Anibal Beça

Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto nasceu em Manaus, no Amazonas, no dia 13 de setembro de 1946. Faz parte de uma nova geração de poetas amazonenses surgida no final do anos 60, denominada de Pós Madrugada. Foi o vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira de 1994. Obra poética: Convite frugal (Manaus, 1966), Filhos da várzea (Manaus, 1984), Dez haicais para os olhos da amada e outros poemas tocantes (Manaus, 1984), Itinerário da noite desmedida à mínima fratura (Manaus, 1987), Suíte para os habitantes da noite(São Paulo, 1995), Banda da asa, reunião dos livros anteriores (Rio de Janeiro, 1998).

 

 

Didática

Queda a palavra não dita
mas, dita pela escrita,
fica sem resposta clara,
se verde é o grão dessa fala.
Ai força que faz do verso,
misterioso vôo disperso,
aberto por linhas tortas:
chave do vento sem portas.
Nesse ofício da solidão,
o poeta arruma a alma:
espinho e palavra na mão.
E a pluma azul, aqui e agora,
decifra os signos e as coisas,
frágua do tempo e sua hora.
Filhos da várzea

Coplas de virgo
Há um cheiro de angústia nos teus olhos
amputado no meio desta sala.
E este mistério basta-se em silêncio
apascentando os demos desta noite.
E é assim que eu não querendo ver eu vejo
madeira tosca a se rachar no tempo
os caules duros tão particulares
reconstruídos no covão das horas.
Pois que do tempo bebo alimentando
a tua singular fisionomia.
Aquela mesma que ficou plantada
de grãos e pêlos rubra arquitetura.
E repousei caído em teus desígnios
e a água não era mais a mesma água
e a praia desnudava-se dos olhos
de ter e ver o verão do teu corpo.

E tua geografia era uma ilha
relva fresca de brisa amanhecida
que águas do meu instinto roçagavam
acordando gaivotas no teu ventre.

E éramos sós, o vôo da paisagem
em duas asas alargando a noite
e displicentes palmilhamos rastros
e nos perdemos na linguagem única.
Amarantíssimo ansiar de chamas
fuga fugaz em tempo de equinócio
onde o dia e a noite são no avesso
a própria conjunção dos girassóis.
Que vibrem as cigarras de setembro
instante de pálpebras frementes
que o nosso alumbramento encadeado
seja o elo perene do silêncio.
Ah, duração de gozo interminável
onde o tempo é objeto sem valor
pois o moto maior de todo amante
é um antigo relógio sem ponteiros.

Ah, o lobo da memória me assaltando
a devorar auroras e crepúsculos
mas me salva este mar da lua espelho
onde liberto sou e recomeço.
(Itinerário poético da noite desmedida à mínima fratura)

 

 
| Fechar |