:: ARTIGO ::
 











* Por Marco Adolfs


O CRIME E O CASTIGO DE DOSTOIÉVSKI

        O escritor russo Fiódor Mikháilovitch Dostoievski (1821-1881), o criador do romance psicológico, foi sempre castigado por um destino cruel provocado por suas escolhas. Seu crime principal foi ter abraçado o senso da procura da verdade, da justiça e da ética em um mundo totalmente alheio a esses princípios. E, tentando mostrar tudo isso em seus livros, ele acabou por se perder em meio a dúvidas sobre os seus próprios sentimentos. Afinal, ele também era um russo de alma atormentada entre as ações santas e profanas acontecidas ao longo dos séculos em seu país. Nada então mais russo do que esse sentimento dicotômico entre o bem o mal, o crime e a culpa, o sangue e a neve nas estepes e praças eslavas. Tanto isso foi sentido em sua alma que Dostoievski acabou por repassar para todos os seus escritos uma forma de exorcismo de seus demônios internos e dos demônios da própria Rússia. Aparentemente um sujeito melindroso, Dostoievski estava sempre em fuga daquilo que mais o perseguia: a culpa. A culpa de não ter podido evitar o assassinato de seu pai (também culpado por não ter respeitado o ser humano escravizado) por servos. Esse sentimento de impotência perante as forças sociais configuradas e simbolizadas daquela Rússia perdida em extremos inconciliáveis, o perseguia tanto que seus primeiros romances, Gente pobre e O Sósia, trataram de todas essas agruras observadas pelos seus olhos. Os outros romances trataram de dramas de personagens niilistas e dicotômicos, que perseguiam, antes de tudo, a liberação de suas algemas criadas pela própria alma.
        Ao perceber que o seu destino de homem seria denunciar, pela escrita, os males que afligiam as classes desfavorecidas e exploradas da Rússia “fisiológica” da época. Uma Rússia profundamente intestina, onde Dostoievski revolvia-se, sendo talvez um hipertenso sensível, além de epiléptico, com as veias a explodirem numa revolta e desespero silenciosos. Ele, que quase morreu fuzilado como terrorista, então explodiu literalmente seu drama de visionário nos seus romances; tentando também, explodir o sistema político vigente daquela Rússia de meados do século XIX. Mas, para entender melhor essa procura do escritor em desculpar-se perante os desvalidos, sua obra é esclarecedora nos dois romances de formação. E nos subseqüentes mais ainda. No caso do Gente pobre, por exemplo, que trata, em essência, de um caso de assédio sexual, o que se vê, portanto, é um desfile de personagens representativos das classes subalternas de bairros miseráveis que têm que se dobrar às conveniências dos ricos ou então ficar onde nasceram. Em O Sósia, o que se percebe são os artifícios de sobrevivência (o puxa-saquismo) que o protagonista tem de fazer uso para ascender socialmente, e se manter, desdobrando-se (um caso psicanalítico de desdobramento de personalidade) em dois. Com essas atitudes de pura sobrevivência desses seres-humanos, Dostoievski percebia a sua própria condição de imerso em dois mundos, que apesar de próximos, eram, para todos os efeitos, máscaras inconciliáveis. Ele mesmo envolvido em atitudes dúbias. Quando escreve Memórias do subsolo e os outros livros que o tornaram um grande escritor, como Crime e Castigo, O idiota, Os Demônios e o fabuloso Os Irmãos Karamazov, Dostoievski desnuda-se e desnuda o mundo, interno e externo, dessas forças. Ele escreve, em cada um desses livros, culpas de uma série de crimes perpetrados. Seus personagens, apesar dos diálogos (o outro com sua opinião), carregam monólogos expiativos (o próprio escritor expondo e expiando suas dúvidas) de seus crimes. E nos livros do escritor, o crime (qualquer ação dúbia, passível de culpa) é quase um motor do desenvolvimento posterior da trama expiatória.
        Nos seus livros Crime e Castigo (1866), Os Demônios (1871) e Os Irmãos Karamazov (1880), a tese do crime como possibilidade de mudança do destino, existe em sua plenitude. Seus protagonistas têm a visão dessa permissão a partir da crença da não existência de um Deus para os semi-deuses, que eles, em determinado momento, acham que são. Tenho certeza que, por colocar essa tese em seu livro, Dostoievski sabia que essa percepção de uma outra realidade dos homens, capaz de mudar as condições ao redor de acordo com o exercício da vontade, era o que determinava a sua própria condição de escritor-criador de um mundo de idéias. Tanto isso o perturbou como “seu crime” (a possibilidade de tudo ser permitido) a ser escrito na suas tramas, sendo colocado na boca de alguns de seus personagens, que Dostoievski devia se sentir constantemente como “um grande culpado” por revelar essas verdades. Seu compromisso com a tese do homem-idéia --- aquele que carrega uma espada flamejante de intenções reveladoras de ateísmo, liberalismo, socialismo e niilismo ---, e que, portanto, é capaz de destruir o status quo de um grupo ou até de um país, o deixara, enquanto viveu, como um fugitivo de seus pensamentos, numa constante autopunição por ousar pensar na liberdade absoluta do ser humano. Uma impossibilidade, pois, a liberdade é um fantasma perseguidor. E Dostoievski sentiu também tudo isso na sua própria pele. As mortes ao seu redor; seus oito anos de prisão na Sibéria por envolvimento político; seu medo, ao trair a mulher com uma amante; o medo de ser traído; a saída expiatória através do jogo. Tudo isso ele carregava como um fardo. O fardo do culpado. Incapaz de controlar seus próprios impulsos (e os impulsos gestados nos subterrâneos da Rússia), Dostoievski os canalizava nos textos, negando sempre uma saída aos culpados. E seus personagens, vítimas de convulsões internas, têm sempre as vidas transformadas num inferno. Raskolhnikov (Crime e Castigo) entrega-se à polícia e, na prisão, dá os primeiros passos para reencontrar-se com o Cristianismo. Nikolai Stavroguin (Os Demônios), revelando uma fabulosa confissão, suicida-se, enquanto que Ivan Karamazov (Os Irmãos Karamazov) enlouquece, em conseqüência de um artigo ateu. Todos esses eram partes obscuras (e criativas) de um Dostoievski atormentado pelo que vira e sentira ao seu redor. Coisas de um escritor competente e sabedor de que ter-se consciência do “todo” é carregar as “partes” no sentimento. Por isso colocou tudo para fora, escrevendo.

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.