Biografia / Bibliografia

João Pinto

Epitácio de Alencar e Silva Neto nasceu no dia 12 de julho de 1973, em Manaus. Formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, foi articulista do jornal “Amazonas em Tempo”. Publicou seus primeiros contos em “O Muhra”, periódico literário editado pela Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas. Obra: O Livro negro: contos (Manaus, 1999).

 

 

Textos Selecionados:

O Ditador da Terra do Sol

Ao ouvir o som da corneta por três vezes, Dorinha Fulgência, como era conhecida, lembrou que era quinta-feira, o único dia da semana que dom Ramirez, escoltado pela Guarda, vinha vê-la numa capa de segredo que só ela guardava a chave do quebra-cabeça. Ao colocar os trajes mais suntuosos como ele exigia, ela olhou-se no espelho amarrando os cabelos para trás e viu dentro do olho uma jovem ainda angelical e linda, a boca comida pelo desejo da alma e uma pele sem o viço do sol lá de fora. Pronta estava para receber o caudilho, cujo bigode dobrava nas pontas. Ramirez era um homem feio e também acossado por uma liga de angústia.
Foi só ouvir a voz dele na porta quando recomendava o isolamento da área circunvizinha e o recolhimento de quem estivesse por perto, que Dorinha Fulgência ainda teve tempo de checar o ambiente. Se a bilha continha a tiquira com gengibre, tudo em ordem; se no criado-mudo os charutos de fumo de corda, tudo em ordem; se ao lado da cama as esteiras para as bofetadas, sim; se na banheira de mármore a essência do eucalipto para o banho, tudo ok. Aí ela deu um suspiro aliviada no momento em que ouviu o toque na porta.
Dom Ramirez deu entrada na porta trajando de vaqueiro, chapéu de couro com os diademas do Império e as sapatas com as esporas que, no movimento delas, davam um ruído de terror. Foi direto ao banquinho e nele se acomodou. Cruzou as pernas gordas e, como de costume, de lá jogou um maço de dinheiro na cama, que, depois da saída, Dorinha derretia nas frituras do álcool. Pediu charuto e depois deu uma baforada. Nunca troco meu charuto por coisa alguma. E lembrou-se da vida sofrida no passado. Cortei meu indicador numa lâmina maldita e, por pouco, não vai a mão. Ah, foi uma dor terrível. Agora nada me preocupa porque sou a Lei desse povo. E deu uma charutada poluindo com as argolas da fumaça o ar. Ah, Ramirez é a gaveta do sentimento de todos na Terra do Sol, e jogou o osso da gargalhada para fora explodindo as cicatrizes do silêncio.
Dorinha tirou-lhe o chapéu e jogou alfazema na cabeça dele. Assim como afrouxou o gibão e as esporas e tudo veio abaixo, enquanto lhe dava um trago da bebida. Ao sentir o verniz do charuto fedorento, ela foi se reduzindo numa pele muscosa de amor e em seguida foi tirando os cordões de ouro que entrançavam os mamilos. Quando não tinha mais um centavo de vestimenta e o corpo era um painel luminoso a ser tocado, dom Ramirez se socou no delírio ao olhar a montanha fornida daquele corpo. Para ele, ele havia construído nela uma arquitetura de mulher, e, dentro dessa fachada, o amor e a sensualidade esperados. Levantou-se em seguida, deu-lhe um trago da bilha e sentou-se nu sobre suas pernas. Ah, dom Ramirez tinha mania dessa posição... Daí deu início ao ritual de muitos anos: com a língua atou seu desejo naqueles peitos de cavidades arroxeadas e chafurdou os dedos em tudo que podia apalpar, raspando os gemidos mais espalhados da alma. Dorinha entregava o corpo, porque assim era a lei dele. Mas a alma se mantinha rasgada pelo bicho do cativeiro. Já vaidoso pelo feito e queimado pela essência do gengibre, com ela nos braços, jogava-a sobre a cama, e no jeito do faz-de-conta, lá ia escarafunchando o corpo dela sem encontrar finalmente a estufa do amor.
Acontecia, então, de repente, dom Ramirez chorando, rasgando o lençol na faca dos dentes, e espalhando a violência do copo nas paredes. Depois em pé, com o coração assado no desespero, esmurrava as esteiras pregadas no reboco até formar um vento lascado de ira. Sacava do revólver e, com o cano no ouvido, vou me quebrar os miolos para sempre. Tenho que me matar! Fazia o gesto de quem ia. Ramirez! Ramirez! Joga a arma fora, por favor! Vai para a banheira, você não lembra que o povo te aguarda amanhã? Ela soprava uma cornetinha nessas horas, uma, duas, três vezes. E, ainda choroso, ele acedia. Embriagado, a dificuldade era a banheira, mas antes do eucalipto, o ódio que era a casca apodrecida do Império vinha à tona: se abrir a boca, mando te matar, da forma como mandei matar o outro, sim, dom Ramirez, na fogueira, o pobre cavalo.
Bem que podia jogar uma pá de argamassa no meu relato e esquecer para sempre este homem aí, dom Ramirez, boiando nu na essência do eucalipto. Mas o testemunho da sua tirania seria engavetado no escuro. Abrindo o ferrolho da conversa, é o jeito de me colocar no ouvido dos homens.
