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O
Ditador da Terra do Sol
Ao
ouvir o som da corneta por três vezes, Dorinha Fulgência,
como era conhecida, lembrou que era quinta-feira, o único
dia da semana que dom Ramirez, escoltado pela Guarda, vinha vê-la
numa capa de segredo que só ela guardava a chave do quebra-cabeça.
Ao colocar os trajes mais suntuosos como ele exigia, ela olhou-se
no espelho amarrando os cabelos para trás e viu dentro
do olho uma jovem ainda angelical e linda, a boca comida pelo
desejo da alma e uma pele sem o viço do sol lá de
fora. Pronta estava para receber o caudilho, cujo bigode dobrava
nas pontas. Ramirez era um homem feio e também acossado
por uma liga de angústia.
Foi só ouvir a voz dele na porta quando recomendava o isolamento
da área circunvizinha e o recolhimento de quem estivesse
por perto, que Dorinha Fulgência ainda teve tempo de checar
o ambiente. Se a bilha continha a tiquira com gengibre, tudo em
ordem; se no criado-mudo os charutos de fumo de corda, tudo em
ordem; se ao lado da cama as esteiras para as bofetadas, sim;
se na banheira de mármore a essência do eucalipto
para o banho, tudo ok. Aí ela deu um suspiro aliviada no
momento em que ouviu o toque na porta.
Dom Ramirez deu entrada na porta trajando de vaqueiro, chapéu
de couro com os diademas do Império e as sapatas com as
esporas que, no movimento delas, davam um ruído de terror.
Foi direto ao banquinho e nele se acomodou. Cruzou as pernas gordas
e, como de costume, de lá jogou um maço de dinheiro
na cama, que, depois da saída, Dorinha derretia nas frituras
do álcool. Pediu charuto e depois deu uma baforada. Nunca
troco meu charuto por coisa alguma. E lembrou-se da vida sofrida
no passado. Cortei meu indicador numa lâmina maldita e,
por pouco, não vai a mão. Ah, foi uma dor terrível.
Agora nada me preocupa porque sou a Lei desse povo. E deu uma
charutada poluindo com as argolas da fumaça o ar. Ah, Ramirez
é a gaveta do sentimento de todos na Terra do Sol, e jogou
o osso da gargalhada para fora explodindo as cicatrizes do silêncio.
Dorinha tirou-lhe o chapéu e jogou alfazema na cabeça
dele. Assim como afrouxou o gibão e as esporas e tudo veio
abaixo, enquanto lhe dava um trago da bebida. Ao sentir o verniz
do charuto fedorento, ela foi se reduzindo numa pele muscosa de
amor e em seguida foi tirando os cordões de ouro que entrançavam
os mamilos. Quando não tinha mais um centavo de vestimenta
e o corpo era um painel luminoso a ser tocado, dom Ramirez se
socou no delírio ao olhar a montanha fornida daquele corpo.
Para ele, ele havia construído nela uma arquitetura de
mulher, e, dentro dessa fachada, o amor e a sensualidade esperados.
Levantou-se em seguida, deu-lhe um trago da bilha e sentou-se
nu sobre suas pernas. Ah, dom Ramirez tinha mania dessa posição...
Daí deu início ao ritual de muitos anos: com a língua
atou seu desejo naqueles peitos de cavidades arroxeadas e chafurdou
os dedos em tudo que podia apalpar, raspando os gemidos mais espalhados
da alma. Dorinha entregava o corpo, porque assim era a lei dele.
Mas a alma se mantinha rasgada pelo bicho do cativeiro. Já
vaidoso pelo feito e queimado pela essência do gengibre,
com ela nos braços, jogava-a sobre a cama, e no jeito do
faz-de-conta, lá ia escarafunchando o corpo dela sem encontrar
finalmente a estufa do amor.
Acontecia, então, de repente, dom Ramirez chorando, rasgando
o lençol na faca dos dentes, e espalhando a violência
do copo nas paredes. Depois em pé, com o coração
assado no desespero, esmurrava as esteiras pregadas no reboco
até formar um vento lascado de ira. Sacava do revólver
e, com o cano no ouvido, vou me quebrar os miolos para sempre.
Tenho que me matar! Fazia o gesto de quem ia. Ramirez! Ramirez!
Joga a arma fora, por favor! Vai para a banheira, você não
lembra que o povo te aguarda amanhã? Ela soprava uma cornetinha
nessas horas, uma, duas, três vezes. E, ainda choroso, ele
acedia. Embriagado, a dificuldade era a banheira, mas antes do
eucalipto, o ódio que era a casca apodrecida do Império
vinha à tona: se abrir a boca, mando te matar, da forma
como mandei matar o outro, sim, dom Ramirez, na fogueira, o pobre
cavalo.
Bem que podia jogar uma pá de argamassa no meu relato e
esquecer para sempre este homem aí, dom Ramirez, boiando
nu na essência do eucalipto. Mas o testemunho da sua tirania
seria engavetado no escuro. Abrindo o ferrolho da conversa, é
o jeito de me colocar no ouvido dos homens.
Fui abortada de casa aos 13 de idade, quando Ramirez já
era o general das nossas almas. Vendo-me pela primeira vez ao
lado de mamãe, disse: cuido dela e dela farei a mulher
mais ditosa do meu Império. Baixei a vista e tive medo
dele, porque o conhecia apenas pelos retratos pregados por toda
biboca. Mãe, não deixe, apelei com tristeza. E corri
para abraçar minha cadelinha, fora dali. Era uma tarde
e o sol já ia se tangendo para os currais do céu.
