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O
Pierrot
A
impressão do impossível despertara-o. Do sonho,
apenas as últimas palavras tinham um sabor de realidade,
porque confirmavam a vida na negação do anseio.
O mais, nada real. Nem o beijo, o único beijo. A mulher,
ao lado, dormindo, não era a mesma que vira há pouco
e que há pouco tivera nos braços. Um sonho. Nada
mais que isso...
Fábio esfregou os olhos e bocejou. Quis dormir novamente,
não podia dormir; quis pensar noutra coisa, não
podia pensar. Os pensamentos bailavam-lhe na mente e pareciam
chocar-se uns aos outros. Na verdade não bailavam: corriam,
saltavam e se fundiam, numa mistura confusa e embaralhada. Só
uma coisa lhe parecia clara: a lembrança de um beijo trocado
às pressas. Do único beijo.
Olhou a mulher que dormia e experimentou uma ligeira sensação
de remorso. Era uma santa. Mas no íntimo aceitava, que
pelo menos naquele momento, deveria ser a outra.
Um morcego esvoaçou a cama e Fábio assustou-se.
Viu que não era possível permanecer deitado. Levantou-se,
abriu a janela e se debruçou a contemplar a noite. Não
havia estrelas. Nenhuma. Se houvesse estrelas ele não ficaria
tão só. E o morcego outra vez no seu vôo cego,
agora varando o espaço da janela e se perdendo na noite,
misturando-se com ela, fazendo-se noite também.
Pareceu-lhe que melhor seria voltar à cama e tentar dormir.
De que lhe adiantava ficar entregue à tola impressão
que um sonho lhe deixara? Aquele pieguismo, sobre ser ridículo
para um homem de sua idade, era aviltante para sua condição
de casado. Que não diriam a mulher e os filhos, a filha
moça, se o vissem assim, insone, numa atitude de adolescente,
queimando os dedos cigarro após cigarro, de todo preso
à simples lembrança de um sonho semi-erótico?
Não. Não estava certo. Talvez não estivesse
com saúde. Aquele estado d’alma, aquela ânsia,
só podia atribuir, ele, um homem de meia-idade, a uma situação
patológica qualquer.
E o próprio sonho Fábio punha à conta da
hipótese a que se apegara para justificar os efeitos de
uma frustração amorosa. Passou a sentir a garganta
doendo. Estaria resfriado? Tossiu, pigarreou, pensou em deixar
de fumar. Talvez as amígdalas... Ora amígdalas!...
Não as tinha desde criança. Sentou-se na cadeira
de embalo e procurou fugir de todos aqueles pensamentos. Não
conseguia abstrair-se. Na parede, o relógio grande passando
as horas com seu barulho enjoado constante. Ferindo o silêncio,
aumentando o tédio num crescendo irritante, como se fossem
marteladas. Se pudesse não ouviria zoada de relógios.
Principalmente numa noite de insônia. E por instantes ficou
pensando no papel que o relógio desempenhava em sua vida.
Não passava de um escravo dos ponteiros. Sempre fora forçado
a observar as horas certas e convencionais. Sempre. De manhã
à noite. As horas... as horas... Lera, algures, uma frase
em latim que dizia: “todas ferem, a derradeira mata”.
E pensar que depois de tantas haveria uma última com gosto
de morte... Para quantos aquela hora não estaria sendo
a derradeira? Ah!... Os relógios. Saber que por muito tempo
ainda os veria a dividir o tempo, mostrando-o em pedaços,
numa advertência de que há um passado se formando.
A vida, toda ela, presa, sujeita à divisão mecânica
de duas peças que não param. Talvez fosse interessante
escrever um tratado sobre a importância do relógio
na vida do homem. Poderia começar assim: de todas as máquinas
que o homem criou para servi-lo, houve uma de que se tornou escravo:
o relógio.
E mesmo assim, entregando-se a pensamentos estranhos aos que lhe
haviam roubado o sono numa tentativa de fuga, aqui e acolá
lhe assaltava a doce lembrança, na ternura de uma voz que
se repetia dentro dele lamentando a impossibilidade de prosseguirem
o enlevo. “Não! Não podemos fazer isso...”
Por quê? E a pressa: “Chega!” “Vamos!...”
Fora tudo. Até no sonho, coisa irreal, a verdade querendo
impor-se. E os dois, covardemente, acorrentados às convenções,
fugindo, sem coragem suficiente de se realizarem. Quem poderia
saber? A consciência... a consciência... Ora, voltava
a brincar de menino apaixonado. Bem que poderia ser mais prático
e aproveitar a noite. Mas como? Folheou os jornais e as notícias,
já sabidas, enfastiavam-lhe a alma. Talvez que algum poeta
lhe devolvesse a tranqüilidade do sono interrompido. E de
pronto um poema, não sabia de quem, sugerindo identidade.