Fui abortada de casa aos 13 de idade, quando Ramirez já era o general das nossas almas. Vendo-me pela primeira vez ao lado de mamãe, disse: cuido dela e dela farei a mulher mais ditosa do meu Império. Baixei a vista e tive medo dele, porque o conhecia apenas pelos retratos pregados por toda biboca. Mãe, não deixe, apelei com tristeza. E corri para abraçar minha cadelinha, fora dali. Era uma tarde e o sol já ia se tangendo para os currais do céu. Nem dei fé naquelas palavras bobas, porque eu era ainda uma menina. Seis dias depois, sob os protestos de papai e minha mãe desmaiada no chão, fui levada sob forte aparato pela sua Guarda. Papai foi preso numa cadeia pública, rasparam sua cabeça e foi cuspido pela tortura da milícia do ditador. Depois declarado inimigo da Nação, porque dissera que, além de tirano da alma, dom Ramirez também era do corpo. Implorando sob seus pés, seis meses depois papai voltou para casa: magro e atacado por uma enfermidade que gritava toda vez quando via o retrato do ditador. Perdeu o branco da vida para entrar no lado escuro dela, fechado num quarto sobre um banquinho sempre se maldizendo que, ao lado do coração, havia um abscesso de treva. Nunca mais tive notícias dele. Papai desceu à sepultura para além da morte ainda a resmungar de Ramirez e encontrar no coração o mesmo defeito. Quando perguntava por ele, Ramirez abria o segredo da raiva e queria me agredir, mostrava-me este chicote que aí está no chão e me chamava de fedelha malcriada, porque se era uma mulher bonita e com todo conforto, tudo isso vinha de um coração armado na bondade.
Minha família, quando me ausentei, foi guardada no mausoléu do desgosto. Juvenila, que era minha mãe, pouco tempo depois morreu com as esporas da tísica rolando no peito; dois anos mais tarde, foi a vez do velho encontrado com uma corda no pescoço perto duma fonte, onde sempre ia banhar-se.
No bolso da calça, os homens de Ramirez encontraram uma carta que, segundo eles, papai se rendia ao comandante por tê-lo ofendido. A lição da carta serviu de exemplo, e foi arquivada como documento histórico do Império. Ninguém acreditou nisso, porque papai era analfabeto. Quando ninguém se lembrava mais do caso, foi a vez de outros assassinatos no Estreito. Aliás, reduto pastoril do ditador.
Antes de ser escoltada para essa casa, Ramon Dourado me fez um testamento do seu amor romântico e da eternidade desse armistício enquanto durasse, mas toda essa coivara acesa sapecou com o tempo. Disseram-me que ele e um irmão foram mortos numa emboscada numa noite chuvosa de fevereiro. Isso há 10 anos, quando Ramirez, conhecedor já dos truques do poder, assumia pela segunda vez o posto de presidente. Em todo país houve uma lavagem de votos com suborno nas mesas eleitorais. Ao ser diplomado, mandou tirar 100 bois dos currais e, num acampamento mais parecido de guerra, promoveu o maior bacanal de festa havido na Terra do Sol. Ali mesmo, no ardor da voz, prometia só duma tirada banir a prostituição, o analfabetismo e a corrupção. Abrir a sala presidencial para as queixas dos excluídos e distribuir uma substância protéica, em forma de laranja, rica em aminoácidos para neutralizar os retirantes da fome do seu Império. Três meses depois, a promessa foi substituída por um pacote que confiscava, de qualquer família do país, jovens com mais de 13 anos que ele desejasse como companheiras. Assim, num golpe certeiro, rasgava a constituição do amor universal de todos, para torná-la só sua propriedade de consumo.
Quando dom Ramirez deixou o palanque da posse, numa noite fabril de enzimas doentias, José Trombeta, o carniceiro da Guarda, junto com dois pistoleiros do quadro do governo, foram à minha cata para rachar meus miolos numa emboscada entre o rio das Almas e a chapada da Caneca. Como era noite e escasso o pó branco da lua, o meu irmão Filipino foi quem levou a descarga do ódio de dom Ramirez com um tiro na boca. No fogo das suas lanternas, marquei bem na memória o soldado espalhado de barbárie com os signos de maldade dos capachos. Deceparam o pênis do meu irmão, as orelhas junto com os olhos e boa parte dos cabelos. Tudo foi plastificado e salgado, e fechado numa urna de couro para ser arquivado no porão dos objetos desqualificados de dom Ramirez. O motivo, a carta nos achados de Dorinha, meses depois. Naquele dia, Dorinha experimentou o cata-vento arruinado de um ditador: foi surrada de chicote nas pernas e obrigada a revelar a minha identidade, e proibida de nunca mais pensar em homem, exceto em Ramirez. Mas, em lugar de afugentar do coração dela o meu nome, mais encontrou ela nas cordas do tirano a caverna do meu amor.

Depois que eles deixaram meu irmão enterrado na solidão de um pé de pequi, nadei o rio das Almas sendo rebocado pelo gás do medo. E, depois da travessia, que ainda era seus domínios, escondi-me mais de 10 anos numa caverna, morada de morcegos-vampiros e baratas alucinadas. elo excesso de medo, fiz um nó de fome no meu destino e quebrei a minha voz, porque não tinha com quem falar. Comia sapucaia e palmito de palmeira, e para não perder o hábito pelo sangue, dos beija-flores arrancava os corações com nojo. No dia em que me escasseava só no ovo de rolinha gorado, não tinha cristão que me agüentasse, os morcegos despregavam dos parafusos da caverna e explodiam lá fora nas facas do escuro. Certo dia, ao comer um carambolo, a carne desse dinossauro amarrotado era tão lixosa e amarga, que deixei o gesto para sempre, e passei dois dias acocado no mato. Mastigando folha de guabiraba, o organismo fez uma rolha de vedação na tripa gaiteira. Anos depois, em Marmelos, aprendi a comer cobra e outros insetos asquerosos, porque me dei virado para os costumes dos índios. Os cabelos deram com as palhas pelas costas e a barba até aos cotovelos da barriga; as unhas eram aparadas nas pedras como os cães assim se arranjam; os dentes e o corpo eram limpos com raspas de juá. Vivia no osso para não desgastar as roupas. Perdi a mania de relogiar o tempo. Para mim, ou era só noite amarrada de escuro ou só luz iluminada de sol. Pior era a morcegaria com os adubos me fazendo de privada no sono. De homem do vapor, fui removido para era lascada, só faltava dar um chute na aba do sol e acabar com a luz, e me tornar resto de papéis carbonizado de escuridão.
