:: CONTO ::
 


Mania de Limpeza

Por Marco Adolfs


la limpava tudo, todos os dias. Era compulsivo. Até chegar ao ponto de limpar-se metodicamente. Aquele objeto pecaminoso chamado corpo que insistia em  digladiar-se com o espírito.
--- Eu preciso limpar, Alfredo! --- justificava a um marido perplexo. --- Tu não entendes isso!? --- completava.
--- Mas querida, está demais!
Ela começou a chorar.
Alfredo já desistira de querer entender tudo aquilo. Mesmo porque já entendia. Todos lhe afiançavam que ela era doente. Mania de limpeza, falaram. 
--- A mamãe está exagerando em tudo. --- comentou a filha mais velha. --- Não deixa de limpar nada --- completou. Ela tem que ir a um psicanalista, papai ---  finalizou, taxativa.
Determinado dia ela estava sentada, a contragosto, na sala de espera de um consultório de psicanalista. Olhando uma silenciosa atendente que lia uma revista por trás do balcão da recepção. O marido, sentado ao seu lado, dando-lhe o apoio moral necessário.
--- Meu amor, entenda --- dizia-lhe, baixinho. --- Uma das manias que mais afetam o relacionamento familiar é essa mania de limpeza. --- fez observar. E você, cá pra nós, já estava perdendo o controle.
O marido terminara de falar e o som de uma campainha, vinda lá de dentro do consultório, tocou na recepção. A atendente deixou a revista de lado e falou.
--- Vocês podem entrar, o doutor está esperando.
--- Obrigado --- disse o marido. --- Vamos querida.
Ela levantou-se meio que travada e sentindo um medo terrível do que poderia acontecer lá dentro.
O consultório do doutor era, à primeira vista, aconchegante e limpo. Pelo menos para uma pessoa normal. Logo de entrada, dominando a visão, havia uma ampla mesa de mogno escuro, com o tampo repleto de papéis, revistas e alguns porta-retratos. Embaixo da mesa via-se um tapete que, devido ao tamanho, ainda recebia os pés de duas confortáveis cadeiras localizadas de frente para a mesa. Ao fundo, destacava-se uma estante repleta de livros, miniaturas de carros e estatuetas as mais variadas. Na única janela que havia ao lado, uma cortina pesada fechava qualquer possibilidade de luz. Havia ainda a um canto, uma poltrona grande e um abajur numa mesinha, onde um livro de capa vermelha descansava ao lado de um cinzeiro com um charuto apagado. Uma certa escuridão no lugar, com apenas uma lâmpada acesa, proporcionava um aspecto lúgubre ao ambiente. Tudo isso ela viu num relance de milésimos de segundos e um pavor enorme a fez suar frio. Segurava firmemente a mão do marido.
--- Pois não --- disse friamente o doutor, levantando-se. --- Sentem-se --- ordenou apontando para as duas poltronas e inclinando ligeiramente a cabeça para poder enxergar melhor, por cima dos aros dos óculos, os visitantes.
--- É ela, doutor --- disse timidamente o marido ---; minha mulher.
--- Qual é o problema?
--- ...Sofre de mania de limpeza. --- completou o marido.
--- Humm...
--- Bom..., acho que ela mesma pode lhe dizer o que acontece.
A mulher olhou para o marido e abaixou a cabeça. Suas mãos tremeram e ela quase gritou, ao ver uma barata morta, embaixo da mesa.
--- Clarice?...Dona Clarice! 
--- Sim, doutor --- disse, olhando para o médico.
--- Vamos conversar sobre isso, ok!? Tá bom, dona Clarice?...Fique tranqüila.
Ela balançou a cabeça, concordando.
--- Vou ter que ficar sozinho com ela --- disse o médico, olhando de volta para o marido. --- O senhor, por favor, espere lá fora --- pediu.
Ela quase desmaiou, ao escutar isso.
--- Fique tranqüila, minha senhora. Vamos apenas conversar.
--- Confie no doutor, querida. Confie.
O marido então saiu.
O psicanalista era um homem de seus sessenta anos de idade, olhar miúdo e concentrado, nariz aquilino e uma boca de lábios grossos. Um cavanhaque grisalho lhe dava um ar professoral. Vestia uma bata verde. Levantou-se e pediu a ela que o acompanhasse até a poltrona ao lado do abajur. Puxava a sua cadeira de rodinhas e ordenou que ela se sentasse naquela poltrona.
