Saímos
de Paris sob uma fina chuva e carregando no coração
um pouco de melancolia, já provocada por uma saudade antecipada.
Um outro motorista coreano nos levou ao aeroporto Charles De Gaulle
e aproveitou para cobrar cinqüenta e três Euros, levando
em consideração os volumes. Pagamos ao motorista acreditando
que a Coréia havia invadido a França e ocupado todos
os táxis com o único intuito de pegar os Euros de
turistas. Mas o melhor ainda viria. Quando nos preparamos para partir
em direção a Roma, voando pela deficitária
Alitália, tivemos que pagar por um misterioso excesso de
bagagem e ainda enfrentar uma paranóica revistas de roupas,
sapatos, meias e sacolas. E se a gente bobeasse, até as nossas
sobrancelhas seriam revistadas. A Dora sofreu mais, pois quase ficou
nua, tendo que retirar botas e agasalhos para ver se carregava alguma
bomba. Também pudera, com aquela aparência de mulçumana
e usando aquele véu na cabeça, nos tempos de hoje,
é meio complicado. Mas depois que souberam que éramos
brasileiros, relaxaram mais. Talvez seja o efeito Ronaldinhos e
Kakás.
O vôo foi tranqüilo e quando
pousamos em Roma já o inverno da Europa havia desaparecido
sob um sol de Brasil e um céu azul de Azurra. Taxistas livres
disputavam passageiros em diminutos e meio relaxados táxis.
Tivemos saudade dos táxis luxuosos dos coreanos de Paris.
E além do mais, o motorista italiano, com a cara do Gianecchini,
deu uma volta tão grande pelas colinas de Roma, que até
chegarmos ao nosso hotel, distante do centro efervescente da cidade,
parecia termos percorrido a mesma distância que a Via Appia,
seiscentos quilômetros em linha reta. Mas o hotel era muito
bom e lembrava uma vila de casas que alguém inteligentemente
havia reformado. O luxo, o silêncio e a privacidade eram totalmente
europeus.
No outro dia saímos para conhecer
a cidade eterna. Se Lisboa é colorida e Paris é gris,
Roma carrega uma cor vermelho-ocre. Talvez devido ao sangue derramado
no passado, jogando cristãos a leões, ou ao fato de
gostarem de molho de tomate cobrindo massas e pizzarelas. Não
sei. Fomos até a Fontana de Trevi e, após uma passada
entre ruínas, monumentos e museus, procurei pela casa onde
viveu o poeta romântico Keats. Eu sabia que ficava no final
da Via Condotti, bem ao lado da escadaria de flores da Piazza di
Spagna.
John Keats, o poeta inglês fascinado
pela Grécia antiga, um aluno de medicina que passava seu
tempo lendo poesia e história clássica, nasceu em
Londres em 1795 e faleceu na sua Roma amada em 1821. Como não
poderia deixar de ser, abandonou a carreira médica para dedicar-se
totalmente à literatura. E tanto exercitou-se romanticamente
que, em 1818, escreveu seu longo poema Endymion que o projetou no
meio literário. Mas o que o levou a Roma foi ter contraído
tuberculose. Por isso foi para a Itália, onde o clima seria
mais ameno. Lá, o poeta John Keats viveu seus últimos
anos em um apartamento com vista para a Piazza di Spagna. Quando
morreu, alguns de seus admiradores compraram o apartamento e o dedicaram
a sua memória. Virou o Keats-Shelley Memorial House, onde
o visitante pode encontrar todo o mobiliário original e documentos
associados também a um outro poeta romântico, Percy
Shelley, este também um amante da Itália. Goethe,
Coleridge, Shelley, Byron, Henry James, Oscar Wilde e James Joyce
são alguns dos que se sentiram atraídos e inspirados
por esse local histórico dos amantes da literatura.
Poucos poetas escreveram obras tão
importantes e em tão pouco tempo como Keats. Em 1820 são
publicados Lamia, Isabelle, A vigília de Saint Agnés,
Hyperion e parte de Odes. Sobre o seu túmulo, em um cemitério
de Roma, foi esculpida a inscrição que ele mesmo redigiu:
Here lies one whose name was writ in water. Traduzindo: Aqui descansa
um homem cujo nome está escrito sobre a água.
Naquela tarde de Roma, saí
um pouco pensativo do local e me dirigi até um condutor de
uma romantica charrete estacionada ali perto, e que fumava um belo
charuto à espera de algum turista. Perguntei-lhe num sofrível
italiano onde ficava uma tabacaria para que eu pudesse comprar também
um charuto. Ele me disse que ficava ali perto e resolvi ir até
lá. Mais tarde, sentados, eu e Dora, já na Piazza
del Popolo, fumei aquele bendito charuto enquanto recitava algumas
estrofes lembradas de Keats. A tarde caía lentamente nos
braços da noite.
*
Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é
roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na
TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas
regionais e sociais.