Repetiu mentalmente e depois, baixinho, declamou: “...E
parecia, jogando ao chão, a flor sombria que ao coração
ele arrancara...” O pierrot. Estaria sendo pierrot? E de
novo a lembrança do sonho. Outra vez o desejo de repeti-lo,
tornando-o real. De lembrar-lhe a jura sepultada no passado, talvez
esquecida: “Um dia haveremos de nos encontrar...”
Um dia. Quando?
Olhou mais uma vez a mulher, pensou na filha moça e resolveu
deitar-se. Era um hipócrita. E um covarde. Mas de qualquer
modo sentia vocação para a honestidade: tinha dúvida.
A dúvida!... “Ser ou não ser”. Até
quando? Fora um tolo. Estupidamente tolo. Nunca se deve perder
uma oportunidade, e toda ela deve ser encarada como a única,
embora outras acenem promissoras. No fundo, reconhecia, era igual
a todos. Comum como todos.
Reviveu
todas as cenas do passado tentando demorar-se nas que melhor lhe
agradavam a lembrança. Mas todas traziam o amargor do irremediável.
Todos os encontros tinham sempre um adeus. E neste a incerteza
de um amanhã. Um dia, o formalismo de um convite. Desejos
de felicidades num abraço convencional. “Parabéns!...”
E vê-la vestida de noiva. Com véu e grinalda nos
braços de outro. Arrancada... “A flor sombria que
ao coração ele arrancara...”
Daquela noite, pra toda vida, ficara-lhe a dúvida: será
que todo homem tem uma flor arrancada ao coração?
Serão eles igualmente pierrots?
(O
Palhaço e a rosa)
O
Ajudante de caminhão
Ambos tinham seus sonhos na vida: negro Macário, chofer
de caminhão da fábrica de bebidas, suspirava pela
vida de bordo, correr mundo, aventurar; Estêvão,
seu ajudante, só queria uma coisa: ser chofer. Para ele,
nada melhor do que chegar um dia a ser chofer de caminhão.
Trabalhava na firma há mais de seis anos, e embora conhecesse
o manejo do volante, nunca lhe fora dada uma oportunidade. Mas
não lhe faltavam esperanças. A Fábrica estava
progredindo e os patrões, sem dúvida, seriam forçados,
pela vontade de ganhar mais, a adquirir novos carros. Por isso
não perdia por esperar. Um dia chegaria a sua vez. Por
enquanto, porém, era apenas ajudante. Seu lugar, no carro,
era em cima, misturado com as caixas de garrafas, fizesse sol
ou chovesse. Aqui e acolá uma gripe ameaçava derrubá-lo,
mas o caboclo não caía. Não podia adoecer.
Um dia sentiu umas pontadas no peito e uma dor nas costas. Teve
medo. Seria o pulmão? Contou para o amigo o que vinha sentindo.
Ora! Para Macário aquilo era bobagem:
– Toma uma cana, mano. Isso passa!
Quantas vezes negro Macário não se sentira assim?
E haveria melhor remédio do que cana com limão?
Quando a bicha era forte e vinha com febre, misturava a branca
com pimenta-do-reino e era uma vez negro mole...
– Paga uma dose?
– Vamos.
No boteco mais próximo Estêvão pediu duas
doses. Pilou alguns caroços de pimenta, balançou
o copo e fez careta:
– Deve ser um purgante!...
Negro Macário sorriu. Quem lhe dera que todo purgante fosse
como aquele...
Estêvão, que não era acostumado a beber, sentiu
uma ligeira sensação de melhora. Agora não
mais sentia frio.
– Que remédio batata, nego!
– Quer repetir?
– Não! Chega.
O efeito do remédio passou em pouco tempo. A dor no peito
continuava. O frio também. Cansado, em casa, nem sequer
para um banho tinha disposição. Doía-lhe
o corpo e sentia febre. Foi à cozinha, olhou as panelas
vazias e mandou a mulher comprar pão fiado na taberna da
esquina. Mandou também que jantasse. Ele não queria.
Deitou-se e ficou pensando. Se caísse de verdade? Na certa
que morreria de fome. Se trabalhando nada chega, que não
seria no fundo da rede? Lembrou-se de Epitácio, um colega
de serviço. O desgraçado já estava ficando
velho na Fábrica. Que empregadão! Valia ouro. Mas
um dia adoeceu e Instituto com ele. Dois terços do ordenado.
