Didática
Queda a palavra não dita
mas, dita pela escrita,
fica sem resposta clara,
se verde é o grão dessa fala.
Ai força que faz do verso,
misterioso vôo disperso,
aberto por linhas tortas:
chave do vento sem portas.
Nesse ofício da solidão,
o poeta arruma a alma:
espinho e palavra na mão.
E a pluma azul, aqui e agora,
decifra os signos e as coisas,
frágua do tempo e sua hora.
Filhos da várzea
Coplas
de virgo
Há um cheiro de angústia nos teus olhos
amputado no meio desta sala.
E este mistério basta-se em silêncio
apascentando os demos desta noite.
E é assim que eu não querendo ver eu vejo
madeira tosca a se rachar no tempo
os caules duros tão particulares
reconstruídos no covão das horas.
Pois que do tempo bebo alimentando
a tua singular fisionomia.
Aquela mesma que ficou plantada
de grãos e pêlos rubra arquitetura.
E repousei caído em teus desígnios
e a água não era mais a mesma água
e a praia desnudava-se dos olhos
de ter e ver o verão do teu corpo.
E
tua geografia era uma ilha
relva fresca de brisa amanhecida
que águas do meu instinto roçagavam
acordando gaivotas no teu ventre.
E
éramos sós, o vôo da paisagem
em duas asas alargando a noite
e displicentes palmilhamos rastros
e nos perdemos na linguagem única.
Amarantíssimo ansiar de chamas
fuga fugaz em tempo de equinócio
onde o dia e a noite são no avesso
a própria conjunção dos girassóis.
Que vibrem as cigarras de setembro
instante de pálpebras frementes
que o nosso alumbramento encadeado
seja o elo perene do silêncio.
Ah, duração de gozo interminável
onde o tempo é objeto sem valor
pois o moto maior de todo amante
é um antigo relógio sem ponteiros.
Ah,
o lobo da memória me assaltando
a devorar auroras e crepúsculos
mas me salva este mar da lua espelho
onde liberto sou e recomeço.
(Itinerário poético da noite desmedida à
mínima fratura)