Anísio Mello

Anísio Thaumaturgo Soriano de Mello nasceu em Itacoatiara, no Amazonas, no dia 21 de junho de 1927. Viajou, durante a infância, pelo interior do Estado do Amazonas, companhando o pai, que era juiz. Transferiu-se para São Paulo, onde concluiu o bacharelado em Letras, nas Faculdades Anchieta. Retornou a Manaus, onde dirige o Liceu de Artes Esther Mello e ministra aulas de pintura. Principais obras poéticas: Lira nascente(Manaus, 1950), Minhas vitórias-régias(Manaus, 1952), Estrelas do meu caminho (São Paulo, 1962), Festa geral (São Paulo, 1977), Vibrações(São Paulo, 1981), Sexagésima stella(Manaus, 1992).

 

Vendaval de sonhos

A solidão que envolve esta minhalma errante
Na cratera sem luz do último poder
A mesma catacumba que a sorrir triunfante
Há de levar-me um dia à glória do não ser.

Eu vivo sempre assim: sorriso agonizante,
Sem poder encarar esta alegria de ter
A dulce compreensão de um ideal de instante
Num vendaval de sonhos que deixei nascer...

O ideal não morre e cada dia prospera
Na múltipla visão de quem paciente espera
O fruto do porvir que é verdadeiro e são.

Solitária visão de tudo que me envolve,
A vida é sempre assim, e ela por si resolve
As mágoas do viver que atingem o coração...
(Estrelas do meu caminho)

 

A Semente

De Tua alta mansão banhas as montanhas,
com o fruto de Tuas obras sacias a terra.
(Salmo 103, St.º Thomás)
De pau e pedra cresce a montanha
que se espreguiça no âmago telúrico
e forma em monumentos
os mamilos da terra
de onde jorra o maná por entre as pedras
e o cascalho reluz em micas e cristais.

São brilhantes de garimpo azul
que se escondem no negro e fundo,
onde não há luz de todo este princípio,
onde nasceu o primeiro pensamento e o raciocínio.
De pau e pedra cresce a montanha
com o resto que sobrou
de gerações soterradas pelo ódio,
pela guerra, pela morte, enfim.
São restos de galeras e de arcas,
múmias do acaso incensadas pelo tempo,
bálsamo da salvação
e de todos os milagres,
do meu, do teu, do nosso, pois pensamos,
e sabemos que um dia não sabemos
que montanhas hão de ser, o eu que sou,
e nós, que perdemos na luta inglória
de crer, de construir e de amar.
(Vibrações)

 
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