Biografia / Bibliografia

Astrid Cabral

Astrid Cabral Félix de Souza, poetisa e contista, nasceu em Manaus, no dia 25 de setembro de 1936. Realizou seus estudos superiores na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Letras Neolatinas. Foi professora da Universidade de Brasília e oficial da chancelaria do Ministério das Relações Exteriores. Sua estréia literária aconteceu em 1963, com a publicação de seu único livro de contos: Alameda.

 

 

Textos Selecionados:

A Aventura dos crótons

Cresciam os crótons sob o sol cru, vermelhos como cristais. Maio era vindouro, prometendo amenidades e um céu varrido. Por enquanto o mormaço invadia os muros e desafiava as sombras, densas sob a copa das altas mangueiras, mas não de arbustos como os crótons. Deliciavam-se, porém, com o calor e a luz, tão rosados e brilhantes os tornava o sol, as folhas recortadas em cetim de fortes tons.
Longe, na baixada, espalhava-se o povoado, onde poucas eram as árvores e muitas as casas. Numerosos, difusos, os caminhos, as trilhas cobertas de mato que conduziam até lá. Mas bem sabiam os crótons que não era dado palmilhá-los, e o dom que tinham era o da contemplação íntima que se fluía morosamente a distância. Assim quedavam-se frustrados e serenos por tardes intermináveis, quando não tomados de súbita inquietude, debatiam-se em acenos langues. Para que se agitassem, bastava que o vento lhes trouxesse recados da várzea, outros cheiros e rumores. Sonhavam então romarias pela íngreme perambeira, seus trechos entrançados de urtigas ferozes, claros de terra fofa e barrenta. A vertigem da descida compensaria o cansaço inevitável, os agulhões das pedras e dos gravetos. Imaginavam até gentilezas especialíssimas. As urtigas encolheriam as nocivas mãos. Tampouco seriam molestados pelo gruda-gruda dos carrapichos. Quem sabe a galharia abriria alas para a comitiva passar? Ou algum calango ocioso os guiaria ao acaso sem suspeitar disso?
Talvez levassem os crótons meninos, os pequenos de dois palmos. Seria impossível deixá-los sem a proteção de suas sombras adultas. E anteviam-se, ladeira abaixo em visita à cidade, onde havia minúsculos jardins de crótons anãos. Estes tinham à volta um cercado de tijolos, disfarçado sob o limo, e em canteiros estreitos de terra escassa, pareciam prisioneiros. Ah humilhação, pensavam os crótons altivos, de porte desempenado e vigorosos tendões, gerados e nutridos no chão livre dos campos. Ali se expandiam desenfreados, sem a coleira dos canteiros e o suplício das podas. Valeria descer àquela terra exígua onde os homens haviam usurpado o chão que lhes pertencia por direito de herança e mora? Não seriam os jardins pequenos cativeiros em que as plantas medravam a susto, contidas pelo medo de encobrir uma janela, invadir a casa galgando o telhado, encarapitando-se pelo corrimão de alguma escadaria? A audácia no caso era pouco