Biografia / Bibliografia

Almir Diniz

Almir Diniz de Carvalho nasceu no Cambixe, município do Careiro (AM), no dia 6 de novembro de 1929. É formado em Direito. Atuou durante muitos anos como jornalista, tendo vencido, em 1956, o Prêmio Esso de Reportagem Norte-Nordeste com a matéria “Borracha: Dinheiro, Sangue e Miséria”. Após vários livros de poemas, estreou na ficção em 1999, com o livro de contos Sob a concha da panacarica.

 

 

Textos Selecionados:

Lua Nova


Nasceu na madrugada chuvosa de um 31 de dezembro. Era baio, caneludo, de elegância inata. Na testa um sinal branco, em curva. Como uma lua nova.
Quando o vaqueiro Totonho chegou ao pasto naquele primeiro dia do ano já encontrou o poldrinho aferrado às tetas da mãe-égua. Olhou-o, entre curioso e enternecido e monologou: “um belo poldro, um belo poldro!” Aproximou-se do recém-nascido, tentando acariciá-lo. Mas ele, em graciosos corcovos, afastou-se do peão, refugiando-se sob o pescoço curvo de sua mãe.
O Totonho riu e, conservando a mão estirada na direção do arisco potro, falou:
– O que é isso, Lua Nova, sou teu amigo!
Depois, com uma cordinha de couro trançado, laçou o potrinho só para borrifar-lhe o umbigo com uma solução antimosca. É que as chuvas já haviam começado e as varejeiras, em enxames, procuravam locais apropriados para depositar sua carga pestilenta.
Na sede da fazenda difundiu a novidade: nascera o “Lua Nova”.

