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Rosa
de carne
A rosa de carne doía na mão do menino. As pétalas
apodrecidas efervesciam, se lhe deitassem hipoclorina. O anti-séptico
a despojava de suas cores, ela ficava branca, branca, como se
fosse uma pobre rosa coberta da poeira dos caminhos, mas continuava
a danada doendo na mão do menino.
O cheiro das pétalas não sabia bem. Havia que removê-las,
para nascerem outras com odor de carne sadia. Rosa de carne, pétalas
humanas, vermelho-vivo umas, amarelas outras, apodrecendo a mão
do menino.
Ele chorava quando iam tratá-la. A mãe gemia não
chores, meu filho. Mas, como não chorar se mexiam na rosa
de carne? Éter primeiro, a rosa esfriava, esfriava, nem
parecia de carne. Depois, a hipoclorina a expungia de sua fetidez.
E o estilete removia suas pétalas amarelecidas, brotavam
outras vermelho-vivo em lugar daquelas. Toda a corola, então,
lembrava a rosa primitiva, do tamanho de uma moeda de trezentos
réis.
Coitadinho do meu filho, dizia a mãe, mas era preciso que
a rosa voltasse ao botão de onde desabrochara e deste ao
nada, deixando embora na mão do menino o estigma de sua
passagem.
O menino se lastimava, a mãe prometia-lhe muitas balas
de cupuaçu, era pior porque ele estava enjoado daquela
guloseima, que de resto não lhe trazia boas recordações.
Paciência, meu filho, que paciência que nada, não
mexessem na rosa, é o jeito meu filho, deixe mamãe,
eu quero é morrer, aquele teu pai é malvado, não
estava vendo que tu és uma criança sem grande compreensão
das coisas, também que arte a tua, pra que foste fazer
aquilo, não sabias que somos uma família pobre,
com a graça de Deus, mas honrada?
Família pobre com a graça de Deus, mas honrada.
Eram-no, realmente. Tinham vindo de um interior distante, os trastes
alienaram lá mesmo, para custearem os primeiros meses na
cidade. O chefe esperava conseguir emprego, não conseguiu.
Viviam de vender balas de cupuaçu, o marido às vezes
pegava biscates, a mulher também lavava roupa pra fora.
O menino ajudava na pequena indústria doméstica,
ele já sabia muito bem quando a pasta estava em ponto de
bala, mas enquanto não, reparava o tacho que queimava sobre
o fogão de barro comedor de lenha verde. Depois vestia
as balas, quase sempre mil, de papel vegetal. E tudo pronto, ainda
era ele que saía para distribuí-las pela freguesia
de subúrbio, a cesta pesando nos ombros magrinhos, pesando,
pesando, o menino arriava onde quer que encontrasse pareceiros
para jogar bolinha com caroço de tucumã, ele era
temido na pontaria. Pelada antigamente ele também jogava
em serviço, mas teve de deixar, desde uma surra que lhe
aplicou a mãe, por ter voltado a casa rasgado, sujo e suado,
fedendo a moleque. Então ele não tinha pena do sacrifício
da mãe? Era pouca a roupa que ela molhava, batia, esfregava,
ensaboava e punha a corar todo santo dia, era pouca, ele achava,
pra voltar naquelas condições? Vida desgraçada
aquela, viver lavando os fundos dos outros! E ainda por cima sem
meio cento de balas, ele voltava. Não via que eram pobres,
embora com a graça de Deus, não vês, diabo?
não vês, diabo? Arre, assim não tem cristão
que agüente!
Agora, a rosa de carne doendo em sua mão, o menino havia
sido dispensado de certos serviços. Não de reparar
o tacho, que ninguém como ele tinha a intuição
do ponto de bala da pasta, nem mesmo a mãe, que lhe transmitira
aquela simplória ciência. O pai achava ruim o menino
não poder vestir as balas nem distribuí-las, achava,
mas não se arrependia, isso não. Fizera seu dever,
queria lá esperança de ladrão em casa, ele
homem pobre, com a graça de Deus, mas honrado? E olhe que
havia tolerado muito, ponderando certas coisas, pois já
fazia então bastante tempo que andava desconfiado de trapaças
daquele moleque! Os fregueses vinham reclamando, faltaram dez
balas em cem; pra mim, quinze, outro dizia. Ele se desculpava,
atendia prontamente às reclamações, só
queria o seu, era pobre, com a graça de Deus, mas honrado.
