Textos
Selecionados:
Espelho
e face
Mata-nos o não vermos
no espelho de hoje
a nossa face de ontem.
Flor de alegria ou de mágoa
que outrora nascia de nós
crestou-se (ignota) no tempo.
A cada dia
quanto mais nos conhecemos
deixamos de ser nós mesmos,
dispersados, divididos,
em não sei quantos milhares
de faces dessemelhantes.
(Os Rebanhos da fuga)
Elegias
Quinta
Esta é a quinta estação da vida: a da lembrança,
a que reúne a primavera, o verão, o outono e o inverno,
e expressa a visão do que foi, do que é e do que
será.
Opimas uvas foram esmagadas no passado e hoje
o vinho delas escorre e se bebido só produz ressaca...
Faces, mãos e sexos esmaecem sob a sépia do tempo
que – tal um polvo – aperta os seus tentáculos.
Das canções de ninar e dos colóquios de amor
apenas ecos longínquos reverberam em ouvidos
[agora imperfeitos.
O tato não mais capta a macia sensação do
veludo da pele
que cobria ancas mornas e seios em fogo e
não percebe a ardência de púbis juvenis
[tumescentes na espera do cio.
Em tudo agora o que aflora é um titilar de saudade.
Há cinza, muita cinza se espalhando sobre antigas brasas
– rescaldo sem Phoenix...
Há musgo, muito musgo crescendo, pois o que
[era humano transformou-se em argila...
Há tédio, muito tédio consumindo a vida e
ninguém, ninguém pode ajudar ou amparar
porque tudo o que devia ser já foi escrito.
Jamais haverá retorno à primavera! Consumatum est!
Caput mortuum! Cinzas, cinzas
que os ventos da noite soprarão para o além!
enquanto teus gestos e o mês
chegando intocados
trazem o cálice para o esquecimento.
(Ibidem)
Os
Rebanhos da fuga
Pelos campos da vida
meus sonhos sombras de mim mesmo
tais como rebanhos
sem água e sem pasto
fogem à procura de Deus.
(Ibidem)
Cascata
Raio de lua
rolando cai
na pedra negra
unido ao frio
e se esvai
como um rio
sobre
outro rio.