eficaz, pois toda luta importava em derrota. A tenacidade do jardineiro zelava pela dócil submissão de todos: que a buganvília não se alçasse além da janela e tão-somente lhe beirasse o parapeito, que a trepadeira de maracujá ficasse onde estava, sem incursões pelo terreno vizinho, que os crótons se contentassem com um metro de altura e não se vergassem as samambaias sobre as lajes da passagem. Fora dessa disciplina, era o que observavam a cavaleiro da baixada, apenas as casas abandonadas. Nelas reconstruíam as plantas o império subjugado, o verde à brida solta com salpicos e manchas de todas as cores. E adeus geometria torta que as espartilhava, falsa ordem dos jardins traçados em prévios mapas. Se a terra fosse inerte como um papel aberto, e a vegetação não passasse de riscos de lápis?
Projetavam os crótons, descendo à várzea, hospedar-se na casa vazia da esquina fronteira, exatamente aquela que as heras haviam pintado de verde. Ali ficariam à vontade, como na sem-cerimônia em que viviam, a natureza tudo provendo, o humo virgem, a chuva farta, o sol a descoberto. O quintal, vasto, os receberia sem dizer: – “Lugar de plantas decorativas é no jardim”. Ou vamos lá: – “Que fruta dão vocês”? Pois não tinham sido os homens a dividir a terra de modo arbitrário, aplicando sua lógica a todos os seres?
A casa abandonada chamava por eles, assim entendiam as borboletas que vinham de lá, bailando pelas distâncias intermédias. Tê-las sobre as folhas era a alegria incompleta de não segui-las na viagem de regresso. A ânsia lhes sacudia a alma, não os membros, raízes que se deitavam com o peso de âncoras.
Na ventania conversavam os crótons alvoroçados sua linguagem de mímicas sutis. Ah se o vento os pusesse na garupa! Era tão perto e contudo tão longe! Ah, ali mesmo se finariam, sem descer à várzea...
Tanto gemeram, tantos desabafos lançaram que a natureza provedora escancarou os cântaros armazenados atrás de balcões de nuvens. A água, cavoucando o chão dias seguidos, desenterrou-lhes as raízes mais fundas, libertando-os para o deslize na correnteza da enxurrada. Escorregaram então barranco abaixo, tocados por águas turvas, às cambalhotas e encalhos na lama visguenta. Rasgavam-se nas pedras, enganchavam-se nas ramagens secas do declive, mas desciam e o plano logo se espraiou a seus pés. Um pouco mais, a correr com o impulso emprestado daquele rio efêmero, e ei-los à casa da esquina. Oh quão imensa e diferente lhes aparecia agora, diverso o ângulo em que jaziam, deitados a seu portão, a fadiga amarrotando-lhes o corpo castigado. O portão erguia-se alto, firme, pesado. Era de ferro liso, sem requintes, sem rendados. E bastava ele, imóvel em suas dobradiças de ferrugem, para proibir-lhes o acesso no paraíso a que se endereçavam num arroubo de vida.
Ao amainar da chuva e ressurgir do sol, o amplo horizonte acenava-lhes em despedida sobre o morro.