Depois, porém, ficava matutando, que diabo, eu conto as
balas tudo direitinho, que é que está acontecendo?
Será que os fregueses estão me enganando? Não,
não podia ser. Seus fregueses eram homens de bem, negociantes!
Tinham nada precisão de andar questionando sem motivo por
dez ou quinze balas? Aquilo era coisa de menino, ninguém
lhe tirava da cabeça, menino é bicho arteiro! Ah!
mas se fosse seu garoto, ele lhe pagaria, dava-lhe um ensino.
Eram pobres, com a graça de Deus, mas honrados. Ponderava.
Verdade que nem sempre se come bem, nunca se janta, é só
café com pão, e olhe lá que ainda se ganha
de muita gente! Antigamente, tinha-se manteiga e leite, à
noite. Mas, de uns tempos pra cá, tornou-se impossível
esse luxo de leite e manteiga, você não vê
que tá tudo pela hora da morte? O açúcar
e a fruta custam os olhos da cara. Um cupuaçuzinho assim,
do tamanho de um ovo, está por duzentos cruzeiros! Já
se foi o tempo que caboclo era besta e vendia tudo por pouco mais
ou nada. Mas, fosse como Deus é servido, não carecia
andar com trapaças para viver. E logo quem, com safadezas,
seu filho, envergonhando-o por aí, a ele, homem pobre,
com a graça de Deus, mas honrado. Humilhação
muita sentiu, naturalmente, quando o freguês bateu à
sua porta, furibundo, acusando o menino de ter-lhe surrupiado
uma nota de conto, a única que no momento estava na gaveta,
e não fazia muito, porquanto a recebera de um devedor que
mal dera as costas. “Pois seu baleiro, foi tudo tão
rápido, enquanto fui lá dentro buscar a lata pras
balas. Seu menino é sagaz, ligeiro, um verdadeiro rato,
me desculpe a expressão”. “Estou ciente, o
senhor não vai se queixar do pequeno duas vezes, vou confessá-lo.
Se foi ele, lhe restituo o dinheiro e já sei o que faço”.
Chamou o menino, vem cá, bonito pra tua cara, o freguês
te chamou de rato, onde está o dinheiro, não fui
eu não papaizinho, não me bata, papaizinho, não
me bata. Mas peia, sem ser santo, obra milagres. E o menino acabou
confessando que só gastara quinhentos cruzeiros, em sanduíches
e refresco, o outro meio conto estava escondido no porão.
Traga o meio conto, seu condenado, sem vergonha, ordenou. Mulher,
eu quero aquela moeda de trezentos réis antiga, que vais
fazer homem com o menino? Vá buscar a moeda, deixe comigo
o resto, esse desgraçado vai ser exemplado, não
estou para mais tarde sofrer humilhação pior que
a de hoje. O menino não tem compreensão, marido,
não quero ladrão em casa, mulher, você me
conheceu pobre, com a graça de Deus, mas honrado.
Pôs a moeda no fogão de barro comedor de lenha verde.
E quando obteve um pequenino disco incandescente, a mulher não
faça isso homem, que é judiação. Mas
ele não quer saber de nada e cunhou a mão do menino,
marido nosso filho tinha fome, tu sabes que o comer aqui é
magro, mulher, eu também como pouco e não ando furtando
ninguém, ai, eu morro papai, isso é pra tu aprenderes,
patife, que no alheio não se mexe.
Meu filho, tá doendo? Tá doendo, mamãe, vamos
botar remédio, meu filho, que remédio, que nada
mulher, deixa de adulação, menino mimado perde a
vergonha, marido pode empolar e virar ferida, eu quero mesmo que
fique a marca mulher, pr’ele se lembrar sempre de que somos
pobres, com a graça de Deus, mas honrados.
E assim a carne se fez rosa que agora doía, apodrecendo
a mão do menino. Ai, mamãe, paciência, meu
filho, o enfermeiro a senhora deveria ter cuidado há mais
tempo, por que deixou isso ficar assim?
E o estilete continuava retocando a rosa, em lugar das pétalas
amarelecidas, brotavam outras vermelho-vivo. O menino se lastimava
ai, está doendo, mas o enfermeiro seguia no seu ofício
de sarar a rosa. Era preciso que ela voltasse a botão e
daí a nada, deixando embora o estigma de sua passagem pela
mão do menino pobre, com a graça de Deus.
