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A
Vingança do boto
I
Tinha pressa de chegar. Nicó, no fundo da maqueira, escanzelada
que só uma cachorra velha, já devia ter feito umas
cem promessas para ele voltar. O danado do peixe o levara longe,
mas ali estava estendido, a bocarra aberta para ele como se quisesse
dirigir-lhe insultos ou palavras de recriminação.
Bom aquele momento. Sentia que depois da luta com o pirarucu,
os nervos se relaxavam, a cabeça voltava ao normal. Bom
mesmo aquele momento. Não fosse a cabocla doente, suspenderia
o remo dágua e deixaria que a canoa por si só fizesse
a viagem de retorno. Experimentaria com mais deleite aquela brisa
gostosa que a hora do crepúsculo deixava escapar, agitando
de leve as flores dos mururés. Retirou por um instante
o remo dágua, juntou as mãos em concha e pôs-se
a beber. As escaramuças com o bruto o deixaram sequioso.
Depois lavou o rosto e atirou uma golfada dágua no peixe,
que continuava a olhá-lo, a bocarra aberta, os olhos vermelhos
de vingança.
– Conheceste, pai-d’égua!?
Tática ele tem. Força está naqueles enormes
músculos, que sobem e descem acompanhando o ritmo do remo.
A questão é encontrar mais pirarucu para matar,
tirar-lhe as escamas, abrir-lhe a carne em postas e ir vender
pro seo Euzébio. Não gosta de pensar no seo Euzébio.
Por Deus!, lhe vem logo aquela quizília besta que lhe dá
vontade de acabar com a sua raça. Nicó já
lhe tem dito: “Por que tu não procura outro patrão,
Zé? Com esse seo Euzébio, nós não
vai alevantar nunca a cabeça, te digo!...” Procurar
outro patrão, como? Se ele era cativo do danisco, devia
ao praga até os fios dos cabelos!? Sim que havia uma esperança
– muito remota, sim, mas havia.
Mergulhado em seus pensamentos, Zé Porfírio não
percebe que os primeiros morcegos e as primeiras corujas já
começam a arrastar a noite pelo caminho. Sua visão
é mais curta, mas a brisa é mais fria e suave. E
ele pensa. Pescaria, doença de Nicó, safadezas do
seo Euzébio. Todo ano projeta pagar sua conta e levantar
acampamento, procurar vida melhor, botar roçado, ter ao
menos quatro pés de maniva. Chegar com o estuporado e atirar-lhe
aos pés uma canoa abarrotada de borracha e mantas de pirarucu.
“Taí, seo unha-de-fome! Agora é riscar a nossa
continha, se faz favor!” Depois, para debochar dele, encher
as mãos com a sua coisa e mostrar ao diango.
“– Tome, seo Euzébio, o que o senhor carece
é disto pra não ser ladrão. Tome!...”
Sorri de si mesmo, enquanto maneja o remo com mais força.
A febre deve estar assando Nicó. Engraçado. Pensa
tudo isso, mas na frente do seo Euzébio se desmancha em
mesuras, o chapéu de palha varrendo o chão. Gostaria
de saber por que a sua coragem tem a natureza de lagartas.
II
Zé
Porfírio rema com mais rapidez para fugir do bando de botos
que lhe persegue a montaria. Estariam atraídos pelo sangue
do peixe? Não trouxe a espingarda, se tivesse trazido já
teria largado uma carga de chumbo nesses cabeças furadas.
Volteiam a canoa, dão mergulhos alternados e soltam assobios
que fazem estremecer as folhas das árvores próximas.
A escaramuça dos animais não o intimida, mas o deixa
nervoso. Boto é bicho encantado, todo mundo diz, tem parte
com o Capeta. Maria Castanheira é quem sabe de uma estória
estranha desse irmão do Chifrudo. Faz muito tempo, no lugar
Sapucaia, pela festa de Santo Antônio, o Boto apareceu.
Vinha vestido de branco, de gravata borboleta, o chapéu
de palhinha jogado de lado na cabeça. Os olhos muito azuis
e brilhantes, pareciam ter por dentro uma carga intensa de luz.
