Biografia / Bibliografia

Erasmo Linhares

No dia 2 de junho de 1934, em Coari (AM), nasceu Erasmo do Amaral Linhares. Em Manaus, onde se radicou, formou-se em Comunicação, tendo por muitos anos exercido as funções de jornalista e radialista, com atuação na rádio Rio Mar. Foi também professor da Universidade Federal do Amazonas, instituição pela qual se aposentou. No campo literário, pertenceu ao Clube da Madrugada e à União Brasileira de Escritores – AM. Publicou dois livros de contos: O Tocador de charamela (Manaus, 1979) e O Navio e outras estórias (Manaus, 1999). Faleceu na capital do Amazonas, no dia 16 de outubro de 1999.

 

 

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Um Homem importante

Decalcomania. Muito natural. Todo homem sério e importante é vulnerável às manias – seja de coelhos, rosas, cães de raça, cachimbos ou mulheres, que é mania recomendável embora dispendiosa. E não era ele um homem importante e sério? Ou melhor, não iria sê-lo?
Aliás, isso foi só no começo. Um homem assim, quando menos, deve nomear algumas coisas em inglês. Por isso a mania passou a ser chamada hobby, não sem uma consulta prévia e convenientemente velada a padre Dalton, à hora do almoço, quando o pároco, sozinho na igreja, consumia suas horas de sesta.
Mania ou hobby a coisa não mudou de aspecto – figurinhas e figurinhas –, homens, camelos, tirolesas, vedetes de biquíni, santos, bailarinas, tudo enchendo álbuns e cadernos e, na falta destes, o volumoso livro de receitas de dona Marieta, presente de aniversário dado por uma caríssima amiga. Coisinha de nada, afinal, já que Acácio seria um homem importante. Teria de ser gente, como repetia à paciência inesgotável de dona Marieta que, se algumas vezes se lamentava, não deixava outras tantas de sorrir-se lisonjeada com a idéia de possuir um marido importante e respeitado. Esforçava-se. Esmerava na lavagem e no ferro, para a satisfação quase sensual de admirar o seu homem, empertigado e brilhante no terno de brim impecavelmente engomado, subir no estribo do bonde, teso como um poste.
Acácio jamais sentava – medida resultante das variadas experiências para não amarrotar a roupa até à entrada triunfal de todos os dias na Coletoria de Rendas.
Terceiro Arquivista Padrão “C”, era verdade. Vencimento minguado, atrasado de dois meses e distribuído criteriosamente entre o padeiro, o Joaquim da mercearia e outros compromissos inadiáveis, de modo a sobrar para as figurinhas coloridas, o cigarro filter de luxe, o conhaque velhíssimo e, às vezes, para o joguinho de cartas. Homem importante fuma cigarros filter de luxe, bebe conhaque envelhecido oitenta anos em tonéis de carvalho e joga cartas.
Filhos? Graças a Deus só tinham o Joca, mas isso porque as medidas de precaução se multiplicavam. Cuidados especiais, malabarismos inventados com paciência e resignação, não sem queixas de dona Marieta, para quem cabia, na grande maioria das vezes, a tarefa de ficar no meio do caminho.
Clube. Homem importante tem clube. É membro da diretoria. Pif-paf, bacará, carteado no sossego, sem os inconvenientes da vigilância policial. Festas, danças. As danças. Não foi fácil. O Tâmisa-Clube, de gente rica – fica não fica, entra não entra. Não ficou nem entrou. Onde estavam os fundos? Terceiro Arquivista Padrão “C”, marido de dona Marieta, mulher esquiva às modas elegantes, não fuma nem bebe uísque, não faz regime para emagrecer e nunca fez plástica na vida. Como então ser admitido no Tâmisa?
Mas, se não o aceitou o Tâmisa, aceitou-o de bom grado a Soberana Sociedade Recreativa, Cultural e Esportiva Unidos do Bom Retiro, entidade de velhas e gloriosas tradições e detentora do honroso título de bicampeã suburbana de dama e dominó.
Está começando, Acácio, você vai longe, homem. Já secretário da Sociedade. Você vai longe homem. Dona Marieta torcendo pelo marido, feliz da vida.
E ia mesmo. Promessas, algumas vezes se cumprem. Então o deputado dr. Fulgêncio do Valle e Silva, líder de bancada e figurão do Governo, não era primo em terceiro grau?
– Acácio, você vai ser Arquivista padrão “L”. “L”, Acácio.
Custou um pouco mas saiu. Num dia inesperado o Diário Oficial publicou num cantinho de página que logo passou a ocupar o lugar mais destacado do maior e mais novo livro de figurinhas:

