Biografia / Bibliografia

Henrique João Wilkens

Escolhemos dois momentos expressivos e de boa engenharia poética
o da Muhuraida. O primeiro pertence ao Canto 3. , estrofes 16 a 22, em que
um ancião mura procura persuadir os índios, em fase de cristianização, a não
abandonarem os antigos valores da tribo. É um trecho calcado no episódio
do Velho do Restelo, de Os Lusíadas(Canto IV, est. 94 a 104). Observe-se
que através do ancião, Wilkens denuncia, embora talvez involuntariamente,
todas as traições e maldades que os brancos cometeram contra os índios.
O segundo momento, composto de dois fragmentos, está no Canto
o 6. , estrofes 4 a 9 e 12 e 13. Nele se vê como Satanás, numa última tenta-
tiva para manter os muras sob o domínio do mal, incentiva suas legiões a
impedir a cristianização; e, finalmente, as providências que um anjo, envia-
do por Deus com o objetivo de converter os índios, toma para que o embar-
que que levará os muras à pia batismal se realize sem problemas. É signi-
ficativo o fato de o Diabo registrar que os índios não possuem alma, con-
cordando com posições colonialistas que com isto justificavam o extermínio
dos povos da floresta..

 

 

Textos Selecionados:

Do Canto 3.º

Atentos ouvem todos a proposta,
Ainda que estranha, sem maior reparo,
Pois a Verdade bela nada oposta
É bárbara fereza, ou peito avaro.
Mas entre os Anciões, um Velho encosta
A ressecada mão, com gesto raro,
Na negra face adusta, e enrugada,
Estremado responde, em Voz irada.
Oh, dos teus poucos anos, louco efeito!
Da confiança vil, temeridade!
Que atenção nos merece, ou que conceito,
Conselho, que envilece a tua idade?
Queres, que ao ferro, generoso peito
Entregue a Paz? Ou perca a liberdade,
A doce liberdade, o valeroso
Muhura, em grilhão pesado, e vergonhoso?

Já não lembra o agravo, a falsidade,
Que contra nós os Brancos maquinaram?
Os Autores não foram da crueldade?
Eles, que aos infelices a ensinaram?
Debaixo de pretextos de Amizade,
Alguns matando, outros maniataram,
Levando-os para um triste Cativeiro,
Sorte a mais infeliz, mal verdadeiro.

Grilhões, Ferros, Algemas, Gargalheira,
Açoutes, Fomes, Desamparo e Morte,
Da ingratidão foi sempre a derradeira
Retribuição, que teve a nossa sorte.
Desse Madeira a exploração primeira,
Impediu, por ventura, o Muhura forte?
Suas Canoas vimos navegando,
Diz, fomos, por ventura, os maltratando?

Para os alimentar, matalotagem
Buscava nosso Amor, nosso cuidado;
A Tartaruga, o Peixe na viagem
Lhes dávamos, e tudo acompanhado
De frutas, e tributos de homenagem,
Em voluntária oferta, que frustrado
O receio deixasse; a Confiança
Aumentando, firmasse a Aliança.

Que mais fazer podia o Irmão? O Amigo?
Que provas queres mais de falsidade?
São estes entre os quais buscas Abrigo?
É nesta em que te fias amizade?

Ah Muhura incauto! Teme o inimigo
Que tem de falso toda a qualidade.
O que a força não pode, faz destreza,
Valor equivocando co’a Vileza.

Assim falando o Velho se levanta,
O lento passo ao Bosque encaminhando.
Mas o Orador de nada já se espanta,
Pois tal oposição stavaesperando:
E como nele obrava força santa
De um Deus, que o mesmo esforço ia aumentando;
Nos bárbaros infunde um tal conceito,
Que a preferência alcança, co o respeito.

Do Canto 6.º
Mas já na Habitação do eterno dano,
O Príncipe das Trevas, Monstro informe,
Já no Sucesso vendo todo Arcano
Da Providência Santa, deu o enorme
Sinal acostumado, que do humano
Inimigo Esquadrão, negro, disforme,
Veloz, qual pensamento, logo ouvido,
Se ajunta, na aparência, destemido.

Eia, lhes diz, briosos Companheiros!
Dignos todos de eterna, milhorsorte!
Já que igualar quisesteisos primeiros,
A aquele Deus, que rege a Vida, a Morte
Já que poder soimenso, prisioneiros
Fazer-vos pode, e por Barreira forte,
O imenso espaço pôr, que daqui dista
Ao Céu, que já se nega à nossa Vista.

Os olhos levantai, vede essas Feras,
(Pois serem racionais, só a forma indica)
Já quase a substituir-nos nas Esferas
Celestes destinadas; já publica
Veloz a Fama, conjecturas meras,
Que só a credulidade justifica.
Mas temo, desprezada esta aparência,
Se realize a ruinaco’evidência.

Ide pois precaver a contingência,
Não se perca da Presa a milhorparte;
As luzes lhe ofuscai da inteligência,
Empenhe-se Valor, destreza, e Arte.
Não se atribua nunca a Negligência
O desprezo do Aviso, pois reparte
O injusto Fado com desigualdade,
Poder, Ventura, e infelicidade.

Qual de Etna, ou de Vesúvio vasta entranha,
Fermentando indigesta Massa ardente,
Da repleção efeito, arroja estranha,
Temível, larga, ignífera Torrente;
No trânsito impetuoso quanto apanha
A cinzas reduzindo; indiferente
À dura penha, à flor, Jardim vistoso,
Casal humilde ou Povo numeroso.

Eia, lhes diz, briosos Companheiros!
Dignos todos de eterna, milhorsorte!
Já que igualar quisesteisos primeiros,
A aquele Deus, que rege a Vida, a Morte,
Já que poder soimenso, prisioneiros
Fazer-vos pode, e por Barreira forte,
O imenso espaço pôr, que daqui dista
Ao Céu, que já se nega à nossa Vista.

Do Império assim das Trevas vai saindo,
Qual Torrente a Coorte, em Chama involta;
O denso fumo os Ares já cobrindo,
Pestífero vapor, intenso solta.
Nas vastas Regiões se difundindo
Vai do Amazonas, Infernal Escolta;
Dos Átomos parece a qualidade
Neles se identifica, e quantidade.
(...)

Já aflitos, pensativos, dispertando,
De ideatal enfim preocupados;
Só mortes e vinganças respirando,
Já lhes tardava os ver executados.
Mas o Anjo Tutelar, que vigiando
Estava, e lamentando os enganados,
Armado do poder do Onipotente,
Tudo faz que se mude de repente.

Inspira a todos novo ardor, desejo,
De discernir o engano, e a verdade;
Ao Tentador infame, e seu Cortejo,
Sepulta na infeliz eternidade.
Faz, que ao rancor, universal festejo,
Entre os Muhras se siga, a brevidade
Do Embarque se procure; realizados
O fim proposto, os meios desejados.

 

 
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