uito
se tem falado que o déficit de leitura no Brasil só
pode ser solucionado com um maciço investimento em alfabetização,
vindo de iniciativas privadas ou públicas. Puro engano.
Ensinar as pessoas a escrever os respectivos nomes não
contribui para o aumento dos livros lidos e não fermenta
o nosso mercado editorial.
Precisamos, sim, de um programa baseado no conceito de letramento.
Justificando: a pessoa toma gosto pela leitura somente quando
entende o que está lendo e constrói mentalmente
os cenários descritos, envolvendo-se com cada uma das
páginas, letra a letra. Esse contexto, embora óbvio
e essencial, está presente em menos de 10% das escolas
e universidades brasileiras, segundo dados que obtive junto
a profissionais dessa área.
A explicação: na maioria das instituições,
crianças e adolescentes são submetidos a tarefas
desgastantes, principalmente a de ler livros “difíceis”
e, posteriormente, realizar uma prova sobre a história,
conflitos e personagens apresentados. Atividades como essa contribuem
e muito para que, infelizmente, leitores traumatizados e angustiados
se afastem definitivamente dos livros, por melhor que estes
sejam. Fica claro, então, que a leitura, seja ela em
âmbito escolar ou em qualquer outro espaço, não
deve ser obrigatório, e sim estimulado a todo instante.
Uma alternativa é deixarmos de lado as normas existentes
e desenvolvermos atividades associadas ao letramento, apresentado
anteriormente. O método: professores apresentam, durante
as aulas, tarefas editoriais e educacionais, como, por exemplo,
a encenação de um trecho do livro, e mostram,
para as crianças e adolescentes, que a leitura é
importante para despertar a criatividade, enriquecer o vocabulário,
escrever corretamente e até mesmo construir novas amizades.
Com essa estratégia funcionando corretamente damos início
a uma verdadeira mudança, boa para todos os lados. Ganha
o mercado editorial, que passa a oferecer um produto agradável
e não simplesmente volumes repletos de palavras. Ganha
o autor, que passa a ter uma relação mais particular
com cada leitor. Ganha também o próprio leitor,
que passa a se engajar em ultrapassar as fronteiras do conhecimento,
em traçar as metas ousadas e em devorar Machado de Assis,
sir Arthur Conan Doyle e as mais complicadas obras de Gabriel
García Márquez.
Precisamos, portanto, instituir urgentemente este tipo de programa
e tirar a “pedra” que existe entre o leitor e o
livro. O investimento é relativamente baixo e o retorno
será surpreendente. Por que não começamos
agora? Vamos refletir. Como conquistar novos leitores? Esse
será, com certeza, o grande desafio do mercado editorial
em 2007.
Resumindo: temos de organizar e protagonizar uma verdadeira
revolução no mundo das letras, inspirados em Policarpo
Quaresma, que buscava um Brasil melhor e mais humano. Influenciados
pelo Capitão Rodrigo, que não mediu esforços
para derrotar o exército inimigo.
Sugiro, inicialmente, duas propostas: a primeira é a
imediata inclusão do programa de letramento como disciplina
básica da primeira série de todas escolas brasileiras,
sejam elas públicas ou privadas. É desde cedo
que o ser humano procura algo prazeroso e recebe um leque de
oportunidades. Vamos oferecer a ele a chance de enxergar o mundo
do livro como algo saboroso. Isso cabe ao governo e a nós,
que devemos cobrá-lo.
A segunda proposta é disponibilizar atividades editoriais
para alunos e escolas. Como atividades editoriais lê-se
visitas às editoras e acompanhamento da diagramação
e impressão dos livros, além, é claro,
da observação da rotina de trabalho dos profissionais
que fazem os escritos virarem obras, algumas até clássicas.
Isso cabe ao mercado editorial.
Com essas propostas, nossa meta passa a ser ainda mais ousada:
fazer do livro um companheiro do abajur, da mesa do computador
e da pia do banheiro. Ele, em poucas palavras, deve, o quanto
antes, ser incorporado ao cotidiano dos brasileiros. O resultado
será, facilmente, medido por meio de pesquisas junto
aos novos leitores, que abordariam a quantidade de livros lidos
antes e depois da implantação do programa de letramento.
Mas, também, com base na análise das vendas das
livrarias. Quem gostar de um livro, vai certamente comprar outro,
seja de um mesmo autor, de um mesmo gênero ou de tema
totalmente diferente.
Provaremos, com isso, que o déficit de leitura existia
porque faltava oportunidade e, principalmente, incentivo aos
leitores. Vamos mudar esse quadro. 2007 tem tudo para ser o
ano da revolução da leitura.
*
Rodrigo Capella é escritor, poeta e jornalista - Esse
artigo faz parte da edição de dezembro da revista
Panorama Editorial