Biografia / Bibliografia

Cláudio Barboza

José Cláudio Martins Barboza nasceu em Manaus, no dia 25 de abril de 1958. É formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Amazonas, com habilitação em Jornalismo. É mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Conquistou diversos prêmios de jornalismo: Esso, por duas vezes, e Suframa, em três edições. Publicou em Manaus, em 1982, seu único livro de contos até o momento: Olhos da noite.

 

 

Textos Selecionados:

Vazio

É um problema de estrutura. É preciso partir de uma análise científica e aplicá-la à realidade. Que nada, não há solução. Claro que há, o marxismo... não senhor, discordo, o problema é a falta de unidade, nós entendemos que...
Pediu mais uma cerveja do garçom e continuou a observar os amigos de merda. Enquanto olhava pensava “mas será que tô ficando doido” e fixou o olhar numa garota de olhos brilhantes que defendia entusiasmada a igualdade da sociedade. “Logo ela, que até já me explorou e pior, fez trapaça me passando para trás há algum tempo quando trabalhamos juntos”? perguntou-se para logo depois observar os outros. “Ah! os outros estavam sempre no boteco e a discussão era cíclica”, concluiu.
Pensou em ir embora, mas foi ficando.
“E você, Paulo?”, perguntaram os amigos de mesa.
“Eu?”, indagou.
“É, o que você acha?”, insistiram.


Pensou em falar sobre a falsidade das pessoas, da hipocrisia, da superficialidade da vida urbana... “mas provavelmente dirão que estou em crise existencial”, pensou.
“Sinceramente não acho nada, se achasse não estaria aqui”, falou.
Não prestou atenção aos comentários posteriores. Acendeu um outro cigarro e foi ao banheiro. Nem mesmo sabia por que sempre ia se encontrar com aquelas pessoas. “Era a falta de opção naquela droga de cidade”, concluiu. “Droga mesmo, repetiu pra si”, enquanto retornava à mesa.
Olhou para os lados e decidiu:
“Tenho que ir embora pra outra cidade”.
“O quê, seu Paulo?”, indagou o garçom.
“Nada, estava só pensando”, justificou.
Voltou a olhar para os lados à procura de qualquer coisa que o levasse para longe daquela mesa. Não achou e retornou.
“A questão é a correlação de forças”, tornou a ouvir a conversa da mesa.
“Não” – disse o outro, “eu enquanto parte das camadas populares...” Deu um risinho e quase perguntou ao amigo se ser das camadas populares era acompanhar a mulher médica nas compras. Mas não falou.
“Ei, amigo, outra cerveja”. Pediram os amigos ao garçom.
Só olhou.
“Nós temos que dar um golpe na ditadura”, manifestou-se um da mesa.
“Cigarro... quem tem cigarro?”, alguém perguntou.
“O ponto central – profetizou um outro – é a repressão sexual”.
“Não – retrucou outro – a vanguarda ainda é o conjunto dos estudantes”.
Pensou em perguntar quanto custara o conjunto que uma das meninas da mesa usava, mas só riu baixinho.
Bebeu o último gole da taça e levantou-se.
“Pô, Paulo, ainda é cedo”, disse um amigo.
“É, é isso aí, a noite é uma criança”, completou o outro.
“É – disse ele – mas amanhã é dia de trabalho”, explicou.

(Olhos da noite)

