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Por Marco Adolfs |
CONTOS AMAZÔNICOS
O CESTO DE CORIACIRA
Por Marco Adolfs
Já havia algum
tempo que a moça levava a vida a se esconder do mundo. Retraída
e tímida, passava as manhãs, tardes e noites tecendo cestos
e redes em um canto, quase sem parar. “Por que essa menina não
quer mais sair de casa e ver a vida lá fora?”, comentava
o pai. “Por que não passeia na terra molhada pela chuva,
menina?” perguntava-lhe a mãe. Mas Coriacira nada respondia,
apenas abaixava a cabeça torcendo os punhos no miriti e no tucum.
Porém, enquanto todos naquela casa seguiam as suas vidas assim,
Curupira se aproximou para saber melhor. Há tempos que o maldito
vinha raptando as moças do lugar. Agora, chegara a vez de Coriacira.
Quando deu meia-noite, Curupira
entrou na casa e viu Coriacira tecendo um cesto.
--- Que cesto bonito você
teceu, Coriacira --- disse Curupira, disfarçado de bom homem.
--- Quer fazer um pra mim?
Coriacira olhou aquele homem de
gestos lentos e apaziguados e perguntou:
--- Quem é o senhor para
invadir a minha casa a esta hora da noite?
--- Não tenhas medo, Coriacira
--- respondeu o Curupira. --- Só quero um cesto igual a este.
Bem grande. Do tamanho de uma pessoa.
Coriacira desconfiou do pedido
daquele homem estranho e então falou:
--- Farei um bem grande. Volta
daqui a uma semana que ele estará pronto.
Curupira então foi embora.
Passada uma semana, Curupira voltou.
--- E então moça
bonita? Fizeste o que te pedi?
--- Fiz.
--- E onde está?
--- Dentro daquele quarto --- respondeu
Coriacira. --- Abre aquela porta e verás que ele está
lá dentro.
Curupira então correu para
abrir a porta do quarto. Quando entrou, Coriacira levantou-se e trancou
a porta rapidamente.
Curupira percebeu que tinha entrado
em um enorme cesto que, assim que a porta se fechou, fecharam-se também
suas abas. Tinha caído na armadilha de Coriacira e gritou o grito
mais medonho que aquele lugar já havia escutado.
Foi quando apareceu o seu pai e
a sua mãe que de tudo já sabiam.
O pai abriu a porta e deu um tiro
no Curupira assanhado.
Coriacira foi então muito
festejada pelo mundo lá de fora. E, desde aquele dia, passara
a vender, de porta em porta, seus cestos para pegar bicho assanhado
e medonho igual ao Curupira.