Por coincidência, fui achado por um caçador que supunha que ali morasse um macaco-gorila. Ao puxar o gatilho para me mandar fora do planeta, eu gritei: sou gente, homem, não me mate! E não acreditando na minha erva amargosa da alma, reforcei, sou o único descendente de caverna. Vim da Malásia nas costas duma tempestade de gelo e daí tornei-me um vadio do medo, vivendo só com as arestas dessa doença. A minha descendência toda já foi batizada com o peso da pá, acredite! Moço, sou um troglodita arruinado... Baixando a lazarina, ele me queimou com um olhar por cima do seu susto soltando uma gargalhada amarrada com cipó de gozação. Depois que gaiatou quebrando a casca da voz, perguntou se eu tinha fome. Não!, respondi, sou comedor de folhas e raízes, e de lagartos. Mesmo assim, me jogou um pedaço de cuscuz, que devo-rei com terra, e depois vomitei. O estômago tinha virado um feto de criança. Era preciso ser gente de novo fora da espingarda de Ramirez.

O caçador deu outra trovejada no riso e deu às costas, sumindo pelo rabo do meu olho assustado. No outro dia, seguindo a mesma rota, trouxe roupas e calçados, deu-me uma caixa de fósforo, e uma tesoura. Disse que por ali dinheiro era coisa rara. Oh, isso é querer demais... Aparei a barba e os cabelos, e me espantei quando matei um piolho de cobra que me sugava na barba. Perdi o caçador dos olhos e dei também um drible nas armadilhas de dom Ramirez. Peguei um navio pagando a passagem como copeiro e me achei num dia chuvoso no país dos Marmelos. A única coisa que carregava às costas da alma era uma mala cheia de medo com o selo do Império de Ramirez.
Da capital, fui para o interior com um naturalista alemão para aprisionar borboletas e remexer no armário do coração uma broca que estragasse o miolo do meu medo. Do estrangeiro, pouca coisa aprendi, nem o resmungo das sílabas diferentes. Com o novo ofício, fui tachado de Chico Borboleta, e não Ramon Dourado. Ramon Dourado eu costurei num saco de estopa bem amarrado junto com as lembranças de Dorinha e escondi debaixo do fogareiro do sol, para não serem destruídos pelo sereno do esquecimento. Se algum dia ainda voltar, pedirei a devolução dos meus pertences. Mas a lâmina do medo que me colocou uma pedra no exílio foi a mesma que bichou a vida de Dorinha. Além do viveiro das borboletas mortas e secadas ao sol, o cientista seguia a rota do contrabando de ouro com uma rede bem definida no país. Aliás, as borboletas eram só uma casca de uma grande pereba. No país dos Marmelos não havia controle alfandegário e as autoridades aproveitavam nas propinas, daí o destaque dessa gente entre as miseráveis. O ouro era lapidado pelas nossas fronteiras em sacos de farinha com o selo “Borboletas Cristalizadas”. E, no recente, o laboratório das folhas, mais malvado que o cascalho do ouro. Êpa! Viver em terras de Ramirez é virar o sol para trás e cair de mal jeito dentro da boca do escuro.
Conheci o amor dentro do coração duma índia quando ainda eu era uma forja sem adubo de alegria. Naara acendeu uma lâmpada na minha solidão e raspou a borra do ódio que trazia como contrapeso. Em Marmelos, casei-me com ela e aprendi os mistérios dessa gente que tem outra banda de gente na alma. Na lua-de-mel, Naara me levou para fora do agrupamento e com a destreza do sangue, construiu uma tenda só de folhas verdes. Dentro dela fez um jirau suspenso do solo igual à maciez da sua voz e nele jogou alecrim roubado do coração, a fim de descer nos arredores a lua coberta de gelatina amorosa. Depois pintou meus cabelos com urucu e deu-me enormes tatuagens, inclusive uma de borboleta, que nem com água da velhice diluiu. Fez eu beber uma substância de travo celestial e, já despido, com a esponja da língua me olificou de ternura com uma defumação na parte de baixo, e declarou-me sua propriedade para o gozo. Fecha os olhos, ela disse, me envolvendo com o peso molecular da ternura. Quando abri, Naara tinha sumido pelas vísceras do mistério. Esperei-a a tarde toda, debaixo da sombra do desejo e quebrado num sopro químico de saudade. E, de vez em quando, sacudindo os pulmões no ar entre os arranha-céus de árvore. De noite, lá chegou com o corpo lambuzado de arco-íris e de perfume silvestre, mais formosa que o sol quando se acende de poesia sobre as águas. Foi logo pulando no jirau e me juntando com um olhar fogoso, para que eu pudesse ser a outra parte do jirau no amor. Quanto mais ela derretia o suor, mais minha alma entrava em eclipse de gozo. Assim, a noite fechava o cofre do escuro pelos movimentos do jirau. Foram três dias que a gente não comia nem bebia, só dando conta dos membros, até quando desmaiei em função das toneladas de amor vividas. Naara desmontou a tenda e queimou todas as nossas lembranças no sal do fogo. Ainda desmaiado, me deitou nu nas costas, entrou no agrupamento me levando como prova de que, a partir dali, me assumia como espólio, e dando a sua identidade de mulher perante os seus. Toda a vez que a gente queria safadar, ela me dava uma dose mais escassa da substância, e todos na aldeia saíam das suas tendas para lembrarem o tempo deles.