Na porta do salão, ajeitava constantemente a gravata, corrigia
a posição do chapéu na cabeça e olhava
com estranho interesse os dançantes. Não estivessem
eles tão absorvidos pela festa, veriam que, por onde o
Boto passava, ia deixando uma esteira luminosa, que parecia magnetizar
os que eram tocados por ela.
A festa entrava, já, pelos cinco dias e cinco noites e
os festeiros não tencionavam parar. Bebida era como nunca
se tinha visto, os quartos de anta e veado, paca e caititu, nos
espetos, fumegavam sobre o braseiro colossal. Nunca havia presenciado
coisa assim. Nenhuma preocupação lhes perturbava
o espírito, o que queriam era dançar, beber, comer
e amar. Ao som do violão e do cavaquinho, do maracá
e das tabocas, os corpos bamboleavam cheios de lubricidade. Só
Maria Castanheira não dançava, havia ido ali para
pagar uma promessa. E foi assim que ela pôde ver o mal-assombrado
aproximar-se do salão. Sem se perturbar, fazendo de instante
a instante o sinal-da-cruz, correu para avisá-los. Acenou-lhes
com a mão, gritou-lhes em alta voz, mas em vão.
Ouviam-se apenas os gritos dos brincantes reboarem no salão
acompanhados da voz ensurdecedora da orquestra. Uma alegria quase
diabólica contagiava o ambiente. Mulheres incitadas pelo
álcool, nuinhas atiravam as vestes para todos os lados.
Foi aí que o Encantado entrou. Correu a vista pela sala
e sua atenção, como flecha que busca o alvo, caiu
sobre Jacira, a cabocla mais faceira de Sapucaia. Perto dela,
falou:
– Vamos dançar esta parte?
Ela o olhou de cima a baixo, o beiço virado de deboche
e respondeu que não dançava com desconhecidos. O
estranho, como se houvesse recebido forte bofetada, a passos largos,
retirou-se da sala. Maria Castanheira, que tudo presenciava, saiu-lhe
nas pisadas e pôde ver quando ele se atirou nágua,
indo boiar no meião do rio, assoviando o seu assovio de
Capiroto. Não tinha mais dúvida. Era ele mesmo,
o Boto, que tinha vindo flechar Jacira, a cunhã de corpo
belo e recendente a pripioca e que, por diversas vezes, quando
estava nos seus dias e ia lavar roupa ou se banhar, ele já
havia tentado flechá-la. E iria vingar-se, que o Boto é
vingativo. Em vão tentou chamar de novo a atenção
dos festeiros – eles só dançavam e riam, acompanhados
de um batecum feroz, satânico, formando com a música
uma cadência impressionante. Via que era mesmo inútil
trazê-los à realidade, e tratou de retirar-se. Foi
ela entrar na canoa e a terra começou a estremecer, surgindo
enormes fendas que iam engolindo a multidão, os gritos
de desespero se perdendo agora no espaço, o ar tomando
aquela feição trágica e desoladora. Sem se
voltar para trás, procurou alcançar a outra margem
do rio, remando sem parar. E foi aí quando correu pelos
céus aquele forte estrondo. Apavorada, voltou a vista para
Sapucaia só com tempo de ver o último pedaço
de terra desaparecer na imensidade das águas barrentas.
O Boto havia se vingado, levando Jacira e o resto dos festeiros
para o fundão do rio, lá onde tem o seu reino encantado.
III
Em
noites de junho, pelas festas de Santo Antônio, vem do fundo
das águas, entre espumas, rebojos e vozes fantásticas,
o primitivo rumor do pagode – som de flauta, repinicar de
cavaquinho, gemidos de sanfona e violão, que acompanham,
em estranha cadência, os festeiros de Sapucaia.
Maria Castanheira quando contava isso, esconjurava e se benzia
toda, dizendo que aquilo foi castigo de Nossossinhor.
(Contos do mato)
Singular passeio na barriga da boiúna
– Essa gente lá do sul, compadre, cheia de bondades
e sabença, tem a mania de ironizar tudo o que nós
contamos que acontece aqui neste mundão de terra e água
onde a gente vive. Fale no Curupira, compadre, dizem logo: isto
não existe, é estória de caboclo; fale na
Matintaperera, e da mesma forma lhe arresponde o doutor sabichão
da metrópi – como dizem lá eles. Fico tiririca
quando duvidam da minha palavra. Sou homem sério, compadre,
tu me conhece!
