Cláudio Fonseca
Cláudio Silva da Fonseca nasceu em Manaus, em 9 de janeiro de
1952. É formado em Economia e Administração de Empresas pela
Universidade Federal do Amazonas, com especialização em Crítica e
História da Arte, pela mesma instituição. Tem textos publicados em diversas
antologias. Obra poética: Vitral(Manaus, 1995).

 

Textos Selecionados:

Reflexos
Os lírios já cumpriram os rituais.
Agora, cai o sol
nas águas, faiscantes.

O dia se desfaz dos últimos matizes
com que fez chorar
Penélope e Ulisses.

Eis os luminosos feixes. Estes traços
rápidos de cais, de paz, de imprecisas
balsas e barqueiros e arqueadas varas
que os pincéis gravaram
impressionistas.

Penso nessa gente, olhos destruídos,
que agora cruzam as cidades turvas.
Homens sobre pontes voltam como certos
de que havia sido assim
o dia impresso.

Tribos e exércitos que aqui passaram
chegam nesta hora de um fulgor ainda.
Mortos, para olhar, os rostos levantaram
como a consolar-se
porque tudo finda.

Outros que ousaram desvendar as raras
ilhas esboçadas nesta maravilha
não se emanciparam mais que uma coragem.

Sempre
sempre se perdoa a Deus, Que somos frágeis,
ao olhar um mar, um rio,
no fim do dia.
(Vitral)

 

Poema amargo
Ela tinha nos olhos meus sonhos.
E no corpo, a minha alegria.
Ela era uma ilusão.
Eu não sabia.
O seu sorriso era o sol.
As suas maneiras, a graça.
E era tudo fumaça
que eu, encantado, nem via.
Tinha nas mãos o meu céu
e era o meu anjo ou imagem
da criança que eu quis minha.
Mas era também só miragem
e mais tarde, agonia.
Se ela dançava, parava
de repente o meu mundo
e o meu destino.
...E fantasias bailavam
nos meus olhos de menino.
Mas tinha ela o cheiro da terra
e nos lábios, lenda e Amazônia.
Frutos do mato, os seios seus.
O ventre, rio que eu navegava.
E o sexo, o toque de Deus.
Mas seu amor, uma mentira!
Um punhal na madrugada, um adeus.
E era ela aos meus olhos um sonho,
e ao meu corpo, uma alegria.
Ela era uma dor
Eu não sabia.
(Ibidem)

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