:: ARTIGO ::
 











* Por Marco Adolfs

FAULKNER E O FLUXO IN-SIGNIFICANTE

Quem escreve, fazendo uso da técnica de fluxo de consciência, sabe que pode levar ao leitor o que se passa na alma de um determinado personagem. Com aquelas palavras esparsas que deslizam pelo leito branco de papel, o rio da escrita, o escritor mostra pensamentos e devaneios como fragmentos flutuantes. Aparentemente insignificantes para o contexto, fazem ligações importantes para o leitor atento. Pensamentos colocados para os leitores navegantes decifrarem e conectarem. Parece ser assim, com todos os escritores romancista que usam, em determinado momento, essa técnica, com a cumplicidade do leitor qualificado. Mas com William Faulkner, o grande escritor americano e prêmio Nobel, essa analogia não-linear de palavras “significativamente soltas” parece que se deu mais profundamente. Um escritor essencialmente do Mississippi (com aquele rio ali perto), William Faulkner foi exaltado no mundo literário de seu tempo como um autor de romances psicológicos e simbólicos com personagens inseridos, ou saídos, do sul dos Estados Unidos. Uma escrita onde o fluxo sanguíneo dos corpos aliava-se ao fluxo dos pensamentos simbólicos. E Faulkner escreveu tudo isso, durante um tempo, como um possesso a gritar um grito silencioso através de uma linguagem que mais parecia a torrente de um rio em seu fluxo. Com a consciência sem amarras; navegando ao sabor associativo; indo na direção do que existia de mais significante na mente de personagens conflituosos.
     Em novembro de 1927 a editora Horace Liveright rejeitava o incompreensível e ininteligível manuscrito de “Flags in the Dust” (com uma carta em que o coitado do editor aconselhava a não oferecer o romance para mais nenhuma editora), romance que Faulkner começara a escrever um ano antes e que contava a estória e a história de quatro gerações da família Sartoris. Pior (entre aspas!) ainda seria visto no texto super-elaborado do livro “O Som e a Fúria”.Nesse caudaloso livro, os narradores que Faulkner cria: Benjy, Quentin e Jason, em determinados momentos, estão imersos num fluxo de consciência como a navegarem em pensamentos líquidos que mais perecem as águas de um rio repleto de detritos. Aparentemente insignificantes, mas repletos de possibilidades de conecções futuras. Personagens extremamente egocêntricos e com pensamentos obscuros demais para se ordenarem a contar uma estória logo de início. Na verdade eles contam as estórias apenas para si mesmos. Cabe ao leitor atento, decodificar lentamente. Nada é claro e lógico, pois para esta escritura de Faulkner há apenas alusões e confusões. Quem pode, e deve, dar unidade a esse fluxo verbal em torrente, é o leitor que lendo, escreve o texto. Faulkner era um gênio que entregava um barco para o leitor navegar, procurando ele mesmo, um porto seguro. E como um fluxo de um rio é fluído pela própria natureza tudo pode acontecer. Até o naufrágio do leitor mais apressado. No caso dessa técnica --- o fluxo de consciência ---, Faulkner exagerou.
     Alguém já disse que escrever um fluxo de consciência é retratar linha a linha uma imaginação em seus pensamentos, em um encadeamento desordenado onde presente e passado, expectativas e reminiscências, falas e ações aparecem se misturando num jorro descontínuo e caótico, onde as reações e proações mentais dos personagens estão intimamente ligadas. Passado e presente como que se misturam fluindo diretamente da consciência e do inconsciente de cada um. E como um rio onde as moléculas correm misturadas, amalgamadas e fluídas. Na sintaxe o que há é caoticidade. E Faulkner foi um mestre nisso. Tanto em “O Som e a Fúria”, como em “As Lay Dying”. Mas vamos falar de “O Som e a Fúria”, um livro onde essa técnica “líquida” é exercida de forma brilhante. Percebe-se muito bem isso na trama de “O Som e a Fúria”. Começando com o famoso monólogo de Benjy, onde Faulkner, à primeira vista incompreensível, usa uma retórica complexa para nada explicar. Mas explica os novos caminhos de uma literatura mais observadora do que vai na alma do ser-humano. Do rio de todos os pensamentos possíveis como fragmentos da existência.