Da substância celestial e das defumações, nasceu Niraldo. Dois anos depois, a corda da felicidade quebrou: uma onça-pintada mais selvagem de natureza conseguiu colocá-la garganta abaixo. Passei três dias desmaiado e de rede armada no desespero. No delírio, usando o microfone da alma, Naara apareceu com um corpo de fibras do céu sem os sinais da violência da Terra e acendeu os dentes para mim, que ainda eram cristais alvacentos. Afagou meus cabelos, dando-me passes longitudinais de amor e me pediu que voltasse à Terra do Sol. Quando ela ia se soltando pelo vidro cristalino do céu, eu quis acompanhá-la, mas o rabo de fumaça que me prendia ao corpo desacordado impediu. Então chorei de vexame, porque ainda era prisioneiro dele. Acordei atravessado de fome. Narabô me abraçou soluçando, também com o coração esburacado de saudade. A partir daí me desviei em duas bandas: uma, foi à borra de café tirada do coador que dom Ramirez me tinha sacudido e ainda me sujava; a outra, ao homem-espírito, com as almas costuradas no espaço, por isso construí uma parabólica para me ligar com o telhado do céu.
Antes de cair do cavalo que o fez estropiado para as doçuras de mulher pelada, dom Ramirez teve várias delas e todas foram banidas dos seus domínios, porque, por um descuido, se engancharam no cabide dos nove meses. Os filhos foram doados em lugares secretos e nunca os vassalos souberam da paternidade, sua mulher verdadeira é gorda e de jeito falsificado e, na testa, com uma placa luminosa de angústia, só aparece em público quando dom Ramirez corta a fita das inaugurações. No tempo em que havia eleição, o casal atava seus amores nos palanques e comiam no mesmo cocho. Dessa união de votos, nasceu um filho que, segundo se sabe, veio com uma brochura de mulher no sangue. O filho, mais tarde, tentou organizar uma liga de homens-mulheres no país com finalidade desconhecida, mas deu em nada, porque o pai decretou a falência da empresa e mandou colocar todos os cabeças num saco de estopa amarrado e jogar num precipício sob os olhos do céu. Na sala de presidente não há foto da família, só a dele dando beijos para o povo. Do retrato feito a óleo, sai um rosto amargo e polido de feiúra, cabelos grisalhos, um eterno bigode de espinho de porco e um cordão de ouro no pescoço. Dom Ramirez é uma folha velha que a gente gostaria de jogar no braseiro da alma.
Certo dia, dei entrada pela porta do sol e, através do manejo que os canoeiros tinham em conduzir as embarcações com uma vara no peito, cheguei outra vez à Terra do Sol. No cais, observei que todos me olhavam fascinados e possuídos de espanto. Meus cabelos vermelhos eram cortados em forma de cuia, a orelha do lado esquerdo tinha um brinco de rosca de tucum feito por Naara e na testa a tatuagem da borboleta voando para o céu. O rosto tinha a palha do bronze do sol e os olhos eram um imenso lago virado de estrelas. Foi só jogar o manculão e uma rede de fibras de buriti no chão, que apareceram muitas pessoas ao meu lado, e entre as quais um soldado de dom Ramirez, trazendo à mão uma garrucha do século XVI. O guarda solicitou meus documentos e perguntou quem eu era, mas calmamente dei a resposta na língua de Naara. Olhou-me espantado e deu o assunto por encerrado. Disse aos curiosos que eu era um índio da Montanha Rochosa do Outro Mundo. E, com um apito na boca, todos se afastaram com medo.
Naquela noite, dormi num estábulo de uma prostituta magri-nha e, na expressão, um pavio iluminado de doença. Implorou as minhas carnes enferrujadas de sol e a sombra taciturna dos meus olhos, mas em vez de aceitá-la, dei-lhe um líquido do meu alforje homeopático. Com a dose, dois dias seguidos ela dormiu, delirando que uma borboleta amarela e um vaqueiro sanguinário haviam sedado seu coração com uma brisa de desespero. Fiquei dois anos e meio no estábulo, uma simples tapera que a tosse da noite era o gemido do frio e as ferradas dos carapanãs, seu nome era Florinda e tornou-se minha escrava apenas na cobiça pela borboleta do meu rosto. Vendo nela uma escrava do coração, limpei seu organismo da gonorréia e da anemia, e, com passes mágicos, afastei os espíritos tristes da sua aura. Florinda deixou de queimar-se pelo dinheiro e virou minha secretária, mas quando passou a friccionar as ervas no meu corpo, Florinda subia a pressão do amor numa montanha de babel. Do meu lado, eu via a guerra do seu desejo em via de espatifar, que eram os cavalos da carne galopando. Daí observei que, antes do antídoto das ervas, o amor dela já tinha curado o meu cansaço.
