
a cara com seu destino, pois no quintal frondoso de mangueira
e laranjeira estava a cobra-grande, mas desta vez sorria um riso
sem peçonha e seu olhar era alegre e domesticado, e meu
avô se encheu da certeza de ser capaz de comandar aquela
coisa irreal da mesma forma como havia comandado muitas embarcações
agredidas por temporais sem praias, e foi o que fez com certeza,
pois a cobra abaixou a cabeça obedecendo a uma ordem imperativa
de meu avô, vestido com o mais autoritário branco
de seu uniforme de comandante fluvial aposentado. Montou na crista
da mitologia com toda a pompa de uma abordagem e seguiu o rumo
coerente e previsível do grande lago Canaçari, navegando
feliz em sua última viagem até se perder no horizonte
infinito de água rasa, com seu cabelo branco, porém,
penteado como numa fotografia, velhinho velhinho, e com uma lágrima
eterna nos olhos de como quem vai viver ainda por muitos anos.
(Água
de afluente)
Navegar
é como superar
barreiras intransponíveis
O
barco era a coisa mais linda já vista por Mário,
com sua proa altiva e determinada, mostrava sua valentia em desafiar
os rios imperiosos em temporais surpreendentes. Tinha somente
um toldo, que colocado em dois níveis dava a impressão
de uma grandeza acima de seu porte; da popa até a metade
era de piso alto, com uma mesa por cima da casa de máquina
e vários armadores para as redes. Tinha também duas
camas pequenas nas laterais que o barulho do motor assolava em
suores e ruídos de seus ocupantes. Da metade até
a proa era um enorme espaço para todas as coisas, largo
e acolhedor também para o sono.
Seu leme estava protegido dos ventos noturnos por três janelas
colocadas em tais ângulos que se tinha uma visão
total da frente e dos lados do horizonte, e quando navegava o
fazia com uma elegância sóbria e uma valentia articulada.
Quando soube que o barco estava à venda, Mário não
teve um momento de sossego em seu espírito de navegante.
Contou para sua esposa a intenção inalienável
de comprá-lo de qualquer forma, mesmo tendo de vender suas
poucas cabeças de gado, ganhas em uma herança muito
dividida entre os muitos parentes, e se preciso fosse, venderia
até a casa onde moravam, resultado do trabalho meticuloso
dele e de sua mulher, em muitos anos de esperança e abnegação.
E teria feito isso no mesmo dia se não fosse a inquebrantável
objeção de Marlene, que não queria ver o
patrimônio da família se dissolver por um desejo
esquisito do marido.
Mas a inflexibilidade de Marlene começou a desmoronar bem
devagarinho. A fortaleza da contrariedade foi sendo destruída,
pedra por pedra, com os precisos e certeiros argumentos do esposo
sobre as maravilhosas paisagens avistadas em viagens esporádicas
feitas em várias cidades do Rio Amazonas, e também
na capital, onde tinha um rio de águas negras e uma praia
de areia branca como risos, e barrancos altos que se perdiam nas
nuvens, onde uma tarde foi conhecê-la, sozinho, contemplando
o brilho negro de sua torrente.
No início, porém, era como falar a uma árvore,
pois os ouvidos de Marlene pareciam impenetráveis a toda
a falação do marido, que já havia levado
até o comprador para pagar à vista as dez cabeças
de gado e a propriedade, e ela os expulsou a insultos e pragas,
brandindo um enorme facão e ameaçando de morte o
próximo comprador e o marido insano. Todavia, porém,
este fato serviu para esclarecer a Mário a tática
certeira para dobrar a obstinação da mulher, mudando
radicalmente a linha de seus argumentos, que perderam a firmeza
da lógica inicial e enveredaram por rios fantásticos
e histórias apologéticas.
Passou a viajar com mais freqüência para as cidades
próximas em busca de revistas que mostrassem as belezas
da Amazônia. Encontrou uma revista onde se via em fotos
aéreas um rio tortuoso como uma cobra, e ele explicou a
ela que o leito do rio era assim porque antes havia sido a residência
de uma cobra imensa que moldou o canal conforme a sua languidez.
Falou das cachoeiras de sua nascente despencando arqueadas como
arco-íris de sete cores, e da infinidade de peixes que
obrigavam os comandantes dos lindos barcos que singravam suas
águas a espantá-los com bombas indolores para poderem
seguir a rota desejada, e que no ar voavam tantos pássaros
que o sol era trêmulo. Mostrou fotos de um rio verde como
a floresta e disse que ele tinha esta cor porque ali todos viviam
felizes; e rio de águas pálidas e explicou a ela
a mesma razão do rio anterior; e os rios azulados, os rios
brancos como a imaginação perdida, os rios negros
como a noite, os de tonalidade sombria e os de cores amenas, e
para todos deu a mesma explicação: era a felicidade
que habitava em todos os beiradões menos onde eles moravam.