– “Lua Nova”? – perguntou, interessada, a Silvinha e curiosa: – Por que “Lua Nova”, Totonho?
– Porque ele tem uma espécie de lua nova desenhada na testa.
– Ah! Quero conhecê-lo: deve ser interessante...
– É sim. Você o conhecerá: breve o trarei ao curral.
Era um potro lindo, sem dúvida. O Totonho tinha razão, admitiu Silvinha logo que viu o baio. E prontamente demonstrou desejo de acamaradar-se do mais novo rebento da manada. Por isso Totonho outra vez o laçou. E Silvinha, cuidadosa, para não espantá-lo, cariciou-o com mão de seda, cumulando-o de agrados expressos na voz e nos gestos.
“Lua Nova” entendeu que a moça era amiga. Farejou-a. Sentiu-lhe o cheiro e ganhou um torrão de açúcar que ela, previdente, havia levado numa sacolinha pensando oferecê-lo ao poldrinho.
No outro dia e nos seguintes Silvinha voltou a encontrar-se com o “Lua Nova”. Totonho o laçava e ela, carinhosa, entremeando ao nome assobios chamativos, alisava-lhe a pelagem brilhosa do pescoço, penteava-lhe as crinas com as unhas afiadas, ciciando-lhe aos ouvidos palavras adoçadas de magia e plenas de ternura. Nas primeiras vezes, instintivamente, o potro rebelava-se contra sua própria passividade, levantando o pescoço, agitando as orelhas, olhando desconfiado, como se não lhe agradassem as carícias. Mas, percebendo que ela só queria agradá-lo, deixava-se ficar, quieto e receptivo. E quando a menina-moça se ia, seguia-a com olhares agradecidos, lambendo os beiços onde haviam ficado pequeninos grãos da pedra de açúcar com que ela o presenteava ao término de todos os seus costumeiros encontros. Um dia, Silvinha, pensadamente, ao livrá-lo do laço do Totonho, fez que se esquecera de colocar-lhe à boca o presente de todos os dias. Então, ele, como que decepcionado, a seguiu, ensaiando curto relincho de desagrado. E ela, como se já esperasse aquele gesto, voltou-se e, sorrindo, falou-lhe:
– Está bem, “Lua Nova”. Ei-la aqui. Venha apanhá-la. Pensa mesmo que esqueci de você?
O potro, de fato, foi ao encontro da amiga, recebendo o mimo que lhe era oferecido.
No dia seguinte Silvinha disse ao vaqueiro que não laçasse o “Lua Nova”. Deixasse-o por sua conta.
Totonho ficou junto à cerca olhando, com ar de incredulidade, as evoluções de Silvinha por entre os animais, assobiando e chamando o poldrinho:
– “Lua Nova”, “Lua Nova”...
De repente, a surpresa. Deixando a mãe-égua, o poldrinho, a princípio receoso, mas logo depois decidido, caminhou na direção da menina-moça, entregando-se aos carinhos dela para, depois, conforme o costume, receber o prêmio.
Quando, certo dia, a surucucu pico-de-jaca pegou a mãe-égua, matando-a incontinenti, estando o “Lua Nova” com apenas 3 meses de idade, Silvinha assumiu a responsabilidade pela criação do potro. E se houve com muito acerto, preparando ela própria a ração do órfão que ficou contido num pastinho de capim-colônia situado ao lado do pomar, razoavelmente distanciado da casa.
A dedicação de Silvinha ao “Lua Nova” transformou-se em amizade sólida. Nos primeiros meses, três vezes ao dia, pelo menos, ela se dirigia à cerca do curral e, postando-se ao lado da porteira, assobiava, chamando-o em seguida: “Lua Nova”, “Lua Nova”...
Quase sempre, estando longe, no meio do capinzal, abandonava o pasto e vinha, a passos ligeiros, não raro trotando, beber, inicialmente numa mamadeira improvisada, depois, em uma cuia, o leite que a zelosa amiga lhe oferecia. Era o costume. Mas nem sempre necessitava chamá-lo, porque ou ele se antecipava ao chamado, sentindo-a aproximar-se do curral, vindo ao seu encontro, ou antes que ela chegasse, com algum atraso, por qualquer motivo, ia esperá-la no espaço limpo, ao lado da porteira, trabalhado pela passagem constante de animais.
Muito próximo da cancela Silvinha mandou construir uma cobertura e sob ela fez fixar um cocho para o arraçoamento suplementar do “Lua Nova” e junto dele um bebedouro, ambos abastecidos e cuidados, direta e religiosamente, pela moça.
O tempo passou. O “Lua Nova” cresceu. Silvinha passou a montá-lo sem sela, sem arreios. Ele aceitava a amazona sem ensaiar um salto, sem corcovear, sem reclamar ou desembestar.
Todos se admiravam daquela mansidão. Como era possível que ela cavalgasse o potro, usando apenas um simples cabresto?
O namorado de Silvinha encheu-se de ciúmes do “Lua Nova”, passando a fazer oposição à amizade dele com a moça.
Num domingo em que a casa de Silvinha estava em festa, o namorado ciumento, aproveitando-se da ausência da quase noiva, ocupada em ajudar a mãe na cozinha, pediu licença ao futuro sogro para montar no animal que fora levado ao terreiro pela jovem para demonstração de sua mansidão. O pai de Silvinha aquiesceu e o moço Juvêncio, querendo demonstrar suas qualidades de cavaleiro, meteu sela, brida e cortadeira no “Lua Nova”, sob constantes tremores, recuos e bufados do nobre animal. Depois, com ágil salto encarapitou-se na sela, apertou a brida cravando nos flancos do potro esporas afiadas. Foi a conta. O “Lua Nova” pulou de lado, empinou, arremeteu. O cavaleiro foi jogado a distância e lá ficou, vencido e humilhado, estirado no solo com os braços torcidos, envergonhado. Os que apinhavam o avarandado da casa-grande prorromperam em vaias, apupos, chistes.
O pré-noivo escafedeu-se. Mas nunca esqueceu o vexame.
Meses depois do casamento, Silvinha teve que se ausentar da fazenda para salvar uma gestação tumultuada. No regresso, trouxe a recomendação médica de repouso absoluto. Nada de trabalho, de esforço, de afazeres campestres.
