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A
Tigre no espelho
A cegueira já não o preocupava. Depois de todos
esses anos aprendera a conviver com ela. E até mesmo tirar
proveito para escrever os contos fantásticos que os leitores
e críticos aplaudiam. O que o assustava era o pesadelo
interminável que o acompanhava diariamente: espelhos, labirintos,
punhais e tigres. Já não sabia dizer se eles apenas
existiam em seus sonhos ou se eram reais. Como aconteceu instantes
atrás em que se viu diante de espelhos com o rosto coberto
por uma máscara de ferro: pensou em retirá-la mas
não se via no espelho fazia muitos anos, temia que a máscara
escondesse um outro rosto que ele não conhecia, talvez
desfigurado como no filme O Fantasma da Ópera.
Fechou os olhos tentando expulsar os seus fantasmas. Respirou
profundo. Até quando, meu Deus? Lembrou-se do que disse
o velho monge quando visitou o Oriente: “Meu filho, chegará
o dia em que o tigre emergirá do espelho e Tâmiris
se banhará nas águas sagradas do Tibet”. Não
apenas não compreendeu o que o velho monge quis dizer como
não conseguira encontrar nos livros de psicologia o significado
para o sonho que o perseguia desde a adolescência.
E se não tivesse dormido? Não é segredo que
está ficando cego, começa a mergulhar num mundo
de cores, sombras, vultos. Enxugou o suor que escorria pelo rosto.
“Creio que sonho duas vezes. Uma antes de dormir e outra
durante o sonho”.1
Súbito, sentiu no rosto uma brisa de mar. Ouviu rumores
de mar se espatifando nas pedras. Mais um de seus delírios?
Ah, o mar. Ora bravio, ora sereno. Quase sempre verde. Por vezes
azul como o sonho de menino. E o menino fica a cavalgar uma onda
mais alta. Solto e feliz como a gaivota que segue o barco dos
pescadores. Ou então se põe a recolher conchas ou
fazer castelos na areia: e a imaginação do menino
viaja para outros mundos, com personagens estranhos, alguns deles
extraídos das histórias contadas pela avó,
outros da leitura de livros mágicos como os de Kipling,
Mark Twain, Lewis Carroll, ou As mil e uma noites.
Pensou em chamar a secretária mas se lembrou de que ela
havia saído para fazer compras, é preciso, a geladeira
está quase vazia, vou ao supermercado mas não me
demoro, sei que não adianta convidá-lo para ir comigo
porque não vai querer arredar o pé, não enquanto
não germinar de todo o poema ou conto que carrega dentro
de si, dá pra ver estampado no rosto. Pelo visto, ainda
tenho algum tempo de folga, não estou certa? Ela o conhecia,
sabia que para ele um poema é como um fruto que só
se deve colher quando está maduro, e aquele estava amadurecendo.
Retomou o poema:
Penso
num tigre. A meia-luz exalta
A vasta biblioteca laboriosa
E parece afastar as prateleiras...2
Ouviu passos. É você, Maria? Não, não
dava pra ela ter voltado. É você, Stevenson? Também
não houve resposta. Apoiou as mãos e o queixo sobre
a bengala. Sorriu. Como não pensei antes? Ora, se não
é... o amigo De Quincey! É você, não
é De Quincey? Mas o outro (se é que existia mesmo
outro na sala) permaneceu calado. Não adianta fingir...
Eu sei que você está aí. Sempre brincalhão,
não é? Silêncio. Sacudiu os ombros, parece
que realmente fui abandonado pelos meus velhos amigos. Não
é Maria, não é Stevenson nem De Quincey...
certamente são os ratos farreando no forro da casa. Vou
pedir a Maria que arme a ratoeira, pois o pobre Beppo, meu pobre
gato velho, não consegue mais impor temor à rataria.
Apalpou a pequena mesa ao lado da cadeira de estofado. O livro
estava do mesmo jeito que deixara. Deslizou os dedos pela página
e começou a recitar baixinho o poema de Walt Whitman, que
sabia de cor:
Ninguém
vai entender meus versos,
se quiser interpretá-los
como performances literárias.
Voltou
a ouvir passos. É você, Maria? Não houve resposta.
Sentiu o velho gato se enroscando nas suas pernas. Você
também ouviu, Beppo? Beppo responde com um miado. Coçou
a cabeça de Beppo: Você não se envergonha?
São os ratos que você devia afugentar.
Fechou os olhos e se pôs a murmurar trechos de poemas de
Mallarmé.
O gato pulou do estofado e desapareceu da sala. O que foi? Ouviu
novo miado. Não precisa reclamar, já compreendi...