“Nomeando Acácio Leite Busão para exercer, efetivamente, de acordo com o Art. 32, da Lei n.º 121, de 29 de fevereiro de 1944, combinado com o Art. 15, da Lei n.º 437, de 11 de março de 1948, o cargo de Arquivista padrão “L” do quadro permanente do Poder Executivo, lotado na Coletoria de Rendas da capital”.

– Combinado com o artigo 15 – até o Joca já sabia decorado.
Naquela noite dona Marieta não parava. O ferro corria espalhando a goma de estearina no terno de brim branco – para frente, para trás, forcejando para baixo, assoprando no fundo quando o diabo do ferro esfriava.
Meia-noite, lá estava o terno luzindo na cruzeta. Com ele, no outro dia, Acácio iria à Secretaria do Interior assinar o termo de posse.
Homem importante, aquele Acácio. Notava-se pelos ares superiores quando, empertigado, subiu no estribo do bonde e acenou jogando um beijo na direção da janela onde dona Marieta sorria, feliz e sensual.
Custava o Acácio. Almoço pronto, uma hora da tarde. Naturalmente os amigos em algum festejo. Também era justo. Arquivista padrão “L”. Paciência.
Telefone na padaria:
– Dona Marieta, telefone pra senhora.
O coração bateu forte contra o peito. Um friozinho escorreu da cabeça aos pés. Saiu correndo – Meu Deus, quem será a esta hora?
– Alô, é dona Marieta Costa Busão?
– É.
– Aqui é da polícia.
– Polícia? Que foi que eu fiz?
– A senhora não fez nada, o seu marido é que morreu no desastre de bonde da rua Tamandaré. Quarenta e oito pessoas ao todo. O maior desastre da história deste país.
Quem a socorreu foi o Totonho, caixeiro da padaria – afinal a tinha nos braços.
No outro dia os jornais publicavam a fotografia de Acácio e contavam coisas que ele nunca fez nem pensou.
Dona Marieta, chorando ainda, recortou o clichê com a tesoura de costura e pregou-o na capa do maior livro de figurinhas. Lia e relia a notícia e balançava a cabeça sobre a página.
– Homem importante, esse Acácio.


(O Tocador de charamela)


