Biografia / Bibliografia

José Polari

José Raimundo Garcia Polari nasceu em Manaus no dia 3 de março de 1964. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Amazonas, trabalha como jornalista. Obras de ficção: Água de afluente: conto (Manaus, 1995). Os Luditas: romance (Manaus, 2002)

 

 

Textos Selecionados:

É No sonho do meu avô
tem uma cobra-grande

Meu avô, que tinha cara de índio, o cabelo escrupulosamente penteado para trás, um nariz grande deixado como herança para todos os seus descendentes e uma coragem mensurável e atilada, navegou por todos os rios da enorme bacia amazônica, conhecendo lagos ainda não catalogados pelos satélites estrangeiros, paranás de repiquete de fina lâmina d’água que somente se deixava singrar por barcos de bom comando e sobrevivendo a aventuras homéricas de naufrágios verossímeis e encontros mitológicos.
Escapou incólume de dois afundamentos e de um encontro pavoroso com a cobra-grande, sendo esta última aventura a que o marcou para sempre: embranqueceu seus cabelos de terror e deixou seus olhos lacrimejantes até o dia quando fez sua última viagem.
No dia em que foi a pique pela primeira vez, a bordo de um gaiola que ia de Silves para Manaus, ainda não era de longe nem sombra do comandante legendário dos beiradões perdidos, nem tinha os olhos de navegante fluvial, mas já conservava o cabelo em plena forma para desafiar qualquer espelho.
Seu primeiro naufrágio se deu em um dia de sol perverso e um céu sem nuvens, naquele princípio de tarde quando deixou as águas tranqüilas do Paraná de Itapiranga e navegava por outras mais furiosas do Rio Amazonas; logo no primeiro balanço seu pressentimento não foi dos mais serenos, pois seu estômago começou a embrulhar e uma azia agourenta queimou com ácido o peito despojado de glórias de sua juventude interiorana. Navegou somente poucas horas e um banzeiro indescritível emborcou a lancha várias vezes e misturou lamento com toda a qualidade de carga, e logo se formou a confusão de gritos e choros e a Ilha Panumã viu a embarcação que trazia meu avô ser engolida com voracidade pelas águas barrentas do grande rio.
Estava próximo da beira, como navega qualquer comandante prudente, mas as correntezas enlouquecidas e os redemoinhos desvairados arrastaram meu avô para o meio do rio e ele já nadava sem rumo e sem esperança quando foi salvo por um cardume de botos-tucuxis, que o arrastou até as praias efêmeras da ilha onde descansou algumas semanas se alimentando de peixe cru e raízes fortificantes, e quando se sentiu ressuscitado novamente atravessou a nado a correnteza tenebrosa e em dois dias chegou à outra margem onde fez amizades e conseguiu embarcar outra vez, morrendo de medo de sua sorte, mas em seu interior brilhava uma certeza de que quando a morte lhe viesse visitar este momento seria fascinante.
Este mau bocado o desestimulou por alguns anos de outros rios, porém, contrariando seus presságios, e pela necessidade de se locomover através da única alternativa de transporte da região, embarcou outra vez num motor de grande calado, se despediu dos seus irmãos e amigos e somente voltou a este porto muitos anos depois, com família constituída, um barco próprio de bandeira argonáutica e o epíteto decisivo e glorioso de comandante Garcia.
Havia navegado por todos os rios do vale, comido todos os tipos de peixes e as mais misteriosas farinhas, aprendido a distinguir o doce sabor de cada nascente, tinha passado por tantos encontros de águas que nenhum mais o surpreendia e vivido tantas aventuras que nenhuma mais o emocionava. Mas em seu destino estava escrito mais um naufrágio e um encontro espetacular, e o naufrágio ele viveu logo, enquanto ainda tinha forças para tal empreitada. Foi na costa da Terra-Nova, e com um agravante: estava em plena época da cheia, o que sempre dificulta as coisas; seu barco simplesmente desapareceu de seu comando, e ele se viu sozinho, sem convés e sem timão, sem o seu chapéu de comandante, sem suas dragonas de enfeite e com o cabelo embaraçado pela água barrenta do rio que o surpreendeu em pleno sono.
