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*Ronaldo Correia de Brito
E
mesmo assim continuamos escrevendo
O
escritor busca comunicar-se com seu público. Uns de forma
serena e outros, desvairados, correm atrás de quem os leia,
ou escute, ou aplauda

possível que eu tenha me apropriado da lenda, e contado
como se fosse minha. Freud se refere a essa apropriação,
no livro sobre os sonhos. Uma paciente relata uma história
que ouvira de um amigo, e ao narrá-la é como se
falasse de si mesma. Freud escuta, elabora, e também conta
a história como se fosse dele.
Dizem
que o chinês Lao Tsé, que viveu no século
VI antes de Cristo, abandonou a vida na corte quando completou
40 anos de idade. Recolheu-se à floresta até os
80 anos, e nesse tempo de ascese e meditação escreveu
o Tao Te King, livro que é a base do pensamento e da educação
chinesa, junto com as obras do filósofo Confúcio.
Lao Tsé, fiel ao Taoísmo que ensina que pelo não-agir
tudo é agido, entrega o seu manuscrito a um guarda de fronteira,
nada fala sobre ele, nada recomenda, e vai embora. Por conta desse
misterioso não-fazer ou não-interferir, que tudo
realiza e resolve, o livro cumpriu seu destino, virou ensinamento
para milhões de pessoas, e chegou até nós.
O
contista mineiro Francisco Mendes, quando lhe narrei a lenda,
perguntou-me quem é o nosso guarda de fronteira. A quem
nós entregaremos os manuscritos ao abandonarmos a floresta?
Eis a metáfora do escritor. Porque ninguém mais
“enche de silêncio o coração e contempla
isento de desejos o incessante vaivém do mundo”.
O escritor busca comunicar-se com seu público. Uns de forma
serena e outros desvairados correm atrás de quem os leia,
ou escute, ou aplauda.
Ao
mesmo tempo em que precisa do exercício silencioso da criação,
de estar sozinho trabalhando, o mundo cobra cada dia mais que
ele chegue ao limite de sua resistência, cumprindo uma maratona
de conferências, entrevistas, artigos, uma exposição
do corpo e da alma para ser visto, não esquecido, lido,
cortejado. Já não existem florestas, nem guardas.
Poucos sobrevivem ao novo enigma da esfinge: preserva-te e serás
esquecido ou mostra-te e serás devorado.
O
prazeroso ou atormentado exercício da escrita tem pouco
a ver com o giro pelo mundo, à cata de leitores. Pouco
a ver com a caça aos prêmios. “São nuvens
de palavras / meu tormento. / O peito em desejo, / sempre aberto:
/ fogo estranho que reluz / na noite escura / de São João
da Cruz. / Nuvens: / rebanho de pensamentos. / Sopra do céu
um vago lamento, / como um risco de luz, / na noite escura / de
São João da Cruz.”* Escreveu o poeta Everardo
Norões, que escolheu o exílio dentro da poesia.
Os
artistas que não assinaram suas obras, anônimos sem
temor ao esquecimento, “se ergueram às alturas sem
desejos, e encheram de silêncio o coração”.
Talvez esses, talvez, tenham conhecido a alegria de criar pela
mesma razão porque respiram, pulsam e amam. Criar para
viver e viver para criar. E só. E tanto. “Rolar dentro
de si / como a pedra no poço. / Do arco do corpo / desencadear
o sopro. / Avistar / onde o olhar não alcança: /
ler os passos de Deus / dentro da dança.”* Também
escreveu Everardo Norões, de dentro do seu exílio.
Buscar
uma medida exata do que significa a criação na arte.
Há diferenças no fazer e no criar? Ou tudo é
um mesmo esquecimento de si? O artista popular Raimundo Aniceto,
da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do Crato, no
Ceará, deu-me uma lição que nunca esqueci.
Fui
visitá-lo numa véspera da festa de Santo Antônio.
Ele se arrumava para a noite que passaria sem dormir, tocando
e dançando. A esposa cozinhava o jantar e o olhava de vez
em quando, enternecida. Eu fazia perguntas sobre a música
que ele tocava, sobre a dança, a história da banda.
Vasculhava lá dentro dele para descobrir as pistas de um
gênio do povo. Acredito que os meus elogios e as perguntas
o incomodavam. Raimundo parecia indiferente à personificação
do artista que eu traçava para ele. De repente, levantou-se
da cadeira, me chamou, e eu o acompanhei até um quarto
de porta fechada. Ele abriu a porta e mostrou-me o interior do
cômodo. Não compreendi. Pensei que me mostraria alguns
instrumentos raros, que confeccionara e tocava. Não. Ele
apontou sacos de arroz, feijão e milho empilhados uns sobre
os outros. Eu plantei e colhi tudo isso, falou-me sorridente.
Bela
lição que jamais esqueci. Todos os ofícios
são sagrados, e o escritor não é mais que
o padeiro, nem o carpinteiro, nem o pintor de paredes. Deus não
prefere o músico ao pescador, como preferiu o Abel que
pastorava ovelhas ao Caim que cultivava a terra. “O sábio
tudo realiza, e nada considera seu. Tudo faz, e não se
apega à sua obra”, escreveu Lao Tsé. Talvez
por isso tenha deixado os seus originais nas mãos de um
desconhecido, sem importar-se com que destino teria. O guarda
não era um editor renomado, não programou lançamento,
não traçou planos de mídia, não inscreveu
o livro em concurso literário. E mesmo assim ele fez carreira,
vive há dois mil e seiscentos anos. Mas isso é uma
lenda, e não existem guardas de fronteira como os antigos.
O poeta busca a medida entre o ato solitário da criação
e o mundo que o ignora ou traga.
“Dessoletro-me
sozinho
Neste canto de sala.
O vulto vem e espreita.
Mais nada...”*
*
Everardo Norões, no livro A Rua do Padre Inglês.
* Ronaldo Correia de Brito é médico
e escritor. Publicou os livros de contos As Noites e os Dias,
Faca e O Livro dos Homens.
*
Artigo extraído da revista Continente Multicultural - Outubro
de 2006
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