Nem dei fé naquelas palavras bobas, porque eu era ainda
uma menina. Seis dias depois, sob os protestos de papai e minha
mãe desmaiada no chão, fui levada sob forte aparato
pela sua Guarda. Papai foi preso numa cadeia pública, rasparam
sua cabeça e foi cuspido pela tortura da milícia
do ditador. Depois declarado inimigo da Nação, porque
dissera que, além de tirano da alma, dom Ramirez também
era do corpo. Implorando sob seus pés, seis meses depois
papai voltou para casa: magro e atacado por uma enfermidade que
gritava toda vez quando via o retrato do ditador. Perdeu o branco
da vida para entrar no lado escuro dela, fechado num quarto sobre
um banquinho sempre se maldizendo que, ao lado do coração,
havia um abscesso de treva. Nunca mais tive notícias dele.
Papai desceu à sepultura para além da morte ainda
a resmungar de Ramirez e encontrar no coração o
mesmo defeito. Quando perguntava por ele, Ramirez abria o segredo
da raiva e queria me agredir, mostrava-me este chicote que aí
está no chão e me chamava de fedelha malcriada,
porque se era uma mulher bonita e com todo conforto, tudo isso
vinha de um coração armado na bondade.
Minha família, quando me ausentei, foi guardada no mausoléu
do desgosto. Juvenila, que era minha mãe, pouco tempo depois
morreu com as esporas da tísica rolando no peito; dois
anos mais tarde, foi a vez do velho encontrado com uma corda no
pescoço perto duma fonte, onde sempre ia banhar-se.
No bolso da calça, os homens de Ramirez encontraram uma
carta que, segundo eles, papai se rendia ao comandante por tê-lo
ofendido. A lição da carta serviu de exemplo, e
foi arquivada como documento histórico do Império.
Ninguém acreditou nisso, porque papai era analfabeto. Quando
ninguém se lembrava mais do caso, foi a vez de outros assassinatos
no Estreito. Aliás, reduto pastoril do ditador.
Antes de ser escoltada para essa casa, Ramon Dourado me fez um
testamento do seu amor romântico e da eternidade desse armistício
enquanto durasse, mas toda essa coivara acesa sapecou com o tempo.
Disseram-me que ele e um irmão foram mortos numa emboscada
numa noite chuvosa de fevereiro. Isso há 10 anos, quando
Ramirez, conhecedor já dos truques do poder, assumia pela
segunda vez o posto de presidente. Em todo país houve uma
lavagem de votos com suborno nas mesas eleitorais. Ao ser diplomado,
mandou tirar 100 bois dos currais e, num acampamento mais parecido
de guerra, promoveu o maior bacanal de festa havido na Terra do
Sol. Ali mesmo, no ardor da voz, prometia só duma tirada
banir a prostituição, o analfabetismo e a corrupção.
Abrir a sala presidencial para as queixas dos excluídos
e distribuir uma substância protéica, em forma de
laranja, rica em aminoácidos para neutralizar os retirantes
da fome do seu Império. Três meses depois, a promessa
foi substituída por um pacote que confiscava, de qualquer
família do país, jovens com mais de 13 anos que
ele desejasse como companheiras. Assim, num golpe certeiro, rasgava
a constituição do amor universal de todos, para
torná-la só sua propriedade de consumo.
Quando dom Ramirez deixou o palanque da posse, numa noite fabril
de enzimas doentias, José Trombeta, o carniceiro da Guarda,
junto com dois pistoleiros do quadro do governo, foram à
minha cata para rachar meus miolos numa emboscada entre o rio
das Almas e a chapada da Caneca. Como era noite e escasso o pó
branco da lua, o meu irmão Filipino foi quem levou a descarga
do ódio de dom Ramirez com um tiro na boca. No fogo das
suas lanternas, marquei bem na memória o soldado espalhado
de barbárie com os signos de maldade dos capachos. Deceparam
o pênis do meu irmão, as orelhas junto com os olhos
e boa parte dos cabelos. Tudo foi plastificado e salgado, e fechado
numa urna de couro para ser arquivado no porão dos objetos
desqualificados de dom Ramirez. O motivo, a carta nos achados
de Dorinha, meses depois. Naquele dia, Dorinha experimentou o
cata-vento arruinado de um ditador: foi surrada de chicote nas
pernas e obrigada a revelar a minha identidade, e proibida de
nunca mais pensar em homem, exceto em Ramirez. Mas, em lugar de
afugentar do coração dela o meu nome, mais encontrou
ela nas cordas do tirano a caverna do meu amor.
Depois
que eles deixaram meu irmão enterrado na solidão
de um pé de pequi, nadei o rio das Almas sendo rebocado
pelo gás do medo. E, depois da travessia, que ainda era
seus domínios, escondi-me mais de 10 anos numa caverna,
morada de morcegos-vampiros e baratas alucinadas. elo excesso
de medo, fiz um nó de fome no meu destino e quebrei a minha
voz, porque não tinha com quem falar. Comia sapucaia e
palmito de palmeira, e para não perder o hábito
pelo sangue, dos beija-flores arrancava os corações
com nojo. No dia em que me escasseava só no ovo de rolinha
gorado, não tinha cristão que me agüentasse,
os morcegos despregavam dos parafusos da caverna e explodiam lá
fora nas facas do escuro. Certo dia, ao comer um carambolo, a
carne desse dinossauro amarrotado era tão lixosa e amarga,
que deixei o gesto para sempre, e passei dois dias acocado no
mato. Mastigando folha de guabiraba, o organismo fez uma rolha
de vedação na tripa gaiteira. Anos depois, em Marmelos,
aprendi a comer cobra e outros insetos asquerosos, porque me dei
virado para os costumes dos índios. Os cabelos deram com
as palhas pelas costas e a barba até aos cotovelos da barriga;
as unhas eram aparadas nas pedras como os cães assim se
arranjam; os dentes e o corpo eram limpos com raspas de juá.