Era uma noite de poucas estrelas. Meu avô, ensopado até os ossos, não entrou em desespero como seria normal, mas se tornou tranqüilo, o que não se esperava de seu temperamento de precavido, deixou apenas o corpo flutuando, esperando pelo segundo milagre da salvação dos botos, mas estes deviam estar com outras ocupações, pois não apareceu nenhum, então só lhe restou a solução de se agarrar a uma moita de canarana, resíduo de alguma terra caída, e se deitou em seu pasto, e adormeceu sereno para retornar ao mesmo sonho do momento da interrupção da viagem. Acordou com o sol inteiro brilhando em seu rosto e não viu terra por nenhum lado, mas percebeu que o manto de vegetação flutuante e à deriva era tão compacto que lhe permitia ficar de pé, uma verdadeira ilha vegetal, e percebeu também ela girar em um enorme redemoinho, desses formados no meio do rio e aprisionando tudo em seu ralo de enchente.
Muitos dias já haviam passado sem meu avô ter a oportunidade de escapar do carrossel alucinado, e o enjôo estava tornando sua cabeça um vazio de idéias quando um tronco monumental foi expelido da garganta do redemoinho que se recusava engolir uma árvore indigesta, e meu avô, no seu momento de maior audácia, se atirou na água e se agarrou a este tronco como quem se agarra à última esperança, e foi dando rumo a este, com sua experiência de comandante, auxiliado por um ramo improvisado de remo, que ele conseguiu escapar são e salvo do martírio de vagar em voltas onde seu destino de bravura estava começando a ceder à caprichosa paciência da boca gigantesca do rio.
Mas meu avô não estava com a estrela de sua sorte em boa fase, porque ainda teve de navegar durante mais de dois meses em busca de terra onde pudesse firmar o pé, e durante este período travou uma luta feroz contra a adversidade, tendo de destroçar muita cabeça de piraíba para se manter vivo, e sempre quando avistava terra se sentia logrado pela miragem de se ver afastado da terra firme, pois todas as margens viravam ilusão ante a poderosa correnteza que as arrastavam para outras costas, e com a enchente assolando a bacia tudo virava terra caída; porém, com a volta da vazante indolente as praias se tornaram sólidas novamente e meu avô desembarcou de seu tronco sem bandeira, apesar de seu estado de náufrago, em pleno porto de Manaus, com pompa e banda de música. Estava sendo reconhecida a legendária saga de navegante de todos os seus descendentes.
Outra vez meu avô navegava pelo grande lago Canaçari, este lago que representa muito bem o sentido de grandeza amazônica, numa madrugada deslumbrante, com o luar reverberando o infinito e as águas singradas com impavidez, tendo sua tripulação reduzida a seu comandante, meu avô, e seu fiel imediato, maquinista, limpador de convés e conselheiro de coisas incríveis: Caxilé, homem formado nos mistérios dos rios, acostumado a ver coisas capazes de pôr dúvida em assombração e contador de histórias de interior dessas de assustar o sono. Os dois já navegavam há algumas horas, tomando café e sentindo a brisa fluvial ante o avanço da embarcação quando uma luz mais intensa e cortante despertou os dois desse estado absorto de contemplação noturna, e foram ficando encandeados e eufóricos pela beleza fúlgida de tanto brilho, tantos reflexos cintilantes e tantas tonalidades variadas, e pasmados de emoção mudaram o rumo de sua nave numa fototaxia temerária e repleta de curiosidade para desvendar o mistério do enorme objeto luminoso, e só se deram conta de que estavam sendo atraídos pela cobra-grande, assim como as espécies de menor porte atraem os passarinhos, quando puderam enfim olhar os enormes olhos da monstra, e esta visão os arremessou com crueza para a realidade terrível que nenhum dos dois queria viver.
