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Lua
Nova
Nasceu na madrugada chuvosa de um 31 de dezembro. Era baio, caneludo,
de elegância inata. Na testa um sinal branco, em curva.
Como uma lua nova.
Quando o vaqueiro Totonho chegou ao pasto naquele primeiro dia
do ano já encontrou o poldrinho aferrado às tetas
da mãe-égua. Olhou-o, entre curioso e enternecido
e monologou: “um belo poldro, um belo poldro!” Aproximou-se
do recém-nascido, tentando acariciá-lo. Mas ele,
em graciosos corcovos, afastou-se do peão, refugiando-se
sob o pescoço curvo de sua mãe.
O Totonho riu e, conservando a mão estirada na direção
do arisco potro, falou:
– O que é isso, Lua Nova, sou teu amigo!
Depois, com uma cordinha de couro trançado, laçou
o potrinho só para borrifar-lhe o umbigo com uma solução
antimosca. É que as chuvas já haviam começado
e as varejeiras, em enxames, procuravam locais apropriados para
depositar sua carga pestilenta.
Na sede da fazenda difundiu a novidade: nascera o “Lua Nova”.
–
“Lua Nova”? – perguntou, interessada, a Silvinha
e curiosa: – Por que “Lua Nova”, Totonho?
– Porque ele tem uma espécie de lua nova desenhada
na testa.
– Ah! Quero conhecê-lo: deve ser interessante...
– É sim. Você o conhecerá: breve o trarei
ao curral.
Era um potro lindo, sem dúvida. O Totonho tinha razão,
admitiu Silvinha logo que viu o baio. E prontamente demonstrou
desejo de acamaradar-se do mais novo rebento da manada. Por isso
Totonho outra vez o laçou. E Silvinha, cuidadosa, para
não espantá-lo, cariciou-o com mão de seda,
cumulando-o de agrados expressos na voz e nos gestos.
“Lua Nova” entendeu que a moça era amiga. Farejou-a.
Sentiu-lhe o cheiro e ganhou um torrão de açúcar
que ela, previdente, havia levado numa sacolinha pensando oferecê-lo
ao poldrinho.
No outro dia e nos seguintes Silvinha voltou a encontrar-se com
o “Lua Nova”. Totonho o laçava e ela, carinhosa,
entremeando ao nome assobios chamativos, alisava-lhe a pelagem
brilhosa do pescoço, penteava-lhe as crinas com as unhas
afiadas, ciciando-lhe aos ouvidos palavras adoçadas de
magia e plenas de ternura. Nas primeiras vezes, instintivamente,
o potro rebelava-se contra sua própria passividade, levantando
o pescoço, agitando as orelhas, olhando desconfiado, como
se não lhe agradassem as carícias. Mas, percebendo
que ela só queria agradá-lo, deixava-se ficar, quieto
e receptivo. E quando a menina-moça se ia, seguia-a com
olhares agradecidos, lambendo os beiços onde haviam ficado
pequeninos grãos da pedra de açúcar com que
ela o presenteava ao término de todos os seus costumeiros
encontros. Um dia, Silvinha, pensadamente, ao livrá-lo
do laço do Totonho, fez que se esquecera de colocar-lhe
à boca o presente de todos os dias. Então, ele,
como que decepcionado, a seguiu, ensaiando curto relincho de desagrado.
E ela, como se já esperasse aquele gesto, voltou-se e,
sorrindo, falou-lhe:
– Está bem, “Lua Nova”. Ei-la aqui. Venha
apanhá-la. Pensa mesmo que esqueci de você?
O potro, de fato, foi ao encontro da amiga, recebendo o mimo que
lhe era oferecido.
No dia seguinte Silvinha disse ao vaqueiro que não laçasse
o “Lua Nova”. Deixasse-o por sua conta.
Totonho ficou junto à cerca olhando, com ar de incredulidade,
as evoluções de Silvinha por entre os animais, assobiando
e chamando o poldrinho:
– “Lua Nova”, “Lua Nova”...
De repente, a surpresa. Deixando a mãe-égua, o poldrinho,
a princípio receoso, mas logo depois decidido, caminhou
na direção da menina-moça, entregando-se
aos carinhos dela para, depois, conforme o costume, receber o
prêmio.
Quando, certo dia, a surucucu pico-de-jaca pegou a mãe-égua,
matando-a incontinenti, estando o “Lua Nova” com apenas
3 meses de idade, Silvinha assumiu a responsabilidade pela criação
do potro. E se houve com muito acerto, preparando ela própria
a ração do órfão que ficou contido
num pastinho de capim-colônia situado ao lado do pomar,
razoavelmente distanciado da casa.