– E o que é que foi que aconteceu dessa vez, compadre,
pra tanta zanga assim?
– Um tal de turista pra quem eu contei a estória
da Cobra- Grande, que ficou num jeitinho safado me olhando de
viés, rindo pelos cantos da boca, pondo dúvida no
meu relato. Agora, lhe pergunto, compadre: por que eu havera de
mentir? Que precisão a gente tem de inventar as coisas,
se as coisas por elas mesmo acontecem?
– Mas ele disse na tua cara que era mentira, compadre?
– Não, mas porém deu a entender.
– Mas, que coirão velhaco!... E essa estória
da Cobra-Grande, como é que foi?
– Não soube não, compadre?... Nem gosto de
me alembrar. Parece té que sonhei, não foi verdade.
A modo que inda tou vendo a bicha limenta e escamosa se afundando
no meio do lago!...
– Vá se alembrando e contando devagarinho, compadre.
Os compadres agasalharam-se mais comodamente nos assentos, fizeram
cada qual um cigarro, acenderam-no na brasa do borralho e o mais
falante reiniciou a conversa.
– Era uma tarde talequal esta. Bote tempo que eu mariscava
naquela beirada e nada de apanhar peixe. Larguei dali e fui tentar
mais adiante. Também nada. Nisso, a noite ia chegando.
Mas eu, naquela de apanhar um diango qualquer pra meter no buraco
da cara, nem me importava com as horas. Tinha levado uma garrafa
de cachaça e quando o frio começava a apertar, eu
tomava uma golada. Com a pinga eu matava o frio e com o cigarro
eu espantava os carapanãs, que zuniam no meu ouvido feito
a rabeca do Anastácio Peroba em noite de forró.
– Eu faço idéia, compadre!...
– Já no lago do Piranha, começou a aparecer
peixe. Peguei de repente três curimatás, dois jandiás,
adepois uma piramutaba e adepois inda mais um tucunaré.
Aí eu disse: por hoje chega, vou ver se pego agora uma
pestana, pra voltar, que tou morrendo de sono. E tratei de amarrar
a canoa numa vara na beira do lago. Nisso, ferrei no sono brabo,
pois já tava mais morto do que vivo. E dormi. Quando acordei...
nem lhe conto, meu compadre! Eu sabia que o dia já tinha
amanhecido, mas quem disse que eu enxergava alguma coisa? Eu encompridava
os zolhos pra todos os lados e só via a escuridão.
Meu Deus, que já é isto, será que o mundo
tá se acabando?, me perguntei aflito e comecei a vasculhar
o porão da canoa atrás da lamparina e dos fosfros.
Quando achei e acendi a luz... Ó compadre não me
peça mais pra contar...
– Conte lá, compadre, que agora tu não pode
parar. Já assanhaste a minha mioleira e eu quero ouvir
té no finzinho.
– Se a Virgem Maria fosse pessoa de se aborrecer com o que
a gente pede pra ela, teria me mandado pro Inferno naquela hora,
por via de tanto que invoquei o seu santo nome. Apavorado, pedia
pra ela me tirar daquela escuridão, que só podia
ser a morada do Tinhoso. Nunca tinha visto uma assombração
daquela. Adonde que eu tava? Será que eu não tava
inda dormindo; que aquilo não era um pesadelo?, me perguntava
azuretado. Me dava beliscões pra ver se eu não tava
de fato dormindo. Tava não. Era a pura realidade entrando
nos meus zolhos e na minha cuca.
– E o que era, então, compadre? Diga lá...
– Já lhe conto. Intrigado com aquela imboança,
saí de baixo da tolda da canoa e me pus a examinar ao redor.
Fedia muito e um vapor quente que vinha não sei dadonde
batia em cheio na minha cara, me causando mal-estar. Olhei, olhei,
examinei, examinei e então não tive mais dúvida:
aquilo que eu já vinha pensando, mas não queria
acreditar, se mostrou todo no meu entendimento – eu tava
dentro duma Cobra-Grande.
– Nossa mãe!... e aí, compadre?