A cobra, que permanecera estática como uma cobra preparando o bote, começou a dar voltas em torno da minúscula embarcação, como se lhe pertencesse, como se fosse um brinquedo passível de ser destroçado a qualquer mudança de seu humor de víbora, fazendo banzeiros atordoantes e deixando meu avô sem pernas para mais nada. Por fim, quando se refez do primeiro impacto do assombro, quando novamente seu cérebro se descarregou de tanto pavor que o impedia de pensar, quando começou a imaginar atitudes para se safar de tal desgraça, sua primeira reação foi procurar um terço perdido entre outros trastes e rezar inteiro, numa rapidez de vida ou morte, sem costume e sem sabê-lo.
Mas a cobra estava para brincadeiras, pois continuou dando voltas e mergulhando e boiando e dando tempo para meu avô escutar os conselhos sábios de Caxilé, para que queimasse palha benta para escapar dos azares de uma morte perversa, e atirasse n’água o jabuti que trazia para nós, os netos, porque este bicho não era tido como bom mascote para navegantes em perigo, e jogasse fora a água do pote porque água presa servia para aprisionar os terrores onde estes se encontravam, e por fim teve de amarrar uma imagem de São Francisco de Assis, nomeado na ausência de outro e na maior urgência o protetor dos navegantes, para que ele desse o jeito de salvá-los sob pena de passar o resto de sua vida eterna amarrado da cabeça aos pés no fundo do lago oceânico.
A cobra passou ainda umas boas horas em seu divertimento macabro, brincando de monstro com meu avô e Caxilé, que neste momento já haviam esgotado todas as orações escondidas nos baús de suas recordações infantis e queimado também a imaginação de tanto criar outras novas, mais desesperadas e humilhantes. Mas ela se mostrava irredutível, lançando sempre os olhos de demônio parecidos com o próprio inferno no reflexo da lua, sendo esses olhos o motivo maior da insônia que perseguiu meu avô durante muitas outras noites.
Entretanto, apesar de todo o medo, de tantos relatos aterrorizantes dos muitos que cruzaram seus destinos com os caminhos da cobra-grande, apesar de todo o pavor de cagar as calças e de tantos pesadelos nas noites seguintes, nunca se soube de nenhum desgraçado o suficiente para se tornar presa das garras sepulcrais e demoníacas da monstra, nem de outro corajoso que tenha feito dois encontros com ela. E como não seria meu avô o primeiro a sê-lo, mais uma vez escapou são e salvo de outra comprovação de seu destino de herói. Porque depois de se enjoar de apavorar a tripulação do barco aprisionado pela curiosidade, a cobra-grande suspirou um enorme chiado e desapareceu nas águas do lago clareado pelo sol nascente.
Mau avô e seu ajudante, assombrados e indefesos como dois recém-nascidos, retornaram para Silves com o olhar perplexo dos ressuscitados. Desembarcaram como zumbis, com uma demência não muito correta para aquela hora da manhã, pois o estado de bêbados matinais que apresentavam não correspondia com o decoro de um grande comandante como ensinava a lenda de meu avô. Ele se dirigiu a sua casa cambaleante e irreal, entrou assombrado, varando da sala ao quarto de dormir no final do corredor, e sentado na cama, em frente ao espelho, viu sua fisionomia mudar radicalmente: seu cabelo embranqueceu no mesmo instante em que seus olhos se afogaram em lágrimas para sempre, e dormiu uma semana inteira, sobressaltado e convulsivo, queimando como uma fogueira de uma febre ilógica.