A dedicação de Silvinha ao “Lua Nova”
transformou-se em amizade sólida. Nos primeiros meses,
três vezes ao dia, pelo menos, ela se dirigia à cerca
do curral e, postando-se ao lado da porteira, assobiava, chamando-o
em seguida: “Lua Nova”, “Lua Nova”...
Quase sempre, estando longe, no meio do capinzal, abandonava o
pasto e vinha, a passos ligeiros, não raro trotando, beber,
inicialmente numa mamadeira improvisada, depois, em uma cuia,
o leite que a zelosa amiga lhe oferecia. Era o costume. Mas nem
sempre necessitava chamá-lo, porque ou ele se antecipava
ao chamado, sentindo-a aproximar-se do curral, vindo ao seu encontro,
ou antes que ela chegasse, com algum atraso, por qualquer motivo,
ia esperá-la no espaço limpo, ao lado da porteira,
trabalhado pela passagem constante de animais.
Muito próximo da cancela Silvinha mandou construir uma
cobertura e sob ela fez fixar um cocho para o arraçoamento
suplementar do “Lua Nova” e junto dele um bebedouro,
ambos abastecidos e cuidados, direta e religiosamente, pela moça.
O tempo passou. O “Lua Nova” cresceu. Silvinha passou
a montá-lo sem sela, sem arreios. Ele aceitava a amazona
sem ensaiar um salto, sem corcovear, sem reclamar ou desembestar.
Todos se admiravam daquela mansidão. Como era possível
que ela cavalgasse o potro, usando apenas um simples cabresto?
O namorado de Silvinha encheu-se de ciúmes do “Lua
Nova”, passando a fazer oposição à
amizade dele com a moça.
Num domingo em que a casa de Silvinha estava em festa, o namorado
ciumento, aproveitando-se da ausência da quase noiva, ocupada
em ajudar a mãe na cozinha, pediu licença ao futuro
sogro para montar no animal que fora levado ao terreiro pela jovem
para demonstração de sua mansidão. O pai
de Silvinha aquiesceu e o moço Juvêncio, querendo
demonstrar suas qualidades de cavaleiro, meteu sela, brida e cortadeira
no “Lua Nova”, sob constantes tremores, recuos e bufados
do nobre animal. Depois, com ágil salto encarapitou-se
na sela, apertou a brida cravando nos flancos do potro esporas
afiadas. Foi a conta. O “Lua Nova” pulou de lado,
empinou, arremeteu. O cavaleiro foi jogado a distância e
lá ficou, vencido e humilhado, estirado no solo com os
braços torcidos, envergonhado. Os que apinhavam o avarandado
da casa-grande prorromperam em vaias, apupos, chistes.
O pré-noivo escafedeu-se. Mas nunca esqueceu o vexame.
Meses depois do casamento, Silvinha teve que se ausentar da fazenda
para salvar uma gestação tumultuada. No regresso,
trouxe a recomendação médica de repouso absoluto.
Nada de trabalho, de esforço, de afazeres campestres.
Nascido o filho, Silvinha a pouco e pouco foi retomando suas atividades
de fazendeira. Dia a dia ia ampliando suas caminhadas, até
que, numa manhã de sol escaldante, chegou ao campinho onde
vivia o “Lua Nova”. E não o viu. Junto ao cocho
que mandara construir sob a meia-água, de zinco, nem sinal
de ração. O capim crescera e uma família
de maribondos tecera sua casa agarrada a um dos caibros de madeira
lisa que sustentavam as folhas da cobertura, o que significava
que o potro, fazia tempo, não aparecia ali. Sobressaltou-se.
Alongou o olhar pelo campinho. Assobiou, aquele terno assobio
que ia alcançar os ouvidos condicionados do animal onde
quer que estivesse e chamou-o, seguidas vezes: “Lua Nova”,
“Lua Nova”! Nada. Ficou aflita. Por onde andaria o
seu amigo? Subitamente, uma desconfiança assaltou-a. E
sem fazer qualquer esforço lembrou daquela outra manhã
de festa na fazenda, o povo a rir-se do tombo do Juvêncio
e ele, levantando-se, todo sujo, espanando-se, desconfiado, falando
qualquer coisa que o Totonho, indo-lhe em socorro, ouvira. Recordava-se
do fato, tão claro, tão nítido e, depois,
da reticente observação do Totonho, a quem Silvinha
perguntara o que havia acontecido:
– O seu Juvêncio selou o “Lua Nova”, dizendo
que ia amansá-lo...
– Ah! compreendo. Mas ele é tão manso...
– Foi o que ele disse. Que a senhora o montava, logo ele
também poderia fazê-lo. Mas de sela, rédea,
brida, cortadeira e... esporas...
