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Velho
tronco
Aos últimos clarões de um sol que expira,
Entre as escumas da corrente, à tona,
Um tronco desce... e como que ressona,
E no seu sono, a sonhar, delira!
Sonha, quiçá, sua fronde esmeraldina,
Onde as brisas cantavam serenatas,
E as aves, em sutis bandolinatas,
Abriam a voz numa explosão divina...
Frutos pendentes a dourar seus galhos
E as lianas vivendo de sua vida...
A fera, à sombra, a lhe pedir guarida,
Vindo sentir-lhe os mágicos retalhos...
Sonha,
de certo, as noites de luar,
E o Madeira, tranqüilo, como em cisma,
Tendo nos versos do poeta – a crisma,
E no vento – um seresteiro a cantar.
Depois... a luta, o vendaval rugindo...
Folhas serpeando em doudos espirais...
Galhos rangendo entre gemidos e ais,
Ao chicotear dos ventos se partindo!
E os ninhos a rolarem pelo chão...
Aves implumes a chorar, piando...
E mais e mais, em fúrias, vergastando,
O temporal ribomba no trovão!
E por fim, a estrugir, fraqueja, cai
Sobre as águas barrentas do Madeira
– Líquida estrada de escumante esteira,
Onde sua vida, lenta, já se esvai!...
Velho
Tronco! eu te entendo neste instante!
No teu silêncio eu descobri tua vida...
E em tua raiz, para o infinito erguida,
Uma bênção... um perdão edificante!
Ah! tu que foste fruto e sombra e ninho...
És sublime, ó Tronco, e eu te bendigo,
Pois rolando pra morte ainda és abrigo
Das garças e gaivotas do caminho!
Aprende,
coração! E se na vida,
Em troca do bem, do amor que semeares,
Vires a ingratidão lá nos altares
A rir de ti, de tua ilusão sentida...
Relembra o Velho Tronco! E, já sumindo
Os últimos lampejos da existência,
Ampara o fraco e a tímida inocência,
E sentirás a vida reflorindo!
(Versos d’água doce)
A
Solidão do morto
Na
calçada,
inexoravelmente só,
um homem morto.
As
pessoas
chegam
param
passam:
são baratas espantadas
como em dia de chuva.
Nenhuma
lágrima:
o homem na solidão da morte.
Nas
mãos
(rigidamente cruzadas ao peito),
onde o carinho
o amor
a lascívia
onde um resto ao menos de vida?
Nos
sapatos
(cujas extremidades apontam
o céu
com irreverência),
ainda se vê o barro
do chão distante que pisaram.
Quantos
caminhos trilharam
esses pés
agora juntos, atados, inertes?
A
folha de jornal
cobre o morto indefeso:
mas ele não vê
mas ele não sente
mas ele não sabe...
Não
há como fugir:
diante da morte
(só
na calçada
como um cão atropelado
ou numa cama
entre cambraias finas)
o homem,
pobre bicho-homem de palavras e gestos,
está só, infinitamente só.
(Ibidem)
Samaumeira
Samaumeira! Liana e flores, em festa,
Descem da copa imensa que a amplidão fareja...
E o sol, em sangue e ouro, portentoso beija
A soberana – graça e força – da floresta.
Mas quando, em transe, o vento sopra as tempestades,
E lhe fere, zimbrando, a colossal umbela,
Luta, esbraveja, cai... grandiosamente bela,
Porém jamais se curva como os vis covardes!
E golpeada, ainda assim, vai soltando as sementes,
Louros, plúmeos casulos, livres e frementes,
Que se libram e vão nascer léguas além...
Atenta: se algum dia na vida fraquejares,
Não importa... Do amanhã na vastidão dos ares,
Na força de tua fé reviverás também!
(Ibiden) |