Ninharia. Não chegava nem para o remédio. Pra nada,
mesmo. Coitado do Epitácio. A mulher, lavando roupa...
Os filhos...
A volta da mulher interrompeu-lhe o pensamento.
– Isso foi aquela chuva!
Estêvão não disse nada. Cobriu-se todo e tentou
fechar os olhos. Estava inquieto. Não conseguia dormir.
A cabeça doía e as pálpebras pareciam feitas
de chumbo.
– Chi, nego, a febre tá alta!...
– Vai jantar, vai! Deixa ver se sossego...
A mulher saiu e foi jantar café com pão. Pão
sem manteiga. O filho mais velho, de três anos, acompanhou-a.
O outro, de colo, já dormia.
Estêvão acordou cedo. O corpo estava como se tivesse
apanhado uma sova. Doía-lhe tudo. A dor no peito, de minuto
a minuto, tentava empatar-lhe a respiração. Se pudesse
não iria trabalhar. Longe, porém, de pensar em tal
coisa. Faltasse e veria o resultado. Mesmo, precisava de estar
sempre nas graças do patrão. Um dia deixaria de
ser ajudante e seria chofer. Haveria de melhorar.
E quando ia saindo a mulher perguntou:
– Ei! Que se come hoje?
Estêvão coçou a cabeça e respondeu:
– Vai buscar uma lata de carne e faz com arroz!...
Saiu pensando na conta da taberna que lhe absorvia o ordenado.
Nada lhe sobrava. Nem para comprar um vestido para a mulher. E
o pior é que estava barriguda novamente. Outro filho: o
terceiro. Mais uma boca...
Chegando à Fábrica já encontrou Macário
sentado na boléia. A vida de chofer é mais calma.
Há quanto tempo carrega caixas? Está cansado daquele
serviço. Mas como ainda não é chofer, começa
o dia com cinqüenta quilos nos ombros. A dor no peito ameaça
cercar-lhe o tórax. Aqui e acolá uma pontada nas
costas. Ele, porém, não pára. O patrão
está perto conversando com uma loira que se desmancha em
requebros gostosos. À noite, por certo, ela lhe tomará
algum dinheiro. Mas Estêvão não sabe que o
dinheiro que a loira vai levar deveria ser dele e de seus companheiros.
E por que o patrão está perto, esforça-se
em mostrar que é bom empregado. Que é ativo. Que
mesmo doente, com dor nas costas, trabalha. Mas o patrão
não lhe olha. Nem sabe se ele existe. E Estêvão
trabalha para a loira que vai voltar de noite...
Negro Macário, mostrando os dentes num sorriso aberto,
comenta:
– Esse nosso patrão é um galo!
– Elas querem é a verba dele!...
– E ele tem pra dar, e agora?!...
O caminhão corria veloz. O dia era desses escuros, com
nuvens que ameaçam chuva. Um vento frio soprava forte e
crescia com a velocidade do carro. Estêvão sentou-se
sobre uma caixa e procurou abrigar-se por trás da capota.
Seu pensamento passeava toda a infância. Toda a turma jogando
bola na baixa da dona Zefa. Carlos também está e
nem parece aquele que anda cheio de pose, só porque é
bem empregado. O “Branco”, no goal, defende bem. E
a turma é a maior. “Hip, hurra! Hip, hurra!...”
Uma tossida forte e já não está no campo
da pelada. Passeia com Mariazinha na praça da Igreja. Mariazinha
é bonita e é sua primeira namorada. Quando crescerem,
e quando ele ganhar muito dinheiro, irão casar-se. Mas
de repente uma lágrima nos olhos de Mariazinha. E ele,
puxando o lenço do bolso, acenando-lhe um adeus. Não
é o último adeus. Não! Um dia voltará
para casar com ela. Ninguém, além de Mariazinha,
chora na sua partida. Só ela. Ele também chora.
É horrível deixá-la...
Macário freia o carro e Estêvão assusta-se.
Levanta-se como que de um sonho.
– Quantas caixas, seu Lourenço?
– Que é isso, rapaz, tá chorando?
– Não!... É essa gripe...
E foi ali a primeira entrega. Estêvão tomou uma dose
do remédio e Macário quebrou o jejum com uma dose
dupla, tirando o gosto com uma pitada de sal. O caminhão
toma marcha e segue. Outra parada e os dois amigos conversam.