Meditava agora sobre literatura, sonho e realidade, temas de sua
próxima conferência aos estudantes universitários.
O que é realidade e o que é sonho para alguém
que é quase cego, enxerga apenas sombras e vultos? A realidade
que ele conhecia vinha dos livros. Ou da lembrança dos
tempos de infância e adolescência. (Só saía
de casa com Maria, quase sempre para pequenos trajetos, ali por
perto, não queria correr o risco de ser atropelado pelos
carros que se agitavam no asfalto.) Vivia agora o sonho. A realidade
do sonho. E sonhava a realidade. Concluiu irônico: Ah, meu
bom poeta e amigo Mallarmé, concordo com você: o
mundo existe para um livro. E divagou:
el
sueño, los espejos, la mascara...
Decidiu
ir à biblioteca. Com a mão esquerda apoiada no estofado
e com a bengala, conseguiu levantar-se. Ufa, estou ficando velho,
os anos começam a pesar, as pernas já não
ajudam como antes.
Sai da sala e caminha pelo corredor comprido que conduz a outros
corredores. Ele faz sozinho esse percurso todos os dias, conhece
como ninguém cada palmo do chão, cada parede, cada
porta, até chegar à biblioteca. Dobra à direita,
segue em frente, dobra à esquerda, finalmente chega à
biblioteca. É uma sala enorme, com escadas em caracol,
longas prateleiras de livros, passagens muito estreitas e quase
invisíveis onde há pouca claridade.
Com a mão vai tateando os livros na prateleira, reconhece
cada um deles. Tenta alcançar o livro que deixara escondido
atrás da Enciclopédia Britânica. Não
o encontra. Com os dedos agitados, nervosos, apalpa os grossos
volumes, não se teria enganado de prateleira? Nunca se
sabe, sempre existe a possibilidade de um primeiro engano. Agora
não restava mais dúvida: o livro sumira. Não
dava para acreditar. Uma coisa não desaparece sem explicação.
De certo, alguém o encontrou e pegou para ler. Quem sabe,
a Maria? Não, ela jamais retiraria um livro da estante
sem que ele soubesse. E então?
Os
passos se repetem. Olha em redor. Ninguém. Era tudo muito
estranho. Chegara a sentir a presença de alguém
muito próximo. Esquece o livro, fica atento. Os passos
vinham lá do fundo. Decidiu averiguar. Penetra pelos corredores.
Os passos estavam sempre mais adiante. Até que se sentiu
perdido em meio a corredores que ele não freqüentava
ou até mesmo desconhecia. A razão é simples:
quando se tem mais de quarenta anos, resta pouco tempo de vida
pela frente, é preciso escolher quatro ou cinco autores
para permanente leitura. O que não acontecia quando era
jovem e podia ler tudo, clássicos e contemporâneos.
Agora, quase cego, já não lia, os outros é
que liam para ele, por isso se limitava a reler Shakespeare, Dante,
Lugones, Chesterton e De Quincey. Labirinto, labyrinthos –
eis a palavra correta, sussurra. O que é uma biblioteca
senão um labirinto? Cada livro conduz a novos universos,
a vários caminhos que se bifurcam. Não há
portas para a saída, não existe o retorno.
– Não te angusties, companheiro. “Coragem!
Que esses temores não ocupem o teu pensamento” (Odisséia,
Canto XXIV).
A voz era fraca, quase inaudível, mas lhe pareceu familiar.
– É você, De Quincey?
O homem alto, cabelos ralos e muito brancos, uns noventa anos,
sorriu.
– Não, não sou De Quincey – respondeu.
E oferecendo o livro que trazia na mão: – Eis o livro
que o senhor procura.
A voz. Conhecia aquela voz. Tudo muito estranho. Não, não
podia estar sonhando, não desta vez: o livro (ele apalpou
o livro, era o mesmo, uma edição raríssima
de Macbeth, encadernada em couro e com letras douradas na capa)
é a prova real, insofismável.
– Mas quem é o senhor? E como sabia do livro?
O estranho aproxima-se mais, toma-lhe o braço, fala devagar,
como se medisse cada palavra:
– É muito simples. Eu sei tudo sobre o senhor. E
quando digo tudo incluo os seus autores preferidos, os contos
e poemas que já escreveu ou está escrevendo, e até
mesmo aqueles que o senhor ainda vai escrever.
Teria ouvido direito? O estranho não estava falando sério.
E se tudo não passasse de mais um sonho? Como escreveu
o escritor inglês Dunne: “Através do sonho
o homem é capaz de ver seu passado próximo e seu
futuro imediato”. Sem dúvida, uma bela teoria mas
que ele não concordava inteiramente.