– Esporas, pra quê?
Lembrava-se, agora, que o Totonho não respondera a sua
pergunta, preferindo informar que o quase noivo sumira após
o insucesso. Também ela não dera ao caso a menor
importância, preferindo ir ao local da exibição
frustrada onde, chamando o potro, livrou-o dos arreios desnecessários.
Não gostou de vê-lo sangrando na boca, no focinho
e nos flancos. Recordava, por igual, que o Totonho, vendo-a cuidar
dos ferimentos e espantar as moscas, atraídas pelo cheiro
de sangue, fizera uma observação:
– Está aí, tão dócil... Não
sei por que o seu Juvêncio prometeu-lhe vingança.
– Vingança? Por quê?
– Não sei. Talvez pela humilhação do
tombo.
Naquela oportunidade não levara na devida conta aquela
revelação. Mas, agora, uma séria dúvida
a assaltava. Teria o Juvêncio...
Procurou o Totonho, querendo saber do “Lua Nova”.
– Ah, D. Silvinha, está mal, muito mal. Puseram-lhe
cangalhas para o transporte de material pesado, botaram-no na
bolandeira, obrigaram-no a puxar carroça...
Silvinha empalideceu, mas controlou-se. Não era de expor
suas revoltas diante de peões, mesmo que o peão
fosse o Totonho, velho empregado, muito considerado na fazenda.
Mas, imediatamente, quis ver o “Lua Nova”. E viu o
que restava do animal. Magro, ferido, coxeando, pelagem opaca,
mal conseguia manter-se de pé. Não o reconheceu,
de início. Mas era ele, sim, afirmava o Totonho:
– Veja a testa dele – sugeriu o vaqueiro – e
chame-o.
Fez como lhe era sugerido e o pobre animal veio até ela,
tropeçando, arrastando sua desdita.
Chegando a casa, lançou soberano olhar de desprezo ao marido,
dizendo-lhe apenas:
– Obrigada, pelo “Lua Nova”.
Em vão Juvêncio tentou explicar seu feio ato, que
não tinha explicação. Depois procurou desculpar-se,
não conseguindo, porém, de parte dela, nada além
de frio silêncio, como resposta.
Silvinha passou a dividir seus deveres de mãe com os afazeres
de veterinária prática. Todos os dias ia cuidar
de seu doente. “Lua Nova” recuperava-se a olhos vistos.
As feridas no lombo, nos flancos, nas pernas e focinho pouco a
pouco iam sarando. A pelagem começou a cobrir as cicatrizes,
enquanto readquiria o lindo brilho de outrora.
Numa manhã de domingo chegou à fazenda um lote de
gado bravio, sendo colocado em quarentena num piquete próximo
do campinho transformado em enfermaria e repouso do “Lua
Nova”.
Juvêncio, intentando fazer as pazes com a esposa, acompanhava,
a pouca distância, os trabalhos da dedicada enfermeira.
Um vaqueiro qualquer, por descuido, deixou apenas encostada a
porteira que dividia os dois piquetes. Por ela passou um miúra,
aloucado pelo desconforto da viagem, maltratos e mudança
de ambiente. Como um bólido lançou-se contra o grupo.
Juvêncio percebeu o perigo e, como nada pudesse ser feito,
gritou para o Totonho, ao tempo em que se colocava entre Silvinha
e o touro enfurecido. A tragédia era iminente. O Totonho
ainda tentou, sem sucesso, deter o touro com o laço. O
Juvêncio ficou sem ação. E já ia ser
atingido pelas armas afiadas do miúra quando aconteceu
o milagre.
Que força misteriosa teria levado o “Lua Nova”
ao magnífico gesto de desprendimento? A amizade? A defesa
do seu território? O desejo de se opor ao teórico
inimigo?
Ninguém sabe. Só o soberbo animal poderia lançar
alguma luz sobre o assunto. Poderia...
O touro estava a não mais que três metros do Juvêncio,
quando o “Lua Nova” arremeteu, colocando-se entre
o miúra e o fazendeiro. Os chifres afiados do touro apanharam
em cheio o ventre do potro que atingido por seguidas estocadas
tombou ao solo ensangüentado. Quando o Totonho, recuperado
do susto interveio com seu ferrão de vaqueiro, o “Lua
Nova” agonizava.
Então, o Juvêncio, num gesto espontâneo, abraçou-se
ao pescoço do “Lua Nova”, chorando copiosamente.
E aquelas lágrimas sinceras e puras lavaram o desgosto
de Silvinha, abrindo o caminho para a reconciliação
do casal.
(Sob
a concha da panacarica)