:: ARTIGO
 









Marco Adolfs*


PROUST E O TEMPO CAPTURADO

m dia desses me deparei com um livro do escritor Marcel Proust. Na verdade um volume da sua obra “Em Busca do Tempo Perdido”, talvez a maior obra de literatura que alguém já escreveu. Comecei a pensar nesse escritor fenomenal. E como pensar é um ato atrativo, que faz fecundar pensamentos de pensamentos, passei então a relembrar parte de sua biografia conhecida. Daí as associações começaram a fluir num fluxo contínuo de pensamentos. Passei então a imaginá-lo sozinho em seu quarto; quase moribundo; a concluir sua magistral obra como quem busca capturar um último tempo de vida. Uma obra síntese do poder da escrita e do poder das associações mentais. Uma teia de conecções imagéticas. O ofício de um escritor levado aos extremos de uma percepção sensível. Via então Proust encerrado e isolado em um quarto todo revestido de cortiça. Usando aquele seu tempo disponível para ir muito além do branco papel, e do comum dos mortais, fazendo uma máquina do tempo voar, comandada pelo seu pensar. Marcel Proust começou a escrever esta obra em 1908, com 37 anos, após certos aspectos traumáticos terem tocado seus neurônios hipersensíveis. O que o levou a encontrar um tempo de isolamento para poder desabafar. Um desses aspectos traumáticos, foi o caso Dreyfus dez anos antes, que fizera o escritor vibrar na defesa da inocência do capitão judeu, ao mesmo tempo que se isolava da hipócrita sociedade parisiense de sua época. Uma outra sensibilização dramática de seus neurônios sendo preparados para esse encontro atrativo, foi ter tomado conhecimento da obra do crítico John Ruskin.; e finalmente, a morte da sua  mãe, em 1905. Ao ver-se e sentir-se só, com a possibilidade da doença lhe mordendo o calcanhar e totalmente perdido, Proust resolveu escrever sobre a força do tempo que a tudo devora, mas também deixa lembranças que marcam a existência humana. Uma resposta criativa e observadora sobre o mundo como representação visual e memorialista.

Marcel Proust morreu em 1922, deixando os manuscritos dos sete volumes que perfazem a obra toda, se não arrumados, ao menos engendrados como idéia finalizada. Uma idéia que começara em um ensaio sobre o Conde de Saint Beuve transforma-se lentamente em um romance sendo escrito e com um herói identificado pelo nome de Jean Santeil que faz a ligação temporal entre o que é puramente interno e o que é notado como externo. O personagem (e o escritor) perdem-se no labirinto do tempo entre o presente e o passado. Uma obra que se faz crescentemente configurada através da escrita compulsiva, mas também, de forma inconsciente ou não, da arte da fotografia, então em seu apogeu. Se tudo era fotografado --- principalmente o tempo passando ---, Proust e seu personagem tudo capturariam. Umas impressões pintadas através da escrita. E com a memória servindo como cápsula do tempo, isso poderia tornar-se ainda mais completo. Nada ficaria mais perdido. Mas o que desencadeou na mente do escritor todo esse processo de querer capturar um mundo constantemente em fuga? Todas as explicações possíveis sobre uma dada personalidade estão na infância de qualquer indivíduo. O que é plantado para mais tarde ser colhido pelo homem amadurecido. Quando criança, Marcel Proust muitas e muitas vezes visitou o local de trabalho de um tio de nome Amiot, que entulhava o lugar com cascas de coco esculpidas, objetos africanos, e com toda espécie de cachimbos, narguilés e outras bugigangas, na tentativa de reproduzir a África por onde andara durante muitos anos. Neste local, o menino Marcel esquecia-se do tempo e também se perdia em meio a inúmeras fotografias, que esse tio Amiot havia batido em sua juventude. Com certeza o menino Marcel ficara sumamente impressionado com as fotografias e estórias de seu tio em um mundo e tempo perdido. Tanto, que Proust transformou o tio Amiot em personagens de sua escrita: o sr. Abert de Jean Santeuil, e, um velho capitão reformado de um escrito publicado na Revue Blanche, que em 1893, debruçado sobre o passado glorioso, vive de recordações sobre "fotografias danificadas e relíquias desgastadas”. Tempos em um dado espaço.  Mas, de todas as influências possíveis, a de sua mãe a desejar um menino “posado”, exerceu Proust um desejo de frivolidade pictórica obcecada. Formando um Proust obcecado pelo tempo perdido e constantemente capturado. Ele mesmo foi fotografado algumas vezes, em "sessões de pose" (desejos da mãe), com roupas de príncipe, o que deve lhe ter deixado pensativo. E Proust, apesar da saúde frágil, entrou no exército apenas por seu gosto pela fotografia. E passou a reproduzir-se em diversas poses (até à morte). Imaginava retratos de si próprio em "uniforme tão resplandecente", e, o que aconteceria se pudesse oferecê-los à noiva de Gaston, por quem estava apaixonado. No mesmo dia, faz-se fotografar em quatro poses diferentes, diante de um muro. Fico agora pensando sobre o que faria Proust perante os blogs e Orkuts do nosso tempo atual de conexões e exposições on-line? Mas vamos continuar: das primeiras frases do livro primeiro até o final do último livro de “Em Busca do Tempo Perdido”, Proust sempre teceu as visões de retratos emaranhados com pensamentos, ligando aspectos particulares ao geral. Os caminhos percorridos pelo personagem principal foram os caminhos percorridos por alguém que buscava capturar a vida em seus diversos aspectos sensíveis, desde os odores e paladares, como as maneiras de se vestir, desde culturas particulares como simples futilidades que passam o tempo. A verdade era que o personagem principal e Proust eram estetas do parecer diário. E tudo sendo alinhavado pela memória involuntária disparada por visões e sabores, entre outras associações perceptivas. Um mar de vida. Cada volume demonstrando suas viagens literárias de formas simbolicamente fascinantes. As maneiras de madame Swann e seu marido em “No Caminho de Swann”; os jovens ciclistas em férias de “À Sombra das Raparigas em Flor”. Como nas fotografias e até no cinema, a obra de Proust é pura visão e sensação. Tudo o que foi escrito refletia a visão do escritor que havia se encontrado em uma obra-síntese-de-toda-uma-vida. E para que isso acontecesse, o próprio Proust refreou seus ímpetos mundanos e afastou-se dos salões parisienses. A memória movimentada pela vontade de recolhimento e ajudada pela doença --- com o leito servindo-lhe de amparo para o corpo como nave. Havia então o encontro do corpo com a alma. Com a frivolidade sendo substituída pela exigência de término da obra. Mas Proust não imaginava o impacto que a sua obra iria provocar no meio intelectual francês, ainda em seu primeiro volume. Ninguém parecia ainda preparado para entender aquela obra. Em 1912 com a comentada recusa pela editora da Nova Revista Francesa (NRF) do primeiro volume de Em Busca, com o “No Caminho de Swann”, André Gide, folheando os originais, apenas percebeu nele, histórias de duquesas e a "síndrome de Sainte-Beuve". Porém, o mesmo confessou mais tarde o seu erro, ao ter passado ao largo do sentido de um grande painel de impressões fugidias.

