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O
Ônibus das sete
– Marcaram o ônibus para as sete horas e nada.
– E que horas são?
– Quinze para as oito.
– Horário brasileiro, porra! – Vitório
gritou tão alto como se tivesse dado um pontapé
numa pedra.
Atrás deles, o Instituto de Educação, apesar
do sábado, mantinha as portas de entrada inteiramente abertas.
– Olha só o tempo. Não demora a chuva arriar
– disse Ézio, cruzando os mirrados braços
sobre o ventre de tábua.
– E daí? – voltou a falar Vitório –
estamos bem protegidos – moveu bruscamente a cabeça
carapinhada, como se fora feita de mola.
E
havia rodinhas de gente espalhadas sob a marquise do prédio,
na ampla escadaria e no meio-fio que dá a frente à
Praça do Congresso. De quando em vez, passava um carro
em louca disparada. O céu cinza escuro. E começou
a chover. Fininho, mas chovia. Agora engrossando. As pessoas se
dispersaram aos grunhidos. Velhos, jovens e crianças apressados
em direção ao prédio.
– Não te falei? – disse Vitório, sorrindo.
Vamos ter chuva o dia inteiro e a porra do ônibus fretado
não chega. Horário brasileiro, porra!
– Deixa pra lá – respondeu Ézio, coçando
com as unhas enormes da mão direita o fino braço
da esquerda – afinal de contas fomos contratados pela Companhia
para consertar o fogão da fazenda. Não temos nada
com o tal piquenique. Somos os únicos merdas nessa viagem.
– Olha só a pose desses gringos.
– Americanos, disque!
– E aqueles ali?
– Brasileiros italianizados de São Paulo.
– E os da ilharga da boazuda?
– Não conheces mais o deputado Susa? O escurinho,
com jeito afrescalhado, é gente importante da Companhia.
– E o de cara de bodó?
– Não conheço. Porra, até que enfim!
O ônibus estacionou no outro lado da rua. E começou
a buzinar. E a chuva caía numa densidade incrível,
lançando uma esquisita fuligem à praça e
aos seus contornos.
Surgiram guarda-chuvas de todos os lados, capas coloridas de borracha
e de plástico. A algazarra crescia como numa Torre de Babel.
Gente se abaixando, se erguendo, se abaixando, abrindo e fechando
maletas, sacolas, caixotes, se erguendo, xingando, tossindo, espirrando;
crianças rindo, chorando e foram invadindo o coletivo que
havia dado a volta pela praça e parado à beira da
escadaria. A boazuda, quase de biquíni, ergueu a perna
olímpica para içar-se ao ônibus, um gaiato
gritou: “manja só, vai aparecer até a garganta
dela!”. O ruído cavo do fechar das portas. E lá
vai o monstro metálico sacolejando pela rua encharcada.
Bem atrás, no último banco, Vitório e Ézio,
juntinhos como salsichas em lata.
– Porra, como chove – disse Ézio, escarafunchando
com o indicador o orifício do enorme nariz.
– Vai ser uma viagem chata, enfadonha. Cento e sessenta
quilômetros debaixo da chuva, com um trânsito maluco
como esse, não é mole não.
– Paciência – soprou Ézio. – Pobre
não pode chiar.
Os vidros embaçados das janelas não permitiam que
se visse vivalma lá fora. Vitório, impaciente, começou
a esfregar os dedos no vidro e arregalou os olhos, como querendo
identificar o casarão carcomido, o muro de pedra, o letreiro
de propaganda eleitoral, a caçamba cheia de areia, o velho
debruçado à janela de uma barraca, a ponte mambembe
de madeira, o íngreme caminho. Novamente a estrada de asfalto,
o campo calcinado. E os dedos nervosos de Vitório não
paravam de atender ao apelo frenético dos olhos e esfregavam,
esfregavam, abrindo sulcos no embaçado do vidro. De repente
as sacudidelas do ônibus foram aumentando, piorando e espalharam
um pânico geral.
O motorista, atônito, com a expressão desfigurada,
encarou rapidamente os passageiros e tornou a encurvar-se sobre
o volante, agora totalmente inclinado para a direita e gritou
cheio de terror:
– Quedê os freios? Os freios? os freios? os freios?
os fre?...
No primeiro impacto da virada à beira do precipício,
ainda se ouviram gritos lancinantes, pavorosos. E a repetição
fugaz de esperança:
– Meu Deus! Meus Deus! Meu Deus! Meu Deus, Meu De...?
A partir da segunda capotagem, os corpos mutilados, sangrando,
tombando, eram lançados com grande fúria para todos
os lados. Depois o silêncio pairou sobre os escombros. Ninguém
se mexia, exceto Ézio, que tentava libertar-se da ferragem
retorcida que lhe engolira vorazmente as pernas.
(Os
Suicidas)
O
Equívoco
Enfezadinha, miúda, cor de arnica, olhos de rã saltados
além da carranca, a Lina, sob o céu da límpida
manhã de setembro, parecia odiar o mundo, mas em verdade
odiava o Ricardo, que não poderia jamais atinar que aquele
fel de desespero de Lina, que se evolava em sua direção,
assim como as cobras e os sapos expelem os venenos em suas vítimas,
era provocado por uma desconfiança de areia movediça:
de que ele iria tomar o seu lugar na empresa.