     Para quem leu os capítulos iniciais de “O Som e a Fúria”, a dificuldade inicial está no fato da leitura desse texto avançar em uma espécie de edição não-linear, sem alertar o leitor do que estava acontecendo em uma mente confusa: a mente do personagem capital. Mas o que pode ser notado de mais interessante nos escritos de Faulkner, é o fato dele ter exercitar a narração de “O Som e a Fúria” como se estivesse criticando a literatura, a sua, e a que era praticada convencionalmente pela maioria de escritores (e leitores!). É claro que Faulkner escrevia em um novo contexto, com influências várias de nomes do modernismo europeu, entre esses, James Joyce, que tinha a mesma ocupação iconoclasta. “O som e a Fúria” (como o “Ulisses” de Joyce) é resultado de um imenso “desprezo” (entre aspas, gente!) do autor contra o leitor convencional que buscava um porto seguro de signos que significassem alguma coisa palpável do mundo ordenado. Um leitor ainda alheio a uma torrente dessa natureza mnemônica e inconsciente (Freud deve ter sido uma outra influência), ficava assustado. Mas o leitor que Faulkner desejava era um leitor sem medo nem culpa de ser levado pelo rio da existência das associações mentais de  personagens aparente ou totalmente “malucos” numa linguagem em torrente aparentemente sem nexos. Ele não desejava a estabilidade e o conforto de seus leitores, mas antes, desafiá-los a vencer as correntezas iniciais de seu texto. Nada mais daquele leitor certinho, comedido, das revistas literárias. Agora seria necessário navegar-se, ou deixar-se levar pelas incongruências de uma alma contraditória (Dostoiesvisk e Kafka talvez tenham sido também uma lição sobre esses aspectos contraditórios) em constante oscilações e perigos.
     O texto de “O som e a Fúria” parece ter sido executado para produzir surpresa, ou mesmo, incômodo.  Porém, além do incômodo, o livro tornou-se um grande questionamento sobre quem afinal, no romance de sua época, detinha a controle dos novos processos linguísticos. O romance inicia-se com essa mistura de sofisticadas técnicas de fluxo de consciência e contraponto. As reflexões sobre o tempo, a tradição e os preceitos de uma família, é apresentada com um humor vulgar e uma dramatização exacerbada. Na verdade, o que Faulkner parece pretender expor, é uma mistura absurda de personagens de uma certa grandeza, com outras mais superficiais. O leitor que desejar continuar o livro pode vislumbrar, nesse monólogo inicial, a exposição de um intelecto forte e maduro de um escritor envolvido com a existência de um tempo de pensares amalgamados entre associações de um cotidiano vivido e um cotidiano produto de uma profunda reflexão sobre o sul da América. Faulkner conseguia então escrever o que ia na mente de um homem comum. Um homem do campo envolvido entre reflexões sobre o tempo, sobre cavalos e suas rações e também sobre algodão. Esse era o reflexo do mundo de Falkner. Ele só reverberava o que via e sentia. Um autor criativo é sempre assim. Pega o que está perto --- aparentemente insignificante --- e conecta e transfigura. Fazendo uso pleno do processo informativo em essência. Na voz do personagem Quentin percebe-se a existência do sul profundo e daquele rio ao largo, onde as honras dos homens encontram-se em gestos que denotam uma resistência à decadência de uma vida e da troca por novos valores. Talvez o homem Faulkner quisesse fazer significar, através desse fluxo descontínuo, toda a raiva e a culpa de uma derrota de orgulhosos. Derrota de um sul que poderia ser submerso em um esquecimento proposital. O personagem Jason é emblemático dessa situação significante do que preenche a alma desse homem que reflete sobre a sua miserável (ou plena de oportunidades) vida. Quentin, em suas reflexões, também vê assim. O livro “O Som e a Fúria”, apesar de uma leitura complicada é um texto que pede paciência. É como ficar à deriva, deixando-se levar por águas tormentosas. E aqui vale uma observação final sobre o escritor William Faulkner. O fato dele, em pouco tempo realizar uma obra e ainda ganhar o prêmio Nobel. E tudo isso sem precisar cursar nenhuma escola secundária e nenhuma faculdade. Vivendo durantes anos em uma  cidadezinha do estado mais pobre dos Estados Unidos. Imerso em procuras e achados de uma mente que apenas escrevia o que ia na alma humana daquela gente sulista.

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.