Biografia / Bibliografia

Francisco Vasconcelos

Francisco Marques de Vasconcelos Filho nasceu em Coari, Amazonas, no dia 14 de abril de 1933. Em Manaus, formou-se em Direito. Pertence à União Brasileira de Escritores (AM) e ao Clube da Madrugada, do qual foi presidente. Atualmente, como funcionário aposentado do Banco do Brasil, reside em Brasília. Obras de ficção: O Palhaço e a rosa, contos (Manaus, 1963); Regime das águas, novela (Manaus, 1985).

 

 

Textos Selecionados:

O Pierrot

A impressão do impossível despertara-o. Do sonho, apenas as últimas palavras tinham um sabor de realidade, porque confirmavam a vida na negação do anseio. O mais, nada real. Nem o beijo, o único beijo. A mulher, ao lado, dormindo, não era a mesma que vira há pouco e que há pouco tivera nos braços. Um sonho. Nada mais que isso...
Fábio esfregou os olhos e bocejou. Quis dormir novamente, não podia dormir; quis pensar noutra coisa, não podia pensar. Os pensamentos bailavam-lhe na mente e pareciam chocar-se uns aos outros. Na verdade não bailavam: corriam, saltavam e se fundiam, numa mistura confusa e embaralhada. Só uma coisa lhe parecia clara: a lembrança de um beijo trocado às pressas. Do único beijo.
Olhou a mulher que dormia e experimentou uma ligeira sensação de remorso. Era uma santa. Mas no íntimo aceitava, que pelo menos naquele momento, deveria ser a outra.
Um morcego esvoaçou a cama e Fábio assustou-se. Viu que não era possível permanecer deitado. Levantou-se, abriu a janela e se debruçou a contemplar a noite. Não havia estrelas. Nenhuma. Se houvesse estrelas ele não ficaria tão só. E o morcego outra vez no seu vôo cego, agora varando o espaço da janela e se perdendo na noite, misturando-se com ela, fazendo-se noite também.
Pareceu-lhe que melhor seria voltar à cama e tentar dormir. De que lhe adiantava ficar entregue à tola impressão que um sonho lhe deixara? Aquele pieguismo, sobre ser ridículo para um homem de sua idade, era aviltante para sua condição de casado. Que não diriam a mulher e os filhos, a filha moça, se o vissem assim, insone, numa atitude de adolescente, queimando os dedos cigarro após cigarro, de todo preso à simples lembrança de um sonho semi-erótico? Não. Não estava certo. Talvez não estivesse com saúde. Aquele estado d’alma, aquela ânsia, só podia atribuir, ele, um homem de meia-idade, a uma situação patológica qualquer.
E o próprio sonho Fábio punha à conta da hipótese a que se apegara para justificar os efeitos de uma frustração amorosa. Passou a sentir a garganta doendo. Estaria resfriado? Tossiu, pigarreou, pensou em deixar de fumar. Talvez as amígdalas... Ora amígdalas!... Não as tinha desde criança. Sentou-se na cadeira de embalo e procurou fugir de todos aqueles pensamentos. Não conseguia abstrair-se. Na parede, o relógio grande passando as horas com seu barulho enjoado constante. Ferindo o silêncio, aumentando o tédio num crescendo irritante, como se fossem marteladas. Se pudesse não ouviria zoada de relógios. Principalmente numa noite de insônia. E por instantes ficou pensando no papel que o relógio desempenhava em sua vida. Não passava de um escravo dos ponteiros. Sempre fora forçado a observar as horas certas e convencionais. Sempre. De manhã à noite. As horas... as horas... Lera, algures, uma frase em latim que dizia: “todas ferem, a derradeira mata”. E pensar que depois de tantas haveria uma última com gosto de morte... Para quantos aquela hora não estaria sendo a derradeira? Ah!... Os relógios. Saber que por muito tempo ainda os veria a dividir o tempo, mostrando-o em pedaços, numa advertência de que há um passado se formando. A vida, toda ela, presa, sujeita à divisão mecânica de duas peças que não param. Talvez fosse interessante escrever um tratado sobre a importância do relógio na vida do homem. Poderia começar assim: de todas as máquinas que o homem criou para servi-lo, houve uma de que se tornou escravo: o relógio.
E mesmo assim, entregando-se a pensamentos estranhos aos que lhe haviam roubado o sono numa tentativa de fuga, aqui e acolá lhe assaltava a doce lembrança, na ternura de uma voz que se repetia dentro dele lamentando a impossibilidade de prosseguirem o enlevo. “Não! Não podemos fazer isso...” Por quê? E a pressa: “Chega!” “Vamos!...” Fora tudo. Até no sonho, coisa irreal, a verdade querendo impor-se. E os dois, covardemente, acorrentados às convenções, fugindo, sem coragem suficiente de se realizarem. Quem poderia saber? A consciência... a consciência... Ora, voltava a brincar de menino apaixonado. Bem que poderia ser mais prático e aproveitar a noite. Mas como? Folheou os jornais e as notícias, já sabidas, enfastiavam-lhe a alma. Talvez que algum poeta lhe devolvesse a tranqüilidade do sono interrompido. E de pronto um poema, não sabia de quem, sugerindo identidade. Repetiu mentalmente e depois, baixinho, declamou: “...E parecia, jogando ao chão, a flor sombria que ao coração ele arrancara...” O pierrot. Estaria sendo pierrot? E de novo a lembrança do sonho. Outra vez o desejo de repeti-lo, tornando-o real. De lembrar-lhe a jura sepultada no passado, talvez esquecida: “Um dia haveremos de nos encontrar...” Um dia. Quando?
Olhou mais uma vez a mulher, pensou na filha moça e resolveu deitar-se. Era um hipócrita. E um covarde. Mas de qualquer modo sentia vocação para a honestidade: tinha dúvida. A dúvida!... “Ser ou não ser”. Até quando? Fora um tolo. Estupidamente tolo. Nunca se deve perder uma oportunidade, e toda ela deve ser encarada como a única, embora outras acenem promissoras. No fundo, reconhecia, era igual a todos. Comum como todos.

