:: ARTIGO ::

 


 

* Por Marco Adolfs


PESSOA, MILLER E KEATS – II PARTE

      Na viagem à Europa --- com o objetivo essencial de ver e sentir a cultura do que havia lido e visto em filmes ---; em Lisboa, entrei em contato com Fernando Pessoa, símbolo português de uma forma multifacetada e ousada de percorrer o mundo. Na França, encontrei Henry Miller, símbolo do artista que procura Paris para poder se educar para o mundo. Em Roma, tentei ver o poeta Keats, símbolo de quem, entre as ruínas de um tempo antigo, procura o romantismo da vontade de ser uno.
      O escritor espanhol Enrique Vila-Matas, em um de seus últimos livros com o título sugestivo de Paris não tem fim, escreveu em determinado trecho que a cidade de Paris, com o seu passado em cada esquina, não se move nunca. O que lhe fornece um sentido de parecer nunca ter fim. Paris é uma cidade única. Uma festa ambulante, como bem disse Hemingway.
      Mas, quando eu e Dora saímos do aeroporto de Orly, essas frases, de que Paris não tinha fim e poderia bem ser uma festa ambulante, tornou-se bem real. O motorista do táxi, um coreano com pinta de mafioso, simplesmente perdeu-se pelas ruas de Paris. Sintam o drama: dois brasileiros sendo conduzidos por um motorista oriental que tentava encontrar, através do meu voucher e de um GPS, a rua onde ficava o nosso hotel em Paris. Precisamente em Clichy --- bairro onde, durante algum tempo dos anos 30, Henry Miller havia morado e trabalhado. E também havia se perdido a sua maneira.
      Se Paris é cinzenta, gris, suas cores mostram-se nas pessoas que naquela cidade vivem ou passam. E, em Clichy, o colorido das almas sempre foi uma tônica, já que quem desejasse baixar, e se perder, na direção de Montmartre (onde as cores do Moulin Rouge e das pessoas ao redor seria sempre um eterno quadro de Toulose Lautrec, com adaptações) teria que passar pela Place Clichy. Ou ali morar, como fez Henry Miller.
      Henry Valentine Miller nasceu em 1891, em Nova York, morando no bairro do Brooklyn, na quase extrema pobreza. Por necessidade, exerceu as atividades de lixeiro, coveiro e vendedor de livros, até empregar-se na companhia de telégrafos Western Union. Nessa época, Henry foi integrante ativo do Partido Socialista Americano e defensor ferrenho das idéias do líder socialista Hubert Harrisom um negro com um discurso agressivo. Mas, em 1924, um outro estalo se dá em sua cabeça e ele abandona tudo para se dedicar à literatura. Em 1928 e 1929, conhece Paris com sua segunda esposa June Edith Smith e gosta do ambiente cultural. Tanto que, em 1930, muda-se para a cidade e passa a conviver com uma cambada de americanos que se auto-exilaram na Europa. Sozinho e em condições precárias, Miller inicia, na paz de Clichy, o seu famoso livro Trópico de Câncer. Mas, em 1931, Miller passa a trabalhar na edição parisiense do jornal Chicago Tribune, na função de revisor, graças a uma ajuda de seu amigo Alfred Perlés. É quando então conhece a escritora Anaïs Nin e o também escritor Lawrence Durrel, que passam a ajudá-lo. Este seu primeiro livro foi publicado ainda em Paris, em 1934, com a ajuda de Anaïs; que também o ajudou no livro Primavera Negra, de 1936, e no Trópico de Capricórnio, de 1939. Em 1940, com a Segunda Guerra, Miller perde a sua paz em Clichy e volta aos Estados Unidos.
      Mas, quando, finalmente, o motorista coreano perdido em Paris, encontrou o nosso hotel, após uma rápida conversa com uma moradora parisiense (e neste momento a língua francesa, com seu sotaque parisiense, se mostrou belamente presente e funcional) eu pude então perceber toda a atmosfera de Clichy, com aquelas centenas de água-furtadas onde possíveis intelectuais poderiam estar escrevendo seus livros; e aquelas árvores que parecem só existir em Paris; com seus galhos finos e firmes, envoltas por folhas primaveris.
      Descansamos um pouco e, antes de anoitecer, saímos. Lá fora, Paris estava envolvida em um frio insidioso. E nós envolvidos em agasalhos e sonhos. Eu trazia na memória a visão, vista lá da sacada do nosso apartamento, de uma chaminé ao longe e de uma luz acesa furtivamente em uma água-furtada. Pensei que talvez fosse o lugar onde o jovem Enrique Vila-Matas começava a escrever o seu primeiro livro A assassina ilustrada. Mas não era não. Isso acontecera lá pelos idos dos anos 70 e eu apenas tomava a liberdade de imaginar aquela possibilidade, literariamente.
      Começamos então a pisar, como que num sonho, aquelas ruas de Paris, a cidade luz, na busca da história em cada esquina. Desde a Torre Eiffel; passando por Notre-Dame; sentando em uma mesa do Café de La Paix; olhando ao redor da Sorbonne; e, de passagem, provando os sorvetes da Berthillon. Mais isso é pouco. O bom é também encontrar os que lá viveram: Napoleão, Sartre, Marcel Proust, Victor Hugo e... Henry Miller. É muita coisa; é muita gente. Por isso a luz.
      Mas por enquanto, andávamos apenas pela Avenida Anatole France, onde então eu pude vislumbrar o número 4 --- inclusive identificado com uma placa em homenagem ao escritor ---, do apartamento onde Henry Miller, nos anos 30, teve endereço fixo, após perambular e perder-se por hotéis baratos e casas de amigos. Mais adiante, na Rua Docteur Calmette, 3, encontrava-se então o Espace Henry Miller, um centro cultural inaugurado em 2003.
      Ao anoitecer, já no quarto do hotel e com o frio lá fora, cortamos lentamente um queijo Camenbert que eu havia comprado no supermercardo ali perto; e, acompanhados por um bom vinho tinto seco francês, repassamos aquela tarde em Clichy até onde pudemos ir. Planejamos o dia seguinte para observar, de todos os ângulos possíveis, a prosaica e maravilhosa Torre Eiffel, vista ainda e somente de relance. O bom seria que, naquela cidade, ficaríamos ainda mais seis dias, para ver toda a história possível de se ver, antes de voarmos até Roma.
* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.