Corpo frágil

Fazia calor enquanto suas mãos percorriam os belos mocassins. O rosto magro parecia deter toda atenção em colocar mais perfeitos aqueles sapatos. Fiquei pensando quantos anos teria. Quinze, catorze, talvez, difícil calcular pela aparência frágil do corpo.
Ele parecia um animal. Esparramado numa cadeira, barriga saliente, não bebia, devorava um chope com as pernas esticadas. Estava só, mas vez por outra ria, no que me parecia mais uma careta.
Quantos anos teria? Incrível mania a minha de tentar adivinhar a idade das pessoas. Mas eu estava ali, sentado tomando uma cerveja e não me ocorria outra coisa, a não ser observar aquele quadro e imaginar a idade da menina e do homem.
De onde estava pude ouvi-lo perguntar: “Quantos anos você tem?” (ele também gostava de saber a idade). “13”, respondeu a menina do corpo frágil. O homem pareceu meio espantado. “Pensei que fosse 15. Você já tem um corpinho...” Ele se abaixou para falar algo que não alcancei.
Agora já estava dando o brilho com a flanela. Olhei bem para o homem e me defini: “Não gosto dele. Tem jeito de fera. Resolutamente não gosto dele”. Olhei para o relógio. Quase 11 horas da noite, mas o calor continuava. Ao redor, quase todas as mesas estavam ocupadas. Deve ser o calor, pensei.
Voltei minha atenção pra mesa do sapato. E a menina? Teria pais? E irmãos? Onde moraria?... Pus-me a imaginar, mas a gargalhada de uma ruiva, numa mesa distante, me despertou. Havia muitas mulheres, todas dispostas a sentir o peso de um homem por mil cruzeiros. Ali era ponto de encontro e o ambiente era igual a tantos outros. Música, homens solitários em busca de companhia, mulheres pintadas, táxis estacionados na calçada em frente, garçons trançando entre as mesas.
A menina ainda passava flanela e o homem bebia. Já estava no quinto chope desde que eu, depois de sair do escritório da empresa, resolvera parar ali e tomar uma cerveja. Tentei ouvir o que falavam, mas nessa hora o barulho havia aumentado e não deu. Fiquei meio paralisado ao ver as mãos gorduchas descendo pelos cabelos lisos, quase no ombro. Notava-se à distância que, apesar de maltratados, eram de um castanho bonito. Deve ter notado meu olhar insistente e recolheu as mãos.
Alguns meninos, de pé na calçada, tentavam me vender chaves de fenda. Agradeci, mas eles insistiram. Tive de explicar: morava só, num quarto de pensão, e não seriam úteis pra mim em nada. É difícil dizer não a um garoto de 13 anos de olhos tristes, como os da menina que engraxava os mocassins. Fiquei pensando na miséria do mundo e pedi outro chope.
O homem já estava no sexto chope. A menina terminara o trabalho e permanecia acocorada, apoiando-se em sua caixinha de engraxar. Quase não falava. Às vezes balançava a cabeça afirmando, em outras, negando. Não deve ter forças pra falar. Vai ver que é fome, imaginei.
“Um refrigerante?” O chope aumentava a voz do homem. Observei a resposta. A cabeça balançou duas vezes afirmativamente. Olhei outra vez para o relógio. Quase meia-noite. Já deveria estar dormindo. Teria de trabalhar no outro dia e não poderia chegar atrasado, senão daria o motivo que eles queriam pra me mandar embora. Era isso que o Alfredo, chefe do escritório, queria. Dane-se, resolvi ficar. Isso me deu uma alegria interior, pois não era todos os dias que tomava uma decisão. Pedi outra cerveja pra confirmar minha posição e me recostei na cadeira.
Muita gente havia ido embora e só dois táxis permaneciam estacionados. Até a brisa que a essa hora corria era quente. No verão é difícil, quase impossível suportar Manaus, principalmente para quem, como eu, vinha do Sul do país, em busca da fortuna na Zona Franca. Bela Zona Franca! Ali estava o retrato dela A menina-engraxate, meninos vendendo chaves de fenda, prostitutas quase meninas. “Belo retrato”, repeti pra mim mesmo. Pra comemorar, pedi outra cerveja.
Voltei-me pra mesa da menina. Ela parecia animada com o sanduíche que comia. Os acenos de cabeça deram lugar a palavras. Os dois conversavam. Senti vontade de ir lá, dar um murro na cara do homem, mas fiquei sentado nos meus 50 quilos e 1,70 de altura, pensando num colega do escritório que praticava karatê.
As mãos pequenas e sujas de graxa pareciam menores ainda ante a figura gorda do homem. A um aceno dele, o garçom apareceu. “Vai embora”, pensei. “Ainda bem”, completei meu pensamento, ao voltar minha atenção toda para aquela mesa. Ele levantou, a menina também. Os dois saíram caminhando na direção de um carro que estava estacionado e logo depois cortava a noite. “Merda”, o meu grito assustou o garçom. “Tudo bem, chefe?”. “Tudo legal”, confirmei. Paguei e saí, andando pela madrugada com um gosto amargo na boca.

(Ibidem)

 
| Fechar |