Reviveu todas as cenas do passado tentando demorar-se nas que melhor lhe agradavam a lembrança. Mas todas traziam o amargor do irremediável. Todos os encontros tinham sempre um adeus. E neste a incerteza de um amanhã. Um dia, o formalismo de um convite. Desejos de felicidades num abraço convencional. “Parabéns!...” E vê-la vestida de noiva. Com véu e grinalda nos braços de outro. Arrancada... “A flor sombria que ao coração ele arrancara...”
Daquela noite, pra toda vida, ficara-lhe a dúvida: será que todo homem tem uma flor arrancada ao coração? Serão eles igualmente pierrots?

(O Palhaço e a rosa)

O Ajudante de caminhão

Ambos tinham seus sonhos na vida: negro Macário, chofer de caminhão da fábrica de bebidas, suspirava pela vida de bordo, correr mundo, aventurar; Estêvão, seu ajudante, só queria uma coisa: ser chofer. Para ele, nada melhor do que chegar um dia a ser chofer de caminhão.
Trabalhava na firma há mais de seis anos, e embora conhecesse o manejo do volante, nunca lhe fora dada uma oportunidade. Mas não lhe faltavam esperanças. A Fábrica estava progredindo e os patrões, sem dúvida, seriam forçados, pela vontade de ganhar mais, a adquirir novos carros. Por isso não perdia por esperar. Um dia chegaria a sua vez. Por enquanto, porém, era apenas ajudante. Seu lugar, no carro, era em cima, misturado com as caixas de garrafas, fizesse sol ou chovesse. Aqui e acolá uma gripe ameaçava derrubá-lo, mas o caboclo não caía. Não podia adoecer. Um dia sentiu umas pontadas no peito e uma dor nas costas. Teve medo. Seria o pulmão? Contou para o amigo o que vinha sentindo. Ora! Para Macário aquilo era bobagem:
– Toma uma cana, mano. Isso passa!
Quantas vezes negro Macário não se sentira assim? E haveria melhor remédio do que cana com limão? Quando a bicha era forte e vinha com febre, misturava a branca com pimenta-do-reino e era uma vez negro mole...
– Paga uma dose?
– Vamos.
No boteco mais próximo Estêvão pediu duas doses. Pilou alguns caroços de pimenta, balançou o copo e fez careta:
– Deve ser um purgante!...
Negro Macário sorriu. Quem lhe dera que todo purgante fosse como aquele...
Estêvão, que não era acostumado a beber, sentiu uma ligeira sensação de melhora. Agora não mais sentia frio.
– Que remédio batata, nego!
– Quer repetir?
– Não! Chega.
O efeito do remédio passou em pouco tempo. A dor no peito continuava. O frio também. Cansado, em casa, nem sequer para um banho tinha disposição. Doía-lhe o corpo e sentia febre. Foi à cozinha, olhou as panelas vazias e mandou a mulher comprar pão fiado na taberna da esquina. Mandou também que jantasse. Ele não queria. Deitou-se e ficou pensando. Se caísse de verdade? Na certa que morreria de fome. Se trabalhando nada chega, que não seria no fundo da rede? Lembrou-se de Epitácio, um colega de serviço. O desgraçado já estava ficando velho na Fábrica. Que empregadão! Valia ouro. Mas um dia adoeceu e Instituto com ele. Dois terços do ordenado. Ninharia. Não chegava nem para o remédio. Pra nada, mesmo. Coitado do Epitácio. A mulher, lavando roupa... Os filhos...
A volta da mulher interrompeu-lhe o pensamento.
– Isso foi aquela chuva!
Estêvão não disse nada. Cobriu-se todo e tentou fechar os olhos. Estava inquieto. Não conseguia dormir. A cabeça doía e as pálpebras pareciam feitas de chumbo.
– Chi, nego, a febre tá alta!...
– Vai jantar, vai! Deixa ver se sossego...
A mulher saiu e foi jantar café com pão. Pão sem manteiga. O filho mais velho, de três anos, acompanhou-a. O outro, de colo, já dormia.