No outro lado da cidade estava Caxilé padecendo dos mesmos sintomas, mas agarrado a uma insônia que perdurou toda sua vida, a partir de então vivida embaixo da cama, arredio e solitário, com um medo desumano de dormir para não sonhar com a cobra-grande. Sumiu da vista da cidade e somente era visto pela janela, religiosamente, duas vezes por ano, quando deixava o exílio da loucura para cumprir a promessa feita no momento da tortura da visão sinistra, de assistir todo ano, como um pedestal de fé, à passagem das procissões do Divino e de Nossa Senhora da Conceição.
Quando meu avô acordou do seu sono de tristezas, reuniu sua mulher com os filhos e os netos e nos contou a história vivida por ele, com todos os detalhes de horrores, e muitos de nós ainda o escutamos meio céticos pelo fato de acreditarmos bem pouco nas histórias de navegantes, mas nossas dúvidas foram se dissipando durante as noites quando vivíamos com o espanto noturno de meu avô, acordando no meio da madrugada, implorando em orações desesperadas para se apagar a pira incandescente do olhar da cobra que estava ofuscando a paz do seu sono.
Os anos seguintes foram para meu avô uma agonia sem sossego, pois até que pudesse voltar a dormir por inteiro teve de fazer muita infusão com quase toda a flora mágica da floresta, queimar muita trança de alho para restabelecer a paz do espírito assustado, beber muito chá de capeba para acalmar os nervos expostos pelo terror vivido, se banhar num caldo de mururacá, cipó-alho e cravinho para lavar os maus sonhos para sempre de sua cabeça, e muitos outros remédios e simpatias que lhe ensinavam os mais aprofundados nos conhecimentos das doenças espirituais, e por fim, meu avô teve de queimar os próprios pentelhos para ter uma trégua com seus pesadelos maléficos.
Muitos anos depois ficou restabelecido de uma vez por todas de todos os presságios e medos recônditos. Voltou a viajar novamente e ensinava para os netos a difícil arte de navegar, para podermos seguir nossos destinos de rio, sem os percalços das corredeiras incertas e das correntezas contrárias, que tanto haviam atrasado seu caminho de glória, infundindo em nós uma coragem gigantesca que nunca teve para si próprio e uma abnegação para seguir viagem que transbordava de seu calado de comandante velho. Nunca mais quis relatar a ninguém suas aventuras insólitas ou seu encontro mitológico com a cobra-grande, pois para todos dizia ter apagado da memória como uma fogueira se apaga após queimar toda a lenha.
Mas numa tarde de sol igual ao de seu primeiro naufrágio, quando mal havia despertado de um cochilo tranqüilo feito para descansar do almoço, olhou pela janela e se viu cara a cara com seu destino, pois no quintal frondoso de mangueira e laranjeira estava a cobra-grande, mas desta vez sorria um riso sem peçonha e seu olhar era alegre e domesticado, e meu avô se encheu da certeza de ser capaz de comandar aquela coisa irreal da mesma forma como havia comandado muitas embarcações agredidas por temporais sem praias, e foi o que fez com certeza, pois a cobra abaixou a cabeça obedecendo a uma ordem imperativa de meu avô, vestido com o mais autoritário branco de seu uniforme de comandante fluvial aposentado. Montou na crista da mitologia com toda a pompa de uma abordagem e seguiu o rumo coerente e previsível do grande lago Canaçari, navegando feliz em sua última viagem até se perder no horizonte infinito de água rasa, com seu cabelo branco, porém, penteado como numa fotografia, velhinho velhinho, e com uma lágrima eterna nos olhos de como quem vai viver ainda por muitos anos.