Foram adentrando ao auditório da fábrica.
– Estás zangada, mulher? – pergunta Lucas,
seu colega de “batente”. – Estás com
uma cara que, francamente...
– Não suporto esse tal de Ricardo – respondeu.
– Se pudesse o fulminaria agora mesmo! – e seus olhos
saltaram ainda mais.
– O que ele te fez, Lina? – Lucas voltou a indagar.
O public relations da Companhia passou o microfone ao novo presidente
que acabava de aplaudir o discurso de seu antecessor.
– Senhor representante do Governador, minhas senhoras, meus
senhores, distintos funcionários desta fábrica...
– Estou certa de que ele vai assumir o meu lugar –
disse bem alto Lina, pois o vozeirão do novo presidente
explodia no alto-falante.
– Em obediência à cúpula da empresa,
estou assumindo as funções de presidente desta fábrica,
aqui em Manaus, o que constitui apenas uma norma administrativa,
já que o dr. Yano, ex-presidente, irá exercer as
mesmas funções em Fortaleza. Logo, minhas senhoras
e meus senhores...
– E esse bandido não pára de me olhar, veja
só que audácia – disse Lina, dominando o desejo
de eclipsar-se do auditório inteiramente lotado.
– Te controla, mulher – articulou Lucas, banhado de
suor. – O sistema de refrigeração desta porqueira
simplesmente não funciona.
– Gostaria, senhores funcionários, de contar desde
já com a dedicação e o empenho de cada um,
no sentido de que, unidos, possamos ampliar as potencialidades
desta fábrica, bem assim...
– Não se manca, o descarado do Ricardo – voltou
a ruminar Lina, mexendo-se no assento como uma rã acossada
por cachorros. – Observa só como ele me olha, bandido!
– Não dá bola. Fica na tua. Não creio
que deixes o cargo de Diretora Financeira – disse Lucas.
– Honestidade e competência não te faltam.
– E também feiúra – algum engraçadinho
gritou lá de trás.
Lina ficou lívida, furiosa, possessa. Tremia-lhe o corpo
todo como se fosse ter uma coisa. Tentou levantar-se, Lucas a
impediu com a mão de abano pousada em suas frágeis
coxinhas.
– Prosseguindo, senhoras e senhores funcionários,
a crise econômica que atravessa o país de ponta a
ponta...
– Porra, esse cara está enchendo o saco – cochichou
alguém da segunda fila.
– ...há de ser encarada sob a ótica de um
trabalho diuturno e fecundo, porquanto...
As cadeiras rangiam, as senhoras se abanavam com jornais, bolsas,
lenços, até mesmo com inocentes papelotes que lhes
caíssem às mãos. A impaciência era
visível em todo o auditório.
– ...Só o trabalho sistematizado e com o máximo
empenho de todos, poderemos superar os problemas genéricos
da empresa e, evidentemente, abrir novas perspectivas para a melhoria
salarial de nossos servidores.
– Muito bem! – gritaram de todos os lados.
O novo presidente passou o lenço na testa e, voltando a
gaguejar, concluiu o seu discurso com as mesmas características
da quase totalidade da classe política brasileira. E choveram
palmas e gritinhos frenéticos. E formaram filas para o
convencional e infalível salamaleque.
Eram
nove horas do dia seguinte, quando Lina foi recebida pelo novo
presidente. Ele fê-la sentar-se na poltrona à sua
frente e foi peremptório:
– A senhora exerce função de confiança,
não é mesmo?
– É verdade dr. Pedro – respondeu Lina, piscando
os olhos batraquianos.
- Diretora Financeira, correto?
– Exatamente – grunhiu, tremulando agora todo o corpinho.
Ele apertou a campainha. A secretária assomou ao gabinete
atapetado, hirta mas tranqüila como uma girafa.
– Faça-o entrar, dona Sônia, por favor.
– Pois não, senhor Presidente – respondeu a
ruminante secretária. O dr. Pedro, voltando-se para Lina,
falou, enfático:
– Espero contar com a sua colaboração no mesmo
setor.
– Pois não, dr. Pedro, o senhor manda.
– Mas na condição de assistente do novo Diretor.
Lina passou as mãozinhas sobre a fronte. Sentiu que ia
desmaiar. Baixou as mãos sobre o esôfago, escorreram
pelo ventre de lata e sobre as coxas que batiam uma na outra.
– Bom-dia, senhor presidente – disse uma voz bem conhecida
de Lina, ainda por trás dela.
– Sente-se, por favor, senhor Lucas – disse o novo
presidente. – Já assinei a Portaria de sua nomeação
para o cargo de confiança. A dona Lina será sua
assistente. Correto? Chame rápido a Secretária,
corra, vamos, ligeiro, que coisa, vá, correndo!
Não adiantou a correria de Lucas, da secretária
e o nervosismo do presidente. O médico da Companhia chegou
aos trambolhões, suando horrores e, mal olhou o corpo de
Lina estendido sobre a poltrona, foi logo dizendo:
– O enfarte foi fulminante. Eu sempre disse que ela evitasse
as grandes emoções.
(Ibidem)