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*Elson Farias
O
LIVRO EM MANAUS
Desde
que andei a lidar com o livro em Manaus, a partir da década
de 60 do século passado, venho observando o desempenho
do mercado livreiro amazonense. A primeira empresa a acreditar
nesse mercado foi a Editora Sergio Cardoso. Seu primeiro passo
nessa direção foi dado com os trabalhos inaugurais
dos jovens escritores do Clube da Madrugada, reunidos nas Edições
Madrugada. Nas suas oficinas foi realizada a minha primeira coletânea
de poemas, com o nome de Barro Verde, editada em 1961 e patrocinada
pela União dos Estudantes. Em verdade, a Sérgio
Cardoso era uma empresa dedicada à produção
de material impresso de toda ordem, na sua maioria talonários
comerciais e cadernos contábeis. Mas, por puro idealismo
do seu proprietário, o nobre amigo e notável benemérito
da cultura José Cardoso, a empresa reservava uma parte
do seu precioso tempo à produção de obras
literárias.
Depois de Barro Verde, lancei mais dois livros com a chancela
dessa editora, contando sempre com a generosidade do Sr. José
Cardoso que me entregava os exemplares prontos em confiança,
a fim de ressarcir-se com a sua parte da venda realizada nas livrarias
da cidade e nos lançamentos que eram em geral festivos
e de excepcional participação do público.
As tiragens iam de 500 a 1.000 exemplares.
Fui levando o barco e, mais tarde, movido pela inquietação
de dotar o ambiente cultural da cidade com um empreendimento dessa
natureza, criamos na UBE a Coleção Sumaúma
que chegou a lançar três livros, uma coletânea
de ensaios sobre cinema de Márcio Souza, intitulada O mostrador
de sombras, Cartilha do bem amar com lições de bem
sofrer, poemas de Farias de Carvalho, e os contos de Carlos Gomes
em Mundo mundo vasto mundo, tudo graficamente realizado na Sergio
Cardoso.
Em 1985, fundei a Editora Puxirum que pretendia funcionar numa
espécie de cooperativa. Os autores se encarregavam de vender
os livros reservando parte da venda para cobrir as despesas de
impressão. O primeiro foi o meu Romanceiro e, depois, Regime
das águas, de Francisco Vasconcelos; uma nova edição
de Sol de Feira, de Luiz Bacellar; Sob Vésper, de Alencar
e Silva; Uma poética das águas, de Socorro Santiago;
Visgo da Terra, de Astrid Cabral; Poemeu, de L. Ruas; Bhakti,
de Carlos Alberto Tinoco; Contos Amazônicos, de Arthur Engrácio;
e três alentados volumes de Poesia Reunida, contendo todos
os versos até então publicados de Alencar e Silva,
Jorge Tufic e Antísthenes Pinto. O plano dessa coleção
era editar, num mesmo formato, a todos os poetas do Movimento
Madrugada. Os livros eram impressos nas oficinas gráficas
da Imprensa Oficial do Estado, então dirigida pelo poeta
Alencar e Silva.
O poder público sempre investiu no livro e, no Governo
do Prof. Arthur Cézar Ferreira Reis, o Estado do Amazonas
chegou a editar mais de 100 títulos de obras de ficção,
ensaios, poesia e paradidáticos.
Uma ou outra gráfica da cidade tem reservado algum espaço
para a impressão de livros. A Associação
Comercial relançou livros fundamentais sobre a região
em edições fac-similadas através de um fundo
específico reservado a esse objetivo. A Universidade Federal
do Amazonas mantém uma editora que tem trazido ao leitor
trabalhos de autores da atualidade e reedições de
obras raras sobre a Amazônia.
Mas, o maior empreendimento na área privada do setor coube
à Editora Valer, fundada pelo jovem empresário Isaac
Maciel, contando, mais tarde, com o concurso do poeta e ensaísta
Tenório Telles. A Valer é hoje uma referência
dos que procuram o bom livro, particularmente sobre a Amazônia.
Tem editado escritores de hoje, inclusive estreantes, e obras
há muito fora do mercado, suprindo, com isso, os estudiosos
da Região. Tem buscado apoio por meio de co-edições
com os próprios autores e com o Estado, o Município
de Manaus, e as Universidades públicas e particulares do
Amazonas. Tudo numa postura profissional, respeitando os direitos
do autor e cuidando do texto em atitude criteriosa. Esforçando-se
para realizar o melhor no aspecto material do livro, nada deixando
a desejar quanto ao que há de melhor em todo País,
porque os livros são impressos no hoje excelente parque
gráfico de Manaus e em outras gráficas que prestam
serviço às grandes editoras de todo o país.
Assim vejo a situação do livro em Manaus.
Manaus,
Chácara Lili,
14 de agosto de 2006.
*
Elson Farias é escritor, com dezenas livros
publicados, compreendendo a poesia, o romance, a literatura infanto-juvenil,
e o ensaio. Estreou em 1961, com "Barro Verde". É
presidente da Academia Amazonense de Letras.
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