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Por Marco Adolfs

PESSOA, MILLER E KEATS – I PARTE
Abril
passado estive na Europa em viagem de férias. Viagem programada
que finalmente pude realizar. Fui com a minha esposa Dora a Portugal,
França e Itália. Mas, não só para filmar
e fotografar tudo o que via - os ícones do velho continente
-, mas também com o intuito de visitar Fernando Pessoa em
Lisboa, Henry Miller na França e o poeta Keats em Roma. Entre
outros escritores e também pintores que nos legaram suas
obras a partir de uma visão eurocêntrica, muitas vezes
romântica, quase sempre clássica ou reveladora. Uma
viagem cultural em essência, visitando antes de tudo as ruas
dessas capitais, os museus e as homenagens variadas dedicadas ao
espírito humano, em forma de esculturas e arquiteturas gigantescas.
E, como em uma máquina do tempo acionada pela memória
do que já tinha sido lido, senti-me transportado para a história
desses intelectuais e de suas existências fundamentais em
um velho mundo que se tornou essencial para toda a humanidade.
Cheguei a Lisboa com o frio
do inverno enfrentando a força da primavera que se avizinhava
resoluta. Nas ruas e metrôs, os portugueses corriam em busca
de recuperar o tempo perdido durante os anos passados de salazarismo.
Em seus bolsos, agora tilintavam o Euro. Forte e vigoroso incentivo
ao desenvolvimento. Salazar era apenas uma página virada
de que todos riam ou se lamentavam. Explicando uma parte e justificando
outra de Portugal. Mas agora, Salazar e seu mundo pertenciam a
um velho e inconcebível Portugal, só visto de relance
em revistas de exaltação desse tempo, amarelecidas
e esquecidas em uma banca da Feira da Ladra. E que nenhum português,
em sã consciência, desejava comprar ou sequer folhear.
Não haveria lugar mais justo para Salazar e seu tempo ficarem
esquecidos do que na Feira da Ladra. Tempos roubados aos portugueses,
esses de Salazar.
Mas, eu estava querendo mesmo
era encontrar Fernando Pessoa. Disseram-me, ainda no Brasil, que
ele vivia sentado em uma mesa do bar A Brasileira, ali no Largo
do Chiado, a tomar os seus aperitivos ou café; e falando
com seus heterônimos enquanto escrevia. Ou então que
ele poderia ser encontrado, ou na tabacaria A Havaneza, bem ao lado
do bar; ou na Licorista, na Travessa do Arco do Sapateiro, lá
pros lados do Rossio. Lugar onde gostava de tomar uns goles de uma
bebida alcoólica preparada artesanalmente. Daí ter
sido proibida.
Estávamos hospedados
no Campo Pequeno, bem perto da Praça dos Toros, e teríamos,
segundo informações, que pegar o metrô e nos
deslocar até o Rossio. De lá, era só caminhar
um pouco pelas charmosas e ladeirosas ruas de Lisboa até
o Chiado. Lá, com certeza quase que absoluta, estaria o
Fernando pensando ou matutando como escrever algum outro poema
ditado pelo Álvaro de Campos.
Lisboa é uma cidade
pequena com alma grande. Que tem que ser descoberta perdendo-se
em suas ladeiras e praças. Ainda é uma capital bucólica
e que guarda seu passado distante como se ele já não
tivesse passado. Isso é muito bom. Todas as cidades deveriam
ser assim. Um provincianismo gostoso, uma personalidade madura
e um jeito de quem sabe viver sua vida de todos os tempos. Mas
assim é Lisboa. Uma mulher bonita cantando um fado melodioso.
Ou então, quase como a casa da gente, com tios e primos
diversos circulando ao redor.
Fazia ainda muito frio quando
saímos da estação do Rossio, em busca de
encontrar o Fernando. Caravanas ridículas de turistas ansiosos,
tocados como gados por algum esperto guia, circulavam pela grande
praça fotografando e filmando tudo o que encontravam pela
frente. Como se quisessem devorar os pedaços de pedras
e esculturas da velha Lisboa Pombalina. Eram bárbaros.
Os novos bárbaros a invadir a Europa.
Uma excursão de brasileiros
passou rente aos meus ouvidos e eu escutei bem uma voz feminina
quase a gritar que estava era a fim de beber um vinho, e não
de ver essas casas velhas todas. Mais bárbaros ainda. Cruz
credo. Afastei-me o mais rápido e independente possível
querendo falar com o Pessoa, para inclusive perguntar, em uma
conversa de bar, sobre o que achava de tudo isso. Poeta, ficcionista,
dramaturgo, filósofo e prosador, além de ocultista
seguidor de Aleister Crowley, Fernando Pessoa, com certeza, iria
me dizer que já estava providenciando uma magia qualquer
para afastar essa gente barulhenta e insensível de perto
de sua casa e das redondezas do Chiado.
--- Não é possível
escrever com toda essa gente circulando e fotografando por aí
--- iria me dizer. --- Vou despachar essa gente para uma temporada
no inferno!
Subimos as calçadas,
cruzando com bondes saídos do passado e lá estava
o Fernando Pessoa sentado em frente ao bar A Brasileira. Aproximei-me
lentamente, tentando ver o que ele estaria fazendo naquele frio.
Sentei em uma cadeira da mesa vizinha como quem não quer
nada e fiquei olhando de esguelha. Ele estava com a perna esquerda
apoiada na direita e parecia estar pensando em algum guardador de
rebanhos, tal a concentração. Não fumava, nem
bebia o Fernando. Parecia que apenas estava realmente pensando.
Rígido e resistente como uma estátua de bronze.
Um dos maiores poetas e prosador
da nossa Literatura, Pessoa pode ser considerado, sem nenhum erro,
universal. Ele sabe que a vida é múltipla. Daí
ele saber que tem que se multiplicar para entendê-la. Sabendo-se
também múltipla as suas vozes, criou os seus heterônimos:
Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem esquecer
um outro pouco falado, o Bernardo Soares e um tal de Alexander
Search. Esse, procurando se esconder como um simples pseudônimo.
Se o Pessoa não fosse
poeta, talvez tivesse se tornado filósofo. Foi o que eu
pensei, ao olhar um pouco mais atentamente para ele. Fernando
tinha apenas quinze anos e já lia de tudo, inclusive pesados
tomos filosóficos. Embora tudo levasse a crer que fosse
abraçar o Classicismo puro, sua produção
implementou o Sensacionismo, marcando firmemente o modernismo
português. Um vanguardista o Pessoa. Que mesmo no silêncio
recatado de sua solidão e modéstia aparente, se
desdobra em vários e ainda pensava em Orpheu. Provocando
seus conhecidos, que se espantavam com palavras tão fortes
vindas de um homem tão quieto.
Pensava eu ainda em tudo
isso quando uma excursão de turistas se aproximou célere,
vinda do Largo do Carmo, carregando suas armas e brasões.
Máquinas fotográficas japonesas, francesas e italianas,
cercaram o poeta imediatamente e eu não via mais nada.
Mas, passados alguns segundos que pareceram durar décadas,
vi o Fernando Pessoa levantar-se com certa dificuldade e sair,
aborrecido, com tudo aquilo. Pareceu dirigir-se, quase correndo,
para sua casa ali perto. O número 16 da Rua Coelho da Rocha.
Respeitei o desejo do poeta
de ficar bem longe das pessoas, e parti. Mais alguns dias descobrindo
Lisboa e seus poetas, conhecidos ou desconhecidos, e eu estaria
embarcando para Paris em busca de Henry Miller. Que estaria a
escrever, com certeza, algum livro importante na paz de Clichy.