E Marlene começou a inflamar a chama do entusiasmo causado
por tantas belezas e alegrias.
Os
pássaros exóticos se mudaram para dentro da cabeça
de Marlene e ela também agora desejava ver as araras reais
de bicos poderosos e caudas do paraíso, os uirapurus sinfônicos,
os elegantes japiins de casacas amarelas, os tucanos arrebatados
e toda a fauna ornitológica habitante em outras terras
e outros rios.
Mário estava conseguindo seu intuito com uma artimanha
eficaz e insensata, onde foram se misturando fotos de florestas
tabulares invadidas pelas águas de alguma enchente bravia,
outra foto onde se via um grupo de turistas felizes tomando banho
em águas tão claras e brilhantes que pareciam não
existir de verdade. Seguiu mostrando fotos de cidades ribeirinhas
com praias lindíssimas, encontros de rios contrastantes
e árvores gigantescas nos beiradões longínquos
do imenso vale e para cada uma dessas fotografias dava uma explicação
mirabolante, com uma convicção tão segura
que parecia ter conhecido pessoalmente, e com o auxílio
de ardis perfeitos foi minando a resistência de Marlene,
argumentando que tudo isso estava esperando por eles, bastava
apenas ter um barco para navegar por onde quisessem, porque viver
em terra, trabalhando e morrendo no mesmo lugar, era tão
indigno quanto não ter conhecido lugar algum, e além
do mais viver navegando era melhor e mais saudável do que
abrir a janela e ver sempre a mesma paisagem todo dia.
Marlene passou do não imperioso e definitivo para o não
sei vacilante, pois queria realmente navegar por todos os rios
e conhecer os lugares que seu marido lhe mostrava através
das fotos. Mas seu espírito era um pouco acanhado e meticuloso
para se desfazer de seus bens materiais e embarcar na aventura
impalpável de sonhos em que seu marido já estava
embrenhado até os confins da serenidade. E Mário
percebeu seu titubeamento muito rápido e passou a fustigar
à vontade com paisagens cada vez mais irreais e comovedoras,
quando trouxe não se sabe de onde um catálogo turístico
com rios estreitos e campos de tulipas que seguiam o caminho de
um castelo de pedras vermelhas e lanchas douradas e reluzentes
para atravessar as pessoas de uma cidade a outra. Mostrou um rio
terno e manso atravessado por uma ponte de estrutura gótica
pintada com cores de navio, rodeadas de montanhas azuis e rochedos
espetaculares. E outra vez um castelo, uma floresta de pinheiros
tipo árvore de natal, uma montanha branca e magnífica
e lá embaixo um rio magricela mas que dominava toda a paisagem.
Os olhos de Marlene foram se inundando de curiosidade, bastava
ela dizer sim e todas as coisas se tornariam verdade pela escotilha
do barco. Já estava começando a ceder quando Mário
chegou em casa com um jeito mais intranqüilo do que sempre
chegava, com uma revista debaixo do braço e uma febre ansiosa
de mostrar seu conteúdo fotográfico. Foi o tiro
de misericórdia na já cambaleante obstinação
de sua esposa, pois quando abriu as páginas coloridas pulou
para os olhos de Marlene algo tão maravilhoso e pujante
que a deixou sem chão para os pés, e ela só
teve forças para gritar para ele vender tudo que possuíam
e muitos mais que conseguisse; estava pulverizada a negativa frente
a algo auspicioso: o mar, azul como o céu às nove
da manhã.
A ansiedade tomou conta do casal como um delírio, e rolaram
na cama durante a noite toda. Despidos de sono e absortos em seus
sonhos acordados, foram se deixando navegar por mares oníricos
de tranqüilidade inverídica. Nesta única noite
singraram do Caribe até o Mar do Japão, viajaram
em mares antárticos e oceanos Pacíficos, foram do
Atlântico ao Índico passando pelo Mediterrâneo
e atalharam pelo Golfo Pérsico e acordaram extasiados e
na fadiga depois de circunavegar o mundo sem sair de seu leito.
Venderam tudo da noite para o dia e compraram o primeiro barco
que encontraram, porque o que Mário realmente queria comprar
já havia sido vendido desde o tempo em que seus argumentos
ainda tinham um pouco de lógica. Compraram um barco pequeno,
com espaço para duas redes e equipado com uma máquina
de pouca confiança e foram rio abaixo com um mapa da Amazônia
Legal e a inquebrantável vontade de conhecer o mar, que
para eles ficava lá no fim do mundo, aonde acabava o rio
em meio a uma coisa chamada pororoca.
(Ibidem)