Nascido o filho, Silvinha a pouco e pouco foi retomando suas atividades de fazendeira. Dia a dia ia ampliando suas caminhadas, até que, numa manhã de sol escaldante, chegou ao campinho onde vivia o “Lua Nova”. E não o viu. Junto ao cocho que mandara construir sob a meia-água, de zinco, nem sinal de ração. O capim crescera e uma família de maribondos tecera sua casa agarrada a um dos caibros de madeira lisa que sustentavam as folhas da cobertura, o que significava que o potro, fazia tempo, não aparecia ali. Sobressaltou-se. Alongou o olhar pelo campinho. Assobiou, aquele terno assobio que ia alcançar os ouvidos condicionados do animal onde quer que estivesse e chamou-o, seguidas vezes: “Lua Nova”, “Lua Nova”! Nada. Ficou aflita. Por onde andaria o seu amigo? Subitamente, uma desconfiança assaltou-a. E sem fazer qualquer esforço lembrou daquela outra manhã de festa na fazenda, o povo a rir-se do tombo do Juvêncio e ele, levantando-se, todo sujo, espanando-se, desconfiado, falando qualquer coisa que o Totonho, indo-lhe em socorro, ouvira. Recordava-se do fato, tão claro, tão nítido e, depois, da reticente observação do Totonho, a quem Silvinha perguntara o que havia acontecido:
– O seu Juvêncio selou o “Lua Nova”, dizendo que ia amansá-lo...
– Ah! compreendo. Mas ele é tão manso...
– Foi o que ele disse. Que a senhora o montava, logo ele também poderia fazê-lo. Mas de sela, rédea, brida, cortadeira e... esporas...
– Esporas, pra quê?
Lembrava-se, agora, que o Totonho não respondera a sua pergunta, preferindo informar que o quase noivo sumira após o insucesso. Também ela não dera ao caso a menor importância, preferindo ir ao local da exibição frustrada onde, chamando o potro, livrou-o dos arreios desnecessários. Não gostou de vê-lo sangrando na boca, no focinho e nos flancos. Recordava, por igual, que o Totonho, vendo-a cuidar dos ferimentos e espantar as moscas, atraídas pelo cheiro de sangue, fizera uma observação:
– Está aí, tão dócil... Não sei por que o seu Juvêncio prometeu-lhe vingança.
– Vingança? Por quê?
– Não sei. Talvez pela humilhação do tombo.
Naquela oportunidade não levara na devida conta aquela revelação. Mas, agora, uma séria dúvida a assaltava. Teria o Juvêncio...
Procurou o Totonho, querendo saber do “Lua Nova”.
– Ah, D. Silvinha, está mal, muito mal. Puseram-lhe cangalhas para o transporte de material pesado, botaram-no na bolandeira, obrigaram-no a puxar carroça...
Silvinha empalideceu, mas controlou-se. Não era de expor suas revoltas diante de peões, mesmo que o peão fosse o Totonho, velho empregado, muito considerado na fazenda. Mas, imediatamente, quis ver o “Lua Nova”. E viu o que restava do animal. Magro, ferido, coxeando, pelagem opaca, mal conseguia manter-se de pé. Não o reconheceu, de início. Mas era ele, sim, afirmava o Totonho:
– Veja a testa dele – sugeriu o vaqueiro – e chame-o.
Fez como lhe era sugerido e o pobre animal veio até ela, tropeçando, arrastando sua desdita.
Chegando a casa, lançou soberano olhar de desprezo ao marido, dizendo-lhe apenas:
– Obrigada, pelo “Lua Nova”.
Em vão Juvêncio tentou explicar seu feio ato, que não tinha explicação. Depois procurou desculpar-se, não conseguindo, porém, de parte dela, nada além de frio silêncio, como resposta.
Silvinha passou a dividir seus deveres de mãe com os afazeres de veterinária prática. Todos os dias ia cuidar de seu doente. “Lua Nova” recuperava-se a olhos vistos. As feridas no lombo, nos flancos, nas pernas e focinho pouco a pouco iam sarando. A pelagem começou a cobrir as cicatrizes, enquanto readquiria o lindo brilho de outrora.
Numa manhã de domingo chegou à fazenda um lote de gado bravio, sendo colocado em quarentena num piquete próximo do campinho transformado em enfermaria e repouso do “Lua Nova”.
Juvêncio, intentando fazer as pazes com a esposa, acompanhava, a pouca distância, os trabalhos da dedicada enfermeira.
Um vaqueiro qualquer, por descuido, deixou apenas encostada a porteira que dividia os dois piquetes. Por ela passou um miúra, aloucado pelo desconforto da viagem, maltratos e mudança de ambiente. Como um bólido lançou-se contra o grupo. Juvêncio percebeu o perigo e, como nada pudesse ser feito, gritou para o Totonho, ao tempo em que se colocava entre Silvinha e o touro enfurecido. A tragédia era iminente. O Totonho ainda tentou, sem sucesso, deter o touro com o laço. O Juvêncio ficou sem ação. E já ia ser atingido pelas armas afiadas do miúra quando aconteceu o milagre.
Que força misteriosa teria levado o “Lua Nova” ao magnífico gesto de desprendimento? A amizade? A defesa do seu território? O desejo de se opor ao teórico inimigo?
Ninguém sabe. Só o soberbo animal poderia lançar alguma luz sobre o assunto. Poderia...
O touro estava a não mais que três metros do Juvêncio, quando o “Lua Nova” arremeteu, colocando-se entre o miúra e o fazendeiro. Os chifres afiados do touro apanharam em cheio o ventre do potro que atingido por seguidas estocadas tombou ao solo ensangüentado. Quando o Totonho, recuperado do susto interveio com seu ferrão de vaqueiro, o “Lua Nova” agonizava.
Então, o Juvêncio, num gesto espontâneo, abraçou-se ao pescoço do “Lua Nova”, chorando copiosamente. E aquelas lágrimas sinceras e puras lavaram o desgosto de Silvinha, abrindo o caminho para a reconciliação do casal.

(Sob a concha da panacarica)

 
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