Biografia / Bibliografia

Alisson Leão

Epitácio de Alencar e Silva Neto nasceu no dia 12 de julho de 1973, em Manaus. Formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, foi articulista do jornal “Amazonas em Tempo”. Publicou seus primeiros contos em “O Muhra”, periódico literário editado pela Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas. Obra: O Livro negro: contos (Manaus, 1999).

 

 

Textos Selecionados:

Os olhos do meu amor

Fiquei muito triste ao ver a foto dele. Não havia ali a luz de mocidade que tinha feito eu me apaixonar. Aquele olho vidrado não era nada parecido com o facho de fogo que se derramava do olhar daquele menino, meu menino...
Mas a vida parece que é isso mesmo: dez caminhos, vinte arrependimentos. Arrependimento? Não, não sei se devo chamar isso de arrependimento. Pior seria se pior fosse, isso é que é. E de resto, tudo vai ficar para sempre na minha cabeça: o sorriso dele, os dentes... tão branquinhos, tão limpos...
Agora fiquei na dúvida: o que me terá feito ficar de quatro por ele? Os olhos? O sorriso? Deixe-me recuperá-lo na mente... Sim, sim, as mãos, as mãos! Ainda me lembro a primeira vez que ele pegou nas minhas com as dele. Senti um pouco de vergonha. Porque não gosto das minhas. A idade as deixou encarquilhadas, manchadas, velhas mesmo. Quase que num impulso eu as guardo nos bolsos. Mas aí ele me olhou e sorriu para mim, e eu me derreti, e me deixei levar. Acho que desde aí me apaixonei. Então foi tudo isso: olhar, sorriso, mãos... esse conjunto todo que eu chamo de juventude.

Quando o Téo apresentou a gente e disse, esse é o menino prodígio, vinte anos e é um dos meus melhores alunos de música, eu fiquei ali pensando nos mundos de possibilidades que o rapaz tinha à frente. E quando o Téo deixou a gente a sós, ele me disse que me admirava muito, admirava meus trabalhos, e que sonhava ser artista como eu. Puxa vida, pensei, com todas as estradas ele quer logo essa em que eu me fiz andar. E daí eu disse para ele que ele podia ser bem melhor, se se conservasse assim, talentoso como era.
E aí já estava armada a situação pra gente ir pra minha casa. Para ver meus últimos trabalhos, e outros que eu ainda estava por concluir. Quando ele entrou, ficou deslumbrado com a decoração, e eu gostei de ver os olhos dele brilharem com o reflexo do piso de granito, da parede de mármore e de todo o conjunto de vidros que compõe minha sala: a mesinha de centro, o bar, o rack.
Quando fomos para a sala-atelier, ele ficou mais impressionado ainda, e me perguntou, olhando para as esculturas, como você conseguiu tanto prestígio, em plena pós-modernidade, esculpindo formas clássicas? E eu disse para ele, justamente porque são clássicas, o clássico nunca sai de moda, meu bem. Aí ele sorriu, e eu quis beijá-lo, mas me segurei.
Depois ele parou numa estatueta de mármore em que eu estava trabalhando, e que ia se chamar O Homem-Deus. Acho que ele gostou, porque ficou ali passando as mãos nela. Em seguida, se virou para mim e me beijou, não deu pra escapar. Ele então sorriu e se virou novamente para a estatueta, e me perguntou o que estava faltando para ficar pronta, e eu disse, os olhos, os olhos, esses acho que não são os corretos.
Ele então me perguntou se tinha vinho. Fui buscar. Ele bebeu, eu menos que ele. Rimos, ele me beijou várias vezes. E algum tempo depois ele disse que estava apaixonado por mim, e eu disse que também estava. E propus a ele que não nos víssemos mais a partir daquela noite, para conservar este momento para sempre. Ele riu e disse que isso era uma grande besteira. Não, se a gente continuar a se ver, tudo vai se deteriorar, vamos apodrecer a paixão, eu respondi. Ele apenas riu mais uma vez, e falou que não ia deixar que eu o abandonasse. Mas eu não queria abandoná-lo, muito pelo contrário: eu queria era ficar com ele para sempre. Mas já tinha visto que ele nunca me entenderia.
Ele pediu mais vinho. Fui buscar, e quando voltei ele ainda estava sentado no chão, de costas para mim, e ainda rindo do que eu dissera. Peguei a estatueta, O Homem-Deus, sem que ele percebesse, e desci-a com toda a força na parte lateral da cabeça dele, que se abriu numa mancha avermelhada. Ele caiu mas ainda tentou se levantar, cambaleante, e me olhou já provavelmente nem me vendo, e um fio de sangue escorreu da têmpora ao olho direito, ao canto do olho, parecendo uma lágrima de sangue. Eu então dei mais um dois três golpes na cabeça, e sujei terrivelmente de sangue e de miolos meu chão de granito.
Daí enrolei-o num grande plástico negro e o enterrei num matagal distante. Alguém deve ter visto, porque dois dias depois a foto dele saía na capa de um jornaleco da cidade. Universitário é barbaramente assassinado. Assassinado! Assassinado? Ele ganhou foi a vida eterna. E não só no meu coração, que sente muita saudade dele. Mas também na estatueta, que agora tem os olhos corretos, os olhos do meu amor.