Quando curei outras prostitutas, meu nome voou em asa de respeito. Com a permissão das autoridades, instalei uma tenda no mercado. Num quarto em separado, usava a terapêutica dos índios em favor dos estropiados da Terra do Sol; e, no outro, Florinda cuidava no despacho das receitas. De uma só sacada, a tenda virou o maior hospital do país de cujas patologias iam desde a lepra do analfabetismo, o chaguismo da desnutrição e, a pior de todas, o botulismo do silêncio, mania de as pessoas serem estocadas pela violência sem apresentarem mecanismo de defesa. Em conseqüência, dom Ramirez deu uma respirada para o bolso e os bens na Bolsa de Londres aceleraram o inchaço. Cada caso atendido, eu catalogava na biblioteca da memória. O corpo só adoecia vindo de alma leprosa. E todos ali eram assim, porque de dom Ramirez saíam os bicudos que contaminavam a lavoura da alma. Entre as pessoas, a água parada era o medo. O medo que no Egito quase deu fim à descendência de Noé e veio varrido daquelas bandas, assustando os cristãos nas catacumbas, passou pela Península Ibérica, amarrou os pulsos dos africanos e, finalmente, cuspido na Terra do Sol em forma de gripe danosa. Quanto mais abria o coração em esponja, mais ficava aderido às misérias e aos calotes que meu povo sofria. Aí me lembrei também do laço para o qual estava atado. E pude ver, naquela noite chuvosa, a risada do cri-minoso costurando Filipino numa urna de couro.
Chegou o dia da minha mistura com o Império de dom Ramirez.
A coincidência aconteceu numa manhã quando tomava café na cabana de Florinda. A borboleta azul-topázio veio das terras de Naara e pousou em cima do pão ainda não comido. Era a mestra do fanal delas, no bico trazendo o nó do meu destino para eu desatar. Estendi-lhe a mão e ela se fez na palma, roçou-me e me deu um floral de carinho, e depois se dissipou. Pulou na minha cabeça e sumiu pelo buraco rochoso do céu, até não ter mais a visão da sua linha de fumaça. Por muito tempo ainda eu ansiava pela sua volta, que aos poucos acabou no verde das minhas folhas. Entrei para o quarto e me bronzeei duma essência que ajudava a suportar os dilemas mais profundos de um homem composto de angústia declarada.
Dom Ramirez me mandou para fora do país para eu saber cuidá-lo com todo enfeite de doçura. Isso na época de eleger-se novamente no cargo de presidente. E, quando tudo estava sanado na peleja, ele rasgou a Constituição do país, dissolveu o Parlamento e deu a ditadura mais bem costurada na história do povo solense. Num golpe de mestre, mandou assassinar todos os líderes de oposição e tornou-se o primeiro mandatário nas Terras do Sol com foros de caçador de alma. A sua Lei, além de surto epidêmico, consistia em jogar num buraco rochoso a liberdade individual e raspar tudo quanto fosse de árvore folhuda de di-nheiro.
Quando voltei da viagem, levaram-me encapuzada de noite protegida pela Guarda. Selaram-me aqui espalhada entre luxo e criadagem, pertinho da casa do céu sem que possa, pelo menos, pedir o cajado de Moisés nem a baladeira de Davi. Como ainda era uma menina, nos primeiros tempos, ele construiu este quarto imenso com espelhos por todos os lados e uma cama de mecanismo giratório. Mais adiante, tem outra dependência com variedades de brinquedo e boneca. E a proibição se estendeu até na saída deste local, porque na tentativa os guardas me atiram de verdade. Assim, na alma, foi nascendo aos poucos o meu êxodo com minhas pegadas sem volta. Aliviada, apenas, por essas bolas de sol, que se rasgam pelas vidraças, quando são os barquinhos condutores do meu amor para Ramon Dourado, ainda que virulado pela espada de Ramirez.Toda vez que há um toque na porta, é mais uma esperança rachada de desespero, pois aparece a silhueta gorda dele com as esporas e sua mania de vaqueiro. Na cama, como aconteceu no primeiro dia, Ramirez é apenas um ditador que não sabe governar a erupção do amor.
Quando auscultava o coração duma moça, recebi a visita de José Trombeta vindo da parte de dom Ramirez. Olhei aqueles olhos descascados pela frieza duma tempestade, e palpitei me escavando de dor, mas me mantive sereno. Seu Chico, o comandante pede sua presença agora, disse-me. Tá bem, acenei de cabeça baixa. Depois me virei para a moça e continuei observando-a. Quando suspendi suas pálpebras, percebi que nelas havia uma fornalha de amor estragado. O coração era estranho na caixa. Com o ouvido nele, escutei as batidas laceradas de solidão. E refleti que, durante muito tempo ali na tenda, aquela moça carregava a síndrome do amor iludido, pois vinha tangida de tudo quanto era amor desbaratado do mundo. Me dê uma chance, pediu ela com os olhos agarrados em mim, mas não lhe dei resposta. E, como tinha pressa, segui o carniceiro da guarda de dom Ramirez, deixando para trás a bolsa de mistério daquela mulher. No dia seguinte, ela apareceu novamente com a mesma peste no coração. Pegou o sol da manhã e o sol da tarde sempre com a tocha dos olhos me laçando, choramingando que deveria aceitá-la mesmo que fosse por uma única vez. Então, despistei Florinda, que me deixou um olho desfeito em amargura, e com a desco-nhecida me tranquei na tenda. Era noite, e pela lâmina do vento os grilos me lixavam os ouvidos. Quando ela já tinha desfeito a posse das roupas e universalizado a nudez com uns peitos que caíam pelo chão, a Borboleta azul-topázio me surpreendeu na volta. Pelo seu ciciar inquieto, havia um sinal de perigo com aquela mulher luzidia e de olhar sombrio. Por isso a mandei ir embora sob a algazarra do seu choro. Mais tarde, vendo os signos do meu zodíaco, me foi revelado que ela era uma das filhas bárbaras de dom Ramirez, e que, por isso, para não causar estrago no perfil do ditador, internaram-na como louca num hospício.
