Almino Affonso

Almino Álvares Affonso nasceu em Humaitá, Amazonas, em 1929. Destacou-se na política, tendo sido ministro no governo de João Goulart. Com o advento do Golpe de 64, foi cassado; em conseqüência, viveu no exílio por cerca de doze anos. Mais recentemente, foi eleito vice-governador do Estado de São Paulo. Em 2000, publicou os Versos d'água doce, obra que reúne os poemas que produziu ao longo da vida e que se encontravam
dispersos em jornais ou inéditos.

Velho tronco

Aos últimos clarões de um sol que expira,
Entre as escumas da corrente, à tona,
Um tronco desce... e como que ressona,
E no seu sono, a sonhar, delira!

Sonha, quiçá, sua fronde esmeraldina,
Onde as brisas cantavam serenatas,
E as aves, em sutis bandolinatas,
Abriam a voz numa explosão divina...

Frutos pendentes a dourar seus galhos
E as lianas vivendo de sua vida...
A fera, à sombra, a lhe pedir guarida,
Vindo sentir-lhe os mágicos retalhos...

Sonha, de certo, as noites de luar,
E o Madeira, tranqüilo, como em cisma,
Tendo nos versos do poeta – a crisma,
E no vento – um seresteiro a cantar.

Depois... a luta, o vendaval rugindo...
Folhas serpeando em doudos espirais...
Galhos rangendo entre gemidos e ais,
Ao chicotear dos ventos se partindo!

E os ninhos a rolarem pelo chão...
Aves implumes a chorar, piando...
E mais e mais, em fúrias, vergastando,
O temporal ribomba no trovão!

E por fim, a estrugir, fraqueja, cai
Sobre as águas barrentas do Madeira
– Líquida estrada de escumante esteira,
Onde sua vida, lenta, já se esvai!...

Velho Tronco! eu te entendo neste instante!
No teu silêncio eu descobri tua vida...
E em tua raiz, para o infinito erguida,
Uma bênção... um perdão edificante!

Ah! tu que foste fruto e sombra e ninho...
És sublime, ó Tronco, e eu te bendigo,
Pois rolando pra morte ainda és abrigo
Das garças e gaivotas do caminho!

Aprende, coração! E se na vida,
Em troca do bem, do amor que semeares,
Vires a ingratidão lá nos altares
A rir de ti, de tua ilusão sentida...

Relembra o Velho Tronco! E, já sumindo
Os últimos lampejos da existência,
Ampara o fraco e a tímida inocência,
E sentirás a vida reflorindo!
(Versos d’água doce)

 

A Solidão do morto

Na calçada,
inexoravelmente só,
um homem morto.

As pessoas
chegam
param
passam:
são baratas espantadas
como em dia de chuva.

Nenhuma lágrima:
o homem na solidão da morte.

Nas mãos
(rigidamente cruzadas ao peito),
onde o carinho
o amor
a lascívia
onde um resto ao menos de vida?

Nos sapatos
(cujas extremidades apontam
o céu
com irreverência),
ainda se vê o barro
do chão distante que pisaram.

Quantos caminhos trilharam
esses pés
agora juntos, atados, inertes?

A folha de jornal
cobre o morto indefeso:
mas ele não vê
mas ele não sente
mas ele não sabe...

Não há como fugir:
diante da morte
(só
na calçada
como um cão atropelado
ou numa cama
entre cambraias finas)
o homem,
pobre bicho-homem de palavras e gestos,
está só, infinitamente só.
(Ibidem)

 

Samaumeira

Samaumeira! Liana e flores, em festa,
Descem da copa imensa que a amplidão fareja...
E o sol, em sangue e ouro, portentoso beija
A soberana – graça e força – da floresta.

Mas quando, em transe, o vento sopra as tempestades,
E lhe fere, zimbrando, a colossal umbela,
Luta, esbraveja, cai... grandiosamente bela,
Porém jamais se curva como os vis covardes!

E golpeada, ainda assim, vai soltando as sementes,
Louros, plúmeos casulos, livres e frementes,
Que se libram e vão nascer léguas além...

Atenta: se algum dia na vida fraquejares,
Não importa... Do amanhã na vastidão dos ares,
Na força de tua fé reviverás também!
(Ibiden)

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