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Os
olhos do meu amor
Fiquei muito triste ao ver a foto dele. Não havia ali a
luz de mocidade que tinha feito eu me apaixonar. Aquele olho vidrado
não era nada parecido com o facho de fogo que se derramava
do olhar daquele menino, meu menino...
Mas a vida parece que é isso mesmo: dez caminhos, vinte
arrependimentos. Arrependimento? Não, não sei se
devo chamar isso de arrependimento. Pior seria se pior fosse,
isso é que é. E de resto, tudo vai ficar para sempre
na minha cabeça: o sorriso dele, os dentes... tão
branquinhos, tão limpos...
Agora fiquei na dúvida: o que me terá feito ficar
de quatro por ele? Os olhos? O sorriso? Deixe-me recuperá-lo
na mente... Sim, sim, as mãos, as mãos! Ainda me
lembro a primeira vez que ele pegou nas minhas com as dele. Senti
um pouco de vergonha. Porque não gosto das minhas. A idade
as deixou encarquilhadas, manchadas, velhas mesmo. Quase que num
impulso eu as guardo nos bolsos. Mas aí ele me olhou e
sorriu para mim, e eu me derreti, e me deixei levar. Acho que
desde aí me apaixonei. Então foi tudo isso: olhar,
sorriso, mãos... esse conjunto todo que eu chamo de juventude.
Quando
o Téo apresentou a gente e disse, esse é o menino
prodígio, vinte anos e é um dos meus melhores alunos
de música, eu fiquei ali pensando nos mundos de possibilidades
que o rapaz tinha à frente. E quando o Téo deixou
a gente a sós, ele me disse que me admirava muito, admirava
meus trabalhos, e que sonhava ser artista como eu. Puxa vida,
pensei, com todas as estradas ele quer logo essa em que eu me
fiz andar. E daí eu disse para ele que ele podia ser bem
melhor, se se conservasse assim, talentoso como era.
E aí já estava armada a situação pra
gente ir pra minha casa. Para ver meus últimos trabalhos,
e outros que eu ainda estava por concluir. Quando ele entrou,
ficou deslumbrado com a decoração, e eu gostei de
ver os olhos dele brilharem com o reflexo do piso de granito,
da parede de mármore e de todo o conjunto de vidros que
compõe minha sala: a mesinha de centro, o bar, o rack.
Quando fomos para a sala-atelier, ele ficou mais impressionado
ainda, e me perguntou, olhando para as esculturas, como você
conseguiu tanto prestígio, em plena pós-modernidade,
esculpindo formas clássicas? E eu disse para ele, justamente
porque são clássicas, o clássico nunca sai
de moda, meu bem. Aí ele sorriu, e eu quis beijá-lo,
mas me segurei.
Depois ele parou numa estatueta de mármore em que eu estava
trabalhando, e que ia se chamar O Homem-Deus. Acho que ele gostou,
porque ficou ali passando as mãos nela. Em seguida, se
virou para mim e me beijou, não deu pra escapar. Ele então
sorriu e se virou novamente para a estatueta, e me perguntou o
que estava faltando para ficar pronta, e eu disse, os olhos, os
olhos, esses acho que não são os corretos.
Ele então me perguntou se tinha vinho. Fui buscar. Ele
bebeu, eu menos que ele. Rimos, ele me beijou várias vezes.
E algum tempo depois ele disse que estava apaixonado por mim,
e eu disse que também estava. E propus a ele que não
nos víssemos mais a partir daquela noite, para conservar
este momento para sempre. Ele riu e disse que isso era uma grande
besteira. Não, se a gente continuar a se ver, tudo vai
se deteriorar, vamos apodrecer a paixão, eu respondi. Ele
apenas riu mais uma vez, e falou que não ia deixar que
eu o abandonasse. Mas eu não queria abandoná-lo,
muito pelo contrário: eu queria era ficar com ele para
sempre. Mas já tinha visto que ele nunca me entenderia.
Ele pediu mais vinho. Fui buscar, e quando voltei ele ainda estava
sentado no chão, de costas para mim, e ainda rindo do que
eu dissera. Peguei a estatueta, O Homem-Deus, sem que ele percebesse,
e desci-a com toda a força na parte lateral da cabeça
dele, que se abriu numa mancha avermelhada. Ele caiu mas ainda
tentou se levantar, cambaleante, e me olhou já provavelmente
nem me vendo, e um fio de sangue escorreu da têmpora ao
olho direito, ao canto do olho, parecendo uma lágrima de
sangue. Eu então dei mais um dois três golpes na
cabeça, e sujei terrivelmente de sangue e de miolos meu
chão de granito.
Daí enrolei-o num grande plástico negro e o enterrei
num matagal distante. Alguém deve ter visto, porque dois
dias depois a foto dele saía na capa de um jornaleco da
cidade. Universitário é barbaramente assassinado.
