:: ARTIGO :: Rodrigo Capella*
 
Manaus, janeiro 2007

Como conquistar novos leitores

 

uito se tem falado que o déficit de leitura no Brasil só pode ser solucionado com um maciço investimento em alfabetização, vindo de iniciativas privadas ou públicas. Puro engano. Ensinar as pessoas a escrever os respectivos nomes não contribui para o aumento dos livros lidos e não fermenta o nosso mercado editorial.
Precisamos, sim, de um programa baseado no conceito de letramento. Justificando: a pessoa toma gosto pela leitura somente quando entende o que está lendo e constrói mentalmente os cenários descritos, envolvendo-se com cada uma das páginas, letra a letra. Esse contexto, embora óbvio e essencial, está presente em menos de 10% das escolas e universidades brasileiras, segundo dados que obtive junto a profissionais dessa área.
A explicação: na maioria das instituições, crianças e adolescentes são submetidos a tarefas desgastantes, principalmente a de ler livros “difíceis” e, posteriormente, realizar uma prova sobre a história, conflitos e personagens apresentados. Atividades como essa contribuem e muito para que, infelizmente, leitores traumatizados e angustiados se afastem definitivamente dos livros, por melhor que estes sejam. Fica claro, então, que a leitura, seja ela em âmbito escolar ou em qualquer outro espaço, não deve ser obrigatório, e sim estimulado a todo instante.
Uma alternativa é deixarmos de lado as normas existentes e desenvolvermos atividades associadas ao letramento, apresentado anteriormente. O método: professores apresentam, durante as aulas, tarefas editoriais e educacionais, como, por exemplo, a encenação de um trecho do livro, e mostram, para as crianças e adolescentes, que a leitura é importante para despertar a criatividade, enriquecer o vocabulário, escrever corretamente e até mesmo construir novas amizades.
Com essa estratégia funcionando corretamente damos início a uma verdadeira mudança, boa para todos os lados. Ganha o mercado editorial, que passa a oferecer um produto agradável e não simplesmente volumes repletos de palavras. Ganha o autor, que passa a ter uma relação mais particular com cada leitor. Ganha também o próprio leitor, que passa a se engajar em ultrapassar as fronteiras do conhecimento, em traçar as metas ousadas e em devorar Machado de Assis, sir Arthur Conan Doyle e as mais complicadas obras de Gabriel García Márquez.
Precisamos, portanto, instituir urgentemente este tipo de programa e tirar a “pedra” que existe entre o leitor e o livro. O investimento é relativamente baixo e o retorno será surpreendente. Por que não começamos agora? Vamos refletir. Como conquistar novos leitores? Esse será, com certeza, o grande desafio do mercado editorial em 2007.
Resumindo: temos de organizar e protagonizar uma verdadeira revolução no mundo das letras, inspirados em Policarpo Quaresma, que buscava um Brasil melhor e mais humano. Influenciados pelo Capitão Rodrigo, que não mediu esforços para derrotar o exército inimigo.
Sugiro, inicialmente, duas propostas: a primeira é a imediata inclusão do programa de letramento como disciplina básica da primeira série de todas escolas brasileiras, sejam elas públicas ou privadas. É desde cedo que o ser humano procura algo prazeroso e recebe um leque de oportunidades. Vamos oferecer a ele a chance de enxergar o mundo do livro como algo saboroso. Isso cabe ao governo e a nós, que devemos cobrá-lo.
A segunda proposta é disponibilizar atividades editoriais para alunos e escolas. Como atividades editoriais lê-se visitas às editoras e acompanhamento da diagramação e impressão dos livros, além, é claro, da observação da rotina de trabalho dos profissionais que fazem os escritos virarem obras, algumas até clássicas. Isso cabe ao mercado editorial.
Com essas propostas, nossa meta passa a ser ainda mais ousada: fazer do livro um companheiro do abajur, da mesa do computador e da pia do banheiro. Ele, em poucas palavras, deve, o quanto antes, ser incorporado ao cotidiano dos brasileiros. O resultado será, facilmente, medido por meio de pesquisas junto aos novos leitores, que abordariam a quantidade de livros lidos antes e depois da implantação do programa de letramento. Mas, também, com base na análise das vendas das livrarias. Quem gostar de um livro, vai certamente comprar outro, seja de um mesmo autor, de um mesmo gênero ou de tema totalmente diferente.
Provaremos, com isso, que o déficit de leitura existia porque faltava oportunidade e, principalmente, incentivo aos leitores. Vamos mudar esse quadro. 2007 tem tudo para ser o ano da revolução da leitura.

 

* Rodrigo Capella é escritor, poeta e jornalista - Esse artigo faz parte da edição de dezembro da revista Panorama Editorial

 
 
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