(Água de afluente)

Navegar é como superar
barreiras intransponíveis

O barco era a coisa mais linda já vista por Mário, com sua proa altiva e determinada, mostrava sua valentia em desafiar os rios imperiosos em temporais surpreendentes. Tinha somente um toldo, que colocado em dois níveis dava a impressão de uma grandeza acima de seu porte; da popa até a metade era de piso alto, com uma mesa por cima da casa de máquina e vários armadores para as redes. Tinha também duas camas pequenas nas laterais que o barulho do motor assolava em suores e ruídos de seus ocupantes. Da metade até a proa era um enorme espaço para todas as coisas, largo e acolhedor também para o sono.
Seu leme estava protegido dos ventos noturnos por três janelas colocadas em tais ângulos que se tinha uma visão total da frente e dos lados do horizonte, e quando navegava o fazia com uma elegância sóbria e uma valentia articulada.
Quando soube que o barco estava à venda, Mário não teve um momento de sossego em seu espírito de navegante. Contou para sua esposa a intenção inalienável de comprá-lo de qualquer forma, mesmo tendo de vender suas poucas cabeças de gado, ganhas em uma herança muito dividida entre os muitos parentes, e se preciso fosse, venderia até a casa onde moravam, resultado do trabalho meticuloso dele e de sua mulher, em muitos anos de esperança e abnegação. E teria feito isso no mesmo dia se não fosse a inquebrantável objeção de Marlene, que não queria ver o patrimônio da família se dissolver por um desejo esquisito do marido.
Mas a inflexibilidade de Marlene começou a desmoronar bem devagarinho. A fortaleza da contrariedade foi sendo destruída, pedra por pedra, com os precisos e certeiros argumentos do esposo sobre as maravilhosas paisagens avistadas em viagens esporádicas feitas em várias cidades do Rio Amazonas, e também na capital, onde tinha um rio de águas negras e uma praia de areia branca como risos, e barrancos altos que se perdiam nas nuvens, onde uma tarde foi conhecê-la, sozinho, contemplando o brilho negro de sua torrente.
No início, porém, era como falar a uma árvore, pois os ouvidos de Marlene pareciam impenetráveis a toda a falação do marido, que já havia levado até o comprador para pagar à vista as dez cabeças de gado e a propriedade, e ela os expulsou a insultos e pragas, brandindo um enorme facão e ameaçando de morte o próximo comprador e o marido insano. Todavia, porém, este fato serviu para esclarecer a Mário a tática certeira para dobrar a obstinação da mulher, mudando radicalmente a linha de seus argumentos, que perderam a firmeza da lógica inicial e enveredaram por rios fantásticos e histórias apologéticas.
Passou a viajar com mais freqüência para as cidades próximas em busca de revistas que mostrassem as belezas da Amazônia. Encontrou uma revista onde se via em fotos aéreas um rio tortuoso como uma cobra, e ele explicou a ela que o leito do rio era assim porque antes havia sido a residência de uma cobra imensa que moldou o canal conforme a sua languidez. Falou das cachoeiras de sua nascente despencando arqueadas como arco-íris de sete cores, e da infinidade de peixes que obrigavam os comandantes dos lindos barcos que singravam suas águas a espantá-los com bombas indolores para poderem seguir a rota desejada, e que no ar voavam tantos pássaros que o sol era trêmulo. Mostrou fotos de um rio verde como a floresta e disse que ele tinha esta cor porque ali todos viviam felizes; e rio de águas pálidas e explicou a ela a mesma razão do rio anterior; e os rios azulados, os rios brancos como a imaginação perdida, os rios negros como a noite, os de tonalidade sombria e os de cores amenas, e para todos deu a mesma explicação: era a felicidade que habitava em todos os beiradões menos onde eles moravam. E Marlene começou a inflamar a chama do entusiasmo causado por tantas belezas e alegrias.

