Encontro-me só, diante de uma calçada imunda, carregada de detritos acumulados. Rente à guia, poças de água mostram um céu límpido, já esparramando o calor habitual de Manaus em pleno estio. Da chuva extemporânea de ontem, resta apenas paredes úmidas e alguns finos veios de água descendo para os fétidos ralos cercados de copos e garrafas plásticas. Dou uma olhada ao redor. Pelo lado esquerdo, um orelhão solitário como eu. Em frente, uma igreja evangélica, ainda em silencio à espera dos fiéis. Mais para baixo ou para cima, o cenário pouco muda. Com raras exceções, são casas pobres, de aparência rústica. Às minhas costas, distingo várias mesas como eu, porém, estão desarmadas e encostadas sobre um balcão esmaecido e carcomido pelo tempo inclemente.
Minha divagação, é subitamente interrompida, pois um jovem de aparência lúgubre, puxa uma cadeira, senta-se, e deposita seus cotovelos sobre minha base toda cheia de pó, acrescida de fuligem provocada pelo óleo diesel espalhados pelos pesados ônibus e caminhões.
O moço parece inquieto, uma vez que seus pés chutam os meus, sem a menor cerimônia. Logo chega uma garrafa de cerveja que ele abre abruptamente, derramando uma boa quantidade de espuma que chega a cair pelas minhas beiradas, mas que ao menos permite que eu me refresque um pouco do calor que gradativamente aumenta. Aos poucos, alguns amigos se aproximam e lhe fazem companhia e a espuma vai se acumulando sobre a minha base, agora quase toda molhada. Nenhum deles pensa em enxugar a asquerosa lama que começa a se formar e descer pelas minhas pernas. Um cruzamento de pés, que, sem piedade, chutam-me incomplacentemente.
Fico atenta ao bate-papo. Falam sobre futebol, samba, pagode e outras coisas sem consistência. Às vezes, dão uma pausa na conversa para ver uma ou outra garota de minissaia que transita pela rua, para em seguida comentarem maliciosamente as virtudes ou defeitos da moça que acaba de passar. Com o decorrer das horas, os amigos vão se afastando e o fedor do resto da cerveja que acabaram de ingerir, começa a me provocar náuseas.
Em breve tempo, o rapaz de aparência triste volta a ficar só. Percebo que existe algo dentro de si que o deixa inquieto e pensativo. Ele pede uma nova cerveja para o jovem garçom do bar. As outras mesas, antes desarmadas, estão agora repletas de pessoas falando alto, com camisas abertas e coloridas, peito de fora, e entoando aqui e ali, um samba ou um forró. Meu companheiro diz alguma coisa inaudível ao rapaz, mas quando chega a cerveja, tudo se define. O garçom começa a limpar-me com um pano pouco higiênico, mas que, com certeza, me deixa mais aliviada. Ele traz também, um papel branco e uma caneta. Nesse momento, na parte de baixo da rua, novas caixas de som são abertas causando um barulho ensurdecedor. Alheio a tudo, meu fiel e agora solitário escudeiro começa a rascunhar algo que a minha curiosidade não resiste. É sem dúvida, uma poesia. Ora, quer dizer que eu tenho a honra de ter a companhia de um poeta? ouvi dizer que a classe dos bardos encontra-se em extinção. Se for verdade, temos de conservar o pouco que ainda nos resta.
Nesse momento, o importante é seguir os movimentos do meu poeta. Ele pensa, rascunha, risca, pensa, rascunha, e uma frase está concluída. Sua caneta corre celeremente. Sua mão esquerda segura sua cabeça entre suas têmporas. Às vezes dá uma parada como se estivesse acumulando dados em sua memória. Em seguida jorra palavras sobre o papel níveo e incrédulo, numa fusão de idéias e enleios. É o momento da criação! Nesse instante crucial, ele não se importa para a dimensão do barulho. Ele está no auge da concentração e sua verve poética o leva a “viajar” pelo mundo dos sonhos. Agora ele procura a chave de ouro para coroar seu soneto. Mais uns poucos rabiscos e surge em seus lábios o sorriso final.
Satisfeito, paga sua conta, dá um tchau para uns amigos e vai feliz para casa. Lá, ele passará a limpo tudo o que escreveu em cima da minha base. Não sei quem está mais feliz, se ele ou eu. Sinto-me orgulhosa de ter indiretamente participado de seu poema. Tenho consciência que em nenhum momento ele pensou em mim, mas eu estava lá, firme, junto dele e torcendo para que aquele poema saísse do jeito que ele tanto almejava. Não sei qual é o teor dos versos que acabam de surgir, mas a indefinição sobre o seu destino é que mantém acesa a ansiedade, não só a minha, como também a do poeta, pois, tanto ele pode dar fim ao poema, jogando-o no primeiro cesto de lixo, como também poderá torná-lo imortal como tantos outros criados sobre uma mesa igual a mim, entre um e outro copo de cerveja.
Ouvi dizer que o mundo deveria ser governado por um poeta. Com certeza haveria mais paz e amor e o canto seria proclamado entre os povos, e a amizade seria a tônica para o início de qualquer negociação. Como tudo induz à utopia, atenho-me ao consolo de ter participado de algumas linhas poéticas que provavelmente falarão sobre um romance entre duas pessoas, o que já é o começo de uma felicidade ou de um desgosto qualquer.
Benayas Inácio Pereira *
Escritor,
poeta e revisor de textos no jornal o "Estado do Amazonas".