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Víctor Gondim
FESTA
IMODESTA
Ao
receber o convite para esta festa, curso de Teoria
da Literatura I veio–me a imagem de uma festa imodesta,
no dizer de Caetano Veloso e por outro lado, a lembrança
do livro A Expressão Amazonense, de Márcio Souza.
Bem! De que forma as imagens se associam por confronto? Justamente,
na forma do reconhecimento de que vivemos um tempo em que se confundem
a democratização do saber e a banalização
da informação, como fenômeno geral da sociedade
de massa. Sendo a festa imodesta o rompimento crítico com
o trivial na expressão amazonense e na expressão
da sociedade de massa.
Rompimento que se deve construir todo dia, na dureza do cotidiano.
E como exemplo histórico gostaria de fazer uma referência
analítica aos gestos acadêmicos dos professores Artemis
Veiga, Berenice Carvalho, Marcos Frederico Krüger e Neide
Gondim. Claro, esta é a minha versão.
Quando iniciei o curso de Letras em 1983, não existiam
editoras estruturadas, como hoje existem a Editora da Universidade
Federal do Amazonas e a Editora Valer. A publicação
de livros, como ato de produção gráfica e
divulgação, fazia parte da preocupação
direta do escritor.
Assim, as iniciativas eram esforços isolados, geralmente
com o apoio da Imprensa Oficial, o qual estava condicionado ao
“bom comportamento” do escritor diante do poder instituído.
É verdade que, às vezes, quem se rebelava tinha
um perdão circunstancial, através de uma generosidade
mal vigiada. Além da Imprensa Oficial, havia impressão
de livros nas gráficas privadas, numa freqüência
menor ainda; já que o custo era bem maior do que na Imprensa
Oficial, onde muitas vezes a impressão era gratuita.
Do outro lado desta história, está a imagem do leitor
da produção literária amazonense. Onde ele
estava socialmente e quem era ele, quais os seus caracteres? Em
primeiro lugar, eram os próprios escritores. Por exemplo,
quando Anthístenes Pinto publicava, os colegas liam. E
o livro virava tema das polêmicas no bar Caldeira, ou principalmente,
no bar do Armando. Em segundo lugar, os amigos dos escritores
liam, pelo menos compravam; muitas vezes, sob pressão direta
do próprio escritor-editor. Em terceiro, os leitores incidentais,
ou seja, alunos de professores que tinham a amizade dos escritores,
fosse no primeiro e segundo graus, fosse na Universidade (UA ou
Utam). E, por último, os leitores acidentais, que em desvio
forçado por um acidente qualquer esbarravam com a produção
literária amazonense. Acessavam os livros por uma motivação
assistemática e também circunstancial.
Podemos localizar num paralelo simplista, este perfil editorial
na cidade de Manaus ao perfil editorial da época colonial
no Brasil. Excetuando os escritores-leitores e os leitores que
se tornavam escritores, a tendência era o esquecimento,
numa gravidade tal que Márcio Souza registra da seguinte
maneira no livro A Expressão Amazonense: “Em Manaus,
um livro se torna raro em menos de dez anos da data da sua publicação”.
O que não era propriamente um exagero, de incompreensível
que era a produção literária e às
vezes, era o non sense mesmo.
Não
quero tratar aqui se a linguagem era complexa, sofisticada ou
não. A questão se desdobra sobre um imaginário
coletivo que não consegue assimilar o livro da produção
literária amazonense como objeto de produção
e socialização do saber. Parece que o sentido emergente
naquele momento histórico é: “ este livro
não está autorizado a produzir saber, nem deleite
estético”. De modo que a produção de
fala em torno destes livros era pouca ou nenhuma.
Na imprensa, a circulação não era muito diferente.
O comentário ou a crítica tinha a ver mais com as
relações pessoais entre o jornalista e o escritor.
Não havendo um trabalho sistemático de produção
crítica e de historicização da produção
literária amazonense. Enfim, as falas e os dizeres haviam,
mas não com a força de um mercado editorial, mesmo
que insipiente.
O lugar onde estas falas e dizeres serão catalisados e
tratados em sintonia com o trabalho da crítica literária
nacional, será na Universidade Federal do Amazonas. Ártemis
Veiga, Berenice Carvalho, Marcos Frederico Krüger e Neide
Gondim tomam para si o desafio de autorizar institucionalmente
a produção literária amazonense, através
de uma análise teórica (e crítica) competente,
sistemática e interessada. O que tem contribuído
para o desenvolvimento da produção literária
e do mercado editorial amazonense.
Eles foram e têm sido responsáveis pela formação
de um trabalho teórico e crítico, o qual possui
como marca indiscutível a ternura e a responsabilidade
no trato das leituras em torno da nossa produção
literária, contextualizando-a na história da literatura
e da crítica nacional. Isto tem gradativamente tirado a
auto-estima dos poetas e prosadores da solidão improdutiva
e ofertado recursos para leitores e professores que desejem se
engajar na proposta do Márcio Souza ensaísta –
de pensar a expressão cultural amazonense e seus efeitos
sobre a organização material da sociedade.
Por exemplo, e afinal de contas, foi apoiado na Dissertação
de Mestrado do professor Marcos Frederico Krüger Introdução
à Poesia no Amazonas que Tenório Telles se orienta
para iniciar o trabalho de crítica literária sobre
os principais autores amazonenses; trabalho destinado, no primeiro
momento, a servir de subsídio (de base) para os estudantes
do vestibular de 1991, pois material a respeito dos autores listados
no programa era escasso, embora muitos dos autores ainda estivessem
vivos.
Quando a professora Sandra e o professor Marcos Frederico me convidaram
para ministrar Teoria Literária, pensei que a responsabilidade
de um professor universitário deve ser, sempre que possível
a de transformar a sua aula numa festa produtiva, e por isto mesmo,
imodesta. Lembrei de que Ártemis Veiga, Anthístenes
Pinto, Berenice Carvalho, Marcos Frederico Krüger, Neide
Gondim, Paulo Graça, Tenório Telles, Zé Maria
Pinto e tantos outros têm transformado a produção
literária amazonense numa festa imodesta. Vale a pena registrar
que o professor Marcos Frederico Krüger foi um dos principais
responsáveis, numa contribuição imprescindível,
para a construção do pensamento crítico-literário
no Amazonas.
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