(Mundo
mundo vasto mundo)
Bumbá
O boi se fizera nas mãos de Severino, preto velho maranhense,
corpo esbelto, espáduas largas, altura de monumento. O
boi, de madeira o esqueleto; carne de algodão e pano velho.
O couro era de um veludo tão negro que azulava, a luz refletindo
nele. Na testa uns chifres de verdade, entre eles, a mancha lembrando
uma estrela branca. Não uma estrela certinha, recortada
com cuidado, geometricamente concebida e inscrita num pentágono.
Um borrão em forma de estrela. Como se o fabricante preto
velho Severino a houvesse desenhado e, ao pintá-la, tivessem
as tintas extravasado as linhas do desenho. Por isso se chamou
Estrela, bumbá-meu-boi Estrela, alegria do povo nas noites
de junho.
Preto velho Severino era também o amo do boi, o ensaiador.
Ele sabia como raros improvisar toadas e tinha voz para puxá-las.
Boi Estrela, orgulho seu e também do bairro, não
era como os outros bumbás da cidade. Tinha voz, mugia como
seus símiles de verdade por obra e graça de um aparelho
fonador construído de cuícas e manejado pelo miolo
– um molecote de pernas secas, mas rijas, apelidado Socó,
que aliás sabia fazê-lo dançar como ninguém.
Socó se tornara porque dançando se punha às
vezes numa perna só.
Boi Estrela mugia, já se disse. Verdade que o mugido estava
para o de um boi de veras, como o choro de uma boneca-que-chora
está para o de uma criança. Mas mugia. E –
admirável novidade – mexia os olhos, duas grandes
petecas de vidro escuro e esverdinhado nas órbitas de pano.
*
* *
Boi
Estrela, em junho, tinha curral. O tempo restante ficava guardado
na casa do amo, protegido inteirinho de pano de saco. Preto velho
Severino tinha por ele desvelos paternais:
– Meu boizinho!
Longos cílios de palmeiras, duplos, enfeitavam o curral.
Varais de bandeirinhas, bífidas na extremidade, entrecruzavam-se
sobre ele. Naquele tempo, a cidade padecia carência de luz
elétrica. Lâmpadas fantasiadas de lanterna e balão
faziam de conta que iluminavam. A iluminação mesmo,
porém, vinha de fogueiras ardendo e vinha de grandes porongas,
luz baça de fogo e fumaça.
Na porteira do curral, uma armação de estrela vestida
de papel vermelho. Um dia, a eletricidade – visita bissexta
– apareceu por aquelas bandas. A estrela vermelha –
viu-se – tinha em seu ventre uma lâmpada que acendia
e apagava igual a um vaga-lume. E passou a noite inteira jogando
piscadelas para o povo. O povo compreendia. A estrela vermelha
fascinava-o.
Preto velho Severino, imponente, o manto tarjado de arminho todo
cheio de espelhos e lantejoulas, puxando as toadas, quantas ele
improvisava!
Rola
boi-bumbá
Rola que eu mandei rolar...
Preto
velho Severino instruía, ralhava, ensinava novos passos,
toadas novas.
Oi
levanta poeira...
Tanta
alegria, tanta, quando estava o bumbá em seu curral, quanta
alegria! Gente em volta, o encantamento possuindo-os. A preta
Bárbara, no vulgar D. Barba, faturava: pingues faturas
de tacacá e mungunzá, bolo-podre e de macaxeira,
tapiocas em retalhos de folha de bananeira, poeira de coco por
cima. Até aluá e café havia em sua banca,
que era a mais gostosa do arraial. No curral, a batucada fazia
hora, ensaiando refrões, dançados em passos nervosos
pelos brincantes. E cantados:
Oi levanta poeira...
As
meninas indo e vindo, corpos cheios de amor para dar, levantavam
poeira, batendo as sandálias gastas no barro do arraial.
Várias eram levadas para muito além, aonde não
chegava a claridade das porongas e fogueiras. Conduziam-nas moleques
já homens, os braços rijos do trabalho agasalhando-as.
Iam aprender anatomia, o método Braille, simples e humano,
presidiria aos ensinamentos.
