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* Por Marco Adolfs

O VENENO DE ZOLA
O
escritor Émile Zola nasceu em Paris a 2 de abril de 1840 e morreu,
provavelmente assassinado, em 1902. Dizem que foi por ter inalado o
monóxido de carbono de sua lareira que, segundo consta, tinha
sido obstruída por pedras. Seria uma vingança daqueles
que foram responsabilizados por Zola, no seu escrito “J´accuse”,
em defesa de Alfred Dreyfus? Eles, sentindo-se atingidos pela pena de
Zola, armaram, na surdina, uma forma de envená-lo? Ninguém
pode afirmar ao certo. Mas, talvez esse provável envenenamento
tenha começado a acontecer quando dessa sua carta aberta J'cccuse
(Acuso), endereçada ao então Presidente da França,
Félix Faure.
Na
carta, publicada na primeira página do jornal parisiense L'Aurore,
de 13 de janeiro de 1898, Zola acusava o governo francês de simples
e rasteiro anti-semitismo, por julgar e condenar, superficialmente,
o capitão Dreyfus, oficial do exército francês,
por traição, em 1894. Nessa carta, Zola foi tão
preciso, que acabou por provocar a revisão do processo e posterior
reabilitação do oficial Alfred Dreyfus, em 1906.
Mas
aqui, neste momento, paro. Paro para dizer que talvez o veneno de Zola
não tivesse sido aquele que ele inalou, mas sim esse antídoto
escrito (J´accuse) que ele inoculou nas veias de um governo fraudulento
e corrupto, em busca da reabilitação de um corpo social
e moral. E digo mais: que isso só seria possível partir
--- pelo menos naquela época autoritária e conservadora
ao extremo ---, do mesmo escritor que criou a Escola Naturalista, já
que essa corrente literária, criada por Zola, propugnava que
o escritor elaborasse, não um simples romance, mas uma análise
científica pormenorizada do ser humano, da moral e da sociedade
de sua época, em busca de soluções, podemos dizer,
científicas.
Esse
era o veneno de Zola. Sua poção mágica. Seu antídoto
contra a corrupção de valores naturais, vingentes dentro
daquela sociedade autocrática. Após a publicação
do artigo J'accuse, Zola foi processado e condenado a um ano de prisão.
Não foi o primeiro sábio a ser preso (e depois obrigado
a ingerir um veneno) e não seria o último. Mas, ao saber
desta injusta condenação, Zola exilou-se na Inglaterra.
Após a sua volta, quando já não corria o risco
de ser preso, publicou, no "La Vérité en marche",
vários artigos sobre aquele caso.
Mas,
para terminar, é preciso elucidar um pouco mais a ação
literária dessa tal escola naturalista, criada por Émile
Zola. O Naturalismo nasceu em 1866, com o romance de Zola, Thérèse
Raquin; romance de concepção inovadora, já que
estava impregnado por estudos científicos e experimentais da
época. Nesse romance, ele inseria teorias como o darwinismo,
o evolucionismo e o determinismo científico. Na verdade, com
Thérèse Raquin, romance que inaugurou a escola naturalista,
iniciava no meio literário o chamado Romance de Tese. Um estudo
fisiológico e psicológico do ser humano em um contexto,
segundo Zola. Um romance naturalista, portanto. De alguém que,
por conhecer a fisiologia de um corpo natural e social, poderia encontrar
facilmente antídotos contra suas “corrupções”.
E tanto ele propôs essa corrente que, em 1871, desenvolveu aqueles
seus romances vitais para essa defesa; a série Les Rougon-Macquart,
sobre os quais ele deu o subtítulo de uma história natural
e social de uma família sob o Segundo Império.
Seus
principais romances dentro dessa escola são: O Ventre de Paris
(1873), A Terra (1887), Nana (1880) e Germinal (1885). Considerada a
grande obra de Émile Zola, Germinal demonstra muito bem toda
a estética naturalista. O romance descreve as condições
de vida dos trabalhadores de uma mina de carvão. E para obter
dados e escrever esse romance, Zola passou dois meses trabalhando e
vivendo como mineiro na extração de carvão de uma
mina da França. Morou com os mineiros e comeu e bebeu nos mesmos
locais para se familiarizar com seus modos de vida. Émile Zola
sentiu na pele e na alma como era o trabalho sacrificante dos mineiros.
Desde a dificuldade para empurrar pequenos vagões repletos de
carvão, até o calor e a umidade no interior de uma mina.
Viu de perto aquele trabalho enfadonho e insano que era realizado, todos
os dias, para extrair o carvão. Viveu até a promiscuidade
das moradias daquela gente; seus baixos salários e a fome que
de vez em quando os assolava. O
homem Zola conheceu a fundo a fisiologia e a psicologia daquela gente,
antes de denunciar o seu sofrimento.
Zola
ainda escreveu uma outra série intitulada As três cidades,
sobre problemas religiosos e sociais. E, atraído pelo socialismo
--- posteriormente evoluindo para uma atitude messiânica e profética
em relação à trajetória do ser humano ---,
escreveu uma terceira série, Os quatro evangelhos. Essa ficou
incompleta, porque, os seus algozes, no silêncio das brumas, viam
que, da chaminé em sua casa estava sempre a sair fumaça.
Sinal de que o homem estava fervendo em seu laboratório particular
de letras. E esses infelizes acharam que o maldito escritor talvez estivesse
maquinando novos artigos compremetedores e reveladores. Então
--- tudo indica isso ---, podem ter pensado que seria fácil matar
o homem, sem provocar suspeitas comprometedoras, com aquela fumaça
sendo desviada. Assim, apagariam o seu fogo.
O
que eles não poderiam esperar é que os escritos de Zola
se eternizariam e que ele permaneceria queimando seus artigos e livros
através dos tempos. Servindo de exemplo e inspiração,
sempre, para artigos e livros verdadeiros, contra as mentiras dos poderosos.
Dos que acham que tudo podem. Esse J`accuse e esses livros todos, eram,
portanto, os seus antídotos. O veneno de Zola. E que, até
os dias de hoje, perdura no ventre desses eternos abomináveis
que se arvoram como preconceitusos e donos de suas mentiras. Para eles,
existem os articulistas e romancista da verdade, com suas poções
de antídotos contra a arbitrariedade.
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* Marco Adolfs -
Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor
e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo
documentários sobre temas regionais e sociais.
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