Biografia / Bibliografia

Antísthenes Pinto

O poeta e ficcionista Antísthenes de Oliveira Pinto nasceu em Manaus, no dia 28 de novembro de 1929. Dedicou boa parte de sua vida ao jornalismo. Trabalhou em jornais de Manaus e do Rio de Janeiro (Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil). Com o retorno a Manaus, em 1970, além da atividade literária, passou a exercer funções públicas, ingressando no funcionalismo. Foi membro do Clube da Madrugada e da Academia Amazonense de Letras. Obra de ficção: Romances: Terra firme, 1970; A Solidão e os anjos, 1976; Várzea dos afogados, 1982. Novelas: Chavascal, 1965; Os Agachados, 1985; Porão das almas, 1992. Contos: É proibido perturbar os pássaros, 1981; Os Suicidas, 1988. Faleceu em Manaus em 3 de dezembro de 2000.

 

 

Textos Selecionados:

O Ônibus das sete

– Marcaram o ônibus para as sete horas e nada.
– E que horas são?
– Quinze para as oito.
– Horário brasileiro, porra! – Vitório gritou tão alto como se tivesse dado um pontapé numa pedra.
Atrás deles, o Instituto de Educação, apesar do sábado, mantinha as portas de entrada inteiramente abertas.
– Olha só o tempo. Não demora a chuva arriar – disse Ézio, cruzando os mirrados braços sobre o ventre de tábua.
– E daí? – voltou a falar Vitório – estamos bem protegidos – moveu bruscamente a cabeça carapinhada, como se fora feita de mola.

E havia rodinhas de gente espalhadas sob a marquise do prédio, na ampla escadaria e no meio-fio que dá a frente à Praça do Congresso. De quando em vez, passava um carro em louca disparada. O céu cinza escuro. E começou a chover. Fininho, mas chovia. Agora engrossando. As pessoas se dispersaram aos grunhidos. Velhos, jovens e crianças apressados em direção ao prédio.
– Não te falei? – disse Vitório, sorrindo. Vamos ter chuva o dia inteiro e a porra do ônibus fretado não chega. Horário brasileiro, porra!
– Deixa pra lá – respondeu Ézio, coçando com as unhas enormes da mão direita o fino braço da esquerda – afinal de contas fomos contratados pela Companhia para consertar o fogão da fazenda. Não temos nada com o tal piquenique. Somos os únicos merdas nessa viagem.
– Olha só a pose desses gringos.
– Americanos, disque!
– E aqueles ali?
– Brasileiros italianizados de São Paulo.
– E os da ilharga da boazuda?
– Não conheces mais o deputado Susa? O escurinho, com jeito afrescalhado, é gente importante da Companhia.
– E o de cara de bodó?
– Não conheço. Porra, até que enfim!
O ônibus estacionou no outro lado da rua. E começou a buzinar. E a chuva caía numa densidade incrível, lançando uma esquisita fuligem à praça e aos seus contornos.
Surgiram guarda-chuvas de todos os lados, capas coloridas de borracha e de plástico. A algazarra crescia como numa Torre de Babel. Gente se abaixando, se erguendo, se abaixando, abrindo e fechando maletas, sacolas, caixotes, se erguendo, xingando, tossindo, espirrando; crianças rindo, chorando e foram invadindo o coletivo que havia dado a volta pela praça e parado à beira da escadaria. A boazuda, quase de biquíni, ergueu a perna olímpica para içar-se ao ônibus, um gaiato gritou: “manja só, vai aparecer até a garganta dela!”. O ruído cavo do fechar das portas. E lá vai o monstro metálico sacolejando pela rua encharcada.
Bem atrás, no último banco, Vitório e Ézio, juntinhos como salsichas em lata.
– Porra, como chove – disse Ézio, escarafunchando com o indicador o orifício do enorme nariz.
– Vai ser uma viagem chata, enfadonha. Cento e sessenta quilômetros debaixo da chuva, com um trânsito maluco como esse, não é mole não.
– Paciência – soprou Ézio. – Pobre não pode chiar.
Os vidros embaçados das janelas não permitiam que se visse vivalma lá fora. Vitório, impaciente, começou a esfregar os dedos no vidro e arregalou os olhos, como querendo identificar o casarão carcomido, o muro de pedra, o letreiro de propaganda eleitoral, a caçamba cheia de areia, o velho debruçado à janela de uma barraca, a ponte mambembe de madeira, o íngreme caminho. Novamente a estrada de asfalto, o campo calcinado. E os dedos nervosos de Vitório não paravam de atender ao apelo frenético dos olhos e esfregavam, esfregavam, abrindo sulcos no embaçado do vidro. De repente as sacudidelas do ônibus foram aumentando, piorando e espalharam um pânico geral.
O motorista, atônito, com a expressão desfigurada, encarou rapidamente os passageiros e tornou a encurvar-se sobre o volante, agora totalmente inclinado para a direita e gritou cheio de terror:
– Quedê os freios? Os freios? os freios? os freios? os fre?...
No primeiro impacto da virada à beira do precipício, ainda se ouviram gritos lancinantes, pavorosos. E a repetição fugaz de esperança:
– Meu Deus! Meus Deus! Meu Deus! Meu Deus, Meu De...?
A partir da segunda capotagem, os corpos mutilados, sangrando, tombando, eram lançados com grande fúria para todos os lados. Depois o silêncio pairou sobre os escombros. Ninguém se mexia, exceto Ézio, que tentava libertar-se da ferragem retorcida que lhe engolira vorazmente as pernas.

