Biografia / Bibliografia

Ernesto Pinho Filho

Ernesto Pinho Filho nasceu em Manaus, no dia 13 de julho de 1936. Destacou-se no Amazonas como cronista, ensaísta e contista. Foi membro do Clube da Madrugada. Mais tarde, transferiu-se para Belém, onde exerceu as funções de Promotor de Justiça. Não possui livros de contos publicados, estando sua produção, em tal gênero, restrita a textos constantes de jornais e antologias. Faleceu na capital do Pará, vítima de fulminante ataque cardíaco, em 17 de agosto de 1996.

 

 

Textos Selecionados:

Conosco os ingênuos:
Aleluia! aleluia!

Fracassado é que não sou, meu caro vizinho, o homem só fracassa quando não se sente mais a serviço da próxima manhã. Se eu estou passando e você não hesita em me cumprimentar, simplesmente fica provado que somos todos iguais perante o cobrador.
Fracassadas são as empresas que anunciam prometendo quatro salários mínimos mensais, por semana, e só exigem “aparência impecável”, “personalidade definida”, “dinamismo contagiante”, “ambição progressiva”, “convicção de êxito pessoal”, “vontade de participar em atividades atualíssimas”, etc., esgotando assim todas as chaves-de-sucesso da CARTILHA DE COMO VENCER NA VIDA ATENDENDO A ESTE ANÚNCIO.
Escuta só o título deste anúncio aqui, querida: DEPENDA DE SI PRÓPRIO. Quem é que pode, se há os sonhos, as marés, as contas, as filas, os acasos da morte?
“DEPENDA DE SI PRÓPRIO: VENHA CONVERSAR CONOSCO — Somando-se trabalho e instrução, obtém-se CARREIRA como resultado — APENAS 14 VAGAS — Oferecemos a VOCÊ oportunidade excepcional de tornar-se HOMEM DE EMPRESA, preparando-o para galgar cargos de chefia em nossos mais diversos setores funcionais — SOMOS EMPRESA PIONEIRA, NA AMÉRICA LATINA, EM ALTO RAMO DA CIÊNCIA”.
Anúncio sério, este: sério e objetivo: 14 vagas, empresa pioneira. Só discordo mesmo é do DEPENDA DE SI PRÓPRIO: sugere-me o SALVE-SE QUEM PUDER da falência.
Escuta o resto, querida: “Aprenda conosco teoria e prática de chefia e liderança, divulgação científica, pesquisa de mercado, opinião pública, promoção de vendas, relações públicas e humanas, oratória, etc. e participe de nossa expansão mundial como autêntico HOMEM DE EMPRESA”.
Amanhã eles vão me conhecer, e olha só o magnata me dizendo: – “O senhor é o homem certo para o lugar perto”. Perto da diretoria, querida. Me arranja uma tesoura, e larga logo essa cozinha. Sabes aonde vamos? Olhar o domingo na praia. Deixa a criança com a mulher do porteiro. Ela não vive se oferecendo? Na volta a gente traz um agrado qualquer – uma cerveja para o marido dela, ou um kibon para o filhinho deles. Veste já-já o teu maiô, ô dona fuligem! Te conheci morena, te exijo morena: mas de sol, nunca de fogão, ouviste?
Fila-da-padaria, fila-do-ônibus, fila-do-elevador, fila-do-emprego: assim se enfileira o homem que sonha em depender de si próprio.
Vigoroso como o de um homem de empresa, o aperto de mão do moço, um dos auxiliares da Seção de Recrutamento e Seleção do Pessoal.
– Queira sentar. O senhor é daqui do Rio?
– Do Norte.
– Tem parentes aqui?
– Tenho.
O moço me estende uma folha de papel.
– Queira preencher a ficha de inscrição. Experiência em vendas não é requisito eliminatório.
E oferecendo-me sua caneta:
– Indique os nomes de alguns parentes.
Largo a folha.
– Os senhores não aceitam referências comerciais?
– Nenhum deles será procurado por nossos agentes. Indique os nomes sem pautar endereços.
Com letra de forma, preencho a ficha: nome completo, nacionalidade, data de nascimento, filiação, último emprego, motivo da rescisão contratual, último salário, nível de instrução, pretensões salariais, experiências profissionais, referências, documento de identidade apresentado e – curiosa constante – indicação de parentes radicados na Guanabara.
O psicoteste, em seguida:
– Desenhe no verso da ficha quatro árvores.
– Qualquer espécie de árvore?
– Nem coqueiro nem palmeira.
Portanto, valendo jaqueira. Desenho quatro jaqueiras. Só não lhes sinto o aroma, por causa do perfume do moço.
Outras motivações do psicoteste: estrada, porteira, balão, peixe e, finalmente, o teste-chave – ou seja: do conjunto de triângulo, esfera e retângulo, montar um boneco, servindo-se apenas de dez daquelas figuras geométricas.
Devolvo a ficha, e o moço, sempre-de-sorriso:
– Volte logo mais às onze horas.
Volto. Somos uns vinte. Estamos sentados à mesa da sala-de-instrução; à cabeceira, de pé, dois funcionários da empresa. Portanto, somos uns vinte na arena. E dois leões.
– Senhores! – grita o mais baixo.
O outro:
– Estamos em guerra!
E os dois:
– LUTAMOS CONTRA A FILOSOFIA DA DERROTA!
Perplexidade nossa, dinamismo deles; e o mais alto está se apresentando:
– Chamo-me Alexandre. Sou um dos instrutores da empresa. Comecei como os senhores. Atendi ao mesmo anúncio há menos de oito meses. Prazer em conhecê-los.
O mais baixo:
– Chamo-me Caetano. Acabo de ser promovido a instrutor. Estou na empresa há apenas seis meses. Senti nesta sala a mesma emoção que os senhores estão sentindo agora.
Observam-nos. Examinam as fichas de inscrição. Entreolham-se.
– Instrução secundária é a nossa única exigência – prossegue Alexandre. – Todos os senhores estão nesse nível. De modo geral, os psicotestes nos agradaram. Quantos dos senhores pertencem ao Clube dos Cinco?
Clube dos Cinco? Surpresa nossa, sorriso deles. Alexandre insiste:
– Quanto dos senhores são sócios do Clube dos Cinco?
A voz de Caetano, agora:
– Pelo que vejo, Alexandre, não contamos aqui nem com um sócio. A solução é admitir esse pessoal todinho. Concordas?
– Concordo.
– Ótimo. Os senhores acabam de entrar para o Clube dos Cinco. Parabéns.
Um dos candidatos pergunta:
– Onde é que fica mesmo esse Clube?
– O senhor tem casa própria ou alugada?
– Alugada.
– Pois é lá que funciona o nosso clube.
– Na minha casa?

