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* Por Marco Adolfs

A TENTAÇÃO DE FLAUBERT
O
escritor francês do século XIX, Gustave Flaubert,
escreveu pouco, mas atingiu o alvo do que pretendia, revelando
um pouco da estupidez humana daquela vida que via e vivia. Revelando
as tentações que assolam todo ser, ele revelava
as suas. Numa reação ao romantismo sonhador, Flaubert
jogou as cartas do realismo na cara de uma burguesia hipócrita
e de um provincianismo cego. Cínico, irônico e visionário,
ele viu naquela sociedade burguesa que se formava no século
XIX, o embrião da dissolução moral e fragmentária
que se instalaria de forma definitiva e como verdade quase absoluta,
nos séculos XX e XXI, no seio das sociedades consumistas.
Era o vazio sendo preenchido pelas novas necessidades estampadas
nas ruas. Era a necessidade de escape da alma, aprisionada no
tédio de uma província do interior. Necessidades
burguesas chamativas e necessidades provincianas clamativas. Quando
Flaubert então tocou nas feridas que via, o governo francês
da época resolveu levá-lo a julgamento. Acusado
pelo seu romance de estréia “Madame Bovary”
(1856) --- considerado um livro “execrável sob o
ponto de vista moral” ---, Flaubert teve que puxar para
si a defesa de uma mulher que traiu o marido (assunto do livro),
já que os juízes queriam saber quem tinha sido a
pessoa na qual ele teria se inspirado para compor a personagem.
Quando respondeu: “Madame Bovary sou eu!”, ele desnudou
ainda mais os aspectos burgueses e provincianos atacados. E disse
uma verdade que viveu na pele, já que era filho de um provinciano
rico. As tentações de Emma Bovary eram também
as dele.
A
estória de Emma Bovary, que trai o marido como uma tentativa
de escapar da vida medíocre e tediosa que vivia, revela
as tentações de fundo criativo (a imaginação
do outro) que todo ser humano, homem e mulher, sofrem para escapar
da insatisfação e da mediocridade. Uns fogem através
do corpo, outros (fogem) através da alma. Ou (as) das duas
formas simultaneamente. Emma, sucumbindo à tentação,
entregou o corpo como veículo para a sua alma ansiosa.
Ela poderia estar se iludindo, mas escapava. Flaubert entregava
a sua alma (como escritor) para fugir também, sucumbindo
à tentação de ter que revelar tudo isso através
da sua escrita. Madame Bovary é o romance de um amor impossível
que é deflagrado por uma sensação de que
algo estava mudando naquela provincia e no mundo do escritor.
Uma mudança provocada pelos novos tempos e suas inerentes
tentações de rompimento com um mundo velho. Quando
Flaubert escrevia sobre o drama de Bovary, ele sentia que estava
provocando também um escape literário profundo.Uma
transcendência na literatura que iria provocar um rompimento
em prol do realismo exacerbado e do modernismo iminente das outras
gerações. Se a burguesa provinciana predominava,
Emma Bovary havia encontrado uma saída através do
exercício lascivo de traição a esse mundo.
E Flaubert, agarrado à saia dessa madame, vinha experimentando,
por seu turno, uma literatura de rompimento com este mesmo mundo.
Nada é mais necessário para uma alma que se deseja
livre do que escapar de uma Província. Mesmo que seja uma
província literária. E olha que muitos de nós
até hoje tentamos isso. Mas, para se entender essa tentação
de Flaubert de, não só ser uma Emma Bovary revolucionária,
mas também um escritor de tiro certeiro no escape perfeito,
é preciso fazer-se uma aproximação de suas
outras obras literárias. Obras próprias de quem
sentia-se preso a um destino provinciano odioso e constantemente
criticado, volto a repetir. Flaubert propalava aos quatro cantos
que era um estudioso da estupidez humana, colecionando episódios
de insensatez e burrice. E, segundo ele, a estupidez era mais
visível na província.
Na
sua obra, "A Tentação de Santo Antão"
(1874), essa inteligência limitada também foi tema.
O livro é uma alegoria da alucinação de um
ser humano que deseja a santidade. Onde o deserto, no qual vagueia
o pretenso santo, fica repleto de “personagens” ou
“fantasmas”. Antão busca a perfeição
de um santo enfrentando os seus demônios internos, a Luxúria
e a Morte (na verdade Eros e Tanatos). Flaubert e a personagem
Bovary também enfrentavam isso. Se as projeções
mentais de Antão fazem a sua loucura de santo; as projeções
mentais de Flaubert fazem a criação do autor. O
desejo de Flaubert era ser, não só Emma Bovary,
mas também Santo Antão. Ser Emma Bovary é
ter a liberdade da vida luxuriante. Ser Santo Antão é
ter a liberdade de uma ascese purificada. Como todo escritor percebe
quando escreve, esse é o motor que os move. Para Flaubert,
ao dizer ser Emma Bovary, tornava-se, naquele momento, uma metáfora
de alguém que procurava ressuscitar uma literatura morta.
Era extremamente urgente (como hoje, caros escritores e leitores
amigos) fugir-se das garras de um provincianismo tacanho. De um
regionalismo da alma que nos tolhe como uma cerca enraizada (imposta
constantemente) em torno de uma memória que funciona em
um circulo vicioso. Um eterno e circular olhar para o próprio
umbigo; presos a raízes profundas de árvores mortas.
Entre a luxúria e a morte, como as tentações
de Santo Antão em seu deserto, devemos optar pela liberdade.
A grande tentação a ser realizada por um escritor
(e leitor) deve ser a mesma de Emma Bovary e Santo Antão:
Fugir de seus fantasmas e algozes, tornando válidos todos
os meios para atingir-se a libertação.
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* Marco Adolfs -
Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor
e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo
documentários sobre temas regionais e sociais.
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