João Carioca: mandão
e famão – Juiz de Paz

Não, senhor, não sou homem de potoca. Nesta minha velha e cansada vida, se menti alguma vez foi só pra pescar mulher. Minha mãe, quando pegava a gente em alguma trampa, dava de palmatória, uma dúzia em cada mão. Uma vez peguei duas, porque resolvi ser macho e não chorei. A velha queria lágrima, como toda mãe, pra ver o sentimento. Muita gente antiga, por aqui, ainda conhece a história. Era o homem mais rico de todas essas bandas. Em cada riozinho desses ele tinha um seringal e em cada lugar por esse Juruá afora, onde morasse mais de três famílias, ele tinha uma mulher. Uma vaca braba com os homens, um vacal com as mulheres. Poderoso, meu senhor, muito poderoso. Podre de rico, mandão e famão, até com gente da capital. Nos tempos de eleição, depois que houve eleição, vinha muita gente por aqui atrás dele. Gente graúda, doutor de anel no dedo. Conversas, trampices, farronas, e ele dominando, mandando em tudo. Com essa gente de fora ele se abria, com a gente daqui era aquela carona enfezada. Mas era um homem bom, se a gente trabalhava feito doido e dava no fim do fábrico uns gordos quilos de borracha. Disso, lhe digo sem preconceito, ele cuidava. Cuidava de quem trabalhava e não amolengava com o diabo da cachaça, que isso é coisa que acaba com um homem e é até capaz de botar chifre na cabeça, se o cabra não for bom de peia. Peço que não duvide de mim. Trabalhei dez anos pra ele e com esse meu jeitão de cearense, ouvi e vi e anotei muita coisa aqui dentro da cabeça. Não pense que são histórias de um velho atazanado pelo reumatismo. Já lhe disse, não sou homem de potoca. O homem que mente perde metade da sua macheza. João Carioca também não era homem de mentira. Pra quê, se ele tinha tudo? Se ele mandava, desmandava e tresmandava? Era um touro, um homem capaz de engolir um garrafão de boa pinga do Ceará e sair andando sem que ninguém dissesse. Só vermelhão, a barrigona empinada dentro do paletó de tubarão que ele nunca largava, mesmo quando o suor empapava a camisa e a banha do pescoço fazia uma lista preta no colarinho. Estou lembrando que ele deu de usar paletó, digo melhor, de não largar mais o paletó, depois que foi feito Juiz de Paz, mandando e desmandando desde Eirunepé até quase Cruzeiro. Quase tudo, se me lembro bem. Eirunepé, Envira, Ipixuna e esses lugares todos que existem por aí. Casava e se não dava certo descasava e casava de novo. Tudo como ele queria pra que as coisas não desandassem nos seringais. Já lhe contei uma vez, mulher por aqui não havia, de começo. Coisa muito rara e por causa disso os homens endoidavam. João Carioca sabia disso e sabia cuidar muito bem do caso. Mulher era prêmio. Trabalhou, ele arranjava mulher, mas obrigava a casar e quando os filhos nasciam, ele trazia o padre de Rio Branco, espichando viagem de semanas, só pra batizar os moleques. E João Carioca era o padrinho. Ele era compadre de todo mundo e ainda hoje existe muito safado por estas bandas que é afilhado dele.
Já lhe disse duas vezes, mas repito agora, pro senhor entender bem este caso que lhe conto. Mulher era coisa rara. Era prêmio. E Carioca sabia premiar. Todo novembro ele viajava pro Ceará, Fortaleza, no conforme do que ele dizia. E lá arranjava as mulheres. Depois foi que eu fiquei sabendo. Ele arranjava as decaídas na zona mesmo. Contratava, levava no médico, dava remédio se elas tinham alguma engaliqueira. Comprava roupa, comprava batom, ruge, remédio pra engordar, se a vagabunda era magra. Enfeitava toda a mulherada e trazia de navio pra Manaus e de lá pra cá, no barco dele mesmo. Já perto do Natal ele saía de viagem para visitar os seringais, um a um. Um barco imenso, todo pintado de branco, limpo que era uma beleza. Um magote de marinheiros, um comandante de carta e tudo, vestido com farda de galões azuis e dourados – um sujeito muito do seu metido a merda –, e mais, pode acreditar, três taifeiros vestidos de branco, engomadinhos e com cara meio pro cá meio pro lá, que serviam pinga, cerveja preta, que eu nunca mais vi na minha vida, gelada num depósito de gelo, pedronas daquelas da fábrica do Plano Inclinado, e chá. Esse seu riso é que me dá gastura. Já não lhe disse que não sou homem de mentiras? É a pura verdade. Carioca tinha uma frescura de tomar chá todo dia, às cinco horas da tarde, sempre às cinco horas da tarde, nunca antes nem depois. Era, pelo que me consta, a única fraqueza que ele tinha. O senhor me desviou. O caso era que ele botava todo o mulherio dentro do barco e parava em cada porto. Parava, mandava chamar o seringueiro da localidade e o diabo do escrivão do lado, na mesa um livrão de capa dura, cheia de desenhos imitando couro. E aí, meu