Vivia no osso para não desgastar as roupas. Perdi a mania
de relogiar o tempo. Para mim, ou era só noite amarrada
de escuro ou só luz iluminada de sol. Pior era a morcegaria
com os adubos me fazendo de privada no sono. De homem do vapor,
fui removido para era lascada, só faltava dar um chute
na aba do sol e acabar com a luz, e me tornar resto de papéis
carbonizado de escuridão.
Por coincidência, fui achado por um caçador que supunha
que ali morasse um macaco-gorila. Ao puxar o gatilho para me mandar
fora do planeta, eu gritei: sou gente, homem, não me mate!
E não acreditando na minha erva amargosa da alma, reforcei,
sou o único descendente de caverna. Vim da Malásia
nas costas duma tempestade de gelo e daí tornei-me um vadio
do medo, vivendo só com as arestas dessa doença.
A minha descendência toda já foi batizada com o peso
da pá, acredite! Moço, sou um troglodita arruinado...
Baixando a lazarina, ele me queimou com um olhar por cima do seu
susto soltando uma gargalhada amarrada com cipó de gozação.
Depois que gaiatou quebrando a casca da voz, perguntou se eu tinha
fome. Não!, respondi, sou comedor de folhas e raízes,
e de lagartos. Mesmo assim, me jogou um pedaço de cuscuz,
que devo-rei com terra, e depois vomitei. O estômago tinha
virado um feto de criança. Era preciso ser gente de novo
fora da espingarda de Ramirez.
O
caçador deu outra trovejada no riso e deu às costas,
sumindo pelo rabo do meu olho assustado. No outro dia, seguindo
a mesma rota, trouxe roupas e calçados, deu-me uma caixa
de fósforo, e uma tesoura. Disse que por ali dinheiro era
coisa rara. Oh, isso é querer demais... Aparei a barba
e os cabelos, e me espantei quando matei um piolho de cobra que
me sugava na barba. Perdi o caçador dos olhos e dei também
um drible nas armadilhas de dom Ramirez. Peguei um navio pagando
a passagem como copeiro e me achei num dia chuvoso no país
dos Marmelos. A única coisa que carregava às costas
da alma era uma mala cheia de medo com o selo do Império
de Ramirez.
Da capital, fui para o interior com um naturalista alemão
para aprisionar borboletas e remexer no armário do coração
uma broca que estragasse o miolo do meu medo. Do estrangeiro,
pouca coisa aprendi, nem o resmungo das sílabas diferentes.
Com o novo ofício, fui tachado de Chico Borboleta, e não
Ramon Dourado. Ramon Dourado eu costurei num saco de estopa bem
amarrado junto com as lembranças de Dorinha e escondi debaixo
do fogareiro do sol, para não serem destruídos pelo
sereno do esquecimento. Se algum dia ainda voltar, pedirei a devolução
dos meus pertences. Mas a lâmina do medo que me colocou
uma pedra no exílio foi a mesma que bichou a vida de Dorinha.
Além do viveiro das borboletas mortas e secadas ao sol,
o cientista seguia a rota do contrabando de ouro com uma rede
bem definida no país. Aliás, as borboletas eram
só uma casca de uma grande pereba. No país dos Marmelos
não havia controle alfandegário e as autoridades
aproveitavam nas propinas, daí o destaque dessa gente entre
as miseráveis. O ouro era lapidado pelas nossas fronteiras
em sacos de farinha com o selo “Borboletas Cristalizadas”.
E, no recente, o laboratório das folhas, mais malvado que
o cascalho do ouro. Êpa! Viver em terras de Ramirez é
virar o sol para trás e cair de mal jeito dentro da boca
do escuro.
Conheci o amor dentro do coração duma índia
quando ainda eu era uma forja sem adubo de alegria. Naara acendeu
uma lâmpada na minha solidão e raspou a borra do
ódio que trazia como contrapeso. Em Marmelos, casei-me
com ela e aprendi os mistérios dessa gente que tem outra
banda de gente na alma. Na lua-de-mel, Naara me levou para fora
do agrupamento e com a destreza do sangue, construiu uma tenda
só de folhas verdes. Dentro dela fez um jirau suspenso
do solo igual à maciez da sua voz e nele jogou alecrim
roubado do coração, a fim de descer nos arredores
a lua coberta de gelatina amorosa. Depois pintou meus cabelos
com urucu e deu-me enormes tatuagens, inclusive uma de borboleta,
que nem com água da velhice diluiu. Fez eu beber uma substância
de travo celestial e, já despido, com a esponja da língua
me olificou de ternura com uma defumação na parte
de baixo, e declarou-me sua propriedade para o gozo. Fecha os
olhos, ela disse, me envolvendo com o peso molecular da ternura.
Quando abri, Naara tinha sumido pelas vísceras do mistério.
Esperei-a a tarde toda, debaixo da sombra do desejo e quebrado
num sopro químico de saudade. E, de vez em quando, sacudindo
os pulmões no ar entre os arranha-céus de árvore.
De noite, lá chegou com o corpo lambuzado de arco-íris
e de perfume silvestre, mais formosa que o sol quando se acende
de poesia sobre as águas. Foi logo pulando no jirau e me
juntando com um olhar fogoso, para que eu pudesse ser a outra
parte do jirau no amor. Quanto mais ela derretia o suor, mais
minha alma entrava em eclipse de gozo. Assim, a noite fechava
o cofre do escuro pelos movimentos do jirau. Foram três
dias que a gente não comia nem bebia, só dando conta
dos membros, até quando desmaiei em função
das toneladas de amor vividas. Naara desmontou a tenda e queimou
todas as nossas lembranças no sal do fogo. Ainda desmaiado,
me deitou nu nas costas, entrou no agrupamento me levando como
prova de que, a partir dali, me assumia como espólio, e
dando a sua identidade de mulher perante os seus. Toda a vez que
a gente queria safadar, ela me dava uma dose mais escassa da substância,
e todos na aldeia saíam das suas tendas para lembrarem
o tempo deles.
