Biografia / Bibliografia

Adrino Aragão

Adrino Aragão de Freitas nasceu em Manaus, no dia 6 de outubro de 1936. Formado em Direito, trabalhou no Banco do Brasil, instituição pela qual se aposentou. Já ganhou prêmios literários e tem trabalhos incluídos em diversas antologias. Pertence a várias entidades culturais, tais como: União Brasileira de Escritores – AM, Clube da Madrugada, Associação Nacional de Escritores e Sindicato de Escritores do Distrito Federal. Reside, atualmente, em Brasília. Obra de ficção: Roteiro dos vivos (Manaus, 1972), Inquietação de um feto (Manaus, 1976), As Três faces da esfinge (Natal, 1985), Tigre no espelho (1992). Publicou também A Verdadeira festa no céu: ficção infanto-juvenil (Brasília, 1991).

 

 

Textos Selecionados:

A Tigre no espelho

A cegueira já não o preocupava. Depois de todos esses anos aprendera a conviver com ela. E até mesmo tirar proveito para escrever os contos fantásticos que os leitores e críticos aplaudiam. O que o assustava era o pesadelo interminável que o acompanhava diariamente: espelhos, labirintos, punhais e tigres. Já não sabia dizer se eles apenas existiam em seus sonhos ou se eram reais. Como aconteceu instantes atrás em que se viu diante de espelhos com o rosto coberto por uma máscara de ferro: pensou em retirá-la mas não se via no espelho fazia muitos anos, temia que a máscara escondesse um outro rosto que ele não conhecia, talvez desfigurado como no filme O Fantasma da Ópera.
Fechou os olhos tentando expulsar os seus fantasmas. Respirou profundo. Até quando, meu Deus? Lembrou-se do que disse o velho monge quando visitou o Oriente: “Meu filho, chegará o dia em que o tigre emergirá do espelho e Tâmiris se banhará nas águas sagradas do Tibet”. Não apenas não compreendeu o que o velho monge quis dizer como não conseguira encontrar nos livros de psicologia o significado para o sonho que o perseguia desde a adolescência.
E se não tivesse dormido? Não é segredo que está ficando cego, começa a mergulhar num mundo de cores, sombras, vultos. Enxugou o suor que escorria pelo rosto. “Creio que sonho duas vezes. Uma antes de dormir e outra durante o sonho”.1
Súbito, sentiu no rosto uma brisa de mar. Ouviu rumores de mar se espatifando nas pedras. Mais um de seus delírios? Ah, o mar. Ora bravio, ora sereno. Quase sempre verde. Por vezes azul como o sonho de menino. E o menino fica a cavalgar uma onda mais alta. Solto e feliz como a gaivota que segue o barco dos pescadores. Ou então se põe a recolher conchas ou fazer castelos na areia: e a imaginação do menino viaja para outros mundos, com personagens estranhos, alguns deles extraídos das histórias contadas pela avó, outros da leitura de livros mágicos como os de Kipling, Mark Twain, Lewis Carroll, ou As mil e uma noites.
Pensou em chamar a secretária mas se lembrou de que ela havia saído para fazer compras, é preciso, a geladeira está quase vazia, vou ao supermercado mas não me demoro, sei que não adianta convidá-lo para ir comigo porque não vai querer arredar o pé, não enquanto não germinar de todo o poema ou conto que carrega dentro de si, dá pra ver estampado no rosto. Pelo visto, ainda tenho algum tempo de folga, não estou certa? Ela o conhecia, sabia que para ele um poema é como um fruto que só se deve colher quando está maduro, e aquele estava amadurecendo. Retomou o poema:

Penso num tigre. A meia-luz exalta
A vasta biblioteca laboriosa
E parece afastar as prateleiras...2
Ouviu passos. É você, Maria? Não, não dava pra ela ter voltado. É você, Stevenson? Também não houve resposta. Apoiou as mãos e o queixo sobre a bengala. Sorriu. Como não pensei antes? Ora, se não é... o amigo De Quincey! É você, não é De Quincey? Mas o outro (se é que existia mesmo outro na sala) permaneceu calado. Não adianta fingir... Eu sei que você está aí. Sempre brincalhão, não é? Silêncio. Sacudiu os ombros, parece que realmente fui abandonado pelos meus velhos amigos. Não é Maria, não é Stevenson nem De Quincey... certamente são os ratos farreando no forro da casa. Vou pedir a Maria que arme a ratoeira, pois o pobre Beppo, meu pobre gato velho, não consegue mais impor temor à rataria.
Apalpou a pequena mesa ao lado da cadeira de estofado. O livro estava do mesmo jeito que deixara. Deslizou os dedos pela página e começou a recitar baixinho o poema de Walt Whitman, que sabia de cor:

Ninguém vai entender meus versos,
se quiser interpretá-los
como performances literárias.

