| Soneto
de espera ou o 1.º da morte
De espera e espera sofro-te em meu canto,
em meu verso e nas coisas que te anseiam.
E mais sofrera se te não sonhara
nem crera em tua vinda, anjo noturno
que virás sobre o mar – pássaro, estrela
ou rosa a se elevar na noite pura –
sem outro anúncio a preceder-te, além
do teu hálito fresco sobre o vale
e esta certeza para além do sonho
de que teus olhos de mistério e flamas
descerão de repente em minha espera
e me destruirás para salvar-me:
que os noturnos jardins florescerão
e nos ventos da noite fugiremos.
(Lunamarga)
Cantar
de andarilho
Não
tenho pátria
determinada
nem tenho pressa
nesta jornada:
só esta sede
que têm meus olhos
de ver e ver
e este incontido
impulso de asas
sobre meus pés.
Minhas sandálias
cobrindo o mundo
que descobriram
pé ante pé,
minhas sandálias
vão-se ficando
pelos caminhos
de minha fé.
Arde em meu rosto
o sol de todos
os continentes.
Todos
os ventos
já visitaram
minhas narinas.
Todas as águas
já circularam
dentro de mim.
Em
minha fala
todas as falas
se misturaram.
E
nos meus olhos
os céus mais vários
se despejaram.
Não
tenho pátria
determinada
nem tenho pressa
nesta jornada:
só
esta sede
que têm meus olhos
de ver e ver
e
este incontido
impulso de asas
sobre meus pés.
(Ibidem) |