Depois tudo ficava mais triste porque o bumbá partia para
cumprir seus compromissos na cidade. Dançar na casa de
doutores, autoridades, gente de haver, de bens mais que de bem.
Hastes compridas encimadas por lamparinas cilíndricas de
três pavios iluminavam os caminhos. Os moleques iam até
às vias de fato para segurá-las.
Formava-se o grupo. A batucada, os vaqueiros, os rapazes-do-amo,
o padre. As burrinhas eram duas. Os índios na frente compunham
a barreira, os tacapes servindo de cimento. Pai Francisco e Catirina,
figuras picarescas. Comandando todos, o amo preto velho Severino.
Na retaguarda, o séquito de simpatizantes, mães
de brincantes e outras com os filhos-de-peito escanchados nos
quadris, moleques a granel, povo.
Por onde o boi passava, corria gente pra vê-lo.
O povo mexia com Pai Francisco, ele perseguia mocinhas e crianças,
dispersava-as. Um dia, um homem avisou-o:
– Chico, tua mulher Catirina tá namorando...
Pai Francisco, mais que de repente, retrucou:
– Macaco só olha pro rabo dos outros...
O homem desconsertou-se. Do povo veio violenta vaia, avassaladora.
Pega! Toma! Vai mexer com Chico! Vai!
Boi Estrela tinha rivais, um maior que os outros: Malhado. Compreensível
que os tivesse. Os demais não mugiam, nem mexiam os olhos,
qual deles tinha entre os cornos aquela mancha em forma de estrela?
Bois chambas os outros, sem dúvida, invejosos. Miolo como
o Socó, as pernas assim tão sensíveis ao
ritmo da batucada, qual poderia apresentar? E qual nascera de
preto velho Severino, de seu engenho, qual? Compreensível
tivesse Estrela rivais. Não era ele acaso o mais amado
do povo?
Malhado quisera imitá-lo, tentaram fazê-lo mexer
os olhos. E mugir. O povo deu pelo plágio, verdadeira caricatura,
aliás. Zombou do Malhado. Mugir e mexer os olhos eram atributos
do Estrela.
Porque rivais tivesse, boi Estrela os desafiava:
Ê
ferro, ê aço!
Estou procurando
E não acho...
O
bumbá de Severino – assim também se chamava
– logo possuía as ruas por onde passava. Campeava
soberano:
Lá
vai, lá vai meu boi
Arreda povo contrário...
Os
outros bois temiam confronto com ele, medo de se apoucarem. Brincantes
e acompanhantes nenhum grupo reunia mais que Estrela.
Certa vez – nem é bom lembrar – ia o bumbá
feliz, o povo não lhe queria? Ia feliz quando preto velho
Severino advertiu:
– Aí vem Malhado. Ninguém ataca, ninguém
recua também. Voltar fica feio.
A batucada, que havia silenciado para ouvir o amo, voltou a atacar
com mais força:
Ê
ferro, ê aço!
Estou procurando
E não acho...
Agora os simpatizantes também cantavam. Era preciso suplantar
o vozerio do grupo contrário, lançando o mesmo desafio:
Ê
ferro, ê aço!
Estou procurando
E não acho...
Socó
olhou pela goela do boi, que era aberta exatamente para que o
miolo pudesse descortinar os caminhos.
– Vou jogar meu boizinho Estrela em cima desse boi chamba...
Ninguém soube nunca como nem por onde começou. Quem
começou ninguém soube. As mulheres correram, os
filhos-de-peito escanchados nos quadris. As mais valentes insultavam-se,
aplicando-se puxavantes de cabelos:
– Vaca Malhada!
– Vaca Estrela!
Os índios trocavam-se cacetadas, vaqueiros e rapazes-do-amo
eram boxeurs. O padre fugiu logo com Catirina, os dois covardes.
Socó investia furiosamente, dando marradas no boi adversário.
Preto velho Severino ajudava os seus que fraquejavam, mas pedia
paz. Em dado momento, gritou:
– Meu boizinho você não acutila, seu...
Soltou um palavrão e logo libertava do peito o último
gemido, fundo e pungente tão como as toadas que inda agorinha
puxava. Fundo e pungente e eloqüente tanto que a todos parou.
Do coração rompido, brotava o sangue vivo que lhe
empapava a vestimenta de lamê tão caprichada, debruns
de arminho, cheia toda de espelhos e lantejoulas.
(Ibidem)