Alencar e Silva

Joaquim de Alencar e Silva nasceu em Fonte Boa, cidade do interior
do Amazonas, no dia 21 de setembro de 1930. Para dar prosseguimento
aos seus estudos, mudou-se para Manaus, transferindo-se posteriormente
para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Ciências Jurídicas e Sociais,
na Faculdade Nacional de Direito – UFRJ. Obra poética: Painéis (Manaus,
1952), Lunamarga (Manaus, 1965), Território noturno (Rio de Janeiro,
1982), Sob Vésper(Manaus, 1986), Sob o sol de Deus(Manaus, 1992),
Ouro, incenso e mirra(Manaus, 1994) e Solo do outono(Manaus, 2000).

Soneto de espera ou o 1.º da morte

De espera e espera sofro-te em meu canto,
em meu verso e nas coisas que te anseiam.
E mais sofrera se te não sonhara
nem crera em tua vinda, anjo noturno
que virás sobre o mar – pássaro, estrela
ou rosa a se elevar na noite pura –
sem outro anúncio a preceder-te, além
do teu hálito fresco sobre o vale
e esta certeza para além do sonho
de que teus olhos de mistério e flamas
descerão de repente em minha espera
e me destruirás para salvar-me:
que os noturnos jardins florescerão
e nos ventos da noite fugiremos.
(Lunamarga)

 

Cantar de andarilho

Não tenho pátria
determinada
nem tenho pressa
nesta jornada:

só esta sede
que têm meus olhos
de ver e ver
e este incontido
impulso de asas
sobre meus pés.

Minhas sandálias
cobrindo o mundo
que descobriram
pé ante pé,
minhas sandálias
vão-se ficando
pelos caminhos
de minha fé.

Arde em meu rosto
o sol de todos
os continentes.

Todos os ventos
já visitaram
minhas narinas.
Todas as águas
já circularam
dentro de mim.

Em minha fala
todas as falas
se misturaram.

E nos meus olhos
os céus mais vários
se despejaram.

Não tenho pátria
determinada
nem tenho pressa
nesta jornada:

só esta sede
que têm meus olhos
de ver e ver

e este incontido
impulso de asas
sobre meus pés.
(Ibidem)

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