Estêvão acordou cedo. O corpo estava como se tivesse apanhado uma sova. Doía-lhe tudo. A dor no peito, de minuto a minuto, tentava empatar-lhe a respiração. Se pudesse não iria trabalhar. Longe, porém, de pensar em tal coisa. Faltasse e veria o resultado. Mesmo, precisava de estar sempre nas graças do patrão. Um dia deixaria de ser ajudante e seria chofer. Haveria de melhorar.
E quando ia saindo a mulher perguntou:
– Ei! Que se come hoje?
Estêvão coçou a cabeça e respondeu:
– Vai buscar uma lata de carne e faz com arroz!...
Saiu pensando na conta da taberna que lhe absorvia o ordenado. Nada lhe sobrava. Nem para comprar um vestido para a mulher. E o pior é que estava barriguda novamente. Outro filho: o terceiro. Mais uma boca...
Chegando à Fábrica já encontrou Macário sentado na boléia. A vida de chofer é mais calma. Há quanto tempo carrega caixas? Está cansado daquele serviço. Mas como ainda não é chofer, começa o dia com cinqüenta quilos nos ombros. A dor no peito ameaça cercar-lhe o tórax. Aqui e acolá uma pontada nas costas. Ele, porém, não pára. O patrão está perto conversando com uma loira que se desmancha em requebros gostosos. À noite, por certo, ela lhe tomará algum dinheiro. Mas Estêvão não sabe que o dinheiro que a loira vai levar deveria ser dele e de seus companheiros. E por que o patrão está perto, esforça-se em mostrar que é bom empregado. Que é ativo. Que mesmo doente, com dor nas costas, trabalha. Mas o patrão não lhe olha. Nem sabe se ele existe. E Estêvão trabalha para a loira que vai voltar de noite...
Negro Macário, mostrando os dentes num sorriso aberto, comenta:
– Esse nosso patrão é um galo!
– Elas querem é a verba dele!...
– E ele tem pra dar, e agora?!...
O caminhão corria veloz. O dia era desses escuros, com nuvens que ameaçam chuva. Um vento frio soprava forte e crescia com a velocidade do carro. Estêvão sentou-se sobre uma caixa e procurou abrigar-se por trás da capota. Seu pensamento passeava toda a infância. Toda a turma jogando bola na baixa da dona Zefa. Carlos também está e nem parece aquele que anda cheio de pose, só porque é bem empregado. O “Branco”, no goal, defende bem. E a turma é a maior. “Hip, hurra! Hip, hurra!...”
Uma tossida forte e já não está no campo da pelada. Passeia com Mariazinha na praça da Igreja. Mariazinha é bonita e é sua primeira namorada. Quando crescerem, e quando ele ganhar muito dinheiro, irão casar-se. Mas de repente uma lágrima nos olhos de Mariazinha. E ele, puxando o lenço do bolso, acenando-lhe um adeus. Não é o último adeus. Não! Um dia voltará para casar com ela. Ninguém, além de Mariazinha, chora na sua partida. Só ela. Ele também chora. É horrível deixá-la...
Macário freia o carro e Estêvão assusta-se. Levanta-se como que de um sonho.
– Quantas caixas, seu Lourenço?
– Que é isso, rapaz, tá chorando?
– Não!... É essa gripe...
E foi ali a primeira entrega. Estêvão tomou uma dose do remédio e Macário quebrou o jejum com uma dose dupla, tirando o gosto com uma pitada de sal. O caminhão toma marcha e segue. Outra parada e os dois amigos conversam. Macário dá-lhe a boa nova: outro caminhão para a Fábrica. E mais: seria ele, Estêvão, o indicado para dirigi-lo. Era o mais velho e, sobretudo, senhor do serviço. Estêvão fica radiante e, como na primeira vez que tomara cachaça com pimenta, sente o sangue subir-lhe à cabeça, circular mais forte e passar o frio. Era a emoção de pensar em ser chofer, seu grande anseio.