– Por que a dúvida? – perguntou o estranho.
– Sou um homem cheio de dúvidas, não tenho
nenhuma certeza a oferecer.
– Não é essa a espécie de dúvida
a que me refiro, e o senhor sabe muito bem. Pergunto se acredita
no que disse sobre os contos e poemas.
Pediu que o desculpasse mas realmente não dava para acreditar
em tudo. Sobre os contos e poemas já divulgados nos livros
era possível que de fato ele os conhecesse, os tivesse
lido; mas agora sobre os que estava escrevendo ou viria a escrever,
francamente!...
– E por que não? Eu sou um escritor. E cada escritor
também é um bruxo ou visionário. De uma forma
ou de outra, ele sempre sabe das coisas. Alguns dizem coisas aparentemente
absurdas, inaceitáveis, que os anos se encarregam de comprovar
que eles estavam certos. Júlio Verne, com suas histórias
fantásticas, foi um desses escritores maravilhosos. Um
bruxo formidável, não acha?
Então o estranho também era um escritor. Que maravilha!
E escrevia o quê? romance? conto? poema? Não importava
fosse qual fosse o gênero: era um companheiro de ofício
bem-vindo, teriam muito o que conversar. Mesmo não concordando
totalmente, achara muito simpática aquela idéia
de aproximar o escritor a um bruxo. Mas quem era finalmente?
– Para início de conversa, sou um escritor argentino.
Escrevo contos, poemas, ensaios, prólogos, só nunca
escrevi romances por razões bastantes óbvias: perdi
a visão muito cedo. Mas isto não me causa nenhum
constrangimento ou frustração. Sou um escritor muito
lento, tenho muita dificuldade para escrever, já imaginou
o que seria para mim escrever um romance? Embora digam que eu
sou melhor contista, agradam-me muito os poemas que escrevi. Prêmios?
São acidentes na vida de um escritor. Vale mais a obra.
A criação literária é a coisa menos
perecível de um escritor. Cada escritor fatalmente tem
um universo pessoal. O meu é povoado por tigres, espelhos,
labirintos, punhais...
– Só falta me dizer... – interrompeu, incrédulo.
– E por que não?
Realmente não dava para acreditar que não estivesse
sonhando ou tendo alucinações. Aproximou-se do estranho.
Tocou-lhe o rosto: o mesmo nariz, a mesma boca, a mesma face,
só mais envelhecida, algumas rugas mais; e a bengala? Como
ele, o estranho também se apoiava numa bengala.
– É isto mesmo. Eu sou Borges. Jorge Luis Borges.
Mas o outro Borges. Aquele a quem as coisas que o senhor escreve
acontecem.
A revelação o deixou atordoado. A voz ficou entalada
na garganta.
O outro sorri. Tenta tranqüilizá-lo.
– O senhor deve estar se perguntando: e eu quem sou? Naturalmente
que o senhor também é Borges. Jorge Luis Borges.
Mas é o Borges que vive para que o outro Borges, que sou
eu, escreva. – Pausa. Falou numa voz terna: – Sei
que é realmente difícil para o senhor acreditar
o que estou dizendo. Mas no momento certo o senhor compreenderá
(não direi com o tempo, porque o tempo não existe.
O tempo é apenas uma invenção dos homens).
Da mesma forma que lhe digo (parodiando William James que o senhor
admira): “A literatura produz a imortalidade, que o senhor
tanto teme”.
– Não sei não. Tenho lá minhas dúvidas.
Além do mais, o senhor não é real. O senhor
é uma visão, um sonho, sei lá o quê.
– Por que continua insistindo? Nada é mais real do
que o sonho. Nem mesmo a realidade. Ou melhor, aquilo que os homens
chamam de real, de realidade.
E lá se foram os dois andando por entre intermináveis
corredores de livros. Enquanto caminhavam, o outro recitava baixinho:
Ao
vagar pelas lentas galerias
Posso sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, que tem dado
Os mesmos passos nestes mesmos dias
Mas qual dos dois escreve este poema (...)?3
Ao
despedir-se, prometeu voltar a ver o escritor muito em breve.
Pense nisso: “A literatura é parte da realidade,
e não é menos real que o sonho dos homens e que
a escrita dos sonhos”.4 E continue escrevendo, companheiro.
O destino lhe reservou a imortalidade. Você verá.
Do espelho, no fundo do corredor, um tigre seguia com os olhos
o escritor que se afastava sussurrando:
el
sueño, los espejos, la mascara, el tigre...
(Tigre
no espelho)