Mas Marcel Proust re-encontrando o seu espaço perdido, escrevia como um possesso adoentado; seus personagens pulando em seu quarto, vindos diretamente da vida lá fora, como auxílio de uma mente brilhante que capturara. E como nos
romances ditos de cavalaria, alguns dos protagonistas que Proust colocava em cena paravam no meio do caminho para meditar sobre os atos válidos e inválidos da vida. Swann, por exemplo, teria preferido enriquecer sua vida com belezas prontas, ao invés de uma beleza que ele próprio criasse. Ele pertencia, como muitos já interpretaram, à categoria dos estetas (como Proust e quase todos os artistas). Em Balbec, que evoca Cabourg, o herói de Em Busca percebe que as velas de uma regata, e os vestidos das moças não atrapalham (conjugam-se), na visão de um pintor impressionista, o mar eterno. O que ele escreve em detalhes é a visão de um mundo exterior numa alquimia de um eu que rememora e comemora essa condição de abstração. Ao lhe fazer rememorar toda uma parte de sua infância, involuntariamente desencadeada pelo sabor de uma pequena madeleine, a importância para o autor é a de fazer lembrar também o caso Dreyfus, ou os bombardeios aéreos de Paris. Tudo é a máquina do tempo e a fotografia da memória que enlaçam a perspectiva central da visão do autor que escreve. O mundo se retrata numa consciência, e o romance mostra sempre o frívolo transformando-se em essencial. Proust era um impressionista da alma e a obra Em Busca é o encontro de tintas e cores em uma tela de paixões. As mesmas tintas e cores que agora se desvaneciam em seu ser, com a aproximação da morte lenta. Tudo são incertezas na vida. Ainda mais para Proust que, sem saber, enquanto morria escrevendo, contribuía para uma revolução literária comparável à que ocorria, naquela mesma época (além da fotografia), na pintura. Demonstrando que o interesse de um livro reside menos na realidade que reflete do que na visão singular que expressa, ele inaugura o que Nathalie Sarraute - uma das expoentes do Novo Romance - denominará de a "era da suspeita", onde a suspeita é muito menos a de personagens romanescos e invejosos do que a do leitor, convidado a decifrar os caminhos de um estilo de quem se apropria do tempo e sai em busca da vida em todas as suas impressões.

Marco Adolfs* - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.