:: ARTIGOS E CRÔNICAS
 

Por: Antônio Joaquim Severino*

MAIS UM OBSTÁCULO À CULTURA DO LIVRO...

Certamente Gutenberg, ao inventar a impressão mecânica no papel não teria imaginado toda a grande revolução que a escrita tipográfica iria produzir na história da cultura humana. A possibilidade da escrita impressa, através dos cada vez mais sofisticados recursos técnicos, pôs termo à hegemonia da oralidade na conservação e disseminação da tradição entre as gerações dos homens, ao longo da história dos últimos milênios. A escrita, em geral, sob todas as suas modalidades, representou e continua representando, por isso, um passo significativo de humanidade na superação das condições de barbárie e no avanço da civilização. E, nesse contexto geral do universo da escrita impressa, o livro e suas variações específicas têm um lugar privilegiado e desempenham um papel de destaque, exatamente pela sua capacidade de organizar o pensamento, de forma sistemática, com significativo potencial de conservação e fecundação das experiências, matéria-prima para a reflexão analítica e crítica que permite o avanço do próprio pensamento humano. Não é sem razão que o livro vai ocupar um lugar fundamental nos processos educativos, uma vez que a educação é a mediação mais eficaz de que a humanidade se serve para fazer com que as novas gerações se integrem aos universos do trabalho, da vida social e da cultura simbólica dos grupos sociais.
Mas este valioso instrumento vem tendo seu uso comprometido pela displicência de alguns e pela esperteza de outros. Muitos estratagemas são utilizados, sob as mais diversas racionalizações, para se tirar proveito indevido das vantagens que se agregam à produção e ao consumo do livro. É que para poder desempenhar o seu legítimo papel, o livro envolve um complexo investimento na sua produção e na sua disseminação, no que concerne tanto aos insumos materiais como aos recursos culturais. Desde os elementos materiais necessários para sua produção até a criação espiritual dos autores, a obra editada e publicada incorpora muitos outros elementos físicos e espirituais, com destaque para o valor do trabalho humano que se agrega. Por isso mesmo, o respeito a esse valor agregado é exigência básica para todos no consumo do livro, se quisermos construir um convívio civilizado e civilizador.
É de se observar que, no atual contexto sóciocultural brasileiro, a saga do livro tem sido marcada por várias derrotas, impondo o enfrentamento de muitos obstáculos e contradições. Um primeiro inimigo é, sem dúvida, a reprografia desvairada, mal que avassala a vida acadêmica e escolar em todo o território nacional. Em defesa do xerox, usa-se o argumento do custo muito elevado no balcão da livraria. Embora a constatação seja verdadeira, esse não é o motivo que leva a maioria dos usuários dos textos escritos a optar pela cópia reprográfica. Em muitos casos, é mesmo a falta de valorização do livro, racionando o usuário de que este não é um bem que merece investimento financeiro. Sem dúvida, a precariedade de nossas políticas econômicas, a miopia de responsáveis pelos projetos culturais de competência do poder público e a insensibilidade de alguns empresários do ramo dão sustentação a esse argumento, aguçando essa condição do mercado editorial. Mas a luta contra o alto custo do livro não pode ser conduzida pelo descarte de seu uso, pois ele é uma mediação imprescindível para a instauração de uma cultura de qualidade de alcance universalizado no conjunto da sociedade.
Nas últimas décadas, profetas de plantão anunciaram o fim do livro graças à entrada em cena da poderosa e sofisticada ferramenta da informática. Ele estaria com seus dias contados, superado que seria pelos recursos dos meios digitais...Mas este é um raciocínio para lá de equivocado, na verdade uma racionalização que vem servindo de desculpa para a preguiça ou outros vícios análogos, maiores ou menores. Que o digam tantos universitários em sua euforia internética ao fazer suas “pesquisas acadêmicas e cientificas...”. Felizmente, os efeitos deletérios da informática sobre a mídia impressa parecem não comprovar as profecias do fim do livro.
Mas cabe ainda destacar, particularmente, uma outra atividade relacionada ao mundo cultural e acadêmico que talvez seja a mais nova estratégia de se explorar, egoisticamente, os resultados do uso do livro. Trata-se da nova modalidade de produção de material didático-pedagógico que vem sendo realizada por entidades de diversas naturezas, em substituição às atividades das casas editoriais. Este fenômeno novo tem duas faces. De um lado, grupos empresariais que administram redes estaduais ou nacionais de escolas, de todos os níveis de ensino, imprimem todo seu material didático-pedagógico, distribuindo-o com total exclusividade a todos os seus alunos; outras vezes, são entidades prestadoras de serviços de consultoria e de assessoria pedagógicas que vinculam, contratualmente, o uso de seu material à prestação de seu serviço, incluindo-o num pacote. De outro lado, entidades outras, como ONGs, que o mais das vezes são até mesmo sem fins lucrativos, também partiram para a produção de seu material didático e cultural, a ser utilizado pelos destinatários de suas ações. São ações de muito valor quanto a seu mérito, indiscutíveis sob esse ponto de vista.
Em ambas modalidades, certamente muitos leitores perguntarão: e daí, não teriam esses empreendedores culturais o direito de produzir e comercializar o seu material pedagógico? A resposta seria integralmente positiva se não fosse um porém fundamental: muito desse material não é “criado”, mas pura e simplesmente, extraído de obras publicadas pelas editoras, sem a menor cerimônia, de modo que eles ficam naquela situação de “se fazer bonito com o chapéu alheio”. Da mesma forma, como no caso da reprografia institucionalizada, editoras e autores se vêem profundamente atingidos em seus direitos editoriais e autorais.
Mas no que diz respeito às entidades assistenciais, não seria mesmo o caso de liberar essa prática? Seria, se não fosse o fato de que elas, no mais das vezes, desenvolvem seus projetos com recursos públicos ou fundacionais, recursos que lhe são passados levando-se em consideração orçamentos apresentados onde ficam previstos todos os gastos, menos aqueles que se referem aos textos que serão eventualmente utilizados. Algumas entidades ainda têm a sensibilidade de pedir autorização para fazer a extrações, outras nem isso...
Em todas essas situações, o que parece estar faltando é o compromisso de uma postura de solidariedade no compartilhamento dos bônus e ônus das atividades, imprescindível para que a sociedade brasileira possa levar avante, com maior sucesso, um projeto civilizatório. Há que se reconhecer o justo e legítimo lugar de todos os agentes, de tal modo que o sistema possa ser eficaz em seu conjunto, caminho necessário para mais avanços e conquistas sobre a barbárie.

*Antônio Joaquim Severino, Professor Titular de Filosofia da Educação, da USP, autor, entre outras obras, de Metodologia do trabalho científico; Educação: conhecimento, ética e política; Métodos de estudo para o 2o grau; e Filosofia, da Cortez Editora.