Da substância celestial e das defumações,
nasceu Niraldo. Dois anos depois, a corda da felicidade quebrou:
uma onça-pintada mais selvagem de natureza conseguiu colocá-la
garganta abaixo. Passei três dias desmaiado e de rede armada
no desespero. No delírio, usando o microfone da alma, Naara
apareceu com um corpo de fibras do céu sem os sinais da
violência da Terra e acendeu os dentes para mim, que ainda
eram cristais alvacentos. Afagou meus cabelos, dando-me passes
longitudinais de amor e me pediu que voltasse à Terra do
Sol. Quando ela ia se soltando pelo vidro cristalino do céu,
eu quis acompanhá-la, mas o rabo de fumaça que me
prendia ao corpo desacordado impediu. Então chorei de vexame,
porque ainda era prisioneiro dele. Acordei atravessado de fome.
Narabô me abraçou soluçando, também
com o coração esburacado de saudade. A partir daí
me desviei em duas bandas: uma, foi à borra de café
tirada do coador que dom Ramirez me tinha sacudido e ainda me
sujava; a outra, ao homem-espírito, com as almas costuradas
no espaço, por isso construí uma parabólica
para me ligar com o telhado do céu.
Antes de cair do cavalo que o fez estropiado para as doçuras
de mulher pelada, dom Ramirez teve várias delas e todas
foram banidas dos seus domínios, porque, por um descuido,
se engancharam no cabide dos nove meses. Os filhos foram doados
em lugares secretos e nunca os vassalos souberam da paternidade,
sua mulher verdadeira é gorda e de jeito falsificado e,
na testa, com uma placa luminosa de angústia, só
aparece em público quando dom Ramirez corta a fita das
inaugurações. No tempo em que havia eleição,
o casal atava seus amores nos palanques e comiam no mesmo cocho.
Dessa união de votos, nasceu um filho que, segundo se sabe,
veio com uma brochura de mulher no sangue. O filho, mais tarde,
tentou organizar uma liga de homens-mulheres no país com
finalidade desconhecida, mas deu em nada, porque o pai decretou
a falência da empresa e mandou colocar todos os cabeças
num saco de estopa amarrado e jogar num precipício sob
os olhos do céu. Na sala de presidente não há
foto da família, só a dele dando beijos para o povo.
Do retrato feito a óleo, sai um rosto amargo e polido de
feiúra, cabelos grisalhos, um eterno bigode de espinho
de porco e um cordão de ouro no pescoço. Dom Ramirez
é uma folha velha que a gente gostaria de jogar no braseiro
da alma.
Certo dia, dei entrada pela porta do sol e, através do
manejo que os canoeiros tinham em conduzir as embarcações
com uma vara no peito, cheguei outra vez à Terra do Sol.
No cais, observei que todos me olhavam fascinados e possuídos
de espanto. Meus cabelos vermelhos eram cortados em forma de cuia,
a orelha do lado esquerdo tinha um brinco de rosca de tucum feito
por Naara e na testa a tatuagem da borboleta voando para o céu.
O rosto tinha a palha do bronze do sol e os olhos eram um imenso
lago virado de estrelas. Foi só jogar o manculão
e uma rede de fibras de buriti no chão, que apareceram
muitas pessoas ao meu lado, e entre as quais um soldado de dom
Ramirez, trazendo à mão uma garrucha do século
XVI. O guarda solicitou meus documentos e perguntou quem eu era,
mas calmamente dei a resposta na língua de Naara. Olhou-me
espantado e deu o assunto por encerrado. Disse aos curiosos que
eu era um índio da Montanha Rochosa do Outro Mundo. E,
com um apito na boca, todos se afastaram com medo.
Naquela noite, dormi num estábulo de uma prostituta magri-nha
e, na expressão, um pavio iluminado de doença. Implorou
as minhas carnes enferrujadas de sol e a sombra taciturna dos
meus olhos, mas em vez de aceitá-la, dei-lhe um líquido
do meu alforje homeopático. Com a dose, dois dias seguidos
ela dormiu, delirando que uma borboleta amarela e um vaqueiro
sanguinário haviam sedado seu coração com
uma brisa de desespero. Fiquei dois anos e meio no estábulo,
uma simples tapera que a tosse da noite era o gemido do frio e
as ferradas dos carapanãs, seu nome era Florinda e tornou-se
minha escrava apenas na cobiça pela borboleta do meu rosto.
Vendo nela uma escrava do coração, limpei seu organismo
da gonorréia e da anemia, e, com passes mágicos,
afastei os espíritos tristes da sua aura. Florinda deixou
de queimar-se pelo dinheiro e virou minha secretária, mas
quando passou a friccionar as ervas no meu corpo, Florinda subia
a pressão do amor numa montanha de babel. Do meu lado,
eu via a guerra do seu desejo em via de espatifar, que eram os
cavalos da carne galopando. Daí observei que, antes do
antídoto das ervas, o amor dela já tinha curado
o meu cansaço.
Quando curei outras prostitutas, meu nome voou em asa de respeito.
Com a permissão das autoridades, instalei uma tenda no
mercado. Num quarto em separado, usava a terapêutica dos
índios em favor dos estropiados da Terra do Sol; e, no
outro, Florinda cuidava no despacho das receitas. De uma só
sacada, a tenda virou o maior hospital do país de cujas
patologias iam desde a lepra do analfabetismo, o chaguismo da
desnutrição e, a pior de todas, o botulismo do silêncio,
mania de as pessoas serem estocadas pela violência sem apresentarem
mecanismo de defesa. Em conseqüência, dom Ramirez deu
uma respirada para o bolso e os bens na Bolsa de Londres aceleraram
o inchaço. Cada caso atendido, eu catalogava na biblioteca
da memória. O corpo só adoecia vindo de alma leprosa.