Motivo: desilusão amorosa

Mas não colocou ponto final. Estava em dúvida: digo ou não digo único dono? Seria um grande golpe. Iria cortar fundo nela, aquela vaca! Com certeza ela se lembraria dos meses que passaram pagando a prestação, juntos. 155 paus por mês, corrigidos pelo INCC, e o dobro no recebimento da chave! São 310, mano, sabe o que é isso? Vaca! Vaca! Vaca! Uma vez ela quis largar o emprego, não agüentava mais as cantadas dos clientes no balcão da farmácia. Pior quando vinha um desses velhos, os ovos fazendo aquele volume dum lado só da calça, me dá um Atacand 16 mg e um Viagra. Não era tanto a cantada disfarçada que a deixava puta da vida, era essa incoerência burra do hipertenso.
Espera mais um pouquinho, é pra nossa casinha, meu amorzinho, era só o que ele sabia dizer. Porque tudo para ele era no diminutivo: casinha, amorzinho, mulherzinha, florzinha. Até verbo ele flexio-nava no grau: me esperazinho, que eu já vouzinho.
Um dia ela não esperouzinho. Encontrou um homem no aumentativo, em vários modos e direções. E picou a mula. Não deixou bilhete nem ligou mais nem porra nenhuma, aquela égua safada! (era um pecuarista verbal). Alguém lhe disse que a vira com um cara tipo turista (era louro), estavam numa sorveteria. Visualizou a língua dela no sorvete de taperebá, que ele lembrava ser seu favorito. Doeu quando o espírito-de-porco lhe informou, pela cor devia ser açaí...
Mas sabia que iria pegá-la pelo orgulho das prestações pagas. Único dono, ficaria assim mesmo. Mas o xodó dele era Motivo: desilusão amorosa. Chegava a vê-la lendo o classificado, aquela luz crepuscular no seu rosto. As lágrimas rolando... ou não? Talvez segurasse o choro. Mas quando ler ‘Preço de ocasião’, aí eu quero ver, aí eu quero ver...
Talvez pelo sorvete de açaí, talvez pelo lourão – não estava acostumada a nenhum deles – sentia agora os intestinos revirados. Situação singular para rever os impactos que as coisas novas provocam. Pensava no sorvete, no louro, na quitinete, no novo trabalho: faxineira de zoológico. Adeus, cantadas horrorosas. Olá, gavião-real!
Não que estivesse satisfeita com isso. Experimentara revo-luções e parecia querer viciar-se. Já pensava num apartamento maior, morar sozinha, ser promovida a chefe-de-seção. Desejava ficar com as aves, sua paixão. Tanto que demorava bem mais tempo na limpeza do aviário que no tanque dos répteis. O senhor já viu cocô de cobra? O senhor já viu pelo menos o cu da cobra? Pois é, nem eu!, era como se livrava da impertinência do chefe.
Abriu o jornal para procurar apartamento. Puta que pariu! Veio a exclamação quase como um arroto ao ler Único dono. Preço de ocasião. Motivo: desilusão amorosa. Quase lhe brotara uma raiva, principalmente na parte do Único dono. Mas depois lembrou-se das novidades, quatro gozadas numa só trepada! E percebeu que a alforria saíra bem em conta. E até pagaria mais quatro casas se necessário fosse. Vamos dizer duas... E aí apenas achou graça e sentiu pena.

De intestinos já acalmados, limpou-se com o jornal, sujando-o justamente em Único dono. Preço de ocasião. Motivo: desilusão amorosa. E deu a descarga.
Noutro ponto da cidade, um jovem casal pensa em coisas sentimentais. Ela acaba de se formar em Serviço Social. E era só o que eles aguardavam para realizar o matrimônio. Pensam em fazer o casamento na Igreja da Matriz. A recepção parece que vai ser no Dulcila’s Buffet. Vão gastar um dinheirão mas não estão nem aí para isso. E agora buscam uma casa. Vêem no jornal um anúncio diferente. Único dono. Preço de ocasião. Motivo: desilusão amorosa. Ele acha muito bonitinho. Fica interessado. Ela tem dúvidas. Sei lá, de repente essa casa está amaldiçoada... Chega a ouvir o fantasma do amor arrastando correntes noite adentro, nessa casa mal-assombrada. Ele argumenta, o nosso amor é maior que qualquer maldição. E, nunca esquecendo, o preço é de ocasião... Ela meneia a cabeça... meneia a cabeça... E aceita. Estão verdadeiramente apaixonados. São os mais invulneráveis seres do universo.

E lá fora um passarinho cai e uma folha canta.

 
| Fechar |