Voltou a ouvir passos. É você, Maria? Não houve resposta. Sentiu o velho gato se enroscando nas suas pernas. Você também ouviu, Beppo? Beppo responde com um miado. Coçou a cabeça de Beppo: Você não se envergonha? São os ratos que você devia afugentar.
Fechou os olhos e se pôs a murmurar trechos de poemas de Mallarmé.
O gato pulou do estofado e desapareceu da sala. O que foi? Ouviu novo miado. Não precisa reclamar, já compreendi...
Meditava agora sobre literatura, sonho e realidade, temas de sua próxima conferência aos estudantes universitários. O que é realidade e o que é sonho para alguém que é quase cego, enxerga apenas sombras e vultos? A realidade que ele conhecia vinha dos livros. Ou da lembrança dos tempos de infância e adolescência. (Só saía de casa com Maria, quase sempre para pequenos trajetos, ali por perto, não queria correr o risco de ser atropelado pelos carros que se agitavam no asfalto.) Vivia agora o sonho. A realidade do sonho. E sonhava a realidade. Concluiu irônico: Ah, meu bom poeta e amigo Mallarmé, concordo com você: o mundo existe para um livro. E divagou:

el sueño, los espejos, la mascara...

Decidiu ir à biblioteca. Com a mão esquerda apoiada no estofado e com a bengala, conseguiu levantar-se. Ufa, estou ficando velho, os anos começam a pesar, as pernas já não ajudam como antes.
Sai da sala e caminha pelo corredor comprido que conduz a outros corredores. Ele faz sozinho esse percurso todos os dias, conhece como ninguém cada palmo do chão, cada parede, cada porta, até chegar à biblioteca. Dobra à direita, segue em frente, dobra à esquerda, finalmente chega à biblioteca. É uma sala enorme, com escadas em caracol, longas prateleiras de livros, passagens muito estreitas e quase invisíveis onde há pouca claridade.
Com a mão vai tateando os livros na prateleira, reconhece cada um deles. Tenta alcançar o livro que deixara escondido atrás da Enciclopédia Britânica. Não o encontra. Com os dedos agitados, nervosos, apalpa os grossos volumes, não se teria enganado de prateleira? Nunca se sabe, sempre existe a possibilidade de um primeiro engano. Agora não restava mais dúvida: o livro sumira. Não dava para acreditar. Uma coisa não desaparece sem explicação. De certo, alguém o encontrou e pegou para ler. Quem sabe, a Maria? Não, ela jamais retiraria um livro da estante sem que ele soubesse. E então?

