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A
Aventura dos crótons
Cresciam
os crótons sob o sol cru, vermelhos como cristais. Maio
era vindouro, prometendo amenidades e um céu varrido. Por
enquanto o mormaço invadia os muros e desafiava as sombras,
densas sob a copa das altas mangueiras, mas não de arbustos
como os crótons. Deliciavam-se, porém, com o calor
e a luz, tão rosados e brilhantes os tornava o sol, as
folhas recortadas em cetim de fortes tons.
Longe, na baixada, espalhava-se o povoado, onde poucas eram as
árvores e muitas as casas. Numerosos, difusos, os caminhos,
as trilhas cobertas de mato que conduziam até lá.
Mas bem sabiam os crótons que não era dado palmilhá-los,
e o dom que tinham era o da contemplação íntima
que se fluía morosamente a distância. Assim quedavam-se
frustrados e serenos por tardes intermináveis, quando não
tomados de súbita inquietude, debatiam-se em acenos langues.
Para que se agitassem, bastava que o vento lhes trouxesse recados
da várzea, outros cheiros e rumores. Sonhavam então
romarias pela íngreme perambeira, seus trechos entrançados
de urtigas ferozes, claros de terra fofa e barrenta. A vertigem
da descida compensaria o cansaço inevitável, os
agulhões das pedras e dos gravetos. Imaginavam até
gentilezas especialíssimas. As urtigas encolheriam as nocivas
mãos. Tampouco seriam molestados pelo gruda-gruda dos carrapichos.
Quem sabe a galharia abriria alas para a comitiva passar? Ou algum
calango ocioso os guiaria ao acaso sem suspeitar disso?
Talvez levassem os crótons meninos, os pequenos de dois
palmos. Seria impossível deixá-los sem a proteção
de suas sombras adultas. E anteviam-se, ladeira abaixo em visita
à cidade, onde havia minúsculos jardins de crótons
anãos. Estes tinham à volta um cercado de tijolos,
disfarçado sob o limo, e em canteiros estreitos de terra
escassa, pareciam prisioneiros. Ah humilhação, pensavam
os crótons altivos, de porte desempenado e vigorosos tendões,
gerados e nutridos no chão livre dos campos. Ali se expandiam
desenfreados, sem a coleira dos canteiros e o suplício
das podas. Valeria descer àquela terra exígua onde
os homens haviam usurpado o chão que lhes pertencia por
direito de herança e mora? Não seriam os jardins
pequenos cativeiros em que as plantas medravam a susto, contidas
pelo medo de encobrir uma janela, invadir a casa galgando o telhado,
encarapitando-se pelo corrimão de alguma escadaria? A audácia
no caso era pouco eficaz, pois toda luta importava em derrota.
A tenacidade do jardineiro zelava pela dócil submissão
de todos: que a buganvília não se alçasse
além da janela e tão-somente lhe beirasse o parapeito,
que a trepadeira de maracujá ficasse onde estava, sem incursões
pelo terreno vizinho, que os crótons se contentassem com
um metro de altura e não se vergassem as samambaias sobre
as lajes da passagem. Fora dessa disciplina, era o que observavam
a cavaleiro da baixada, apenas as casas abandonadas. Nelas reconstruíam
as plantas o império subjugado, o verde à brida
solta com salpicos e manchas de todas as cores. E adeus geometria
torta que as espartilhava, falsa ordem dos jardins traçados
em prévios mapas. Se a terra fosse inerte como um papel
aberto, e a vegetação não passasse de riscos
de lápis?
Projetavam os crótons, descendo à várzea,
hospedar-se na casa vazia da esquina fronteira, exatamente aquela
que as heras haviam pintado de verde. Ali ficariam à vontade,
como na sem-cerimônia em que viviam, a natureza tudo provendo,
o humo virgem, a chuva farta, o sol a descoberto. O quintal, vasto,
os receberia sem dizer: – “Lugar de plantas decorativas
é no jardim”. Ou vamos lá: – “Que
fruta dão vocês”? Pois não tinham sido
os homens a dividir a terra de modo arbitrário, aplicando
sua lógica a todos os seres?