E todos ali eram assim, porque de dom Ramirez saíam os
bicudos que contaminavam a lavoura da alma. Entre as pessoas,
a água parada era o medo. O medo que no Egito quase deu
fim à descendência de Noé e veio varrido daquelas
bandas, assustando os cristãos nas catacumbas, passou pela
Península Ibérica, amarrou os pulsos dos africanos
e, finalmente, cuspido na Terra do Sol em forma de gripe danosa.
Quanto mais abria o coração em esponja, mais ficava
aderido às misérias e aos calotes que meu povo sofria.
Aí me lembrei também do laço para o qual
estava atado. E pude ver, naquela noite chuvosa, a risada do cri-minoso
costurando Filipino numa urna de couro.
Chegou o dia da minha mistura com o Império de dom Ramirez.
A coincidência aconteceu numa manhã quando tomava
café na cabana de Florinda. A borboleta azul-topázio
veio das terras de Naara e pousou em cima do pão ainda
não comido. Era a mestra do fanal delas, no bico trazendo
o nó do meu destino para eu desatar. Estendi-lhe a mão
e ela se fez na palma, roçou-me e me deu um floral de carinho,
e depois se dissipou. Pulou na minha cabeça e sumiu pelo
buraco rochoso do céu, até não ter mais a
visão da sua linha de fumaça. Por muito tempo ainda
eu ansiava pela sua volta, que aos poucos acabou no verde das
minhas folhas. Entrei para o quarto e me bronzeei duma essência
que ajudava a suportar os dilemas mais profundos de um homem composto
de angústia declarada.
Dom Ramirez me mandou para fora do país para eu saber cuidá-lo
com todo enfeite de doçura. Isso na época de eleger-se
novamente no cargo de presidente. E, quando tudo estava sanado
na peleja, ele rasgou a Constituição do país,
dissolveu o Parlamento e deu a ditadura mais bem costurada na
história do povo solense. Num golpe de mestre, mandou assassinar
todos os líderes de oposição e tornou-se
o primeiro mandatário nas Terras do Sol com foros de caçador
de alma. A sua Lei, além de surto epidêmico, consistia
em jogar num buraco rochoso a liberdade individual e raspar tudo
quanto fosse de árvore folhuda de di-nheiro.
Quando voltei da viagem, levaram-me encapuzada de noite protegida
pela Guarda. Selaram-me aqui espalhada entre luxo e criadagem,
pertinho da casa do céu sem que possa, pelo menos, pedir
o cajado de Moisés nem a baladeira de Davi. Como ainda
era uma menina, nos primeiros tempos, ele construiu este quarto
imenso com espelhos por todos os lados e uma cama de mecanismo
giratório. Mais adiante, tem outra dependência com
variedades de brinquedo e boneca. E a proibição
se estendeu até na saída deste local, porque na
tentativa os guardas me atiram de verdade. Assim, na alma, foi
nascendo aos poucos o meu êxodo com minhas pegadas sem volta.
Aliviada, apenas, por essas bolas de sol, que se rasgam pelas
vidraças, quando são os barquinhos condutores do
meu amor para Ramon Dourado, ainda que virulado pela espada de
Ramirez.Toda vez que há um toque na porta, é mais
uma esperança rachada de desespero, pois aparece a silhueta
gorda dele com as esporas e sua mania de vaqueiro. Na cama, como
aconteceu no primeiro dia, Ramirez é apenas um ditador
que não sabe governar a erupção do amor.
Quando auscultava o coração duma moça, recebi
a visita de José Trombeta vindo da parte de dom Ramirez.
Olhei aqueles olhos descascados pela frieza duma tempestade, e
palpitei me escavando de dor, mas me mantive sereno. Seu Chico,
o comandante pede sua presença agora, disse-me. Tá
bem, acenei de cabeça baixa. Depois me virei para a moça
e continuei observando-a. Quando suspendi suas pálpebras,
percebi que nelas havia uma fornalha de amor estragado. O coração
era estranho na caixa. Com o ouvido nele, escutei as batidas laceradas
de solidão. E refleti que, durante muito tempo ali na tenda,
aquela moça carregava a síndrome do amor iludido,
pois vinha tangida de tudo quanto era amor desbaratado do mundo.
Me dê uma chance, pediu ela com os olhos agarrados em mim,
mas não lhe dei resposta. E, como tinha pressa, segui o
carniceiro da guarda de dom Ramirez, deixando para trás
a bolsa de mistério daquela mulher. No dia seguinte, ela
apareceu novamente com a mesma peste no coração.
Pegou o sol da manhã e o sol da tarde sempre com a tocha
dos olhos me laçando, choramingando que deveria aceitá-la
mesmo que fosse por uma única vez. Então, despistei
Florinda, que me deixou um olho desfeito em amargura, e com a
desco-nhecida me tranquei na tenda. Era noite, e pela lâmina
do vento os grilos me lixavam os ouvidos. Quando ela já
tinha desfeito a posse das roupas e universalizado a nudez com
uns peitos que caíam pelo chão, a Borboleta azul-topázio
me surpreendeu na volta. Pelo seu ciciar inquieto, havia um sinal
de perigo com aquela mulher luzidia e de olhar sombrio. Por isso
a mandei ir embora sob a algazarra do seu choro. Mais tarde, vendo
os signos do meu zodíaco, me foi revelado que ela era uma
das filhas bárbaras de dom Ramirez, e que, por isso, para
não causar estrago no perfil do ditador, internaram-na
como louca num hospício.