– E na minha, na de meu colega Caetano, na de nós todos, onde temos de acordar às cinco de la matina, para estar aqui às sete, haja o que houver, inclusive inundação.
Contagiante, o Alexandre. Personalidade definida, aparência impecável, ambição progressiva. Quantos salários mínimos mensais deve ganhar por semana? Começa a chamar os candidatos, pela ordem das fichas, e quer saber se dispomos de tempo integral, se estamos estudando ou simplesmente desempregados e, por último, nos convida a começarmos amanhã, munidos de caneta e caderno, o PERÍODO EXPERIMENTAL DE CAPACITAÇÃO.
E nos adverte:
– Equivale a vinte e dois dias de trabalhos forçados. Não eliminamos ninguém, entendido? O próprio candidato é que se encarrega disso. Também não adiantamos nada sobre a finalidade de nossa empresa. Os senhores serão informados no momento oportuno.
Caetano desenvolve agora uma variante vocal maçônica:
– Os senhores queiram levantar-se, para o nosso ritual de encerramento. O meu colega fará por nós uma prece. Começará em seguida uma saudação que os senhores completarão comigo. Ao gritarmos ENTUSIASMO! bateremos vigorosamente com os nossos punhos esquerdos na mesa, entendido?
O vozeirão de Alexandre deve estar sendo escutado até na porta do elevador:
– Senhores! Desejo-lhes um dia de saúde, iniciativa e persistência, extensivo a seus familiares, e aqui estaremos amanhã, mais uma vez reunidos, às sete horas, convictos de que honraremos o trabalho humano, porque, SE DEUS ESTÁ CONOSCO... ...NINGUÉM PODERÁ ESTAR CONTRA NÓS! – arremata Caetano, devagar, para que o acompanhemos; e, ao gritarmos com ele ENTUSIASMO! golpeamos a mesa, mas sem harmonia. Na próxima vez faremos melhor. Quem não sabe esmurrar sequer uma mesa, não tem o direito de depender de si próprio.
Fazemos fila para o elevador. Atendendo a uma das exigências dos instrutores, evitamos “as relações humanas entre concorrentes”. Concorrência, fila, sobrevivência: “Paz em nosso tempo, ó Senhor”! – “Aleluia! Aleluia!” – “Por não saber a hora da minha última fila, louvado seja o Senhor!”
Descemos em silêncio, e o ascensorista comenta, risonho de malícia:
– Empresa movimentada, essa do vigésimo: está com quatro turmas de candidatos...
Vinte e dois dias de instrução: das sete às nove horas, copiar ditado sobre as “bases do sistema” – ou seja: “as sete mais experimentadas chaves do fechamento de negócio utilizadas pelos maiores promotores de vendas do mundo”; vinte e dois dias de instrução: – “Se Deus está conosco, ninguém poderá estar contra nós”; vinte e dois dias de instrução – “O quê? Se eles vão nos pagar? Claro que não, querida. Estamos sendo testados, entendes? Se não queres dormir, vem me ajudar a copiar. Apagar a luz agora? Cobre com um lenço os teus olhos”.
Dependo dos sonhos, das marés, das filas, das contas, dos acasos da morte. Tão frágil sou, querida, e dependes de mim. Diante de uma mesa vazia, o amor continuará sentado? Qual a razão de ser de uma carta de amor, por exemplo, se os selos custam duas doses de café?
Portanto, também o amor me faz depender de Alexandre:
– Senhores! Fechem os seus cadernos! Fechamos, aliviados. É o vigésimo segundo dia. Alexandre está mais enérgico:
– Vamos cumprir hoje a última etapa de nosso período de capacitação. Os senhores vão nos provar que dependem mesmo de si próprios: que com habilidade e sem complicações podem conduzir alguém a uma decisão; que finalmente conosco aprenderam a lutar contra a filosofia da derrota.
E começando a erguer o pano de fundo:

– Nenhum dos senhores sabe o que somos como empresa. Correto? Agora vão saber. A apresentação oficial será feita por meu colega Caetano.
Sai Alexandre, entra Caetano:
– Senhores! o nosso nome é MORSA. M-O-R-S-A. Daqui a alguns meses todo o país conhecerá essa sigla. O que é que vendemos? Nenhum produto. Nenhuma droga atômica. Prestamos serviços científicos. Os senhores serão nossos agentes. O povo está lá fora desorientado, à espera de nossa mensagem: somos empresa que se dedica, na América Latina, ao desenvolvimento das forças psíquicas. Contamos em nossos quadros de pesquisas com a presença das maiores autoridades mundiais no assunto. Oferecemos resultados de curas radicais em casos de neuroses, artritismo, impotência sexual, reumatismo infeccioso, loxidermias medicamentosas, urticária crônica, etc., conforme os senhores podem constatar da leitura destes folhetos.
Distribui os tais folhetos, rápido, e em seguida desfecha:
– A cada um dos senhores serão confiadas vinte ações da empresa.
Alguém repete:
– Ações?! Ações?!
Caetano não se apercebe:
– Os quatorze primeiros a se apresentarem, até às 18 horas de hoje, com todas as ações vendidas, passarão a fazer parte do “quadro de candidatos aprovados para o curso de adaptação”, durante o qual terão direito a comissões.
Vender papéis! Vinte e dois dias no rumo de empresa pioneira, na América Latina, em alto ramo da ciência; vinte e dois dias a copiar ditados sobre as mais experimentadas chaves-de-negócios.
Queres rir ou chorar, querida? Precisas de um cinema urgente. No São Luiz está passando um filmaço: “Adeus às Ilusões”, com a Liz Taylor e o Richard Burton; vou pedir à mulher do porteiro para cuidar da criança.
Dependa de si próprio. Procure-nos. Conosco os ingênuos.
– “O senhor tem parentes aqui no Rio?”
Bolaste querida? O candidato naturalmente tende a vender as ações aos familiares, pois lhe acenam com a oportunidade de se tornar HOMEM DE EMPRESA.
O cinema, querida, o cinema! Se Deus está conosco, ninguém poderá estar contra nós.

(In: ENGRÁCIO, Antologia do novo conto amazonense, p. 87-94)

 

 
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