Dom Ramirez estava numa cadeira de balanço ao lado de samambaias entre uma buliçosa esquadria de pássaros num viveiro. De expressão abatida, tinha um ferimento profundo debaixo do pé sangrando. Ao indicar-me uma cadeira, notei que seu rosto angustiou-se ao fitar minha borboleta e o meu jeito grosseiro de sol batido. Tive tempo de observar na chapa da sua alma os fungos apodrecidos da sua condição cósmica: em épocas remotas, na Antiga Fenícia, tinha sido um bruxo terrível que fundara uma seita demoníaca e, nas solenidades, sacrificava crianças para obter, quando morresse, a patente de general das Trevas. Ao mostrar o pé lanhado por um caco de vidro, perguntou se eu podia curá-lo. Sim, disse. Mas da alma não... Ele nada argumentou, e tornou-se circunspecto pela dor. Joguei a essência da copaíba na chaga e defumei-a depois de ter feito assepsia com água de casca de caju. E lembrei de Narabô afirmando que a terapia era coisa sagrada dos espíritos do Alto. Fechei tudo com atadura. Pedi a ele que não se alimentasse durante três dias de proteína animal, exceto com leite de cabra. E fui embora recusando pagamento, porque tudo que vinha daquele coração era energia apagada no escuro. Anos depois, dom Ramirez recebeu na sua residência uma urna de couro contendo a cabeça salgada de José Trombeta. Enfurecido, foi a primeira vez que seu Império foi esfaqueado de pânico. Em todo país houve uma descarga de repressão pouco inventada, mas no coração daqueles que os atendia na minha tenda, foi a primeira vez que senti um levante de esperança. De todos, ele poderia suspeitar, menos de mim. Assim, em lugar da cabeça do soldado carniceiro compor o catálogo dos objetos desqualificados, foi enterrado com honras militares, embora com aquele único órgão num imenso caixão sem lágrima de ninguém e coberto pelos papelotes de alcatrão do Império.
Na terceira década de mandato, porque a Constituição promulgada para cada era de dez, houve uma virose de 10 anos de sol sem chuva que multiplicou, na Terra do Sol, o aumento de urubus nas ossadas dos animais e nas pessoas que morriam à míngua pelos campos, isso sem falar na violência das pedras de sol que atrofiou tudo que era mato. O clamor era tão grande do povo que as autoridades sanitárias mais ligadas ao comandante tiveram medo de que o país sofresse uma regressão fetal na atividade empresarial da elite e tudo virasse uma republiqueta do porte das nações mais miseráveis da África. Dom Ramirez se inquietou e, num gesto humanitário e inédito, mandou abrir o seu açude particular, obra da engenharia humana, em cujas águas o sol vinha beber todos os dias. O decreto deixado em cada povoação provocou um desatar de rede para lá e em três dias tudo que existia de água acabou. Os peixes morreram afogados de sol e em poucos segundos foram devoradas até as escamas. Com essa tamanha aflição, dom Ramirez instituiu um Prêmio Universal para quem inventasse, com matéria-prima da região, algo que erradicasse no sangue dos homens o carrapato da fome. Dois anos depois, um homem chamado Rapiné, pai de doze filhos, que não era cientista, mas um agricultor algemado pela guerra do medo, apurando o caldo duma planta de haste alongada perto da sua casa, conseguiu cristalizar uma substância em forminhas de madeira. A coisa cristalizada virou o maior sucesso no país e os filhos do inventor não morreram mais da insônia da fome. O invento chamou-se, em semelhança ao nome dele, de rapadura, um granito mineral de substâncias altamente nutritivas. Quando ensacado em paneiro, sua duração fora da umidade dura séculos. Quando havia subida de preços no país, os ministros reclamavam que os produtores do setor armazenavam o produto para fins especulativos e, assim, havia desorganização no bolso da economia.
Isso tirou a corda da laringe de dom Ramirez. Que formou um cordão imenso de desvalidos e pessoas sem emprego, e para eles distribuía rapadura e farinha-seca periodicamente. Em público, sempre ele aparecia com um pedaço do invento chupando, mas na intimidade, com seus ministros, só bacalhau da Noruega, com exceção da tiquira, que ajudava a fabricar as enzimas estragadas do amor todas as quintas-feiras.
Naquela época, pelas condições em que se encontrava o país, para fugir das hordas famintas e proteger a vida das ciladas, o ditador não tinha morada certa. Uma noite, ouvi um aboio no quarto dos brinquedos, que geralmente ficava trancado. Olhando pelo buraco da fechadura, vi dom Ramirez com o gibão e as esporas montado num cavalo feito de talo de carnaúba. Com a folha seca da árvore, ele fez a cabeça e colocou o cabresto; aparou a vassoura de trás tornando-a no rabo do cavalo; e, com o chicote e as esporas na barriga do animal, enfrentava as unhas-de-gato atrás do gado com tristes lamentos. Quando se lembrou do outro cavalo que o tinha deitado sobre uns tocos de pau, ele destruiu o invento e caiu pelo chão. Ali ficou horas soluçando até que dormiu entre as bonecas.