Dom Ramirez estava numa cadeira de balanço ao lado de samambaias
entre uma buliçosa esquadria de pássaros num viveiro.
De expressão abatida, tinha um ferimento profundo debaixo
do pé sangrando. Ao indicar-me uma cadeira, notei que seu
rosto angustiou-se ao fitar minha borboleta e o meu jeito grosseiro
de sol batido. Tive tempo de observar na chapa da sua alma os
fungos apodrecidos da sua condição cósmica:
em épocas remotas, na Antiga Fenícia, tinha sido
um bruxo terrível que fundara uma seita demoníaca
e, nas solenidades, sacrificava crianças para obter, quando
morresse, a patente de general das Trevas. Ao mostrar o pé
lanhado por um caco de vidro, perguntou se eu podia curá-lo.
Sim, disse. Mas da alma não... Ele nada argumentou, e tornou-se
circunspecto pela dor. Joguei a essência da copaíba
na chaga e defumei-a depois de ter feito assepsia com água
de casca de caju. E lembrei de Narabô afirmando que a terapia
era coisa sagrada dos espíritos do Alto. Fechei tudo com
atadura. Pedi a ele que não se alimentasse durante três
dias de proteína animal, exceto com leite de cabra. E fui
embora recusando pagamento, porque tudo que vinha daquele coração
era energia apagada no escuro. Anos depois, dom Ramirez recebeu
na sua residência uma urna de couro contendo a cabeça
salgada de José Trombeta. Enfurecido, foi a primeira vez
que seu Império foi esfaqueado de pânico. Em todo
país houve uma descarga de repressão pouco inventada,
mas no coração daqueles que os atendia na minha
tenda, foi a primeira vez que senti um levante de esperança.
De todos, ele poderia suspeitar, menos de mim. Assim, em lugar
da cabeça do soldado carniceiro compor o catálogo
dos objetos desqualificados, foi enterrado com honras militares,
embora com aquele único órgão num imenso
caixão sem lágrima de ninguém e coberto pelos
papelotes de alcatrão do Império.
Na terceira década de mandato, porque a Constituição
promulgada para cada era de dez, houve uma virose de 10 anos de
sol sem chuva que multiplicou, na Terra do Sol, o aumento de urubus
nas ossadas dos animais e nas pessoas que morriam à míngua
pelos campos, isso sem falar na violência das pedras de
sol que atrofiou tudo que era mato. O clamor era tão grande
do povo que as autoridades sanitárias mais ligadas ao comandante
tiveram medo de que o país sofresse uma regressão
fetal na atividade empresarial da elite e tudo virasse uma republiqueta
do porte das nações mais miseráveis da África.
Dom Ramirez se inquietou e, num gesto humanitário e inédito,
mandou abrir o seu açude particular, obra da engenharia
humana, em cujas águas o sol vinha beber todos os dias.
O decreto deixado em cada povoação provocou um desatar
de rede para lá e em três dias tudo que existia de
água acabou. Os peixes morreram afogados de sol e em poucos
segundos foram devoradas até as escamas. Com essa tamanha
aflição, dom Ramirez instituiu um Prêmio Universal
para quem inventasse, com matéria-prima da região,
algo que erradicasse no sangue dos homens o carrapato da fome.
Dois anos depois, um homem chamado Rapiné, pai de doze
filhos, que não era cientista, mas um agricultor algemado
pela guerra do medo, apurando o caldo duma planta de haste alongada
perto da sua casa, conseguiu cristalizar uma substância
em forminhas de madeira. A coisa cristalizada virou o maior sucesso
no país e os filhos do inventor não morreram mais
da insônia da fome. O invento chamou-se, em semelhança
ao nome dele, de rapadura, um granito mineral de substâncias
altamente nutritivas. Quando ensacado em paneiro, sua duração
fora da umidade dura séculos. Quando havia subida de preços
no país, os ministros reclamavam que os produtores do setor
armazenavam o produto para fins especulativos e, assim, havia
desorganização no bolso da economia.
Isso tirou a corda da laringe de dom Ramirez. Que formou um cordão
imenso de desvalidos e pessoas sem emprego, e para eles distribuía
rapadura e farinha-seca periodicamente. Em público, sempre
ele aparecia com um pedaço do invento chupando, mas na
intimidade, com seus ministros, só bacalhau da Noruega,
com exceção da tiquira, que ajudava a fabricar as
enzimas estragadas do amor todas as quintas-feiras.
Naquela época, pelas condições em que se
encontrava o país, para fugir das hordas famintas e proteger
a vida das ciladas, o ditador não tinha morada certa. Uma
noite, ouvi um aboio no quarto dos brinquedos, que geralmente
ficava trancado. Olhando pelo buraco da fechadura, vi dom Ramirez
com o gibão e as esporas montado num cavalo feito de talo
de carnaúba. Com a folha seca da árvore, ele fez
a cabeça e colocou o cabresto; aparou a vassoura de trás
tornando-a no rabo do cavalo; e, com o chicote e as esporas na
barriga do animal, enfrentava as unhas-de-gato atrás do
gado com tristes lamentos. Quando se lembrou do outro cavalo que
o tinha deitado sobre uns tocos de pau, ele destruiu o invento
e caiu pelo chão. Ali ficou horas soluçando até
que dormiu entre as bonecas.
