:: ARTIGO ::
* Por Marco Adolfs

 

 

 

 

Contos Minimalistas

No Escuro


            A mulher está sentada na soleira da porta. Um dos olhos inchado e roxo pela sova que tomara um pouco antes. Ele aproximou-se com a cara fechada.
             --- Tudo bem? --- perguntou.
             Maria levantou-se.
             --- Está doendo muito --- disse.
             Ele passou a mão em sua cabeça e falou.
             --- Cê tem que aprender a não me contrariar... Não vê que eu também te dou muito carinho..?...Então?
               Ela respondeu:
               --- Quase me matou...
               Ele olhou para ela e explicou.
               --- Foi raiva e vontade de te dar um susto... Vê se me deixa em paz, que tudo fica bem.
               --- Mas gosta de bater em mim toda vez que chega bêbado --- ela reclamou, chorosa.
               --- E tu não gosta!? --- ele retrucou, com um sorriso cínico no rosto.
               Ela abaixou a cabeça e tentou esquecer tudo.
               --- Tá faltando comida... Tive que pedir dos vizinhos --- falou de volta, ainda cabisbaixa.
               --- Toma aqui --- ele falou, enquanto retirava algum dinheiro do bolso. --- Compra o que precisa.
               Dizendo isso ele caminhou até o quintal que existia nos fundos de seu barraco. Gostava de ficar ali, sentado, pensando na vida, bebendo e passando a mão na cabeça de uma ovelha que havia achado perdida na rua e resolvera adotar como bicho de estimação.
                Ela pensou que, com aquele dinheiro, poderia comprar uma cartela de ovos e um quilo de carne. Colocou o dinheiro no sutiã e foi até ele com um sorriso no rosto. Ele já havia bebido meia garrafa de rum e parecia estar cochilando. Quando percebeu sua presença, puxou-a por um dos braços.
                  --- Vem cá.
                  Ela sentou em seu colo e ele começou a lhe dar uns beijos.