Ela sentia asco e azia por ter de fazer tudo aquilo. Mas, pensava que precisava fazer por causa de sua família. E dela mesma. Sentou-se, quase deitada, naquela poltrona, e pediu para que ele retirasse o cinzeiro de perto. Ele pegou o cinzeiro e colocou-o em cima da mesa. Sentou-se na cadeira, por trás dela e retirou um bloquinho de anotações do bolso começando por anotar qualquer coisa.
--- Vamos começar!?
Ela balançou a cabeça concordando.
--- Me fale de seu problema e de como os outros vêem a senhora com ele?
Ela ajeitou-se um pouco mais na poltrona e começou a falar.
---...Sabe doutor...Ele lhe falou...O meu marido...Eu não posso ver nada sujo que vou lá e limpo...Eles acham que é uma doença...Eu não vejo assim...Mas pode ser que eu deseje tudo bem limpo, sim... Mas, sabe...Por alguma força mais forte do que eu, tenho que limpar...Eles saem de perto...Vão para bem longe de onde eu estou...Fico contrariada...Quero ver a casa sem uma poeira...O chão brilhando como espelho...Quando termino vou direto para o banheiro...Mas eu sei que eles vão sujar tudo...Ele, o meu marido, gosta de fumar...Mas fuma lá fora...Meus filhos se trancam em seus quartos...Sabe, doutor...As vezes, quando estou deitada, me  vem a sensação de que tudo fica escuro ao meu redor...Ah!...Ontem tive um sonho muito esquisito, doutor.
--- Fale sobre ele.
---...Sonhei que estava numa casa toda branca. Por dentro e por fora...Tudo branquinho e limpo...Mas de repente tudo escureceu e um monte de ovelhas negras começaram a invadir a casa, doutor...Um monte...Centenas de ovelhas negras, doutor... E eu tentava enxotá-las de lá com um enorme pincel de tinta que aparecera de repente na minha mão...
--- Hummm...Sei --- resmungou o psicanalista, anotando no seu bloquinho. E continuou: --- Mas me diga uma coisa...Por quê a senhora acha que consegue limpar tudo...?...A sujeira ainda está lá, sabia...?...Bactérias invisíveis ainda estão lá...É impossível a limpeza perfeita.
--- Mas eu quero ver a casa arrumada e limpa, sempre.
--- A senhora não acha que com outras pessoas morando na casa essa é uma tarefa quase impossível!? A poeira está no ar, minha senhora.
Ela não sabia o que dizer. A vontade era de sair correndo dali e pronto. Mas o marido lhe alertara que aquele tratamento era muito caro. Ela precisava então continuar resistindo. Também precisava de uma ajuda. Sentia-se cansada com tudo aquilo que fazia. Embora precisasse fazer.
--- E seu marido e filhos? A senhora esquece deles quando está limpando, não!?
--- Só quando estou limpando!
--- Humm...Me diga uma coisa...A senhora tem uma programação sistemática para limpar as partes da casa?
--- Eu começo pela parte da porta principal da casa...Lá fora...Pelas portas sujas...Todo mundo as tocas com as mãos sujas, e...
--- Mas a senhora não acha que as suas mãos também são sujas?
--- Não! Não!...Eu limpo cada mão minha...
--- Escute com atenção o que vou lhe dizer agora --- cortou o psicanalista, enquanto anotava alguns outros dados em seu bloquinho. --- A mania de limpeza não passa de uma maneira que seu eu mais profundo encontrou de esconder um verdadeiro tormento. Uma forma de fugir da verdade escondida embaixo do tapete de sua consciência.
--- Como assim? Não estou entendendo?? --- ela balbuciou, temerosa do que poderia vir depois. Aquele homem a perturbava.
--- Olhe, veja bem --- continuou o doutor. --- Esta mania que a senhora tem é chamada de TOC. Transtorno Obsessivo Compulsivo.
Ela gelou nos ossos, ao escutar essas palavras.
--- Não fique apreensiva --- alertou o psicanalista. --- Não é nada perigoso.--- explicou. Essa sua mania repetitiva, é decorrente de um nível muito alto de ansiedade. A senhora, ao desejar sempre estar limpando tenta manter-se aliviada de uma grande culpa.