Os passos se repetem. Olha em redor. Ninguém. Era tudo muito estranho. Chegara a sentir a presença de alguém muito próximo. Esquece o livro, fica atento. Os passos vinham lá do fundo. Decidiu averiguar. Penetra pelos corredores. Os passos estavam sempre mais adiante. Até que se sentiu perdido em meio a corredores que ele não freqüentava ou até mesmo desconhecia. A razão é simples: quando se tem mais de quarenta anos, resta pouco tempo de vida pela frente, é preciso escolher quatro ou cinco autores para permanente leitura. O que não acontecia quando era jovem e podia ler tudo, clássicos e contemporâneos. Agora, quase cego, já não lia, os outros é que liam para ele, por isso se limitava a reler Shakespeare, Dante, Lugones, Chesterton e De Quincey. Labirinto, labyrinthos – eis a palavra correta, sussurra. O que é uma biblioteca senão um labirinto? Cada livro conduz a novos universos, a vários caminhos que se bifurcam. Não há portas para a saída, não existe o retorno.
– Não te angusties, companheiro. “Coragem! Que esses temores não ocupem o teu pensamento” (Odisséia, Canto XXIV).
A voz era fraca, quase inaudível, mas lhe pareceu familiar.
– É você, De Quincey?
O homem alto, cabelos ralos e muito brancos, uns noventa anos, sorriu.
– Não, não sou De Quincey – respondeu. E oferecendo o livro que trazia na mão: – Eis o livro que o senhor procura.
A voz. Conhecia aquela voz. Tudo muito estranho. Não, não podia estar sonhando, não desta vez: o livro (ele apalpou o livro, era o mesmo, uma edição raríssima de Macbeth, encadernada em couro e com letras douradas na capa) é a prova real, insofismável.
– Mas quem é o senhor? E como sabia do livro?
O estranho aproxima-se mais, toma-lhe o braço, fala devagar, como se medisse cada palavra:
– É muito simples. Eu sei tudo sobre o senhor. E quando digo tudo incluo os seus autores preferidos, os contos e poemas que já escreveu ou está escrevendo, e até mesmo aqueles que o senhor ainda vai escrever.
Teria ouvido direito? O estranho não estava falando sério. E se tudo não passasse de mais um sonho? Como escreveu o escritor inglês Dunne: “Através do sonho o homem é capaz de ver seu passado próximo e seu futuro imediato”. Sem dúvida, uma bela teoria mas que ele não concordava inteiramente.
– Por que a dúvida? – perguntou o estranho.
– Sou um homem cheio de dúvidas, não tenho nenhuma certeza a oferecer.
– Não é essa a espécie de dúvida a que me refiro, e o senhor sabe muito bem. Pergunto se acredita no que disse sobre os contos e poemas.
Pediu que o desculpasse mas realmente não dava para acreditar em tudo. Sobre os contos e poemas já divulgados nos livros era possível que de fato ele os conhecesse, os tivesse lido; mas agora sobre os que estava escrevendo ou viria a escrever, francamente!...
– E por que não? Eu sou um escritor. E cada escritor também é um bruxo ou visionário. De uma forma ou de outra, ele sempre sabe das coisas. Alguns dizem coisas aparentemente absurdas, inaceitáveis, que os anos se encarregam de comprovar que eles estavam certos. Júlio Verne, com suas histórias fantásticas, foi um desses escritores maravilhosos. Um bruxo formidável, não acha?
Então o estranho também era um escritor. Que maravilha! E escrevia o quê? romance? conto? poema? Não importava fosse qual fosse o gênero: era um companheiro de ofício bem-vindo, teriam muito o que conversar. Mesmo não concordando totalmente, achara muito simpática aquela idéia de aproximar o escritor a um bruxo. Mas quem era finalmente?
– Para início de conversa, sou um escritor argentino. Escrevo contos, poemas, ensaios, prólogos, só nunca escrevi romances por razões bastantes óbvias: perdi a visão muito cedo. Mas isto não me causa nenhum constrangimento ou frustração. Sou um escritor muito lento, tenho muita dificuldade para escrever, já imaginou o que seria para mim escrever um romance? Embora digam que eu sou melhor contista, agradam-me muito os poemas que escrevi. Prêmios? São acidentes na vida de um escritor. Vale mais a obra. A criação literária é a coisa menos perecível de um escritor. Cada escritor fatalmente tem um universo pessoal. O meu é povoado por tigres, espelhos, labirintos, punhais...
– Só falta me dizer... – interrompeu, incrédulo.
– E por que não?
Realmente não dava para acreditar que não estivesse sonhando ou tendo alucinações. Aproximou-se do estranho. Tocou-lhe o rosto: o mesmo nariz, a mesma boca, a mesma face, só mais envelhecida, algumas rugas mais; e a bengala? Como ele, o estranho também se apoiava numa bengala.
– É isto mesmo. Eu sou Borges. Jorge Luis Borges. Mas o outro Borges. Aquele a quem as coisas que o senhor escreve acontecem.
A revelação o deixou atordoado. A voz ficou entalada na garganta.
O outro sorri. Tenta tranqüilizá-lo.
– O senhor deve estar se perguntando: e eu quem sou? Naturalmente que o senhor também é Borges. Jorge Luis Borges. Mas é o Borges que vive para que o outro Borges, que sou eu, escreva. – Pausa. Falou numa voz terna: – Sei que é realmente difícil para o senhor acreditar o que estou dizendo. Mas no momento certo o senhor compreenderá (não direi com o tempo, porque o tempo não existe. O tempo é apenas uma invenção dos homens). Da mesma forma que lhe digo (parodiando William James que o senhor admira): “A literatura produz a imortalidade, que o senhor tanto teme”.
– Não sei não. Tenho lá minhas dúvidas. Além do mais, o senhor não é real. O senhor é uma visão, um sonho, sei lá o quê.
– Por que continua insistindo? Nada é mais real do que o sonho. Nem mesmo a realidade. Ou melhor, aquilo que os homens chamam de real, de realidade.
E lá se foram os dois andando por entre intermináveis corredores de livros. Enquanto caminhavam, o outro recitava baixinho:

Ao vagar pelas lentas galerias
Posso sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, que tem dado
Os mesmos passos nestes mesmos dias
Mas qual dos dois escreve este poema (...)?3

Ao despedir-se, prometeu voltar a ver o escritor muito em breve. Pense nisso: “A literatura é parte da realidade, e não é menos real que o sonho dos homens e que a escrita dos sonhos”.4 E continue escrevendo, companheiro. O destino lhe reservou a imortalidade. Você verá.
Do espelho, no fundo do corredor, um tigre seguia com os olhos o escritor que se afastava sussurrando:

el sueño, los espejos, la mascara, el tigre...

(Tigre no espelho)

 
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