Seis meses depois, dom Ramirez pôde andar com as esporas
e estava de todo curado. Por meio de decreto, deu-me o título
de Cidadão Solense e de Benfeitor pelos serviços
feitos na minha tenda à população. Quando
fui convidado a receber a homenagem, mandei a minha secretária
Florinda levando uma desculpa por ter viajado às pressas
para aplicar um soro-salvação numa criança
picada por uma cascavel. Evitei assim o olho de peixe morto do
tirano. Mas Florinda me trouxe o Diploma e um pacote de dinheiro
costurado também numa urna de couro. Ao abrir o pacote,
tive a impressão de que era a urna de Filipino. Depois
do engano, mergulhei tudo em álcool e ervas secas numa
bacia, e fritei as homenagens de dom Ramirez até ficar
um torrão de desprezo.
Florinda arranjou, no dia seguinte, castanhas de caju e leite
de cabra. Se alguém me procurasse, não revelasse
meu destino. Assim, fechado no cadeado do meu quarto, fui me organizar
para receber das terras do céu a visita de Naara. No café
e jantar, tomei leite e comi as castanhas com mel de abelha; no
almoço, tirei do manculão a farinha de peixe que
Narabô, pai de Naara, havia consagrado em solenidade para
quando eu fosse cair chibatado pelas energias do cosmo. E da mistura
da farinha com arroz pilado me fiz plasma.
De bata branca e com o ambiente em essência, criei os chicotes
de represália para impedir os arruaceiros do espaço.
No coração, fiz uma passarela de flores com várias
silhuetas de orégano e, no ar, dependurei os anjos da minha
voz para saudá-la. De repente, a noite quebrou-se ao meio,
e o foco da lamparina estragou-se em escuro. Lá do céu,
porém, Deus acendeu um grande holofote com uma asa de luz
seráfica que deixou abrasado o quarto. A luz descia em
flocos e quando batia as casquinhas em mim, eu sentia um dilúvio
de paz. Daí a poucos, no meio duma poeira cósmica
silenciosa, começou aparecer um olho vivo no canto do quarto.
Depois o rosto e os cabelos e, por fim, a imagem da minha esposa,
que agora era um ser com raízes plantadas no céu.
Em lugar de ir ao encontro dela, fui me sumindo entre grãos
de leveza e os olhos apalpando o chão do sono. E caí
de olhos abertos ainda vendo a sua imagem translúcida.
No sono, ouvi quando ela disse: saia daí! A minha permissão
aqui é pouca.
Então abri uma rachadura na pele e, já solto pelo
corte que me deu leveza duma pena, me formei num outro corpo sem
o peso das células materiais. Naara me tomou pelos braços
e a gente sumiu, na noite, rasgando um buraco pela parede do céu.
Do mesmo jeito, Naara fez com Dorinha, quando lhe pediu que saísse
da sua cavidade prisioneira. Mas ela disse chorando que, se saísse,
Ramirez poderia matá-la com uma faca de açougueiro,
até porque os guardas estavam de prontidão lá
fora. Fique tranqüila, você não sairá
do aposento, Ramirez não poderá chegar por aqui.
Trouxe esta visita, e virou-se para mim. Dorinha focou a lâmpada
dos olhos em mim numa revista inquieta. Estou perdida!, gritou
espantada. Este homem é da Guarda de Ramirez, veja na testa
dele a borboleta. Leve-o daqui, por favor! Naara me olhou assustada
e rápido compreendeu quanto o coração de
Dorinha havia se fraturado no terror do cativeiro. E, disse-me:
Chico, tente lembrá-la de alguma coisa. Use o fluido do
amor dentro de ti. Fiz minhas mãos sobre a sua cabeça
e fui retirando, aos poucos, da grande vesícula do esquecimento,
as lembranças de quando éramos felizes no Estreito,
e daí saíram os quadros limbóides de emoção,
e as lipases de saudade, e os ferrolhos de sonho que nos uniam
desde a eternidade. Dorinha foi me achando lentamente entre as
papeladas da memória e, de repente, diminuiu o volume da
intensidade e espatifou-se numa nódoa de pranto... E, levantando
a vista, dentro dos meus olhos, disse: Você é morto!
Ramirez já te fez numa emboscada, você é alma
e não gente... Sou prisioneira e daqui jamais sairei. Vá
embora antes que ele te mate outra vez. Fuja, Ramon! Ah, foi terrível
a sentença. Gestos e apelos deram em nada. Dorinha soluçava
pelo fole do medo que, no Império, era o suspiro de todos.
Nem Naara, com a força de estadista do céu, conseguiu
nada. E com um gesto sombrio, aquietou-se na sua cavidade e dela
ouvi frases soltas que, nas quintas-feiras, Deus queimava a estalação
do sol para deixá-la amarrada no saco de escuridão
de dom Ramirez.
Dois
dias depois, fui chamado às pressas na presença
do ditador. Peguei meus acessórios e cheguei à residência
dele. Ao me ver, foi logo dizendo: Tenho uma paciente especial
para os teus cuidados! E, com o ruído das esporas, entraram
dois guardas no terraço. Com os olhos em mim: Curandeiro,
guarde absoluto sigilo pelo serviço. Guardas, levem-no
à casa da minha paciente. Com um sinal, os guardas me pediram
que os seguisse. Depois, já fora da vista de Ramirez, colocaram-me
uma venda e me amarraram com as mãos para trás.
Ao abrir minha revolta, eles disseram: Estamos cumprindo ordens
do comandante. Com raiva, na língua de Naara, cifrei todas
as malcriações dos curumins da tribo. Pouco ligaram,
e, ainda por cima, me acomodaram numa padiola ao som de um apito
estranho, que ia cavando na noite a minha angústia. Pelo
visto, tinha caído numa enroscada. Resmungando, tivera
oportunidade de ter despachado Ramirez através da infiltração
do pé, mas não o fizera pela esperança ainda
de saber Dorinha viva.