Os pássaros exóticos se mudaram para dentro da cabeça de Marlene e ela também agora desejava ver as araras reais de bicos poderosos e caudas do paraíso, os uirapurus sinfônicos, os elegantes japiins de casacas amarelas, os tucanos arrebatados e toda a fauna ornitológica habitante em outras terras e outros rios.
Mário estava conseguindo seu intuito com uma artimanha eficaz e insensata, onde foram se misturando fotos de florestas tabulares invadidas pelas águas de alguma enchente bravia, outra foto onde se via um grupo de turistas felizes tomando banho em águas tão claras e brilhantes que pareciam não existir de verdade. Seguiu mostrando fotos de cidades ribeirinhas com praias lindíssimas, encontros de rios contrastantes e árvores gigantescas nos beiradões longínquos do imenso vale e para cada uma dessas fotografias dava uma explicação mirabolante, com uma convicção tão segura que parecia ter conhecido pessoalmente, e com o auxílio de ardis perfeitos foi minando a resistência de Marlene, argumentando que tudo isso estava esperando por eles, bastava apenas ter um barco para navegar por onde quisessem, porque viver em terra, trabalhando e morrendo no mesmo lugar, era tão indigno quanto não ter conhecido lugar algum, e além do mais viver navegando era melhor e mais saudável do que abrir a janela e ver sempre a mesma paisagem todo dia.
Marlene passou do não imperioso e definitivo para o não sei vacilante, pois queria realmente navegar por todos os rios e conhecer os lugares que seu marido lhe mostrava através das fotos. Mas seu espírito era um pouco acanhado e meticuloso para se desfazer de seus bens materiais e embarcar na aventura impalpável de sonhos em que seu marido já estava embrenhado até os confins da serenidade. E Mário percebeu seu titubeamento muito rápido e passou a fustigar à vontade com paisagens cada vez mais irreais e comovedoras, quando trouxe não se sabe de onde um catálogo turístico com rios estreitos e campos de tulipas que seguiam o caminho de um castelo de pedras vermelhas e lanchas douradas e reluzentes para atravessar as pessoas de uma cidade a outra. Mostrou um rio terno e manso atravessado por uma ponte de estrutura gótica pintada com cores de navio, rodeadas de montanhas azuis e rochedos espetaculares. E outra vez um castelo, uma floresta de pinheiros tipo árvore de natal, uma montanha branca e magnífica e lá embaixo um rio magricela mas que dominava toda a paisagem.
Os olhos de Marlene foram se inundando de curiosidade, bastava ela dizer sim e todas as coisas se tornariam verdade pela escotilha do barco. Já estava começando a ceder quando Mário chegou em casa com um jeito mais intranqüilo do que sempre chegava, com uma revista debaixo do braço e uma febre ansiosa de mostrar seu conteúdo fotográfico. Foi o tiro de misericórdia na já cambaleante obstinação de sua esposa, pois quando abriu as páginas coloridas pulou para os olhos de Marlene algo tão maravilhoso e pujante que a deixou sem chão para os pés, e ela só teve forças para gritar para ele vender tudo que possuíam e muitos mais que conseguisse; estava pulverizada a negativa frente a algo auspicioso: o mar, azul como o céu às nove da manhã.
A ansiedade tomou conta do casal como um delírio, e rolaram na cama durante a noite toda. Despidos de sono e absortos em seus sonhos acordados, foram se deixando navegar por mares oníricos de tranqüilidade inverídica. Nesta única noite singraram do Caribe até o Mar do Japão, viajaram em mares antárticos e oceanos Pacíficos, foram do Atlântico ao Índico passando pelo Mediterrâneo e atalharam pelo Golfo Pérsico e acordaram extasiados e na fadiga depois de circunavegar o mundo sem sair de seu leito.
Venderam tudo da noite para o dia e compraram o primeiro barco que encontraram, porque o que Mário realmente queria comprar já havia sido vendido desde o tempo em que seus argumentos ainda tinham um pouco de lógica. Compraram um barco pequeno, com espaço para duas redes e equipado com uma máquina de pouca confiança e foram rio abaixo com um mapa da Amazônia Legal e a inquebrantável vontade de conhecer o mar, que para eles ficava lá no fim do mundo, aonde acabava o rio em meio a uma coisa chamada pororoca.

(Ibidem)

 
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