Assassinado! Assassinado? Ele ganhou foi a vida eterna. E não
só no meu coração, que sente muita saudade
dele. Mas também na estatueta, que agora tem os olhos corretos,
os olhos do meu amor.
Motivo:
desilusão amorosa
Mas
não colocou ponto final. Estava em dúvida: digo
ou não digo único dono? Seria um grande golpe. Iria
cortar fundo nela, aquela vaca! Com certeza ela se lembraria dos
meses que passaram pagando a prestação, juntos.
155 paus por mês, corrigidos pelo INCC, e o dobro no recebimento
da chave! São 310, mano, sabe o que é isso? Vaca!
Vaca! Vaca! Uma vez ela quis largar o emprego, não agüentava
mais as cantadas dos clientes no balcão da farmácia.
Pior quando vinha um desses velhos, os ovos fazendo aquele volume
dum lado só da calça, me dá um Atacand 16
mg e um Viagra. Não era tanto a cantada disfarçada
que a deixava puta da vida, era essa incoerência burra do
hipertenso.
Espera mais um pouquinho, é pra nossa casinha, meu amorzinho,
era só o que ele sabia dizer. Porque tudo para ele era
no diminutivo: casinha, amorzinho, mulherzinha, florzinha. Até
verbo ele flexio-nava no grau: me esperazinho, que eu já
vouzinho.
Um dia ela não esperouzinho. Encontrou um homem no aumentativo,
em vários modos e direções. E picou a mula.
Não deixou bilhete nem ligou mais nem porra nenhuma, aquela
égua safada! (era um pecuarista verbal). Alguém
lhe disse que a vira com um cara tipo turista (era louro), estavam
numa sorveteria. Visualizou a língua dela no sorvete de
taperebá, que ele lembrava ser seu favorito. Doeu quando
o espírito-de-porco lhe informou, pela cor devia ser açaí...
Mas sabia que iria pegá-la pelo orgulho das prestações
pagas. Único dono, ficaria assim mesmo. Mas o xodó
dele era Motivo: desilusão amorosa. Chegava a vê-la
lendo o classificado, aquela luz crepuscular no seu rosto. As
lágrimas rolando... ou não? Talvez segurasse o choro.
Mas quando ler ‘Preço de ocasião’, aí
eu quero ver, aí eu quero ver...
Talvez pelo sorvete de açaí, talvez pelo lourão
– não estava acostumada a nenhum deles – sentia
agora os intestinos revirados. Situação singular
para rever os impactos que as coisas novas provocam. Pensava no
sorvete, no louro, na quitinete, no novo trabalho: faxineira de
zoológico. Adeus, cantadas horrorosas. Olá, gavião-real!
Não que estivesse satisfeita com isso. Experimentara revo-luções
e parecia querer viciar-se. Já pensava num apartamento
maior, morar sozinha, ser promovida a chefe-de-seção.
Desejava ficar com as aves, sua paixão. Tanto que demorava
bem mais tempo na limpeza do aviário que no tanque dos
répteis. O senhor já viu cocô de cobra? O
senhor já viu pelo menos o cu da cobra? Pois é,
nem eu!, era como se livrava da impertinência do chefe.
Abriu o jornal para procurar apartamento. Puta que pariu! Veio
a exclamação quase como um arroto ao ler Único
dono. Preço de ocasião. Motivo: desilusão
amorosa. Quase lhe brotara uma raiva, principalmente na parte
do Único dono. Mas depois lembrou-se das novidades, quatro
gozadas numa só trepada! E percebeu que a alforria saíra
bem em conta. E até pagaria mais quatro casas se necessário
fosse. Vamos dizer duas... E aí apenas achou graça
e sentiu pena.
De
intestinos já acalmados, limpou-se com o jornal, sujando-o
justamente em Único dono. Preço de ocasião.
Motivo: desilusão amorosa. E deu a descarga.
Noutro ponto da cidade, um jovem casal pensa em coisas sentimentais.
Ela acaba de se formar em Serviço Social. E era só
o que eles aguardavam para realizar o matrimônio. Pensam
em fazer o casamento na Igreja da Matriz. A recepção
parece que vai ser no Dulcila’s Buffet. Vão gastar
um dinheirão mas não estão nem aí
para isso. E agora buscam uma casa. Vêem no jornal um anúncio
diferente. Único dono. Preço de ocasião.
Motivo: desilusão amorosa. Ele acha muito bonitinho. Fica
interessado. Ela tem dúvidas. Sei lá, de repente
essa casa está amaldiçoada... Chega a ouvir o fantasma
do amor arrastando correntes noite adentro, nessa casa mal-assombrada.
Ele argumenta, o nosso amor é maior que qualquer maldição.
E, nunca esquecendo, o preço é de ocasião...
Ela meneia a cabeça... meneia a cabeça... E aceita.
Estão verdadeiramente apaixonados. São os mais invulneráveis
seres do universo.
E
lá fora um passarinho cai e uma folha canta.