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Jaime Pinsky*
O
ELOGIO DA IGNORÂNCIA
Basta
observar o olhar perdido de adultos sem ter o que fazer durante
horas, em vôos internacionais, ou, pior ainda, vendo filminhos
para adolescentes no vídeo do avião, para ter certeza
de que ler um livro é a melhor escolha para esses momentos.
O passageiro desocupado é um chato: ri alto, chama a comissária
de bordo a cada momento, toma mais bebida do que seria desejável,
ou ronca alto, enquanto o leitor de livros atravessa a desagradável
viagem placidamente, correndo incólume o risco alheio,
podendo imaginar, a partir do seu universo de referências,
o rosto e o jeito de cada personagem, e não sendo obrigado
a engolir os atores que o diretor do filme escolheu para representá-las.
O chato, na verdade é o “sem-livro”. Mesmo
assim, é freqüente tratar leitores como pessoas sem
graça. Uma amiga conta que, durante sua adolescência
adorava ir ao sítio de um tio, no Interior de São
Paulo, e ler, calmamente, seu livrinho, enquanto a brisa movia
silenciosamente a rede em que se refestelava e os pássaros
faziam um coral único. Seus familiares, contudo, não
se conformavam com a “chata” que preferia ler e jogar
buraco e diziam que ela não gostava mesmo de “ser
divertir”, como se diversão fosse colocar o dez perto
do valete e sonhar para que uma dama aparecesse, e não
a leitura do seu livro, que a transportava para mundos maravilhosos.
Coma a música, o mesmo. Há até propagandas
de televisão e rádio que “demonstram”
a supremacia de sons bregas sobre a música clássica.
Incapazes de se sentar para ouvir uma sinfonia inteira, ou mesmo
o primeiro movimento de uma sonata, os ignorantes transformam
o vício em virtude e atribuem ao volume produzido por super
woofers a qualidade sonora que a melodia não tem. Sejamos
claros: o aparelhamento de som é apenas o meio, a mídia,
utilizada pela música para se, manifestar. Imbecis sonorizados
rodando com altos decibéis serão somente imbecis
rodando com altos decibéis, nunca gente com bom gosto musical.
E antes que eu me esqueça, música se discute, sim,
pois gosto e ouvido podem ser educados. Quase sempre, pois sempre
há uns casos perdidos. Por isso, o idiota que diz não
gostar de música clássica, como um todo (sem nunca
tê-la ouvido adequadamente), deve ser tratado como um idiota,
e não como uma pessoa que manifesta um gosto.
Num momento em que se luta para que diferentes parcelas da população
tenham acesso à universidade, em que as pessoas estão
empenhadas em fazer pós-graduação, mestrado,
cursos livres de cultura geral, em que todos reivindicam o direito
de conhecer parcelas importantes do patrimônio cultural
da humanidade, fazer o elogio da ignorância é um
contra-senso. Contra-senso, por sinal, que só pode partir
de dois tipos de pessoas: ou alguém da elite, que, por
medo de concorrência, não quer que o contingente
de pessoas cultas no país aumente; ou alguém que
teve a possibilidade de adquirir um bom cabedal de cultura, mas,
por preguiça ou desleixo, não o fez. Nenhum deles
é bom conselheiro: não se pede para o rato opinar
sobre as qualidades da ratoeira.
Respeitar o saber o povo significa dar oportunidade para que ele
tenha acesso ao patrimônio cultural já estabelecido.
Respeitar o povo é permitir que ele conheça Machado
de Assis e Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque e Florestan Fernandes,
Glauber Rocha e Nelson Rodrigues. Entender o mundo, ao contrário
do que muitos pensam, não se resume a assistir folhetins
óbvios repetidos há décadas, ou programas
apresentando supostas situações reais com personagens
supostamente interessantes, merecidamente enjauladas, tudo entremeado
com mensagens comerciais (falo, evidentemente de novelas e reality
shows apresentados pelas emissoras de TV e assistidos bovinamente
por telespectadores acríticos).
De resto, tenho uma profunda desconfiança não do
saber autêntico desenvolvido através dos séculos
por brasileiros do Norte ao Sul, mas de certa “cultura”,
orquestrada por programadores musicais cevados por jacabulês
fornecidos pelas grandes gravadoras, por sinal, multinacionais.
E confundir a cultura do jacabulê com cultura popular, ou
é burrice incurável, ou má fé evidente.
Colocar a cultura, chamemos assim, erudita, à disposição
do povo, não quer dizer impô-la, evidentemente, mas
permitir o contato entre eles. Livre escolha. Elitista mesmo é
não permitir esse acesso e, em nome de um populismo pseudo-respeitoso,
abandonar a população à breguice rançosa
que grassa nos meios de comunicação de massa.
O elogio da ignorância, que desqualifica a leitura, a música
de qualidade, a cultura artística e humanista, tenta se
apresentar como atitude democrática, mas não o é.
Trata-se der uma face disfarçada do preconceito e da discriminação.
Não há porque engolir isso. Venha de quem vier.
*Jaime Pinsky, historiador, diretor da Editora Contexto, professor
titular aposentado da Unicamp, autor de Cidadania e Educação
e O Brasil tem futuro?, entre outros - Este
artigo foi publicado na edição 18 da revista Panorama
Editorial da CBL (Câmara Brasileira do Livro).
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