A casa abandonada chamava por eles, assim entendiam as borboletas
que vinham de lá, bailando pelas distâncias intermédias.
Tê-las sobre as folhas era a alegria incompleta de não
segui-las na viagem de regresso. A ânsia lhes sacudia a
alma, não os membros, raízes que se deitavam com
o peso de âncoras.
Na ventania conversavam os crótons alvoroçados sua
linguagem de mímicas sutis. Ah se o vento os pusesse na
garupa! Era tão perto e contudo tão longe! Ah, ali
mesmo se finariam, sem descer à várzea...
Tanto gemeram, tantos desabafos lançaram que a natureza
provedora escancarou os cântaros armazenados atrás
de balcões de nuvens. A água, cavoucando o chão
dias seguidos, desenterrou-lhes as raízes mais fundas,
libertando-os para o deslize na correnteza da enxurrada. Escorregaram
então barranco abaixo, tocados por águas turvas,
às cambalhotas e encalhos na lama visguenta. Rasgavam-se
nas pedras, enganchavam-se nas ramagens secas do declive, mas
desciam e o plano logo se espraiou a seus pés. Um pouco
mais, a correr com o impulso emprestado daquele rio efêmero,
e ei-los à casa da esquina. Oh quão imensa e diferente
lhes aparecia agora, diverso o ângulo em que jaziam, deitados
a seu portão, a fadiga amarrotando-lhes o corpo castigado.
O portão erguia-se alto, firme, pesado. Era de ferro liso,
sem requintes, sem rendados. E bastava ele, imóvel em suas
dobradiças de ferrugem, para proibir-lhes o acesso no paraíso
a que se endereçavam num arroubo de vida.
Ao amainar da chuva e ressurgir do sol, o amplo horizonte acenava-lhes
em despedida sobre o morro.
(Alameda)
Um Grão de feijão e sua história
Por engano foi cair ali. Salvo da panela prestes a levantar fervura.
Xingou seus vizinhos, os grãos brocados, de espécie
degenerada, rebotalho de safra, até que se calou de repente.
Afinal, devia-lhes a vida. Por um triz não estava no torvelinho
da água quente, confundido entre mil grãos, passando
de raspão pelos tomates inteiros que eram bóias
escorregadias naquele marzinho em revolta.
A terra, porém, que delícia, estava recém-chovida.
Posso mesmo ver umas sobrinhas de chuva enganchadas nas folhas
da chicória, reparou de coração contente.
Como está brilhante este capim, comentou sozinho, desde
que os grãos estragados estavam mortos. Para eles, tinha
certeza, não fazia diferença estarem ali no chão
amigo do quintal, ancorados na terra molhada e fofa. O suplício
da água borbulhando, cantando de calor, não os atingiria.
Vou crescer sem a companhia de ninguém, queixava-se, e
era o seu modo de partilhar com os companheiros mortos. Em seguida
num esforço em que se empenhava todo pôs-se a olhar
pelo quintal.
Estava quase à porta da cozinha, o que o deixou assustadiço
e medroso. Não, não havia perigo, para isso não
fosse tão pequeno. Se ao menos tivesse a alegria sarapintada
dos mulungus. Mas sua cor não só era discreta como
confundível. A aparência séria, seu broquel.
Então pôde ver de ânimo repousado, a goiabeira
coroada de florinhas e os troncos de outras árvores muito
altas de que não via a copa. Por que cresceriam tanto?
Confusamente percebia que tais caules monstruosos participavam
da grandeza dos trovões. Vá ver que a fronde dessas
árvores mergulha no céu. Por isso não as
vejo.
Divertia-se descobrindo o quintal. Tanto tempo confinara-se a
sacas escuras que perdera a naturalidade de ver-se ao ar livre.
Palavra que até me ia esquecendo do dia. Tão morninho
e limpo.
Enquanto se deleitava ao sol, recuperando um passado interrompido
– a colheita privara-o de luz, céu, chuva e chão
– calmamente se dilatava, tufando ao bem-estar de quem se
reencontra após descaminhos. Na terra sim, estava a vida.