Passou aquele dia e muitos outros dias. Na casa de Estêvão o quadro é o mesmo. Os dois filhos, e a mulher, cada vez mais buchuda. A febre agora o persegue diariamente. A dor no peito não o deixou. Mas ele, como sempre, trabalha. O carro novo chegaria em breve e ele seria seu chofer. Por isso chega à Fábrica antes da hora. As caixas de bebidas estão separadas e prontas para serem levadas ao carro. Estêvão leva a primeira e a segunda. Na terceira, um gosto de sangue lhe sobe à boca. Tem vontade de tossir e uma golfada vermelha espirra longe. Ele, porém, não pára. Tenta reagir e quer correr com a caixa sobre os ombros. O sangue, mais forte, sufoca-o. Estêvão não resiste e cai na calçada, molhado por um suor frio. Os companheiros o cercam e Macário, tomando-o nos braços, leva-o para o carro, rumando em direção ao bairro onde mora o amigo.
Quando o patrão chegou e lhe contaram o ocorrido, falou em Instituto e mandou que jogassem criolina na calçada...
Uns dez meses passaram daquele dia. Mas tudo mudara. Estêvão, como previra, fora entregue ao IAPI. Mas a ele não acontecera o mesmo que ao seu amigo Epitácio: conseguira curar-se. Está bom, trabalhando, e agora é chofer. Sua vida nem parece aquela do tempo em que carregava caixas de bebidas. A casa onde mora não é a mesma de outrora. É bonita e grande. A mulher anda bem vestida. Os filhos, também. Ele reconhece que deve tudo a Macário. Por isso vão ser compadres: negro Macário vai ser padrinho do caçula. É o primeiro batizado alegre que vê em casa. Até parece com a festa de aniversário da filha do patrão. Há champanha e muito doce. Mas nem Estêvão nem o compadre bebem champanha. Festejam diferente: bebem cachaça com limão e tiram o gosto com pitadas de sal. E não é em casa, na casa nova e bonita. É no boteco de seu Lourenço...
– Quantas caixas, seu Lourenço?
– Que é isso, rapaz, tá chorando?
Macário relembra o tempo em que trabalhavam juntos. “Cabra chorão!...” Estêvão ri. Nunca foi tão feliz na vida. Para a festa do batizado do caçula convidara todos os amigos de outros tempos. Até a turma das velhas peladas na baixa da dona Zefa está com ele. E Estêvão pensa até que ainda é o menino de calças curtas que chutava bola e namorava Mariazinha. Só ela, Mariazinha, não está ali. Por quê? Faz tempo que não a vê. Desde o dia em que lhe acenou um adeus, prometendo voltar. Ele seria mais feliz se a visse... De qualquer modo, aquele dia é o mais completo de sua vida. E tudo porque conseguiu ser chofer. O caçula já foi batizado e quando crescer vai ser gente. Vai ser mais do que ele. Estudará e será gente. Os outros também estudarão. O padre, em casa, fala uma língua estranha que ninguém entende. Os olhos do padre crescem e parecem encher a casa. Estêvão está tonto de tanto beber cachaça com limão. Mas se sente alegre porque tem a casa cheia de gente. Toda a vizinhança está presente. Negro Macário está todo de branco. Até o taberneiro da esquina está ali, olhando com olhos de pergunta. E parece querer perguntar alguma coisa. A conta? Ora! Não é mais problema. Nunca mais atrasará o pagamento... Nunca mais...
Um forte acesso de tosse arranca do peito de Estêvão uma golfada de sangue. Outra golfada e ele desperta moribundo nos braços de Macário. Na verdade, muita gente está em sua casa. E todos o cercam. O padre está mas não é dia de batizado. O filho caçula há muito se batizara. O padre reza numa língua estranha que ninguém entende. E seus olhos crescem e enchem toda a casa. A mulher, chora. Os filhos também choram. Até negro Macário sente vontade de chorar. Estêvão está tonto... Sua cabeça pende e um fio de sangue mancha a roupa branca do amigo, do melhor amigo.
Lá na Fábrica o trabalho não parou. Outro ajudante de caminhão está no lugar de Estêvão...

(Ibidem)

 
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