(Os Suicidas)

O Equívoco

Enfezadinha, miúda, cor de arnica, olhos de rã saltados além da carranca, a Lina, sob o céu da límpida manhã de setembro, parecia odiar o mundo, mas em verdade odiava o Ricardo, que não poderia jamais atinar que aquele fel de desespero de Lina, que se evolava em sua direção, assim como as cobras e os sapos expelem os venenos em suas vítimas, era provocado por uma desconfiança de areia movediça: de que ele iria tomar o seu lugar na empresa.
Foram adentrando ao auditório da fábrica.
– Estás zangada, mulher? – pergunta Lucas, seu colega de “batente”. – Estás com uma cara que, francamente...
– Não suporto esse tal de Ricardo – respondeu. – Se pudesse o fulminaria agora mesmo! – e seus olhos saltaram ainda mais.
– O que ele te fez, Lina? – Lucas voltou a indagar.
O public relations da Companhia passou o microfone ao novo presidente que acabava de aplaudir o discurso de seu antecessor.
– Senhor representante do Governador, minhas senhoras, meus senhores, distintos funcionários desta fábrica...
– Estou certa de que ele vai assumir o meu lugar – disse bem alto Lina, pois o vozeirão do novo presidente explodia no alto-falante.
– Em obediência à cúpula da empresa, estou assumindo as funções de presidente desta fábrica, aqui em Manaus, o que constitui apenas uma norma administrativa, já que o dr. Yano, ex-presidente, irá exercer as mesmas funções em Fortaleza. Logo, minhas senhoras e meus senhores...
– E esse bandido não pára de me olhar, veja só que audácia – disse Lina, dominando o desejo de eclipsar-se do auditório inteiramente lotado.
– Te controla, mulher – articulou Lucas, banhado de suor. – O sistema de refrigeração desta porqueira simplesmente não funciona.
– Gostaria, senhores funcionários, de contar desde já com a dedicação e o empenho de cada um, no sentido de que, unidos, possamos ampliar as potencialidades desta fábrica, bem assim...
– Não se manca, o descarado do Ricardo – voltou a ruminar Lina, mexendo-se no assento como uma rã acossada por cachorros. – Observa só como ele me olha, bandido!
– Não dá bola. Fica na tua. Não creio que deixes o cargo de Diretora Financeira – disse Lucas. – Honestidade e competência não te faltam.
– E também feiúra – algum engraçadinho gritou lá de trás.
Lina ficou lívida, furiosa, possessa. Tremia-lhe o corpo todo como se fosse ter uma coisa. Tentou levantar-se, Lucas a impediu com a mão de abano pousada em suas frágeis coxinhas.
– Prosseguindo, senhoras e senhores funcionários, a crise econômica que atravessa o país de ponta a ponta...
– Porra, esse cara está enchendo o saco – cochichou alguém da segunda fila.
– ...há de ser encarada sob a ótica de um trabalho diuturno e fecundo, porquanto...
As cadeiras rangiam, as senhoras se abanavam com jornais, bolsas, lenços, até mesmo com inocentes papelotes que lhes caíssem às mãos. A impaciência era visível em todo o auditório.
– ...Só o trabalho sistematizado e com o máximo empenho de todos, poderemos superar os problemas genéricos da empresa e, evidentemente, abrir novas perspectivas para a melhoria salarial de nossos servidores.
– Muito bem! – gritaram de todos os lados.
O novo presidente passou o lenço na testa e, voltando a gaguejar, concluiu o seu discurso com as mesmas características da quase totalidade da classe política brasileira. E choveram palmas e gritinhos frenéticos. E formaram filas para o convencional e infalível salamaleque.

Eram nove horas do dia seguinte, quando Lina foi recebida pelo novo presidente. Ele fê-la sentar-se na poltrona à sua frente e foi peremptório:
– A senhora exerce função de confiança, não é mesmo?
– É verdade dr. Pedro – respondeu Lina, piscando os olhos batraquianos.
- Diretora Financeira, correto?
– Exatamente – grunhiu, tremulando agora todo o corpinho.
Ele apertou a campainha. A secretária assomou ao gabinete atapetado, hirta mas tranqüila como uma girafa.
– Faça-o entrar, dona Sônia, por favor.
– Pois não, senhor Presidente – respondeu a ruminante secretária. O dr. Pedro, voltando-se para Lina, falou, enfático:
– Espero contar com a sua colaboração no mesmo setor.
– Pois não, dr. Pedro, o senhor manda.
– Mas na condição de assistente do novo Diretor.
Lina passou as mãozinhas sobre a fronte. Sentiu que ia desmaiar. Baixou as mãos sobre o esôfago, escorreram pelo ventre de lata e sobre as coxas que batiam uma na outra.
– Bom-dia, senhor presidente – disse uma voz bem conhecida de Lina, ainda por trás dela.
– Sente-se, por favor, senhor Lucas – disse o novo presidente. – Já assinei a Portaria de sua nomeação para o cargo de confiança. A dona Lina será sua assistente. Correto? Chame rápido a Secretária, corra, vamos, ligeiro, que coisa, vá, correndo!
Não adiantou a correria de Lucas, da secretária e o nervosismo do presidente. O médico da Companhia chegou aos trambolhões, suando horrores e, mal olhou o corpo de Lina estendido sobre a poltrona, foi logo dizendo:
– O enfarte foi fulminante. Eu sempre disse que ela evitasse as grandes emoções.

(Ibidem)

 
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