--- Culpa!?...Eu não tenho nenhuma culpa de nada, doutor.
--- Deixa eu lhe mostrar uma coisa...Pessoas que sofrem de TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo, costumam ser negativas, culpam-se por tudo o que acontece de errado, pensam que só elas são capazes de fazer o melhor, buscam a perfeição e não admitem errar, vivem preocupadas com a opinião alheia, tem medos e uma ansiedade elevadíssima.
Ela gelou ao escutar tudo aquilo. Sentiu-se vasculhada em seus segredos mais íntimos. Como se estivesse sendo despida pelas palavras insidiosas daquele homem. Tentou falar alguma coisa, mas não conseguiu.
---...E a senhora vê --- continuou o homem --- a sua família irritada com essa mania de limpeza, pois eles vêem-se constantemente constrangidos em seu próprio espaço...Como seus filhos reagem?
Ela titubeou, mas respondeu.
--- Eles brigam comigo.
--- Viu só...Perceba bem...Querer ter uma casa sempre em ordem, limpa e arrumada é o que todos nós desejamos...Mas deixar isso tomar conta da gente como uma força além da vida normal é também deixar de se amar e amar os entes queridos --- observou o psicanalista.
--- Existe uma seqüência, doutor. --- ela falou, tentando se fazer entender. – Eu não posso dormir em paz, sabendo que está tudo sujo --- explicou. Só depois de tudo terminado é que eu posso dar atenção a eles. Mas tudo sujo, nem pensar. E quem não é por mim é contra mim, doutor. Eu sou assim. E quem comigo na ajunta, espalha.
--- Espalhar o quê, senhora?
--- A sujeira.
--- A sujeira da humanidade!?
Ela resolveu ficar calada.
--- A senhora já pegou em dinheiro?
--- Não pego em dinheiro.
--- Nunca pegou?
--- Quando precisei, usei um lencinho
--- Sei...E no telefone?
--- Eu limpo com álcool.
--- E no banheiro?
Ela sentia-se mal com tudo aquilo. Por que mudar tudo isso se ela sentia um pouco de prazer no que fazia, pensou. Mas respondeu.
--- Puxo a descarga usando papel ou o pé --- disse, contrariada. --- E por que o senhor não vai a merda com todas essas perguntas! --- resolveu desabafar, explosiva. O senhor fica aí, atrás dessa mesa como se fosse um Deus da verdade...Aposto que para chegar aí onde está teve que resolver um monte de problemas mentais!...O que o senhor esconde embaixo da mesa!?
--- A sessão está encerrada por hoje, senhora. --- disse o médico, levantando-se.
Ela continuou possessa.
--- Se eu quiser eu mudo todos esses meus problemas de uma hora para outra, seu cretino! Ouviu!...E sabe porque eu sou assim!?
Ele voltou-se para escutá-la.
...--- Porque o mundo de vocês, homens, é sujo!...Começa por vocês!...Me dá um dinheiro!!!
Ele surpreendeu-se com aquela frase e com aquele pedido.
...---Vamos! Me dá um dinheiro que eu vou mostrar para o senhor que eu posso pegá-lo com essas minhas mãos que Deus me deu. Agora! O momento é agora!
Ela gritava no mais alto diapasão.
Ele aproximou-se, puxou a carteira e retirou de lá uma nota de cinqüenta reais.
Ela pegou a nota. Estava trêmula. E, ato contínuo, abriu a boca e começou a mastigar a cédula. Fazia aquilo com um leve sorriso de satisfação e determinação. Quando engoliu, não sem uma certa dificuldade, sorriu para ele.
--- Tá vendo!? Viu!?
Ela disse aquilo e havia uma surpresa em seu olhar.
--- Tô curada! Viu! Tô curada!
--- A sessão está encerrada, minha senhora --- ele conseguiu dizer, calmamente.
Ela saiu. Ele trancou a porta de seu consultório.
 No outro dia, realmente, ela conseguiu abrir todas as portas da casa, puxar a descarga e pegar em dinheiro. Todos ficaram alegres com aquele verdadeiro milagre em apenas uma sessão. Só recomeçaram a preocupar-se quando, ao chegarem em casa, determinado dia, a encontraram com um enorme pincel na mão, e a pintar, sôfrega, tudo, absolutamente tudo, no interior da casa, ...de tinta branca.

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.