Agora, reintegrava-se. Restabelecia o elo temporariamente partido,
devolvendo à terra o embrião da estirpe. Cismava.
A sua vida, se preservada, era toda uma descendência pela
frente. Zelava por esta como se fosse dado alcançá-la
em realidade, acometido de amor pelo futuro.
Embevecido quedava-se a olhar, a olhar. Enchia-se de ternura pelas
flores da goiabeira. Antes que as goiabas apontassem já
seria pezinho crescido, armazenando outros grãos.
Aos poucos vai botando a pequenina raiz de fora, a raiz que ganhando
força arrasta-o rumo à luz para que surja dividido,
as bandas a despirem roupa marrom. Nem bem se afundou no chão,
com o próprio peso cavara seu leito na terra maleável,
e já flutua à flor da terra.
Estou só e a vida vai ser difícil. Nenhum feijão
grandinho e experiente para me aconselhar. “Assim é
melhor. Ora, não se faça de tolo. Penda para a direita.
Preste atenção ao sol. Cuidado com as formigas”.
Mas como já sabia o que lhe diriam?
Havia sobretudo o gostinho bom de enfrentar o mundo sem um exemplo
sequer a atravancar-lhe a expansão. Crescer como quem respira.
Retesar as folhas com a vinda do sol, relaxá-las à
noite. Docemente como a natureza lhe ditava. Bem-aventurada ignorância
do porquê. A tradição familiar, cumpriria
sem cultuá-la, pois, não se enganava, era o culto
consciente que oprimia.
Não se via, mas sentia-se crescer. Os botões de
folhas desembrulhavam-se gêmeos pelo caule fino e sinuoso
que girava mansamente desenhando círculos no ar. Os gestos
redondos desfaziam-se no espaço vazio. A translação
da haste tentava embalde alterar a amplidão indiferente.
Quisera nela gravar-se mas reconhecia-a indomável, de uma
fluidez que não se apreendia. Chegava à conclusão
de que tinha o nada a rondá-lo – esse ar onde tudo
deslizava e que escapava dos corpos não se deixando nunca
possuir.
No
momento discutia o problema do apoio. Em quem se agarrar? Seria
forçado a deitar rama quando não mais se sustivesse
de pé. Cascavilhava a vizinhança atrás de
um encosto e botava olho grande na “jibóia”
que se enroscava em uma mangueira.
Oh, bem que sabia abraçar e no entanto sua laçada
morria no espaço. Um dia caminho até a cerca, abraço-a,
e dou início a escalada. Com o tempo vou me espichando,
quem sabe não tomarei conta da cerca toda? Está
nuinha e nova à minha espera. Me chama com seu cheiro bom
de resina.
Na cerca, relutava, ficarei mais exposto. Se não me quiserem
lá, arrancam-me como qualquer mato reles. Felizmente a
essa altura já terei a dignidade da vida madura e firme
para me opor, impondo minha presença. Nada do franzino
projetinho de vida de que não passo por enquanto (nutria
a autopiedade, humilhado em meio ao quintal esplendente de viço,
quintal cujas árvores frondosas afrontavam com seus troncos
roliços, sua sombra compacta, caindo em manto sem rasgões).
Se o arrancassem apesar de tudo? “Ainda mais essa! Com tantos
quilos de feijão debulhado e enlatado na despensa. Que
tolice a desse grão! Querer fazer roça no quintal”.
E se o condenassem a adubo verde?
Às vezes analisava o poder que tinha de prever coisas e
fatos. Era como se sua vida fosse repetição e nunca
morresse mas se encarnasse em tempos sucessivos, carregando consigo
a experiência da espécie. Dentro de si, sentia, havia
algo que varava o tempo atravessando intacto as contingências
da morte – o que lhe segredava o jeito de ser do mundo,
suas emboscadas e gozos.
Assim não se surpreendeu no momento em que um jato d’água
fervendo (a empregada tinha o mau hábito de atirar as coisas
pela janela) veio colhê-lo enquanto com muito carinho tecia
seu futuro.
(Ibidem)