Seis meses depois, dom Ramirez pôde andar com as esporas e estava de todo curado. Por meio de decreto, deu-me o título de Cidadão Solense e de Benfeitor pelos serviços feitos na minha tenda à população. Quando fui convidado a receber a homenagem, mandei a minha secretária Florinda levando uma desculpa por ter viajado às pressas para aplicar um soro-salvação numa criança picada por uma cascavel. Evitei assim o olho de peixe morto do tirano. Mas Florinda me trouxe o Diploma e um pacote de dinheiro costurado também numa urna de couro. Ao abrir o pacote, tive a impressão de que era a urna de Filipino. Depois do engano, mergulhei tudo em álcool e ervas secas numa bacia, e fritei as homenagens de dom Ramirez até ficar um torrão de desprezo.
Florinda arranjou, no dia seguinte, castanhas de caju e leite de cabra. Se alguém me procurasse, não revelasse meu destino. Assim, fechado no cadeado do meu quarto, fui me organizar para receber das terras do céu a visita de Naara. No café e jantar, tomei leite e comi as castanhas com mel de abelha; no almoço, tirei do manculão a farinha de peixe que Narabô, pai de Naara, havia consagrado em solenidade para quando eu fosse cair chibatado pelas energias do cosmo. E da mistura da farinha com arroz pilado me fiz plasma.
De bata branca e com o ambiente em essência, criei os chicotes de represália para impedir os arruaceiros do espaço. No coração, fiz uma passarela de flores com várias silhuetas de orégano e, no ar, dependurei os anjos da minha voz para saudá-la. De repente, a noite quebrou-se ao meio, e o foco da lamparina estragou-se em escuro. Lá do céu, porém, Deus acendeu um grande holofote com uma asa de luz seráfica que deixou abrasado o quarto. A luz descia em flocos e quando batia as casquinhas em mim, eu sentia um dilúvio de paz. Daí a poucos, no meio duma poeira cósmica silenciosa, começou aparecer um olho vivo no canto do quarto. Depois o rosto e os cabelos e, por fim, a imagem da minha esposa, que agora era um ser com raízes plantadas no céu. Em lugar de ir ao encontro dela, fui me sumindo entre grãos de leveza e os olhos apalpando o chão do sono. E caí de olhos abertos ainda vendo a sua imagem translúcida. No sono, ouvi quando ela disse: saia daí! A minha permissão aqui é pouca.
Então abri uma rachadura na pele e, já solto pelo corte que me deu leveza duma pena, me formei num outro corpo sem o peso das células materiais. Naara me tomou pelos braços e a gente sumiu, na noite, rasgando um buraco pela parede do céu.
Do mesmo jeito, Naara fez com Dorinha, quando lhe pediu que saísse da sua cavidade prisioneira. Mas ela disse chorando que, se saísse, Ramirez poderia matá-la com uma faca de açougueiro, até porque os guardas estavam de prontidão lá fora. Fique tranqüila, você não sairá do aposento, Ramirez não poderá chegar por aqui. Trouxe esta visita, e virou-se para mim. Dorinha focou a lâmpada dos olhos em mim numa revista inquieta. Estou perdida!, gritou espantada. Este homem é da Guarda de Ramirez, veja na testa dele a borboleta. Leve-o daqui, por favor! Naara me olhou assustada e rápido compreendeu quanto o coração de Dorinha havia se fraturado no terror do cativeiro. E, disse-me: Chico, tente lembrá-la de alguma coisa. Use o fluido do amor dentro de ti. Fiz minhas mãos sobre a sua cabeça e fui retirando, aos poucos, da grande vesícula do esquecimento, as lembranças de quando éramos felizes no Estreito, e daí saíram os quadros limbóides de emoção, e as lipases de saudade, e os ferrolhos de sonho que nos uniam desde a eternidade. Dorinha foi me achando lentamente entre as papeladas da memória e, de repente, diminuiu o volume da intensidade e espatifou-se numa nódoa de pranto... E, levantando a vista, dentro dos meus olhos, disse: Você é morto! Ramirez já te fez numa emboscada, você é alma e não gente... Sou prisioneira e daqui jamais sairei. Vá embora antes que ele te mate outra vez. Fuja, Ramon! Ah, foi terrível a sentença. Gestos e apelos deram em nada. Dorinha soluçava pelo fole do medo que, no Império, era o suspiro de todos. Nem Naara, com a força de estadista do céu, conseguiu nada. E com um gesto sombrio, aquietou-se na sua cavidade e dela ouvi frases soltas que, nas quintas-feiras, Deus queimava a estalação do sol para deixá-la amarrada no saco de escuridão de dom Ramirez.

Dois dias depois, fui chamado às pressas na presença do ditador. Peguei meus acessórios e cheguei à residência dele. Ao me ver, foi logo dizendo: Tenho uma paciente especial para os teus cuidados! E, com o ruído das esporas, entraram dois guardas no terraço. Com os olhos em mim: Curandeiro, guarde absoluto sigilo pelo serviço. Guardas, levem-no à casa da minha paciente. Com um sinal, os guardas me pediram que os seguisse. Depois, já fora da vista de Ramirez, colocaram-me uma venda e me amarraram com as mãos para trás. Ao abrir minha revolta, eles disseram: Estamos cumprindo ordens do comandante. Com raiva, na língua de Naara, cifrei todas as malcriações dos curumins da tribo. Pouco ligaram, e, ainda por cima, me acomodaram numa padiola ao som de um apito estranho, que ia cavando na noite a minha angústia. Pelo visto, tinha caído numa enroscada. Resmungando, tivera oportunidade de ter despachado Ramirez através da infiltração do pé, mas não o fizera pela esperança ainda de saber Dorinha viva.