(Alameda)


Um Grão de feijão e sua história

Por engano foi cair ali. Salvo da panela prestes a levantar fervura. Xingou seus vizinhos, os grãos brocados, de espécie degenerada, rebotalho de safra, até que se calou de repente. Afinal, devia-lhes a vida. Por um triz não estava no torvelinho da água quente, confundido entre mil grãos, passando de raspão pelos tomates inteiros que eram bóias escorregadias naquele marzinho em revolta.
A terra, porém, que delícia, estava recém-chovida. Posso mesmo ver umas sobrinhas de chuva enganchadas nas folhas da chicória, reparou de coração contente. Como está brilhante este capim, comentou sozinho, desde que os grãos estragados estavam mortos. Para eles, tinha certeza, não fazia diferença estarem ali no chão amigo do quintal, ancorados na terra molhada e fofa. O suplício da água borbulhando, cantando de calor, não os atingiria.
Vou crescer sem a companhia de ninguém, queixava-se, e era o seu modo de partilhar com os companheiros mortos. Em seguida num esforço em que se empenhava todo pôs-se a olhar pelo quintal.
Estava quase à porta da cozinha, o que o deixou assustadiço e medroso. Não, não havia perigo, para isso não fosse tão pequeno. Se ao menos tivesse a alegria sarapintada dos mulungus. Mas sua cor não só era discreta como confundível. A aparência séria, seu broquel.
Então pôde ver de ânimo repousado, a goiabeira coroada de florinhas e os troncos de outras árvores muito altas de que não via a copa. Por que cresceriam tanto? Confusamente percebia que tais caules monstruosos participavam da grandeza dos trovões. Vá ver que a fronde dessas árvores mergulha no céu. Por isso não as vejo.
Divertia-se descobrindo o quintal. Tanto tempo confinara-se a sacas escuras que perdera a naturalidade de ver-se ao ar livre. Palavra que até me ia esquecendo do dia. Tão morninho e limpo.
Enquanto se deleitava ao sol, recuperando um passado interrompido – a colheita privara-o de luz, céu, chuva e chão – calmamente se dilatava, tufando ao bem-estar de quem se reencontra após descaminhos. Na terra sim, estava a vida. Agora, reintegrava-se. Restabelecia o elo temporariamente partido, devolvendo à terra o embrião da estirpe. Cismava. A sua vida, se preservada, era toda uma descendência pela frente. Zelava por esta como se fosse dado alcançá-la em realidade, acometido de amor pelo futuro.
Embevecido quedava-se a olhar, a olhar. Enchia-se de ternura pelas flores da goiabeira. Antes que as goiabas apontassem já seria pezinho crescido, armazenando outros grãos.
Aos poucos vai botando a pequenina raiz de fora, a raiz que ganhando força arrasta-o rumo à luz para que surja dividido, as bandas a despirem roupa marrom. Nem bem se afundou no chão, com o próprio peso cavara seu leito na terra maleável, e já flutua à flor da terra.
Estou só e a vida vai ser difícil. Nenhum feijão grandinho e experiente para me aconselhar. “Assim é melhor. Ora, não se faça de tolo. Penda para a direita. Preste atenção ao sol. Cuidado com as formigas”. Mas como já sabia o que lhe diriam?
Havia sobretudo o gostinho bom de enfrentar o mundo sem um exemplo sequer a atravancar-lhe a expansão. Crescer como quem respira. Retesar as folhas com a vinda do sol, relaxá-las à noite. Docemente como a natureza lhe ditava. Bem-aventurada ignorância do porquê. A tradição familiar, cumpriria sem cultuá-la, pois, não se enganava, era o culto consciente que oprimia.
Não se via, mas sentia-se crescer. Os botões de folhas desembrulhavam-se gêmeos pelo caule fino e sinuoso que girava mansamente desenhando círculos no ar. Os gestos redondos desfaziam-se no espaço vazio. A translação da haste tentava embalde alterar a amplidão indiferente. Quisera nela gravar-se mas reconhecia-a indomável, de uma fluidez que não se apreendia. Chegava à conclusão de que tinha o nada a rondá-lo – esse ar onde tudo deslizava e que escapava dos corpos não se deixando nunca possuir.

No momento discutia o problema do apoio. Em quem se agarrar? Seria forçado a deitar rama quando não mais se sustivesse de pé. Cascavilhava a vizinhança atrás de um encosto e botava olho grande na “jibóia” que se enroscava em uma mangueira.
Oh, bem que sabia abraçar e no entanto sua laçada morria no espaço. Um dia caminho até a cerca, abraço-a, e dou início a escalada. Com o tempo vou me espichando, quem sabe não tomarei conta da cerca toda? Está nuinha e nova à minha espera. Me chama com seu cheiro bom de resina.
Na cerca, relutava, ficarei mais exposto. Se não me quiserem lá, arrancam-me como qualquer mato reles. Felizmente a essa altura já terei a dignidade da vida madura e firme para me opor, impondo minha presença. Nada do franzino projetinho de vida de que não passo por enquanto (nutria a autopiedade, humilhado em meio ao quintal esplendente de viço, quintal cujas árvores frondosas afrontavam com seus troncos roliços, sua sombra compacta, caindo em manto sem rasgões).
Se o arrancassem apesar de tudo? “Ainda mais essa! Com tantos quilos de feijão debulhado e enlatado na despensa. Que tolice a desse grão! Querer fazer roça no quintal”.
E se o condenassem a adubo verde?
Às vezes analisava o poder que tinha de prever coisas e fatos. Era como se sua vida fosse repetição e nunca morresse mas se encarnasse em tempos sucessivos, carregando consigo a experiência da espécie. Dentro de si, sentia, havia algo que varava o tempo atravessando intacto as contingências da morte – o que lhe segredava o jeito de ser do mundo, suas emboscadas e gozos.
Assim não se surpreendeu no momento em que um jato d’água fervendo (a empregada tinha o mau hábito de atirar as coisas pela janela) veio colhê-lo enquanto com muito carinho tecia seu futuro.

(Ibidem)

 
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