Macário dá-lhe a boa nova: outro caminhão
para a Fábrica. E mais: seria ele, Estêvão,
o indicado para dirigi-lo. Era o mais velho e, sobretudo, senhor
do serviço. Estêvão fica radiante e, como
na primeira vez que tomara cachaça com pimenta, sente o
sangue subir-lhe à cabeça, circular mais forte e
passar o frio. Era a emoção de pensar em ser chofer,
seu grande anseio.
Passou aquele dia e muitos outros dias. Na casa de Estêvão
o quadro é o mesmo. Os dois filhos, e a mulher, cada vez
mais buchuda. A febre agora o persegue diariamente. A dor no peito
não o deixou. Mas ele, como sempre, trabalha. O carro novo
chegaria em breve e ele seria seu chofer. Por isso chega à
Fábrica antes da hora. As caixas de bebidas estão
separadas e prontas para serem levadas ao carro. Estêvão
leva a primeira e a segunda. Na terceira, um gosto de sangue lhe
sobe à boca. Tem vontade de tossir e uma golfada vermelha
espirra longe. Ele, porém, não pára. Tenta
reagir e quer correr com a caixa sobre os ombros. O sangue, mais
forte, sufoca-o. Estêvão não resiste e cai
na calçada, molhado por um suor frio. Os companheiros o
cercam e Macário, tomando-o nos braços, leva-o para
o carro, rumando em direção ao bairro onde mora
o amigo.
Quando o patrão chegou e lhe contaram o ocorrido, falou
em Instituto e mandou que jogassem criolina na calçada...
Uns dez meses passaram daquele dia. Mas tudo mudara. Estêvão,
como previra, fora entregue ao IAPI. Mas a ele não acontecera
o mesmo que ao seu amigo Epitácio: conseguira curar-se.
Está bom, trabalhando, e agora é chofer. Sua vida
nem parece aquela do tempo em que carregava caixas de bebidas.
A casa onde mora não é a mesma de outrora. É
bonita e grande. A mulher anda bem vestida. Os filhos, também.
Ele reconhece que deve tudo a Macário. Por isso vão
ser compadres: negro Macário vai ser padrinho do caçula.
É o primeiro batizado alegre que vê em casa. Até
parece com a festa de aniversário da filha do patrão.
Há champanha e muito doce. Mas nem Estêvão
nem o compadre bebem champanha. Festejam diferente: bebem cachaça
com limão e tiram o gosto com pitadas de sal. E não
é em casa, na casa nova e bonita. É no boteco de
seu Lourenço...
– Quantas caixas, seu Lourenço?
– Que é isso, rapaz, tá chorando?
Macário relembra o tempo em que trabalhavam juntos. “Cabra
chorão!...” Estêvão ri. Nunca foi tão
feliz na vida. Para a festa do batizado do caçula convidara
todos os amigos de outros tempos. Até a turma das velhas
peladas na baixa da dona Zefa está com ele. E Estêvão
pensa até que ainda é o menino de calças
curtas que chutava bola e namorava Mariazinha. Só ela,
Mariazinha, não está ali. Por quê? Faz tempo
que não a vê. Desde o dia em que lhe acenou um adeus,
prometendo voltar. Ele seria mais feliz se a visse... De qualquer
modo, aquele dia é o mais completo de sua vida. E tudo
porque conseguiu ser chofer. O caçula já foi batizado
e quando crescer vai ser gente. Vai ser mais do que ele. Estudará
e será gente. Os outros também estudarão.
O padre, em casa, fala uma língua estranha que ninguém
entende. Os olhos do padre crescem e parecem encher a casa. Estêvão
está tonto de tanto beber cachaça com limão.
Mas se sente alegre porque tem a casa cheia de gente. Toda a vizinhança
está presente. Negro Macário está todo de
branco. Até o taberneiro da esquina está ali, olhando
com olhos de pergunta. E parece querer perguntar alguma coisa.
A conta? Ora! Não é mais problema. Nunca mais atrasará
o pagamento... Nunca mais...
Um forte acesso de tosse arranca do peito de Estêvão
uma golfada de sangue. Outra golfada e ele desperta moribundo
nos braços de Macário. Na verdade, muita gente está
em sua casa. E todos o cercam. O padre está mas não
é dia de batizado. O filho caçula há muito
se batizara. O padre reza numa língua estranha que ninguém
entende. E seus olhos crescem e enchem toda a casa. A mulher,
chora. Os filhos também choram. Até negro Macário
sente vontade de chorar. Estêvão está tonto...
Sua cabeça pende e um fio de sangue mancha a roupa branca
do amigo, do melhor amigo.
Lá na Fábrica o trabalho não parou. Outro
ajudante de caminhão está no lugar de Estêvão...
(Ibidem)