Abriram uma porta e me soltaram a liberdade cativa. Acompanhe-me,
disse um dos soldados. Quando abriram uma outra porta, encontrei
no ar a essência do pau-rosa e do bogarim que tinha usado
no encontro de Naara, que de pouca coisa ainda lembrava. Olhei
para o guarda e perguntei, qual o nome dela? Dorinha Fulgência,
disse ele naturalmente. Você tem uma hora para medicá-la,
completou conferindo o relógio. Tudo bem. O caso dela parece
grave, sim, são dois dias que ela dorme de olhos abertos
sem ingerir nada. O comandante está muito abatido, e todos
os médicos ainda não descobriram a causa da doença.
Aproximei-me do guarda e disse: ela tem a virose letal da solidão,
só o antídoto do amor ainda em pequenas doses pode
salvá-la. O homem ficou boquiaberto; dos termos alquímicos
trazidos das terras de Naara, para ele tudo era estranho. Abri
minha cesta e com um pedaço de tabatinga desenhei no piso
a estrela esotérica de todos os feitiços do homem,
escanchei nas suas pontas as bulas da minha alquimia e fiz um
nó com a corda dasorações para tirar Dorinha
da caverna mal-assombrada da morte. Desatei pelo vinco do desejo
a farmácia celestial dos espíritos curadores e,
penetrando no olhar do guarda a minha escavadeira, observei no
lado direi-to dele um pulmão cheio de crime. Acendi um
charuto e com uma baforada que o atingiu, ele caiu desacordado
isolado pelo peso da impulsão.
Insuflei nas narinas de Dorinha o halo do amor eterno, escondido
num vaso secreto da alma, quando na caverna pude fermentá-lo
em rosas. Limpei com os dedos de curandeiro o corpo dela do pó
da saliva maldita que, durante anos, Ramirez havia manchado com
a cinza do suor. Arranquei o sal que salgava suas dores por mim.
Depois lambuzei meus prantos sobre ela e toquei sua boca com a
língua, deitando-lhe ervas doces dos campos floridos de
Naara. Defumei o quarto pelo lado horizontal onde o sol nasceria
estilhaçado de fungos luminosos, e untei sua fronte com
o óleo de Nirê, o imortal guerreiro da tribo de Narabô,
para quando ela despertasse envolvida pela brisa do sol não
sentisse desespero, mas a minha presença em circuito por
ali. Logo depois, acendi a pira das borboletas e fiz o cântico
de chamada delas, porque elas dariam o sinal da vida e da morte
ao mesmo tempo.
Quando deixei a casa-prisão de Dorinha, dei com os guardas
em suas posições todos em pé de guerra com
as carabinas sobre os ombros. E, alguém deles, antes que
os atravessasse, disse que alguma coisa de extraordinário,
nos próximos dias, iria acontecer. Escolhi então
o profeta daquelas palavras e arranquei da sua boca um charuto,
sem haver nenhuma reação do guarda, colocando outro
charuto no lugar com o espinho da morte. Ao fazer isso, ninguém
me viu, porque fui envolvido dentro duma botija de fumaça
do tipo daquela que Deus havia conduzido os irmãos de Moisés
pelo deserto. Mal atravessei a Guarda, caíram do espaço
dois projéteis de desespero no profeta do charuto e ele
desabou morto no chão com a carabina atirando o céu.
Quando o chefe da Guarda de Ramirez deu um toque na porta, pensou
que teria mais outro trabalho, como era costume, em levá-lo
embriagado de volta à sua Residência Oficial e, no
outro dia, nos despachos que ele concederia aos ministros, sua
estampa de ditador era a mais violenta. Ai daquele que caísse
no desagrado daquele momento... Na segunda pancada, o capitão
ficou preocupado. Chamou por Dorinha, e nada. Já estava
tão nervoso que resolveu descer ao comando da Guarda e
trazer mais gente. Logo foi dizendo aos soldados: Parece que há
algum pro-blema com o nosso comandante, chamou outro graduado
e deu instruções para ficarem atentos nos seus postos.
E subiu com os outros. Bateram na porta até explodir a
paciência. Então, em nome da segurança maior
de Ramirez, determinou a derrubada da porta, só que os
guardas com a violência das botas não conseguiram
nada. A porta estava com um mecanismo imune à mão
humana, por isso trouxeram mais tarde um maçarico e ela
foi quebrada aos pouquinhos. O capitão deu o sinal de invasão
e a Guarda toda entrou, mas o aposento que era imenso e feito
de conforto, tudo nele indicava ordem. Mas o que eles viram de
imediato foi uma nação de borboletas entrincheiradas
no ar e uma fumaça etérea que dava desespero nos
olhos de cada um. Cada um que olhava cada um ressuscitava seus
crimes antigos e os mais recentes, e choravam com desespero, sem
saber a causa nem o porquê desse sentimento tão estranho.Mas,
o capitão que era um velho guerreiro acostumado com os
truques das guerras mais perigosas, quebrou o encanto do momento.
Insuflou, como antes, o protoplasma do sentimento da audácia.
Dois soldados à porta do banheiro, ordenou. Verifiquem
debaixo da cama, revirem tudo! Se encontrar alguém estranho,
passe-o pela espada! Em primeiro lugar a vida do nosso comandante,
gritou. Mas não deram com nada, exceto com o vapor saindo
das entranhas dos objetos e com o voejar das borboletas que, quando
desgrudavam dos parafusos do ar, morriam asfixiadas no chão.
Quando ele entrou na banheira com sua armadura toda sarapintada
de medalhas, deu com o seu comandante boiando nu na água
onde também havia o mesmo vapor. Com os olhos abertos e
um charuto na boca, o corpo dele tinha se reduzido pela ação
da água vitralizada. Dom Ramirez, com a expressão
solitária e um gesto ridículo no canto da boca,
só tinha dado um salto no buraco da morte, sendo saudado
pela presença das falenas de Chico Borboleta.