senhor, era a agonia do pobre do seringueiro, porque não havia astúcia. Estava tudo ali anotado. Era a hora do prêmio pelo trabalho que o cabra tinha feito como escravo, o ano todo. O sujeito esticava o olho pra ver quem saía de dentro dos camarotes, mas o negócio era bem ensaiado, a modo de pastorinha. Cada uma a sua vez. João Carioca perguntava, olhando dentro do olho do sujeito, a cara séria que não dava pra gente saber o que ele estava pensando de veras: Natálio? O escrivão respondia – duzentos quilos. João Carioca: Marlene! E saía uma velha batida, com falhas nos dentes ou com uma dentadura dessas que têm mais gengiva do que dente. Não tinha do que reclamar. Pra dizer a verdade, ninguém podia reclamar. Porque antes era pior. Carioca levava mulher, feia ou bonita, velha ou moça, mas sempre mulher. Antes dele, o patrão levava mas era o umbigo de peixe-boi. Depois eu vou lhe mostrar uma marca que eu tenho aqui nas costas. Desculpe, já vejo pelo fogo dos seus olhos que me desviei. Conto, conto pelo fio da história. João Carioca mandava, desmandava e tresmandava. Chegava no segundo porto e na frente do seringueiro do lugar perguntava: Nepomuceno? O escrivão em cima da bucha – quinhentos quilos. João Carioca – Luzia! Saía do camarote uma tetéia, uma coisa de fazer gosto, meu senhor, coisa de botar um seringueiro doido, depois de tanto jejum. Era assim, primeiro e depois, e quanto mais mulher mais borracha. Mas não pense que ele deixava as mulheres sem socorro. Duvido. Ficou com mulher era pra tratar bem, fosse velha ou fosse nova, feia ou bonita. E depois, quem era que não queria fêmea? E depois, quem era que não queria ser compadre de João Carioca? Foi assim até que isto aqui se encheu de mulher e de filhos de toda essa gente que ele juntou e, depois, quando foi nomeado Juiz de Paz, acabou casando pelo sério, com papel, aliança e tudo. A aliança ele dava, como presente de casamento. Aliança de ouro, não duvide e não faça essa cara de malícia. Ele também era padrinho. Mas, aí, João Carioca já estava parado na sede dos seringais, já não andava no fim do ano pro Ceará, já não engolia um garrafão de pinga e deixou até de tomar chá às cinco horas da tarde. Bebia lá a sua pinguinha, fumava lá os seus charutos, passava tardes deitado na espreguiçadeira lendo os jornais de Manaus e os livros, que ele tinha alguns. Não pense que mudou muito. Não, era sempre o poderoso, mandando e desmandando, e mais ainda tresmandando. Não era mais o vacal, mas ainda era o vaca-braba. Conto uma desses tempos. Todo mundo tinha de casar com ele, que era o Juiz de Paz. Os casamentos eram no sábado à tarde e de todo canto chegavam as canoas enfeitadas com bandeirinhas de papel de seda colorido, as noivas de vestido branco, grinaldas e luvas, tudo branco. Os noivos de calça e camisa de punho, também tudo branco, e reclamando dos sapatos que apertavam os dedões de mangarataia. Num sábado chegaram muitos casais e vinham entre eles Daniel que a gente chamava de Amarelinho, porque era um sujeito enfezado, mirrado, um merdinha de nada, e o Pedrão, um negro do tamanho não sei do quê. Um homem que além de alto era uma anta feito gente, de tanta força. Quando chegou na vez deles, porque o escrivão, o mesmo que trabalhava há anos nas contas dos seringais, chamava os casais dois a dois, pra não dar muito trabalho, João Carioca, sentado na cadeirona de palhinha, atrás de uma mesa comprida e cheia de papéis, olhou, olhou, olhou, fez uma carona de raiva, ficou uns dois minutos caladão e explodiu, como era do feitio dele. Seo Daniel, disse bufando, o senhor não está vendo que o senhor não agüenta essa mulher? Num mês ela lhe mata, seo Daniel. Depois olhou pro Pedrão. O negrão, um macho como poucos eu vi, quase ficou branco de medo. Seo Pedrão, Carioca falou com mais raiva ainda, o senhor não vê que essa menina não é prato pro senhor? Na primeira chibatada o senhor abre essa menina no meio, seo Pedrão. Isto já é uma grande sem-vergonhice, é contra a lei de Deus. Ficou vermelho, pediu um copo de pinga, bebeu, tossiu, acendeu um charuto, depois olhou pros quatro ali na frente dele, todo mundo espiando, abestalhado. Carioca deu uma chupada no charuto, soprou a fumaça pra cima do escrivão e olhou os quatro, um a um, bem dentro dos olhos. Troca, gritou. Ninguém entendeu. Troca, berrou. É como vai dar certo e é pro bem de todo mundo. Não quero ver ninguém morrendo nestas bandas. E trocaram e deu certo. Não pense que conto potoca. Já lhe disse que não sou homem disso. Saia por aí por essas beiras perguntando. Todo mundo sabe da história, mas ninguém como eu. Boa noite, passe bem.

(Ibidem)

 

 
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