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A
Garça
Ao velho bardo coestaduano
Quintino Cunha
Por entre capinzais, entre um juncal florido,
defrontei, cismarenta, uma garça alvadia...
Agora, contemplava o espaço indefinido...
Depois, no espelho-d’água, a quieta imagem via...
Perto em perto, em seu bico, a piaba luzidia,
nos espasmos da morte, o dorso bipartido,
traspassada de dor, coitada! estremecia,
para não volver mais ao lago seu querido...
Enublou-se a atmosfera. Um rouco vendaval
soprou do Norte ao Sul. Veio a tarde, de manso...
E a garça, sempre ali, no plácido remanso
do lago, a refletir, no alvíssimo cristal,
a impecável brancura, evocada, esquecida,
a alma humana enfrentando os temporais da vida...
( Matupás do meu lago )
O Uirapuru
Para o Olegário Mariano
No Acre. Pleno verão. Deslumbrante arrebol
inundava de luz a majestosa mata,
quando, a viajar, ouvi, do maestro de escol,
a voz, que nos fascina, entusiasma e arrebata.
No alto de um buriti, bebendo a luz do sol,
ele o canto habitual, primoroso, desata...
Rodeiam-no, da selva em multicromo rol,
boêmios e menestréis, voejando, espata a espata,
em coro... E mais e mais se inflama a rude avena,
afeita a preludiar, por invernos e estios...
Tão soberba magia a ave ao concerto empresta,
que se tem a impressão de que, assim, tão pequena,
tem, no peito, o rumor de cascatas e rios
e a harmonia pagã de suntuosa floresta.
(Ibidem)