Abriram uma porta e me soltaram a liberdade cativa. Acompanhe-me, disse um dos soldados. Quando abriram uma outra porta, encontrei no ar a essência do pau-rosa e do bogarim que tinha usado no encontro de Naara, que de pouca coisa ainda lembrava. Olhei para o guarda e perguntei, qual o nome dela? Dorinha Fulgência, disse ele naturalmente. Você tem uma hora para medicá-la, completou conferindo o relógio. Tudo bem. O caso dela parece grave, sim, são dois dias que ela dorme de olhos abertos sem ingerir nada. O comandante está muito abatido, e todos os médicos ainda não descobriram a causa da doença. Aproximei-me do guarda e disse: ela tem a virose letal da solidão, só o antídoto do amor ainda em pequenas doses pode salvá-la. O homem ficou boquiaberto; dos termos alquímicos trazidos das terras de Naara, para ele tudo era estranho. Abri minha cesta e com um pedaço de tabatinga desenhei no piso a estrela esotérica de todos os feitiços do homem, escanchei nas suas pontas as bulas da minha alquimia e fiz um nó com a corda dasorações para tirar Dorinha da caverna mal-assombrada da morte. Desatei pelo vinco do desejo a farmácia celestial dos espíritos curadores e, penetrando no olhar do guarda a minha escavadeira, observei no lado direi-to dele um pulmão cheio de crime. Acendi um charuto e com uma baforada que o atingiu, ele caiu desacordado isolado pelo peso da impulsão.
Insuflei nas narinas de Dorinha o halo do amor eterno, escondido num vaso secreto da alma, quando na caverna pude fermentá-lo em rosas. Limpei com os dedos de curandeiro o corpo dela do pó da saliva maldita que, durante anos, Ramirez havia manchado com a cinza do suor. Arranquei o sal que salgava suas dores por mim. Depois lambuzei meus prantos sobre ela e toquei sua boca com a língua, deitando-lhe ervas doces dos campos floridos de Naara. Defumei o quarto pelo lado horizontal onde o sol nasceria estilhaçado de fungos luminosos, e untei sua fronte com o óleo de Nirê, o imortal guerreiro da tribo de Narabô, para quando ela despertasse envolvida pela brisa do sol não sentisse desespero, mas a minha presença em circuito por ali. Logo depois, acendi a pira das borboletas e fiz o cântico de chamada delas, porque elas dariam o sinal da vida e da morte ao mesmo tempo.
Quando deixei a casa-prisão de Dorinha, dei com os guardas em suas posições todos em pé de guerra com as carabinas sobre os ombros. E, alguém deles, antes que os atravessasse, disse que alguma coisa de extraordinário, nos próximos dias, iria acontecer. Escolhi então o profeta daquelas palavras e arranquei da sua boca um charuto, sem haver nenhuma reação do guarda, colocando outro charuto no lugar com o espinho da morte. Ao fazer isso, ninguém me viu, porque fui envolvido dentro duma botija de fumaça do tipo daquela que Deus havia conduzido os irmãos de Moisés pelo deserto. Mal atravessei a Guarda, caíram do espaço dois projéteis de desespero no profeta do charuto e ele desabou morto no chão com a carabina atirando o céu.
Quando o chefe da Guarda de Ramirez deu um toque na porta, pensou que teria mais outro trabalho, como era costume, em levá-lo embriagado de volta à sua Residência Oficial e, no outro dia, nos despachos que ele concederia aos ministros, sua estampa de ditador era a mais violenta. Ai daquele que caísse no desagrado daquele momento... Na segunda pancada, o capitão ficou preocupado. Chamou por Dorinha, e nada. Já estava tão nervoso que resolveu descer ao comando da Guarda e trazer mais gente. Logo foi dizendo aos soldados: Parece que há algum pro-blema com o nosso comandante, chamou outro graduado e deu instruções para ficarem atentos nos seus postos. E subiu com os outros. Bateram na porta até explodir a paciência. Então, em nome da segurança maior de Ramirez, determinou a derrubada da porta, só que os guardas com a violência das botas não conseguiram nada. A porta estava com um mecanismo imune à mão humana, por isso trouxeram mais tarde um maçarico e ela foi quebrada aos pouquinhos. O capitão deu o sinal de invasão e a Guarda toda entrou, mas o aposento que era imenso e feito de conforto, tudo nele indicava ordem. Mas o que eles viram de imediato foi uma nação de borboletas entrincheiradas no ar e uma fumaça etérea que dava desespero nos olhos de cada um. Cada um que olhava cada um ressuscitava seus crimes antigos e os mais recentes, e choravam com desespero, sem saber a causa nem o porquê desse sentimento tão estranho.Mas, o capitão que era um velho guerreiro acostumado com os truques das guerras mais perigosas, quebrou o encanto do momento. Insuflou, como antes, o protoplasma do sentimento da audácia. Dois soldados à porta do banheiro, ordenou. Verifiquem debaixo da cama, revirem tudo! Se encontrar alguém estranho, passe-o pela espada! Em primeiro lugar a vida do nosso comandante, gritou. Mas não deram com nada, exceto com o vapor saindo das entranhas dos objetos e com o voejar das borboletas que, quando desgrudavam dos parafusos do ar, morriam asfixiadas no chão. Quando ele entrou na banheira com sua armadura toda sarapintada de medalhas, deu com o seu comandante boiando nu na água onde também havia o mesmo vapor. Com os olhos abertos e um charuto na boca, o corpo dele tinha se reduzido pela ação da água vitralizada. Dom Ramirez, com a expressão solitária e um gesto ridículo no canto da boca, só tinha dado um salto no buraco da morte, sendo saudado pela presença das falenas de Chico Borboleta.

 
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