– Aí, que tava eu pra fazer? Me assentei no banco
da canoa e fiquei pensando como foi que a maldiçoada me
enguliu e eu não senti? Pus adepois a cabeça entre
as mãos e comecei a rezar. Invoquei novamente Nossa Senhora
da Conceição, fiz mil promessas; que ela me tirasse
dali, que eu dava dez esteios de acariúba pra acabar a
capelinha dela que o padre Laurentino tá construindo lá
na vila. Rezei quase meia hora, apelei pros anjos e pras almas.
Cheguei a chorar de tanto desespero. Agora, tu magina, compadre,
um homem como eu chorando! Mas o medo é capaz de tudo.
O medo, compadre, mal comparado, é como purgante de óleo
de rícino bem dado – a gente é capaz de cagar
té a alma. A reza, se não teve poderes de chegar
té nas oiças da santa, em mim fez um efeito bom:
fiquei mais calmo, a cabeça foi aos poucos assossegando.
Tive vontade, então, de dar uma voltinha pela barriga da
cobra. Peguei o remo e saí deslizando de mansinho, na canoa,
pelas entranhas da bicha. Remava e espiava com espanto aquele
enorme entrançado de tripas, umas grossonas, outras mais
finas, que formavam o seu intestino. Metia o remo nágua
devagarinho, temeroso de assustar o diango e aí, então,
tava tudo perdido. Como se tivesse navegando numa lagoa, do rabo
do animal onde eu calculava que tava, fui seguindo pra frente.
Remava com muita vagareza, admirando abestado aquela monstruosidade
toda. O espinhaço da cobra de tão grande, parecia
a cumeeira do barracão do seo Januário; as costelas
não tinha que tirar nem pôr as cavernas do batelão
do turco Salim, que veio buscar a castanha do seo Manoel Cara
Dura e que nós ajudemos a carregar. Tu inda te alembra?
– Ora, se me alembra!
– Quando passei pelo útero da boiúna, não
só tive horror, mas um tremendo nojo – a fera tava
prenha e centenas de boiunazinhas se mexiam lá dentro.
Quando eu lhe conto isso, compadre, me dá um sobrosso e
uma inguiação tão grande, que tenho vontade
de gomitar té as tripas; meus cabelos todos se arrupiam!...
– Que coisa horrível, meu compadre!?
– Ali, nessa hora, é que eu queria pegar um desses
bonitãos lá da cidade que ficam duvidando da gente!
Queria ver se ele tinha mesmo o culhão roxo!
– Agaranto que ele ia se cagar todo de medo.
– Se ia? Ora, se ia!... Mas, deixetá que a coisa
não tava boa pra mim não. Um friozinho maroto continuava
a correr na minha espinha, me deixando como gato de casa que avista
de repente maracajá: todo desbundado e membeca. Eu continuava
a rezar baixinho, implorando à Santa Virgem que metesse
na minha cabeça uma idéia, uma inspiração
pra escapulir dali. Em casa, pensava eu, deviam também
estar rezando, a mulher e os pirralhos. Já ia pra dois
dias que eu tava fora de casa nessa agonia, os peixes que aproveitei,
tava se acabando, fumo eu não tinha mais e uma saudade
doida do meu pessoal começava a arrochar meu coração.
Parei a canoa e fiquei pensando. Olhava aquele oco disconforme
do bicho onde eu tava, apertava os beiços pra não
chorar mais. De repente, um estremecimento forte balançou
a canoa e eu percebia um barulho talequal dos gaiolas quando tão
quentando as caldeiras pra sair. Era a cobra subindo pra tona.
Aguardei uma meia hora, mais ou menos, dando tempo pro animal
chegar em cima. Quando o barulho acalmou, eu disse: é agora.
Já tinha a idéia formada na cabeça. Ajuntei
depressa um monte de gravetos, coloquei no fogareiro, na proa
da canoa e larguei fogo. Se formou logo uma enorme fumaceira,
que foi envolvendo aos poucos a barriga da serpente, té
chegar no pulmão. Aí, como já tinha previsto,
forçada pela fumaça, a bicha deu um espirro medonho,
escancarando a bocona que não tinha mais tamanho. Foi justamente
nessa hora que me safei, compadre, levado de roldão pra
fora pelo espirro da maldiçoada.
– Foi muita sorte tua, compadre!...
– Só sorte? Sorte e os poderes da Virgem Santa, compadre,
senão eu não tava aqui te contando a estória...
(Ibidem)